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RACISMO NUM PAÍS FURTA-COR

Li, já não me lembro onde, a história de um incidente envolvendo o escritor Joel Rufino e um alto oficial do Exército brasileiro. Joel, que é negro, assistia a um jogo do Flamengo, nas cadeiras especiais do Maracanã. À época, o  mengão tinha dois jogadores com o mesmo nome: Paulo César, Um,negro, espaçoso,elegante,com roupas de grifes   famosas e cabelos pintados de acaju, o que lhe rendeu o apelido de “Paulo César Caju”. O outro, branco, discreto, elegante, excelente jogador, atendia pelo nome de Paulo César Carpegiani. Os dois eram as estrelas do time. Na cadeira à frente do escritor,  sentou-se um cidadão de meia idade, com aquele ar de “não-cheguei-até-aqui-por-acaso”. Todas as vezes que  Paulo César, o  negro, errava uma jogada, o moço levantava-se da cadeira e berrava: “Negro burro, cretino” e outras delicadezas impublicáveis. De repente, Carpegiani  fez uma jogava bisonha, e Joel Rufino  levantou-se e gritou: “Branco burro,cretino”. Não deu outra, o cidadão voltou-se e berrou: “Isto é uma provocação inaceitável, uma afronta. Fique o senhor sabendo que sou oficial do glorioso Exército brasileiro onde não existem discriminação nem  racismo”. Sem baixar a crista, Joel retrucou: “Diga aí o nome de dois generais negros do seu glorioso exército”. O tempo fechou. Não sei exatamente como  terminou a querela.

Muito tempo depois, em Teresina, fui entrevistar um cidadão negro, com pós-doutorado em Londres, professor da UFPI. Perguntei-lhe se já sofrera algum tipo de discriminação em Teresina. Ele sorriu e limitou-se a dizer: “Muitas, mas a pior delas é a que se traduz em forma de invisibilidade” e acrescentou: “Às vezes, estou sozinho na sala dos professores, entram  colegas e não me cumprimento pelo simples fato de não me notarem. Aos olhos deles,sou invisível”.

Bem, contei essas duas histórias para tentar entender a onda de racismo e intolerância que vem emporcalhando as redes sociais nos últimos dias. A vítima é a jornalista Maria Júlia Coutinho, também conhecida como Maju. Muita gente, como eu, se pergunta: por que a moça foi escolhida  para  receber a saraivada de insultos? Maria Júlia conseguiu a rara proeza de dar visibilidade a um dos momentos mais insossos do JN: a previsão do tempo. A cidadã é negra, bonita, elegante, articulada e fala com desenvoltura. Trata-se, portanto, de uma negra visível, o que é insuportável num país onde os negros, para serem aceitos, precisam saber “o seu lugar”. Maju, com sua “elegância acintosa”, tornou-se alvo da intolerância que grassa no país desde sempre.

Serenados os ânimos, ninguém será punido. No Brasil, país mestiço, o racismo é crime inafiançável e imprescritível. Não há, até onde sei,  nenhum condenado por racismo. Quando muito, há condenados por injúria ou difamação, cujas penas são quase uma piada.  Mas que se esclareça de uma vez por todas: as redes sociais não inventaram nem o racismo nem o preconceito entre nós.  Parafraseando Umberto Eco, servem apenas para dar voz aos  idiotas racistas da aldeia. Nada alem.



    

 

SAIDEIRA

Com incômoda frequência, perguntam-me:  “Qual é o  seu sonho de consumo?”. Engendrei uma resposta que, mesmo não dizendo nada, rende algumas risadas: continuar respirando sem ajuda de aparelhos e sem nada pagar pelo oxigênio consumido. A bem da verdade, como todo mundo, eu também tenho sonhos. Não sei se chegam a enquadrar-se na categoria de “sonhos de consumo”, expressão usada para designar as coisas tangíveis. O certo é que, por algum tempo, acalentei o sonho de voltar para o sertão do Caracol e reinventar  Campo Formoso, onde gosto de acreditar que fui feliz.

