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Gato Manso de Mário Faustino

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GATO MANSO

É repousante achar-se entre mulheres bonitas.
Por que sempre mentir sobre tais coisas?
Repito:
É repousante palestrar com mulheres bonitas
Ainda que se fale apenas contrasensos;

O ronronar das antenas invisíveis
É ao mesmo tempo estimulante e delicioso.

(Ezra Pound- tradução: Mário Faustino)

LOUVAÇÃO AO NONAGENÁRIO LÚCIDO

 

Com extraordinária lucidez e  intensa atividade intelectual, M. Paulo Nunes acaba de ingressar no seleto clube dos nonagenários lúcidos e produtivos.  Nem um câncer de próstata foi capaz de derrotá-lo. Paulo continua apreciando boa literatura, vinho encorpado, café forte e mulheres bonitas, indiscutível prova de sabedoria. Não perdeu a capacidade de indignar-se com as injustiças do mundo, mas acredita no diálogo como meio mais eficaz de resolver conflitos.
     
Vez que outra,  mestre Paulo afirma não saber exatamente por que voltou para  Teresina após aposentar-se em Brasília. Os piauienses sabemos: voltou para,com sua inteligência e capacidade de trabalho, animar   a cena cultural piauiense. Durante sua curtíssima gestão à frente da Secretaria de Cultura do Piauí, no final do governo de Lucídio Portela (82/83), deixou sua marca como administrador competente. Entre outras realizações, editou dois números da Revista Presença e, em parceria com a Livraria Corisco, publicou dois grandes poetas piauienses: Da Costa e Silva   (Antologia Poética)e Clóvis Moura (Argila da Memória). Por oportuno, vale ressaltar que foi a primeira vez que o mais festejado poeta piauiense foi editado entre nós.  
      
Ao longo desses anos, Paulo Nunes escreveu um punhado de livros, dirigiu a Academia Piauiense de Letras  e reestruturou o Conselho Estadual de  Cultura do Piauí, que ainda preside, dotando-o de  uma bela sede: o Centro Cultura da Vermelha,que leva o seu nome.

Seria exaustivo enumerar aqui a contribuição de M. Paulo Nunes  para a cultura piauiense. Trata-se de uma vida inteira dedicada  à literatura e à educação. Em recente obra publicada pela EDUFPI – Em busca da geração perdida  -  a professora Vanessa Negreiros afirma: “Para começar, toma-se como aspecto diferencial das atuações do escritor  o seu espírito de liderança. Manoel Paulo Nunes esteve na linha de frente de praticamente tudo de que participou. Essa característica somada ao que o próprio escritor considera suas duas paixões, a literatura e a educação, fizeram com que, desde muito jovem,Manoel Paulo Nunes se tornasse figura de destaque nos meios socioculturais  não somente da capital piauiense,mas também de outras cidades e estados do país”.

Como membro do Conselho Estadual de Cultura, tenho a honra de conviver com o mestre Paulo com quem aprendo diariamente. Sem rodeios, posso testificar: Manoel Paulo Nunes é um paradigma de servidor  público e um cidadão que dignifica a palavra amizade.
    

 

ONDE CAIR MORTO

Por amor à verdade, confesso que sou um fazedor. Desde que me entendo por gente, tenho a irrefreável compulsão de fazer. Sofro daquela inquietação de espírito de que fala o poeta Bandeira. Com incômoda frequência, o que faço pouco ou nada me rende a não ser algum aborrecimento adicional. Ainda assim, continuo fazendo.

Vai que, um dia, convidei o fotógrafo Assaí Campelo e o cinegrafista Pedro Malasarte para um passeio na velha e decadente Paissandu. Pensei na possibilidade de fazermos um documentário sobre aquele espaço onde, até meados da década de 1970, a noite não envelhecia. Levamos dona Maria Tijubina, uma das figuras mais queridas da capital. Tijubina era alegre, espirituosa, honesta. Começou declarando, “Fui mulher da vida por muitos anos. Um dia, resolvi adotar uma criança, uma menina. Aí fechei as pernas e abri um restaurante de que vivo até hoje”. Com a troca de profissão, ganhou a cidade: o assado de panela da Tijubina era um convite a pecar. Final de noite, era comum encontrar gente de todos os estratos sociais no pequeno restaurante que mantinha ali perto dos trilhos, no Mafuá.

