Cidadeverde.com

ONDE CAIR MORTO

Por amor à verdade, confesso que sou um fazedor. Desde que me entendo por gente, tenho a irrefreável compulsão de fazer. Sofro daquela inquietação de espírito de que fala o poeta Bandeira. Com incômoda frequência, o que faço pouco ou nada me rende a não ser algum aborrecimento adicional. Ainda assim, continuo fazendo.

Vai que, um dia, convidei o fotógrafo Assaí Campelo e o cinegrafista Pedro Malasarte para um passeio na velha e decadente Paissandu. Pensei na possibilidade de fazermos um documentário sobre aquele espaço onde, até meados da década de 1970, a noite não envelhecia. Levamos dona Maria Tijubina, uma das figuras mais queridas da capital. Tijubina era alegre, espirituosa, honesta. Começou declarando, “Fui mulher da vida por muitos anos. Um dia, resolvi adotar uma criança, uma menina. Aí fechei as pernas e abri um restaurante de que vivo até hoje”. Com a troca de profissão, ganhou a cidade: o assado de panela da Tijubina era um convite a pecar. Final de noite, era comum encontrar gente de todos os estratos sociais no pequeno restaurante que mantinha ali perto dos trilhos, no Mafuá.

Fazia uma tarde de chumbo, dessas que transformam Teresina num lugar insuportável. Depois de zanzarmos por casas velhas decadentes, paramos numa birosca suja para tomar um refrigerante. O Pedro Malasarte era hipocondríaco: estava sempre com uma enfermidade nova a exigir cuidados especiais. Morria de medo de morrer. Lá pelas tantas, perdi a paciência: Pedro, pode morrer sossegado: eu mesmo me encarrego  de dar a boa notícia aos teus parentes. A morte, que não fora convidada, entrou na conversa  e não se falou mais de outra coisa. O certo é que,em dado momento, afirmei: não tenho comércio com a morte e,uma vez morto, podem me jogar em qualquer lugar.

Dona Maria que,até então mantivera-se calada, não se conteve: “Isso é que não. Um homem da importância do senhor não pode morrer e ser jogado por aí como um cachorro sem dono. Assumo  aqui mesmo um compromisso com o senhor: eu tenho um jazigo no Cemitério São José num lugar muito bom. Meu jazigo tem três gavetas. Uma é minha; a outra, de minha filha e a terceira,a partir de hoje,fica sendo do senhor.Pode usar quando chegar a sua hora”.

Confesso que a vida tem sido extremamente generosa comigo: nunca me obrigou a carregar fardo maior que as minhas forças. Não bastasse isso, sempre tive um pouco mais do que preciso. Tenho recebido dos amigos claras demonstrações de carinho. Mas não me lembro de nada que se compare ao gesto de dona Maria Tijubina. Voltei para casa com aquela sensação gratificante de que, a partir daquela tarde escaldante, eu poderia descansar em paz: pela primeira vez na vida, eu tinha efetivamente onde cair morto. A Tijubina já ocupa a gaveta que lhe pertence; não sei por onde anda sua filha querida. Quanto a mim, ainda meio vivo, vez que outra, visito o jazigo onde um dia descansarei em paz. Deus lhe pague, dona Maria.