De cara, dois problemas: hoje,  Campo Formoso, ou melhor, o que sobrou do lugar, está encravado no município  de Jurema do Piauí, também conhecido como “Coreia”. Já expliquei em outra oportunidade: falta-me valentia para ser um autêntico “juremeiro”. Não bastasse isso, das coisas construídas na pequena gleba sobrou apenas o velho barreiro cavado por seu Liberato. O mais é capoeira infestada de carrapichos. Tem mais um complicador: as quatro pragas que nos  infernizam a vida  –   televisão, celular, moto e revólver – já chegaram por lá. Até em Anísio de Abreu, município sem histórico de violência, os crimes se multiplicam e aterrorizam os moradores.

Acovardado e sem saída, resolvi refugiar-me em meu  quintal onde uma nesga de verde e um punhado de passarinhos me propiciam a sensação de estar num país insituável, protegido de todo mal. É só uma ilusão,mas sem ela a vida ficaria insuportável.

No final da semana passada, fui ao Espaço da Cidadania para renovar os documentos do meu  carro. Enquanto esperava a minha vez de enfrentar o cipoal da burocracia, abri a última edição da revisa  Planeta.De repente, deparei-me com  a manchete: Liberland – este país tem futuro? Resolvi ler a matéria e acabei descobrindo que um visionário chamado Vit Judlicka resolveu criar  (isso mesmo) um país numa nesga de “terra de ninguém”,encravada entre a Sérvia e a Croácia. São apenas 7Km2 de terra sem qualquer benfeitoria. O país foi “fundado” no dia 15 de abril deste ano, data do aniversário de Thomas Jefferson. Recebeu o nome pomposo de República Livre de Libertand. As bases filosóficas da nova república me deixaram animado: “Viver e deixar viver”. Segundo o fundador do país, as interferências do Estado na vida dos cidadãos serão mínimas. Outra novidade positiva: a política não será uma profissão e sim um serviço. “Nazistas e comunistas não terão vez”.

Sem pensar duas vezes, decidi vender o que não tenho e mudar-me, de mala e cuia, para Liberland. O nome não me agrada, a bandeira – amarela com uma faixa negra – também não, mas  não se pode ter tudo. Quando me concederem o direito à cidadania, vou propor  a troca das cores do lábaro por azul e branco.

Irmãos e irmãzinhas, não me tomem por traidor, fugitivo ou vira-folha. Deus é testemunha do meu amor pela Terra Brasilis .Mas estou um tantinho cansado de viver num país governado por uma mulher sapiens  onde pastores espertalhões ditam regras de conduta como os profetas do Velho Testamento. Em tempo, vou adotar um nome mais consentâneo com o meu novo país: Senilovski  Vero.

 

            

POBRES MENINOS RICOS

O moleque ainda se encontra no “ventre das expectativas” e já é observado por olhos rapaces. São os “olheiros” profissionais, gente com faro para descobrir o que pode render bons dividendos. Como não dispõem de capital, trabalham para ex-jogadores de futebol, cartolas,  especuladores de todos os naipes. Perambulam pelos subúrbios à caça de garotos com alguma habilidade. Quando descobrem  algum, correm para entregá-lo a quem o contratou. A partir daí, o passe ( leia-se a posse) do futuro craque é fatiada entre os que se dispuserem a investir nele. Inicia-se, então, a trama para encontrar um grande clube disposto a contratá-lo. Assinado o primeiro contrato, cada um recebe o que lhe cabe e o garoto vai suar a camisa. Se, porventura, tiver talento e sorte, pode marcar ou defender um gol decisivo. Aí, como num passe de mágica, passa de “promessa” a “revelação”. Sai do anonimato para as páginas dos grandes jornais, com direito a elogios e afagos. No dia seguinte, aparecem o pai (até então, desconhecido), os parentes, os aderentes, os amigos de infância, e as indefectíveis marias-chuteiras. Esse caldo de cultura costuma ser letal. Adiante-se que o garoto-revelação, há bastante tempo, vem adubando seus sonhos de consumo: carrões, joias e louras... Assim, antes de reformar o barraco da mãe, passa a circular, sempre “bem” acompanhado, por lugares badalados.

