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Sistema eleitoral falido tira lideranças das eleições

Não é de agora que se fala na falência do sistema político brasileiro, especialmente na exaustão do financiamento das campanhas eleitorais. O esgotamento desse modelo ficou evidenciado com o estouro do escândalo da Lava-Jato, que enlameou os principais partidos e as principais lideranças políticas do país.

Muito antes, porém, já eram frequentes as críticas ao sistema, que favorece o abuso do poder econômico e o uso da máquina governamental nas campanhas eleitorais, cada vez mais caras. No passado e no presente, várias lideranças abandonaram a vida pública porque se recusaram a jogar o jogo pesado da compra de voto.

É o caso do empresário Jesus Tajra. Ele elegeu-se deputado federal constituinte em 1986, depois de exercer o mandato de deputado estadual, nos anos 60, e também os cargos de prefeito de Teresina e de secretário de Estado. Foi para a campanha à Constituinte confiado na folha de serviços prestados no exercício desses cargos, mais a sua destacada presença no meio esportivo e no segmento empresarial.

Já na reeleição, em 1990, embora tivesse cumprido com denodo a sua missão na Assembleia Nacional Constituinte, ele viu que as portas se estreitavam para quem quisesse continuar na política. Ao concluir o segundo mandato na Câmara, Jesus Tajra desistiu da carreira política, ao constatar que para continuar no Congresso Nacional teria que fazer gastos incompatíveis com o mandato e com a sua conduta política.

Outros exemplos

Também fez semelhante reflexão e tomou igual deliberação a deputada federal Myriam Portella, nota 10 na Constituinte, na avaliação do Diap. Ex-primeira-dama do Estado, ela foi a primeira piauiense a conquistar uma cadeira na Câmara, pela oposição. Também desistiu de novas disputas nas urnas quando concluiu que ideias, propostas e compromisso com a ética na política não eram suficientes para a conquista de um mandato.

Depois, outro que entrou nesse rol dos desiludidos políticos foi o ex-senador e ex-governador Freitas Neto, que concluiu seu mandato de senador em 2002. Também pendurou a chuteira nas últimas eleições o ex-deputado federal Nazareno Fonteles, uma das estrelas do PT no Piauí, seu primeiro deputado estadual e ex-secretário de Saúde.  Por último, desistiu da reeleição, pelo mesmo motivo, o ex-senador João Vicente Claudino.

Não param por aí os exemplos dos que sacrificaram suas carreiras políticas diante das nuvens turvas do processo eleitoral, quando muito ainda tinham a dar à vida pública. Muitas outras lideranças que se sentiram desapontadas com o sistema político e sufocadas pelo derrame de dinheiro nas campanhas poderiam ser citadas. E há ainda as que nem entraram no jogo, desestimuladas com a situação, em que muito poucos se elegeram sem fabulosos investimentos em suas campanhas.

Reformas não resolvem

As medidas adotadas para conter o desvirtuamento do processo eleitoral, através de minireformas tímidas e casuísticas, não frearam a degradação do sistema. Entre elas, está a proibição do financiamento das campanhas pelas empresas. Trata-se de uma norma recente e ainda ineficaz, engolida pelo famigerado caixa 2, tão ao gosto de tantos.

O fato é que se estabeleceu no país uma cultura nociva às eleições e à democracia, desvirtuando a vontade das urnas. E o próprio eleitor, que tanto brada contra a compra de mandatos, muitas vezes é o mais interessado em vender o voto, sem avaliar as conquências de seu gesto.

A Lava-Jato não será capaz de depurar o processo eleitoral sem que o eleitor faça a sua parte.