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BEIJA-FLOR: CONÚBIO PERIGOSO

 

Já se afirmou – com uma pontinha de maldade – que,  sem a participação dos bicheiros, o carnaval do Rio não teria o mesmo esplendor. Falta-me autoridade para contestar. O certo é que a relação existe desde que o samba é samba e já foi cantada em prosa e verso. “O que importa é a alegria do povo”, garante o diretor de uma escola famosa.

Este ano, a Beija-Flor de Nilópolis, famosa pela ousadia exibida nos enredos e alegorias, trouxe para a Marquês de Sapucaí um componente novo e polêmico, para não dizer imoral: o patrocínio de um ditador africano, Teodoro Obiang, que comanda a Guiné Equatorial, com mão de ferro, há 35 anos. Candidamente, o presidente da Beija-Flor, Farid Abraão, explica a escabrosa transação:  "A gente pegou um enredo para falar de um país africano, um país que até então muita gente não conhecia. Nossa questão aqui é carnaval. O regime não nos compete. Cuba era odiado pelo mundo democrático e hoje está sendo abraçado", garante.  O enredo diz muito deste imbróglio: Um griô conta a história: Um olhar sobre a África e o despontar da Guiné Equatorial. Caminhemos sobre a trilha da nossa felicidade. “Felicidade” que teria custado aos africanos a bagatela de 10 milhões de reais, quantia módica para um ditador cuja fortuna está avaliada em 600 milhões de dólares., segundo a Forbes.

A história tem contornos de conto de  fadas: em 2013, Teodorín, filho do ditador, convidou a Beija-Flor para “abrilhantar” a festa de comemoração dos 45 anos de independência do país. Impressionado com a exuberância da passista Raíssa Oliveira, madrinha da bateria da escola, o garoto  convenceu o pai a bancar a Beija-Flor em 2015. E assim se fez. O futuro herdeiro do “trono” da Guiné Equatorial, o terceiro maior produtor de petróleo da África, veio ao Rio com numerosa comitiva e,para mostrar quem efetivamente  manda, reservou seis suítes no Hotel Copacabana Palace, onde a diária mais em conta custa R$5.600. Na  Marquês de Sapucaí, ao passar em frente ao camarote de Teadorín, a bela Raíssa fez elegante vênia e, naturalmente, recebeu os  merecidos aplausos.

A estratégia deu muito certo: a Beija-Flor de Nilópolis  abiscoitou o título de campeã do carnaval carioca de 2015. Não causará surpresa, portanto, se, a partir de amanhã, outras escolas de samba do Rio saírem à caça de ditadores ( e ditadores,sempre os teremos) pelo mundo afora  a exemplo da escola campeã. Diz a máxima dos argentários que dinheiro não tem pátria nem cor e nem cheiro; tem apenas valor. Se os ditadores  de plantão resolverem imitar  o generoso  gesto de Teodoro Obiang, o carnaval do Rio brilhará mais do que nunca. Evoé, Baco!

 

REMOTA LEMBRANÇA DE UM CORSO

Fotos: Jairo Moura

Década de 1960: a cidade era muito pobre e o carnaval, um arremedo de folia. Os bem-nascidos tinham acesso a clubes onde se realizavam bailes animados, com direito a lança-perfume e alguns amassos. Os  foliões   pobres contentavam-se com os mela-melas   ou participavam dos bailes promovidos pela Prefeitura no velho Theatro 4 de Setembro,com direito a tombos no piso inclinado.Retiravam-se as poltronas de madeira e o mais corria por conta de bandinhas improvisadas.Tudo em nome da alegria.

Recém-chegado a Teresina, juntei-me a outros náufragos no velho prédio da UPES (União Piauiense dos Estudantes Secundaristas), na Rua Desembargador Freitas. Éramos todos muito pobres: o carnaval estava fora das nossas possibilidades. Numa tarde de fevereiro, alguém gritou:  “Olha o corso!”Eu desconhecia a palavra, mas acompanhei o rebanho para apreciar a novidade.  O que vi não me deixou entusiasmado: um caminhão com uma charanga desafinada, rapazes e moças em jipes sem capota e uma multidão de lambuzados – “espantalhos desengonçados” – dançando   no ritmo das marcinhas antigas.Das calçadas, as pessoas atiravam serpentinas, talco, maizena e produtos menos nobres...A grande atração do corso era um negro,perdão,um afro-descendente,meio careca, meio roliço que,fantasiado de baiana,fazia a alegria da plateia. Depois, fiquei sabendo tratar-se de Bernardo Cruz, um alfaiate  muito popular na cidade.

