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Você cria uma princesa/príncipe?

Em tempos em que até o fantástico mundo da Disney teve que se reinventar para se adaptar à nova realidade das mulheres e homens, dos seus novos desafios nesse mundo, de repente voltamos a uma era medieval no Brasil. Uma escola forma "princesas".

A proposta da psicopedagoga Nathalia de Mesquita, dona da escola, é transformar meninas de 4 a 15 anos em mulheres preparadas para cuidar da casa, dos filhos e ainda ser capacitada para o mercado de trabalho. É despertar nelas o lado princesa, com humildade, solidariedade e bondade, além das tarefas mais "fofas", como arrumar o cabelo e se maquiar, até regras de etiqueta, de culinária e noções de como organizar a casa.

O problema que eu vejo aí é que nossas meninas não precisam continuar sendo tratadas como princesas, vivendo em um modelo fechado, oprimidas pelo espartilho. Nem nossos filhos precisam ser obrigados a serem os provedores, distantes dos dilemas cotidianos, sem participação no lar, na vida dos filhos. Acho mesmo que a gente precisa rever o modelo de criação das nossas crianças. 

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Acho mesmo que prefiro a nova Branca de Neve apresentada em Once Upon a Time, que convive com o remorço de ter abandonado a filha para protegê-la e tentar se redimir cuidando dela, já adulta, mas que nem por isso deixou de lado seus ideiais de sempre, tomar as decisões pensando no coletivo, procurando sempre agir de forma correta, lutando com espadas, sem jamais perder a ternura, sendo dura e amorosa, cada sentimento no seu momento certo. Prefiro ainda um Príncipe Encantado que também luta com espadas, ao lado da Branca, contra todos os vilões, mas lava a louça do jantar, ajuda a cuidar do bebezinho, mantém a sua coragem e lealdade, a força e a conduta ereta. 

A desconstrução desse mito de príncipes e princesas, já em curso há algum tempo, deveria nos fazer pensar em como estamos agindo e não retroceder colocando nossas filhas em "escolas de princesas". Todo aquele arquétipo, a menininha que usa tudo rosa, o cabelo sempre arrumadinho, o chá, os ensinamentos de como ser uma boa esposa, as "obrigações", como se comportar, uma vida cheia de regras, presa em um espartilho, tudo isso caiu por terra há muito tempo. 

Nossas heroínas hoje são Fiona, mãe de três filhos e esposa de um ogro, que passou por uma transformação estética; e Elsa, que não precisou viver um relacionamento com um homem para saber o que é o amor verdadeiro, lutando para se aceitar, convivendo com "defeitos" impostos por aqueles que não queriam aceitar sua liderança.

Temos dilemas todos os dias, homens e mulheres. Somos seres complexos, numa sociedade complexa mas que está num movimento de simplificar a vida. Acho que esse movimento, que propõe um olhar pra dentro, de focar no que realmente importa, de dar valor às coisas mais intimistas, de estar perto daqueles que amamos, de manter os ideais e os sentimentos mais verdadeiros, é o caminho.

Nossos filhos não podem estar deslocados desse contexto. Eles são parte de nós, são inseridos nessa sociedade. Precisamos prepará-los para levarem consigo os ideais de príncipes e princesas sim, mas tratando a todos com igualdade de deveres, de direitos. Meninas e meninos sem diferenças.