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O tempo do dia a dia

Quando se vê, já passou, acabou... 

Dia desses uma amiga postou em sua página no Facebook que a escola do filho estava desenvolvendo atividades em três disciplinas novas: "expressividade emocional e autocontrole", "empatia" e "amizade". Aquilo me despertou um sentimento inicial: "meu deus, professores estão precisando ensinar isso na escola porque nossos filhos não têm mais a rua, a pracinha e amigos, aqueles que a gente fazia quando tocava a campainha do vizinho e saía correndo pra se esconder".

Foi exatamente isso que eu pensei e senti uma tristeza profunda.

Quando eu era criança era assim que a gente fazia amigos. A manga do vizinho, que delícia! Sempre que chovia, saíamos todos com o sal e a pimenta no saquinho, no rumo da casa do vizinho, aquele sovina que não dava manga pra ninguém. Ela era deliciosa mesmo! 

Brincávamos na rua, todas as noites depois da aula. Brincávamos até ouvir os berros dos nossos pais chamando pra dormir. Eu não tenho lembrança melhor na vida. Era assim que desenvolvíamos a empatia, socializávamos, aprendíamos a esperar a vez de brincar, estreitávamos os laços, alguns ainda perduram. 

Sabe o que acontece hoje? A rua não vê mais crianças brincando. Minha filha anda de bicicleta dentro de casa. E sabe o que eu sinto quando vejo essa solidão? Uma imensa dor por tudo que ela não vive e não terá oportunidade.

Os dias de brincadeiras agora são marcados. Nós ligamos pros pais das coleguinas e marcamos uma horinha no fim de semana para que elas se vejam e tenham um dia de criança. 

Se nós e o ambiente que proporcionamos a eles não pode lhes oferecer brincadeiras na rua, amizades a partir de traquinagens, alguém tem que fazer não é? Por isso a escola vem tomando um papel cada vez maior na vida dessas crianças. E isso está certo? Ela está assumindo um papel que nós estamos suficientemente ocupados para não perceber que é nosso. E isso vai piorar!

O que nos custa chegar do trabalho e sentar no chão com eles, dar atenção, ler uma revistinha em quadrinhos juntos, preparar o jantar e comer junto, ensinar a tarefa, colocar pra dormir, tudo isso mantendo um diálogo sincero e dedicado, oferecer o nosso pouco tempo integralmente a essa relação. E, sempre que possível, proporcionar a essa criança o contato com outras que não sejam o mero contato do ambiente escolar. 

Mesmo que para isso você precise marcar hora com os pais dos amiguinhos. Nada paga a felicidade que a Nina demonstra no olhar quando digo que sábado ela vai brincar com as duas melhores amigas. Por elas seria todo dia. Então, vamos fazendo o possível para que isso se torne mais frequente. 

Precisamos driblar as atribulações, o cansaço de todo dia depois do trabalho, a dor de cabeça, a loucura dessa vida. Nossos filhos precisam ter sua infância não só na escola.