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A ganância corrói a carne

Ainda há muito a ser explicado sobre a apuração da Operação Carne Fraca, realizada pela Polícia Federal para investigar suborno a funcionários do Ministério da Agricultura que deveriam fiscalizar a qualidade dos produtos de origem animal  produzidos e comercializados no Brasil. Depois do anúncio de que grandes empresas do setor estavam vendendo carne estragada, adulterada e com prazo de validade vencida, o Ministro da Agricultura Blairo Maggi, um dos expoentes do setor agropecuário brasileiro, saiu em defesa dos empresários, afirmando que a Operação foi espalhafatosa e que desconhece os processos de produção.

O Ministro disse que é claro que o papelão a que se refere a polícia é usado nas embalagens e não na mistura da carne, como divulgado. Tudo bem, a polícia pode ter errado em alguns termos e até exagerado o tom. Mas os diálogos interceptados com autorização judicial mostram claramente um empresário do setor orientando seu funcionário a utilizar produto com prazo de validade vencido. Como defender essa prática? Além do mais, se não houvesse irregularidades não haveria a necessidade de subornar fiscais do Ministério da Agricultura.

Para os consumidores, fica o sentimento de desconfiança misturado à revolta de serem enganados por quem deveria protegê-los. O preço da carne vendida nos supermercados é alto, altíssimo. Mas, ao ver o selo de inspeção do Ministério da Agricultura, o consumidor tinha, pelo menos, a certeza de que estava comprando um alimento de qualidade. Agora, essa certeza já não existe mais.

Vender alimento estragado ou fora do prazo de validade é um crime contra a saúde pública. E os responsáveis merecem ser exemplarmente punidos, até como exemplo para que isso não volte a acontecer.  O fato de as exportações de carne e frango terem alcançado a cifra de U$ 10,3 no ano passado não dá ao mercado a autorização para que ele faça o que bem entender, desrespeitando a saúde da população.

A ameaça dos populistas de extrema direita

É preocupante a escalada ascendente de políticos populistas de extrema direita que prometem soluções fáceis e radicais sempre que a sociedade passa por algum tipo de crise, seja ela econômica ou política. Quando a população começa a dar sinais de exaustão e passa a temer pela manutenção do seu emprego ou da sua própria segurança, é comum surgirem figuras anunciando o fim de todos os problemas de uma só vez, levando os mais ingênuos a acreditarem que isso é possível.

O mundo inteiro passa por uma situação semelhante de medo com o que virá, diante das incertezas da economia e da estabilidade social. A crise dos refugiados é apenas um dos ingredientes que ajudam a engrossar esse caldo de turbulência que se forma de norte a sul, de leste a oeste. Some-se a isso, o inevitável processo de automação nos postos de trabalho, subtraindo vagas preciosas de empregos. Esse sentimento é terreno fértil para o nascimento de personagens como Donald Trump e similares que se espalham pela Europa, como se vê na França, Holanda e Inglaterra.

Aqui no Brasil, a instabilidade política decorrente das listas de delação premiada  e de pedidos de abertura de inquérito que envolvem representantes de praticamente todos os partidos políticos criou a sensação de que a saída só é possível com o aparecimento messiânico de alguém que venha para salvar o país do atoleiro em que se encontra. Por outro lado, a crise econômica pós-recessão, a maior da história brasileira, ajuda a colaborar com esse sentimento.

Daí, surge o perigo de a população abraçar nomes sem um projeto consistente, bem fundamentado, que mergulhe fundo na raiz da tempestade em que estamos mergulhados. Problemas complexos não comportam soluções simples. Quem promete isso, está apenas ludibriando uma população de náufragos desejosa de se agarrar à primeira tábua que surge. Jair Bolsonaro ( PSC) começa a ganhar corpo nesse cenário e a se projetar como candidato a presidente do Brasil. Fernando Collor, no passado, também surgiu ameaçando acabar com os marajás e acabou mesmo foi apeado da Presidência. É bom aprender com a história para evitar novas armadilhas.

Não há crescimento sem educação

Sem educação básica de qualidade, o país não vai crescer, muito menos o Piauí. Este é um diagnóstico claro, apresentado pelo Instituto Qualidade no Ensino – IQE, organização do terceiro setor que atua há mais de vinte anos em projetos de melhoria da qualidade da educação pública.

Os dados apresentados ontem no Congresso das Cidades do Piauí pelo diretor de relações institucionais do IQE, José Almendra, mostram que ainda estamos muito atrasados. O parâmetro é a nota do IDEB ( Índice da Educação Básica), um indicador divulgado pelo MEC, que conjuga as notas da prova Brasil com o índice de aprovação dos alunos.

O recado que ficou claro para os prefeitos e gestores da área da educação que foram ao Congresso é que a única saída possível é investir na qualificação continuada do professor, para que ele se torne um profissional motivado, capaz de inspirar as crianças a buscarem o conhecimento.

