Cidadeverde.com

Gravidez inconsequente

Na sombra dos holofotes acesos ontem para festejar o dia internacional da mulher, um caso de violência de gênero choca a sociedade. Neste caso, aliás, não apenas a mulher foi agredida, mas também a infância. Uma menina de 11 anos engravidou, após ser estuprada no Maranhão pelo padrasto, que já vinha abusando da garota desde que ela tinha 8 anos.

A paciente veio para o Piauí e foi atendida pelo Serviço de Atenção às Mulheres Vítimas de Violência Sexual ( Samvis) da Maternidade Dona Evangelina Rosa. Um atendimento, ressalte-se, de boa qualidade, coordenado com competência e zelo, embora funcione com inúmeras carências.

O Samvis avaliou o caso e, seguindo normas do Ministério da Saúde, comunicou que não pode realizar o aborto do feto pelo fato de este já se encontrar na 25ª semana de gestação. Além disso, o aborto poderia trazer complicações para a saúde da mãe. A própria coordenadora do serviço, médica Maria de Deus, lamenta a situação da criança-mãe. Sim, porque são duas crianças: o bebê e a que o carrega no ventre.

O Ministério da Saúde não autoriza o aborto, mas que futuro pode-se esperar de uma criança, cuja mãe não tem maturidade física, emocional, psicológica, tampouco condições financeiras para criá-la?  Uma mãe atordoada pela violência sofrida dentro de casa durante três anos por quem deveria protegê-la? A saúde da gestante já está comprometida, seu organismo ainda está em formação para ter que suportar uma mudança tão séria quanto a de uma gravidez. E como ficará o caráter psicológico dessa menina?  Difícil imaginar. A própria médica, profissional experiente e sensível, reconhece os danos e lamenta profundamente.

O caso dessa garota, infelizmente, não é único nem raro. Constantemente, meninas de todas as idades são abusadas sexualmente, na maioria das vezes dentro de casa. É preciso maior proteção às nossas crianças e mulheres para que elas sejam respeitadas em sua dignidade. Do contrário, de nada adiantarão os aplausos festivos em um dia específico do ano.