Cidadeverde.com

O FASCÍNIO DOS IPÊS

 

A jovem chegou no horário apalavrado, armada com uma minúscula geringonça eletrônica, misto de celular, gravador, máquina fotográfica e – suspeito – detector de mentiras. Suave, quase tímida, não tinha ar de xereta, ainda assim armei-me da couraça que me protege e preparei-me para a sabatina. A moça queria saber da minha errática trajetória em Teresina. Já falei tantas vezes sobre o assunto que, às vezes, sinto a compulsão de inventar novidades para dar algum colorido a uma história cinzenta, sabida e consabida. Por recomendação do editor ou zelo profissional, a repórter sabia mais de mim do que eu. Lera tudo o que se publicou a meu respeito, inclusive as futricas veiculadas na internet. Por duas ou três vezes, corrigiu-me em relação a fatos e datas. Sem maiores sacrifícios, foi compondo o perfil que lhe interessava.

Já se disse – não sem razão – que uma entrevista, qualquer entrevista, é tão verdadeira quanto uma nota de três reais. Explica-se: o entrevistado diz apenas o que, efetivamente, lhe interessa, ou seja, a “sua” verdade. Quintana, o inventor da simplicidade, recorria a um atalho poético para eximir-se de falar de si mesmo. “Toda confissão não transfigurada pela arte é indecente”, afirmava. Tinha razão. O certo é que a conversa fluiu e falamos de quase tudo. Literatura, jornalismo, educação e, principalmente, cultura.

No final da conversa, a repórter jogou o anzol: “Entre outras coisas, o senhor é coautor do Hino de Teresina. O senhor acredita que já entrou para a história?”. Confesso que por essa eu não esperava. “Entrar para a história”?  Lembrei-me da uma anedota que o poeta Dobal costumava contar. Segundo ele, logo após o suicídio de Vargas, um cidadão, partidário do caudilho, matou-se e, parafraseando o presidente, teria escrito num pedaço de papel: “Saio da vida para entrar na geografia”.  A moça gostou da anedota.

“Só mais uma pergunta”, insistiu. “Como o senhor explicaria sua paixão pelos ipês de Teresina?”. Essa é fácil: onde nasci, sertão do Caracol, não existiam ipês. É possível que, um dia, tenham existido, mas como se trata de madeira nobre, devem ter sido os primeiros a ser cortados. Depois, cortaram-se as aroeiras, os angicos, as umburanas... Respondi: entre as muitas surpresas com as quais Teresina me brindou, uma das mais belas continua sendo a florada dos ipês. Já no início de agosto, espicho os olhos pela vastidão da Chapada à caça dos pontos luminosos que embelezam a cidade. Não seria exagero afirmar que sei de cor onde está cada um dos ipês antigos da capital. Vou um pouco além: não me limito a apreciar, fotografar e disseminar as imagens dos ipês de Teresina. Já plantei pelo menos uma dúzia deles, quase todos brancos, os mais raros. Um dia, quando ninguém mais se lembrar de que morei nesta aldeia, os “meus” ipês darão testemunho da minha passagem por aqui. Não estarei na história, mas na poesia. Estarei bem.