Fazia uma tarde de chumbo, dessas que transformam Teresina num lugar insuportável. Depois de zanzarmos por casas velhas decadentes, paramos numa birosca suja para tomar um refrigerante. O Pedro Malasarte era hipocondríaco: estava sempre com uma enfermidade nova a exigir cuidados especiais. Morria de medo de morrer. Lá pelas tantas, perdi a paciência: Pedro, pode morrer sossegado: eu mesmo me encarrego  de dar a boa notícia aos teus parentes. A morte, que não fora convidada, entrou na conversa  e não se falou mais de outra coisa. O certo é que,em dado momento, afirmei: não tenho comércio com a morte e,uma vez morto, podem me jogar em qualquer lugar.

Dona Maria que,até então mantivera-se calada, não se conteve: “Isso é que não. Um homem da importância do senhor não pode morrer e ser jogado por aí como um cachorro sem dono. Assumo  aqui mesmo um compromisso com o senhor: eu tenho um jazigo no Cemitério São José num lugar muito bom. Meu jazigo tem três gavetas. Uma é minha; a outra, de minha filha e a terceira,a partir de hoje,fica sendo do senhor.Pode usar quando chegar a sua hora”.

Confesso que a vida tem sido extremamente generosa comigo: nunca me obrigou a carregar fardo maior que as minhas forças. Não bastasse isso, sempre tive um pouco mais do que preciso. Tenho recebido dos amigos claras demonstrações de carinho. Mas não me lembro de nada que se compare ao gesto de dona Maria Tijubina. Voltei para casa com aquela sensação gratificante de que, a partir daquela tarde escaldante, eu poderia descansar em paz: pela primeira vez na vida, eu tinha efetivamente onde cair morto. A Tijubina já ocupa a gaveta que lhe pertence; não sei por onde anda sua filha querida. Quanto a mim, ainda meio vivo, vez que outra, visito o jazigo onde um dia descansarei em paz. Deus lhe pague, dona Maria.

PORTAL DA CIDADE

Portal da cidade, a Praça Saraiva era o desaguadouro natural dos que chegavam a Teresina na década de 1960. Paus-de-arara, mistos, jardineiras despejavam passageiros empoeirados e sonolentos no meio da praça, enquanto os chapeados disputavam, no grito, a bagagem dos que tinham algo a transportar. Mocinhas ágeis e prestativas se prontificavam a levar o “chegante” à “pensão mais em conta”, nunca esquecendo de  garantir ser  o estabelecimento  “um ambiente totalmente familiar”. Quem vinha a negócio fretava carros de aluguel (jipe, rural-willys),mais pose que necessidade, já que as distâncias a percorrer eram pequenas.Os que necessitavam de cuidados médicos, quase sempre muito pobres, armavam redes sujas nos galhos das árvores em busca do refrigério da sombra. Os que vinham tentar a sorte – náufragos e deserdados – limitavam-se a zanzar a esmo como moscas tontas.

A praça era uma imensa feira livre onde se vendia quase tudo: de animais vivos a óleo de puraquê, “a farmácia que o freguês carrega no bolso”, garantiam os camelôs.  Sem maior esforço, podiam-se encontrar ali especialistas nas mais diversas atividades: borracheiro, barbeiro, soldador, amolador de tesoura, cozinheiro, raizeiro, vidente e benzedor, sem contar a legião de marreteiros e descuidistas, prontos a engrupir os desavisados. Pedintes de todas as idades esparramavam-se no chão, recitando desgraças “de cortar coração”.

Numa manhã esplendente (2 maio de 1965),despejaram-me na Praça Saraiva. A poeira da estrada embaçava-me a visão e o medo latejava em cada milímetro do corpo. Por intuição, percebi o que me esperava: fome, indiferença, solidão. Uma cigana decrépita, cheirando a sarro de cachimbo, prontificou-se a ler-me a mão, mas uma das “agenciadoras de hóspedes” foi mais rápida e me arrastou para a Pensão Nova, na Paissandu. O cartão de visitas da pensãozinha era um inconfundível cheiro de urina que se fazia anunciar na calçada. Na portaria, um negro velho, com ar de mãe preta, fazia as honras da casa. Foi direto e conciso: “O pernoite, com direito a café da manhã, custa dois cruzeiros. Pagamento adiantado”. De posse do dinheiro, desmanchou-se em mesuras: “Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Eu sou que nem téu-téu: não durmo nunca!” e piscou, malicioso...

