Cidadeverde.com

Da fama que só atrapalha

Gosto de comprar laranjas. É uma atividade simples, banal, mas que exige certo cuidado. A laranja deve ser olhada, tocada, apalpada com delicadeza e, finalmente, escolhida. Trata-se de operação que demanda tempo e paciência. Pois estava eu, num supermercado de Teresina, escolhendo algumas laranjas quando me apareceu um cidadão de meia idade, um tanto amarrotado pelo uso, com um sorriso à Mona Lisa. Parou a dois passos de mim, alargou o sorriso e disparou: – Nem é preciso dizer que não está me reconhecendo! Esbocei um sorriso amarelo, acenei com a cabeça e voltei às laranjas. O moço, com a voz temperada pela ironia, afirmou: A primeira coisa que a fama corrói é a memória; depois, a dignidade... Contrafeito, tentei explicar-lhe que, professor há mais de trinta anos, eu não poderia, mesmo se desejasse, lembrar-me de todas as caras que vi e que, por força do ofício, tive de aturar. O camarada insistiu: Quando você ainda não era famoso, dividimos o mesmo grude na Casa do Estudante. Tive de segurar o freio de mão e contar até cem para não mandar aquele filho de Eva à pata que o pôs. Respirei fundo, oxigenei os dois neurônios que me restam e dissertei didaticamente.

Meu irmão, um de nós dois desconhece o significado da palavra fama. Para mim, num país capitalista como o nosso, fama é o que se converte em dinheiro. Pelé, por exemplo, há mais de 30 anos não chuta uma bola, a despeito disso, continua faturando como nunca. No mesmo tom, dá palpite sobre o que não sabe ou anuncia analgésico que, efetivamente, não toma. Quanto a mim, a “fama” que você me atribui, até o momento, não me trouxe qualquer benefício. O escritor João Antônio usava um neologismo muito adequado para designar o que ocorre comigo: “brilhareco”. O cidadão tentou tomar-me a palavra, mas não o permiti. Quem mexe com o diabo, na melhor das hipóteses, vai ter de aturar o cheiro do enxofre. Olhe aqui, meu chapa, sou apenas um velho professor, um professor falastrão, meio espaçoso, mas professor. Curiosamente, os incautos me atribuem poderes que nunca tive. Não tenho emprego público, não tenho aposentadoria polpuda, não tenho padrinho político e, principalmente, não tenho dinheiro. Tudo que tenho é a liberdade de dizer o que quero; em contrapartida, sou obrigado a ouvir o que não quero. Diariamente, sou procurado por pessoas que me pedem todo tipo de coisa: emprego, opinião sobre poemas ruins, prefácio de livro ordinário, carta de recomendação... Sabe o que resulta disso tudo? Inimizades gratuitas. Como não posso atendê-los, taxam-me de arrogante, grosso, vaidoso, insensível...

Visivelmente constrangido, aquele moço-velho bateu-me levemente no ombro e declarou comovido: Pois eu pensei que você fosse o cara. Rebati de bate-pronto: Sou não, meu mano. O cara é o Romário. Proseamos um pouco, falamos das agruras do passado e da insipidez do presente. Lembrei-me de que dividimos, sim, o mesmo grude, não na Casa do Estudante, mas na velha UPES, um pardieiro que acolhia náufragos de todas as procedências, em meados da década de 60.

Se alguém, porventura, estiver duvidando do que acabei de afirmar, estou disposto a trocar, com escritura lavrada em cartório, minha “fama” por uma dúzia de laranjas mel-rosa. Alguém aí se habilita?