Nos países que são referência em educação, e consequentemente em desenvolvimento, como Finlândia e Coreia do Sul, só para citar dois exemplos, a valorização da figura do mestre foi indispensável para que os alunos atingissem um alto nível de educação. E crianças bem educadas serão futuros profissionais qualificados, capazes de inovar, de disputar as melhores vagas no mercado de trabalho e de promover as mudanças que o mundo precisa.

A solução é óbvia, mas nem sempre utilizada. Para que isso aconteça, antes de tudo, é preciso vontade política do gestor e o comprometimento de toda a equipe de educação. O gerenciamento dos recursos humanos nessa área é fundamental. Aliás, outra mensagem repassada na palestra do IQE é que, neste caso, recursos humanos têm muito mais valor que os financeiros. Quem promove a educação é o professor, não o computador, embora este último seja uma ferramenta importante.  Os prefeitos que apostarem nessa receita obterão resultados  promissores para tirar o município do atraso e prepará-lo para o progresso.

Os efeitos da lista de Janot

A temida lista do procurador geral da República, Rodrigo Janot,baseada nas delações da Odebrecht,  finalmente chegou ao Supremo. Os 83 pedidos de abertura de inquérito incluem políticos de todos os partidos ( PT, PMDB, DEM, PP, PSDB). Neste balaio, ficam duas impressões ao público: os políticos são todos iguais, independente do partido a que pertençam; o país vem sendo governado por pessoas desprovidas do espírito público que deveria nortear os representantes do povo que paga seus salários.

A lista, ainda mantida oficialmente sob sigilo, caiu como uma bomba em Brasília. Os primeiros vazamentos, com nomes de peso como os dos presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia ( DEM) e Eunício Oliveira (PMDB), de cinco ministros do atual governo, de dois ministros do ex-governo petista e até mesmo os dois ex-presidentes já seriam, por si só, suficientes para provocar um abalo sísmico de proporções catastróficas. Mas ainda há muito a ser revelado.

O próprio Janot é a favor da quebra do sigilo para que haja total transparência do processo. De fato, investigações desse porte, que mexem com as peças mais poderosas do tabuleiro político, precisam do suporte popular, o que só é possível com ampla divulgação. Mesmo sob sigilo, Brasília ferve. Os nomes que ainda não vieram à tona, estão à espreita de aparecerem nos próximos vazamentos.

A grande dúvida que surge é: mais preocupados em salvar a própria pele do que qualquer outra coisa, como se dará a votação de matérias importantes para o governo Temer e para a recuperação econômica do país, como as reformas tributária e da previdência?  O cenário político contamina o econômico. O economista Ricardo Amorim, em palestra apresentada ontem no Congresso das Cidades do Piauí, disse que a perspectiva é de retomada do crescimento. Mas os políticos precisam fazer a sua parte.

O abuso da Anac é um insulto aos consumidores

Já há algum tempo, o país vem sendo administrado por liminares. Em alguns casos, para o bem da população, como ocorreu com a expedida ontem pelo juiz da 22ª Vara Cível de São Paulo, José Henrique  Prescendo, para sustar a medida que autorizava a cobrança de bagagens pelas companhias aéreas. A autorização foi dada pela  Resolução 400 da Agência Nacional de Aviação Civil – Anac.

Segundo a decisão, além do preço da passagem aérea, a companhia poderia cobrar, por fora, uma taxa extra por volume despachado, a partir da data de hoje. Até então, todo passageiro tinha direito a despachar um volume máximo de 23 kg em voos nacionais.  

O juiz considerou, como os demais brasileiros de bom senso, que o ato da Anac “impõe aos passageiros um ônus financeiro adicional nas viagens, consistente em pagar uma taxa extra pela bagagem despachada (...), promovendo com essa medida não os interesses dos consumidores e sim das empresas de transporte aéreo de passageiros”.

Nos últimos anos, os serviços oferecidos pelas companhias aéreas vêm perdendo qualidade a olhos vistos. Os espaços dentro das aeronaves estão cada vez mais apertados, fazendo com que passageiros de maior estatura apertem-se para caber nos bancos tal qual a irmã da personagem Gata Borralheira faz para que seu pé entre no sapatinho de cristal. Com a prática constante do overbooking, o passageiro também não tem a garantia de que vai embarcar, apesar de estar com o bilhete comprado. Isso quando não ocorrem atrasos no horário de embarque ou, simplesmente, o cancelamento do voo.  As refeições, há muito, foram substituídas por amendoins indigestos e até mesmo a atenção outrora dispensada por comissários de bordo e aeromoças deixou de existir.

A Anac nunca se preocupou em resolver esses e outros problemas que atormentam os passageiros que pagam caro para viajar de avião. Quantas bagagens desviadas e extraviadas? Agora, além de tudo, virou comum a empresa mandar um e-mail comunicando a alteração do voo original que o cliente comprou de acordo com sua conveniência de data e horária. Quem compra um bilhete aéreo tem de ficar monitorando o e-mail várias vezes ao dia para saber se o seu voo ainda é o mesmo. Tudo isso passa batido aos olhos da Anac, que acha que ainda precisamos pagar mais. Feliz decisão do juiz paulista que acaba com mais esse achincalhe ao consumidor brasileiro já tão desrespeitado neste país.

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