À noite, enfurnado num quartinho escuro e quente, sob o fogo cerrado das muriçocas, eu nem suspeitava que aquela ruazinha de aspecto sórdido fosse o caminho mais curto entre o Clube dos Diários e o prazer. Estrela, Fascinação, Amambay... Proxenetas, cafetinas, prostitutas, tangos, rumbas, boleros, perfume barato, bebida “batizada”, estrias camufladas, boêmios, bêbados, pedintes. A dois quarteirões da pensãozinha ordinária, diluíam-se todas as fronteiras. A Paissandu era o único espaço democrático da cidade: bem-nascidos e bundas-sujas dividiam, equitativamente, generosas rações de sífilis...

Aos poucos, a cidade mostrava suas múltiplas faces. Em meio às agruras, alguns encantos: o Parnaíba, o verde, as mulheres. Eu vinha de uma terra sem rios e sem lembranças de rios. Ver tanta água fluindo rumo ao desconhecido me pareceu um desperdício. O verde dos quintais me enchia os olhos: “um oásis sem deserto”. Quanto às mulheres... por elas, fiquei e não me arrependo. Com o tempo, a cidade foi-se adonando de mim, até me fazer esquecer que um dia morei em outro lugar. Teresina me basta.

(Crônica que abre o livro Teresina para amadores, no prelo)

 

O FASCÍNIO DOS IPÊS

 

A jovem chegou no horário apalavrado, armada com uma minúscula geringonça eletrônica, misto de celular, gravador, máquina fotográfica e – suspeito – detector de mentiras. Suave, quase tímida, não tinha ar de xereta, ainda assim armei-me da couraça que me protege e preparei-me para a sabatina. A moça queria saber da minha errática trajetória em Teresina. Já falei tantas vezes sobre o assunto que, às vezes, sinto a compulsão de inventar novidades para dar algum colorido a uma história cinzenta, sabida e consabida. Por recomendação do editor ou zelo profissional, a repórter sabia mais de mim do que eu. Lera tudo o que se publicou a meu respeito, inclusive as futricas veiculadas na internet. Por duas ou três vezes, corrigiu-me em relação a fatos e datas. Sem maiores sacrifícios, foi compondo o perfil que lhe interessava.

Já se disse – não sem razão – que uma entrevista, qualquer entrevista, é tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Explica-se: o entrevistado diz apenas o que, efetivamente, lhe interessa, ou seja, a “sua” verdade. Quintana, o inventor da simplicidade, recorria a um atalho poético para eximir-se de falar de si mesmo. “Toda confissão não transfigurada pela arte é indecente”, afirmava. Tinha razão. O certo é que a conversa fluiu e falamos de quase tudo. Literatura, jornalismo, educação e, principalmente, cultura.

No final da conversa, a repórter jogou o anzol: “Entre outras coisas, o senhor é coautor do Hino de Teresina. O senhor acredita que já entrou para a história?”. Confesso que por essa eu não esperava. “Entrar para a história”?  Lembrei-me da uma anedota que o poeta Dobal costumava contar. Segundo ele, logo após o suicídio de Vargas, um cidadão, partidário do caudilho, matou-se e, parafraseando o presidente, teria escrito num pedaço de papel: “Saio da vida para entrar na geografia”.  A moça gostou da anedota.

“Só mais uma pergunta”, insistiu. “Como o senhor explicaria sua paixão pelos ipês de Teresina?”. Essa é fácil: onde nasci, sertão do Caracol, não existiam ipês. É possível que, um dia, tenham existido, mas como se trata de madeira nobre, devem ter sido os primeiros a ser cortados. Depois, cortaram-se as aroeiras, os angicos, as umburanas... Respondi: entre as muitas surpresas com as quais Teresina me brindou, uma das mais belas continua sendo a florada dos ipês. Já no início de agosto, espicho os olhos pela vastidão da Chapada à caça dos pontos luminosos que embelezam a cidade. Não seria exagero afirmar que sei de cor onde está cada um dos ipês antigos da capital. Vou um pouco além: não me limito a apreciar, fotografar e disseminar as imagens dos ipês de Teresina. Já plantei pelo menos uma dúzia deles, quase todos brancos, os mais raros. Um dia, quando ninguém mais se lembrar de que morei nesta aldeia, os “meus” ipês darão testemunho da minha passagem por aqui. Não estarei na história, mas na poesia. Estarei bem.

    

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