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Temer descarta renúncia e enfrenta a crise

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O presidente Michel Temer descarta renúncia

O presidente Michel Temer optou ontem por manter uma tradição da política brasileira. Ela mostra as autoridades, em momentos de grave crise, resistindo à ideia da renúncia o seus cargos quando esta lhes é apresentada como o único caminho a seguir para evitar traumas maiores.

Na história contemporânea, bateram o pé e resistiram teimosamente à renúncia o presidente Fernando Collor, em 1992; o então presidente da Câmara Federal, Severino Cavalcanti, em 2005; e o então ministro José Dirceu, também em 2005.

Mais recentemente, também enfrentaram a mesma situação, entre outros, a presidente Dilma Rousseff e o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no ano passado. No fim, todos acabaram, no entanto, perdendo os seus mandatos.

A gravação

O presidente Michel Temer se pronunciou ontem à tarde sobre a divulgação de um áudio gravado pelo dono da JBS (Friboi), Joesley Batista, delator da Lava-Jato, na qual ele supostamente dá aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB) e, por consequência, obstruir a Justiça.

Temer fez o seu pronunciamento, no Palácio do Planalto, antes de ouvir o áudio. Mas garantiu que não renunciará, pois não se envolveu em qualquer ato incorreto, e tem uma missão a cumprir. O presidente pediu rigor e pressa na investigação aberta pelo Supremo contra ele.

A gravação foi liberada pelo STF no início da noite. Sua qualidade não é boa, mas o seu conteúdo não chega a comprometer Temer irremediavelmente como foi a princípio divulgado. As primeiras notícias sobre a gravação davam conta de que o presidente tratava de dinheiro para calar Eduardo Cunha. Isso não apareceu no áudio.

O desafio maior

Nesse episódio, pesa, contudo, contra Michel Temer, o fato de ele receber em casa, reservadamente, um investigado pela Lava-Jato. Que assunto republicano ele teria a tratar com um sujeito dessa espécie? Na gravação, o visitante passa o tempo todo contando vantagens e falando de armações para se ver livre da operação e obstruir a Justiça. Nela, porém, o presidente não se compromete pelo que falou e sim pelo que ouviu.

Se não existe algo a mais e mais grave contra o presidente, ele não terá tanta dificuldade em se defender na Justiça. Se o que existe contra ele for apenas o que está no áudio, o seu desafio maior será mesmo o de recuperar o apoio político, pois desde quarta-feira à noite a sua base parlamentar derrete aceleradamente. Até ministros estão em debandada.

Como o próprio presidente ressaltou em seu pronunciamento, a nova crise tem consequências imprevisíveis.

Economia nervosa

A nova crise política que irrompeu no país teve impacto negativo na economia. A Bolsa de Valores de São Paulo caiu ontem mais de 10%, o dólar subiu quase 8% e uma onda de desânimo invadiu as empresas.

A economia vinha em uma boa semana, com a abertura de quase 60 mil novos postos de trabalho e esperança na superação da recessão.

Empréstimos

Como a corda arrebenta sempre do lado do mais fraco, o Piauí será um dos primeiros a pagar a conta da nova crise política.

Os novos empréstimos que o governador Wellington Dias está suando para conseguir ficam agora distantes do alcance de sua mão.

Investigação

A propósito, o governador está na Europa e ontem se pronunciou da Itália sobre as denúncias contra o presidente Michel Temer, em vídeo gravado para as redes sociais.

Ele defendeu que tudo seja devidamente apurado e que os eventuais culpados sejam responsabilizados, dentro da lei.

Fórum

Wellington Dias chega amanhã ao Brasil e terá um encontro ainda neste fim de semana com os integrantes do Fórum de Governadores para avaliar a crise política e discutir saídas.

Ele informou que ainda na quarta-feira à noite passou a conversar com governadores e outros líderes políticos brasileiros, pelo telefone, sobre a situação do Brasil.

Baixa no Ministério

O ministro da Cultura, Roberto Freire (PPS), foi a primeira baixa no governo, depois da delação do dono da JBS.

Roberto Freire deixou o cargo logo depois de o presidente anunciar que não renunciará.

O outro ministro do PPS, Raul Jungman, permanece no cargo. O partido justificou que ele era por "relevância para o Estado".

Em outras palavras, Roberto Freire não era relevante. Ou o seu cargo não era. 

*Os caciques  tucanos entregaram outra vez a presidência do PSDB ao senador Tasso Jereissati.

*O Salão do Livro do Piauí 2017 foi lançado ontem à noite, no Cine-Teatro da Ufpi.

*Até ontem à noite, oito pedidos de impeachment do presidente Michel Temer já estavam protocolados na Câmara Federal.

*Os primeiros que correram para pedir o afastamento do presidente foram os que mais lutaram contra o impeachment da presidente Dilma.

Diretas, Já!

Do deputado Robert Rios (PDT), ao se pronunciar ontem na Assembleia Legislativa sobre a nova crise política brasileira e voltar a pregar eleições já:

- É impossível a pátria entrar em comunhão, nesse momento, se não for pelas eleições diretas.