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SAIDEIRA

Com incômoda frequência, perguntam-me:  “Qual é o  seu sonho de consumo?”. Engendrei uma resposta que, mesmo não dizendo nada, rende algumas risadas: continuar respirando sem ajuda de aparelhos e sem nada pagar pelo oxigênio consumido. A bem da verdade, como todo mundo, eu também tenho sonhos. Não sei se chegam a enquadrar-se na categoria de “sonhos de consumo”, expressão usada para designar as coisas tangíveis. O certo é que, por algum tempo, acalentei o sonho de voltar para o sertão do Caracol e reinventar  Campo Formoso, onde gosto de acreditar que fui feliz.

De cara, dois problemas: hoje,  Campo Formoso, ou melhor, o que sobrou do lugar, está encravado no município  de Jurema do Piauí, também conhecido como “Coreia”. Já expliquei em outra oportunidade: falta-me valentia para ser um autêntico “juremeiro”. Não bastasse isso, das coisas construídas na pequena gleba sobrou apenas o velho barreiro cavado por seu Liberato. O mais é capoeira infestada de carrapichos. Tem mais um complicador: as quatro pragas que nos  infernizam a vida  –   televisão, celular, moto e revólver – já chegaram por lá. Até em Anísio de Abreu, município sem histórico de violência, os crimes se multiplicam e aterrorizam os moradores.

Acovardado e sem saída, resolvi refugiar-me em meu  quintal onde uma nesga de verde e um punhado de passarinhos me propiciam a sensação de estar num país insituável, protegido de todo mal. É só uma ilusão,mas sem ela a vida ficaria insuportável.

No final da semana passada, fui ao Espaço da Cidadania para renovar os documentos do meu  carro. Enquanto esperava a minha vez de enfrentar o cipoal da burocracia, abri a última edição da revisa  Planeta.De repente, deparei-me com  a manchete: Liberland – este país tem futuro? Resolvi ler a matéria e acabei descobrindo que um visionário chamado Vit Judlicka resolveu criar  (isso mesmo) um país numa nesga de “terra de ninguém”,encravada entre a Sérvia e a Croácia. São apenas 7Km2 de terra sem qualquer benfeitoria. O país foi “fundado” no dia 15 de abril deste ano, data do aniversário de Thomas Jefferson. Recebeu o nome pomposo de República Livre de Libertand. As bases filosóficas da nova república me deixaram animado: “Viver e deixar viver”. Segundo o fundador do país, as interferências do Estado na vida dos cidadãos serão mínimas. Outra novidade positiva: a política não será uma profissão e sim um serviço. “Nazistas e comunistas não terão vez”.

Sem pensar duas vezes, decidi vender o que não tenho e mudar-me, de mala e cuia, para Liberland. O nome não me agrada, a bandeira – amarela com uma faixa negra – também não, mas  não se pode ter tudo. Quando me concederem o direito à cidadania, vou propor  a troca das cores do lábaro por azul e branco.

Irmãos e irmãzinhas, não me tomem por traidor, fugitivo ou vira-folha. Deus é testemunha do meu amor pela Terra Brasilis .Mas estou um tantinho cansado de viver num país governado por uma mulher sapiens  onde pastores espertalhões ditam regras de conduta como os profetas do Velho Testamento. Em tempo, vou adotar um nome mais consentâneo com o meu novo país: Senilovski  Vero.