Antes que um dos meus três leitores esbraveje, adianto: o que acabei de afirmar aqui é uma caricatura grotesca, mas com gotículas de verdade. A pergunta cabível é a seguinte: o que os grandes clubes de futebol estão fazendo para melhorar o nível intelectual dessa molecada pobre, semianalfabeta, que só possui alguma habilidade com os pés? As empresas da construção civil, por exemplo, já se deram conta de que operários instruídos acidentam-se menos e rendem muito mais. Estão investindo na alfabetização dos trabalhadores. Por que os clubes de futebol não fazem o mesmo?  Por que, durante o tempo que passam concentrados, os jogadores não recebem aulas de português, de inglês, de ética, de educação sexual, de cidadania? Certa feita, Rachel de Queirós afirmou: “Vida de craque não são rosas”. Tinha razão: jogador profissional passa 80% do tempo concentrado, treinando,viajando ou jogando. O tempinho livre que lhe sobra é dedicado à esbórnia, que ninguém é de ferro.  

Alguns, antes da maioridade, são “exportados” para os  milionários clubes europeus. No ato da transação, um desses moleques pode embolsar, de uma vez, o que um professor doutor não ganhará ao longo de toda a vida útil. O que fazer com tanto dinheiro e nenhuma informação? Comprar carrões, piercings de diamantes, correntes de ouro e louras, um harém de louras... Com raras exceções, o desempenho dessas estrelas, em campo, decresce na mesma proporção em que se lhes aumentam os salários.  Como conciliar uma carreira que exige disciplina espartana  com as tentações  do mundo? 

Quando “pisam na bola” ( e como pisam!), a mesma imprensa que os diviniza, sataniza-os sem a menor piedade. Num átimo, passam de heróis a vilões e acabam nas páginas policiais. Pensando bem, até por piedade, o país deveria importar-se um pouco mais com o destino desses pobres meninos ricos.

 

UMA HOMENAGEM MAIS DO QUE JUSTA

A última vez que conversei com a arqueóloga Niède Guidon, fiquei tão triste que mal pude me conter. Em minha mente, ficou a imagem de uma leoa ferida e cercada de hienas famintas. A velha professora estava triste, desencantada, amarga. Lá pelas tantas me disse: “Hoje me arrependo de ter largado tudo para  me entregar, de corpo e alma, a este projeto aqui”. Não era força de expressão: Niède Guidon investiu tudo num projeto que não é dela; é da humanidade inteira: a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, um dos mais belos do Brasil.

Venho acompanhando a  luta da arqueóloga que inseriu o Piauí no mapa-múndi e transformou  São Raimundo Nonato num referência mundial em termos de arqueologia. Antigamente, quando alguém falava do Piauí, o máximo que as pessoas sabiam é que se tratava do  “Estado mais pobre” da Federação. Hoje, invariavelmente, fazem perguntas sobre a Serra da Capivara.

Seria exaustivo enumerar aqui as brigas que Niède comprou, as agressões que sofreu, as lágrimas que verteu em defesa do Parque.  Ainda hoje acusam-na, levianamente, de “furtar peças valiosas para vender na França”. Para os políticos populistas, Niède é uma “estrangeira (sic) que persegue os pobres caçadores da caatinga”; para os  cretinos de plantão, a pesquisadora não passa de  uma “mercenária e chantagista”. Poucos falam da infraestrutura do Parque onde gente e bichos são tratados com o mesmo respeito. Quem já teve oportunidade de visitar a Serra da Capivara pode comprovar isso sem a necessidade de maiores explicações.

Mas Niède, além de pesquisadora, é alguém com  aguda visão prospectiva: sabe que,para tornar o Parque autossustentável, precisa da presença de turistas endinheirados, gente que já se cansou de praias, desertos e pirâmides.O problema é: como fazer essas pessoas chegarem a São Raimundo Nonato?  Ela tem a resposta na ponta da língua: com um aeroporto decente, com hotéis confortáveis, com saneamento básico, com  tratamento digno ao visitante.

Começou aí sua mais sofrida batalha. Há mais de vinte anos, vem falando,  explicando, brigando, cobrando a construção do aeroporto de São Raimundo Nonato.  Finalmente, a obra que vem se arrastando por entre o cipoal burocrático está prestes a ser inaugurada.