Bernardo era, à época, o que a Nicinha seria, anos depois, na Avenida Frei Serafim. Vai que um ano  a baiana roliça  não apareceu no corso. Desolação geral. Dias depois, no Restaurante Sapucainha, ali no Mafuá, um médico, que adorava  folia,  encontrou o Bernardo. Não se conteve: “Quer acabar o Carnaval de Teresina, Bernardo? Sem você, a festa não tem a menor graça”. Com ar compungido, o folião perguntou: “Você não soube que eu quase morri?”. Ante a resposta negativa, adiantou: “Fui atropelado por uma carroça que passou por cima do meu pé. Um desastre!”. O Médico, em tom de galhofa, perguntou: “Desde quando uma machucadura no pé pode matar alguém, Bernardo?”. A estrela do corso não se fez de rogado: “Doutor, onde já se viu cavalo de corrida e vedete com o pé quebrado?  Só não me matei porque os amigos não deixaram”. Bernardo nunca mais foi o mesmo; o corso, também não.

Ao longo dos anos, a cidade cresceu e o carnaval passou por muitas alterações, nem sempre positivas. Quanto ao corso, hoje, com centenas de carros alegóricos, tornou-se o xodó dos teresinenses. Com o peito inflado de orgulho, afirmam: “é o maior corso do mundo”. Não sei exatamente o que isso significa, mas deve ser importante para a cidade. Itu, por exemplo, por falta de coisa melhor, tornou-se nacionalmente conhecida por produzir inutilidades grandiosas...

 

 

CARNAVAL & CINZAS

            Não lembro com  exatidão quando a palavra carnal incorporou-se ao meu magro universo vocabular.Lembro apenas que,por muito tempo,para mim, carnaval não passava de sinônimo de pecado, pecado mortal,para ser mais preciso. É que os padres espanhóis (alguns franquistas) que me catequizaram  eram extremamente severos.”Uma festa que celebra os prazeres da carne só pode ser a entrada para o reino das trevas”,bradavam em intermináveis sermões,antes do chamado “tríduo momesco”. Um deles – baixinho, gordinho –   descrevi o reino das trevas com uma riqueza de detalhes capaz de matar o velho Dante de inveja.Sempre suspeitei que o tal padreco conhecia bem o lugar. O certo é que, um pouco por temor e um bocado por timidez, procurei manter prudente distância do “portal do inferno”.

            Eis que, no início da década de 1960, apareceram  na terrinha ( São Raimundo Nonato) três rapazes que estudavam na capital. Alegres, extrovertidos, em pouco tempo, conquistaram a cidade inteira, notadamente as menininhas da aldeia. Foram eles que me convenceram a participar de uma matinê  numa terça-feira de carnaval. Por falta de coisa melhor,lancei mão de um lenço vermelho, lambuzei a cara de carvão e, fantasiado de otário (fantasia que sempre me cai bem),caí na gandaia.À época (não sei se é prudente revelar) eu já andava perdidamente apaixonado (encegueirado,segundo dona Purcina)por uma fulaninha que borboleteava pelos céus de minha vida. Com um pouco de sorte, eu poderia aproximar-me dela, sem o olhar atento do pai severo. Tiro e queda.

            Embalado pelo  ritmo das marchinhas, esqueci a advertência dos padres  e comecei a acreditar que valia a pena entrar no reino das trevas por porta tão prazerosa. Lá pelas tantas, um dos novos amigos me passou um lenço embebido de lança-perfume, droga de que eu jamais ouvira falar. Aspirei com força e,literalmente, apaguei. Quando voltei à tona, todos riam de mim, e a  zinha tinha escafedido (é este o verbo) com um garoto sarará, que brincava  fantasiado de Zorro. Um mês depois, o sararazinho apareceu morto num beco escuro, mas posso provar que não tive nada a ver com aquilo.

            Pierrô desconsolado, declarei guerra ao carnaval, aos entorpecentes e aos mascarados em geral. A partir daquele dia, todos às vezes que alguém me fala de folia, saco dos escaninhos da memória os versos de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho: “Tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com minha dor” e desapareço. Assim tem sido e assim será.

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