Por minha conta e risco, levei ao Conselho Estadual de Cultura a seguinte proposição: a obra, a ser inaugurada brevemente, deverá chamar-se Aeroporto Niède Guidon. A proposta foi prontamente aprovada por todos os conselheiros, e o presidente da CEC, prof. M. Paulo Nunes, está preparando expediente a ser encaminhado ao Governador do Estado com o parecer do Conselho.

Que ninguém venha alegar que a lei “proíbe esse tipo de procedimento”. Em todos os lugares do país, há exemplos de homenagens prestadas a políticos - muito vivos - de todos os matizes ideológicos. Niède Guidon, por tudo o que fez pelo Piauí, pelo Brasil e pela humanidade, é  merecedora da homenagem. Assim seja.
    

 

Da fama que só atrapalha

Gosto de comprar laranjas. É uma atividade simples, banal, mas que exige certo cuidado. A laranja deve ser olhada, tocada, apalpada com delicadeza e, finalmente, escolhida. Trata-se de operação que demanda tempo e paciência. Pois estava eu, num supermercado de Teresina, escolhendo algumas laranjas quando me apareceu um cidadão de meia idade, um tanto amarrotado pelo uso, com um sorriso à Mona Lisa. Parou a dois passos de mim, alargou o sorriso e disparou: – Nem é preciso dizer que não está me reconhecendo! Esbocei um sorriso amarelo, acenei com a cabeça e voltei às laranjas. O moço, com a voz temperada pela ironia, afirmou: A primeira coisa que a fama corrói é a memória; depois, a dignidade... Contrafeito, tentei explicar-lhe que, professor há mais de trinta anos, eu não poderia, mesmo se desejasse, lembrar-me de todas as caras que vi e que, por força do ofício, tive de aturar. O camarada insistiu: Quando você ainda não era famoso, dividimos o mesmo grude na Casa do Estudante. Tive de segurar o freio de mão e contar até cem para não mandar aquele filho de Eva à pata que o pôs. Respirei fundo, oxigenei os dois neurônios que me restam e dissertei didaticamente.

Meu irmão, um de nós dois desconhece o significado da palavra fama. Para mim, num país capitalista como o nosso, fama é o que se converte em dinheiro. Pelé, por exemplo, há mais de 30 anos não chuta uma bola, a despeito disso, continua faturando como nunca. No mesmo tom, dá palpite sobre o que não sabe ou anuncia analgésico que, efetivamente, não toma. Quanto a mim, a “fama” que você me atribui, até o momento, não me trouxe qualquer benefício. O escritor João Antônio usava um neologismo muito adequado para designar o que ocorre comigo: “brilhareco”. O cidadão tentou tomar-me a palavra, mas não o permiti. Quem mexe com o diabo, na melhor das hipóteses, vai ter de aturar o cheiro do enxofre. Olhe aqui, meu chapa, sou apenas um velho professor, um professor falastrão, meio espaçoso, mas professor. Curiosamente, os incautos me atribuem poderes que nunca tive. Não tenho emprego público, não tenho aposentadoria polpuda, não tenho padrinho político e, principalmente, não tenho dinheiro. Tudo que tenho é a liberdade de dizer o que quero; em contrapartida, sou obrigado a ouvir o que não quero. Diariamente, sou procurado por pessoas que me pedem todo tipo de coisa: emprego, opinião sobre poemas ruins, prefácio de livro ordinário, carta de recomendação... Sabe o que resulta disso tudo? Inimizades gratuitas. Como não posso atendê-los, taxam-me de arrogante, grosso, vaidoso, insensível...

Visivelmente constrangido, aquele moço-velho bateu-me levemente no ombro e declarou comovido: Pois eu pensei que você fosse o cara. Rebati de bate-pronto: Sou não, meu mano. O cara é o Romário. Proseamos um pouco, falamos das agruras do passado e da insipidez do presente. Lembrei-me de que dividimos, sim, o mesmo grude, não na Casa do Estudante, mas na velha UPES, um pardieiro que acolhia náufragos de todas as procedências, em meados da década de 60.

Se alguém, porventura, estiver duvidando do que acabei de afirmar, estou disposto a trocar, com escritura lavrada em cartório, minha “fama” por uma dúzia de laranjas mel-rosa. Alguém aí se habilita?

 

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