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Discutir gênero na infância é o caminho para sociedade igualitária, afirmam especialistas

 

Criar filhos livres de imposições e sem barreiras para fazerem suas escolhas é uma aposta de mães piauienses que experimentam métodos mais flexíveis para as novas gerações. 

Carrinhos e bolas para meninos e brinquedos de cozinha, como panelinhas e bonecas são para meninas é uma visão questionada por mães que criam filhos sem hábitos de gênero. O Cidadeverde.com ouviu especialistas que falam sobre as mães que apostam na educação “gênero neutro” e defendem que discutir gênero na infância é o caminho para uma sociedade igualitária. O método, porém, divide opiniões. 

Frases como “isso é só para meninos” ou “menina não pode brincar disso” são vetadas na criação, ainda na primeira infância, com objetivo de diminuir a discriminação e a violência de gênero.

Para a psicóloga Renata Jardim, a educação tendo como referência uma não distinção de gênero faz com que uma criança seja criada sem  premissas de comportamentos masculinos ou femininos, pois boa parte da sociedade segue rigorosamente padrões específicos no que diz respeito à sexualidade desde a primeira infância.  Renata esclarece que a questão de gênero é uma ideia socialmente construída de feminilidade e masculinidade, e não necessariamente algo que vem direito do sexo biológico das pessoas.

“O gênero é uma construção social no sentido de como alguém se apresenta e se sente para as pessoas e, principalmente, para si, como nos reconhecemos e desejamos que a sociedade nos reconheça, como feminina ou masculina, ou transitar pelos dois, uma mistura de ambos, independentemente da orientação sexual ou do sexo biológico”.
 
Ela destaca que esses padrões sociais estão relacionados à heteronormatividade, que é o padrão de regras que limita a liberdade do outro não só de viver a sua sexualidade, mas também se expressar com autenticidade.
 
“Essa linha de educação sexista acaba criando adultos que não vão saber aceitar, lidar, e conviver com o ‘diferente’. A conscientização sobre a opressão dessas regras gera, consequentemente, a diminuição da discriminação e a violência”.

Psicóloga Renata Jardim
 
Desconstruir a heteronormatividade
 
Com relação à infância, a psicóloga alerta que é necessário à desconstrução da heteronormatividade no sentido de permitir a criança ser apenas criança e brinque, seja com boneca ou carrinho, que use azul ou rosa, pois permite a educação igualitária. A criança não vê maldade ou sexualidade em uma brincadeira, objeto ou atividade.

Já pesquisadora e mestra em Antropologia e Arqueologia, Clarissa Carvalho, destaca que o gênero é uma construção social a partir das diferenças percebidas entre os corpos. Ela pontua que a identidade de gênero ocorre em negociação entre aquilo que se sente ser, a autopercepção, e o que é normatizado pela sociedade. 

“As diferenças percebidas entre os corpos, cada cultura e época constrói modelos ideais de gênero, ou seja, o que é adequado/esperado/próprio de cada gênero. Há uma negociação do sujeito em ser, em performar, de determinada forma em uma sociedade” acrescenta.
 
Com relação ao rompimento de muitas famílias sobre brinquedos e atividades que são consideradas, culturalmente, do sexo masculino ou feminino, a antropóloga explica que a não divisão traz ganhos para toda a sociedade. 

“O leque de possibilidades aumenta para meninos e meninas quando não se predetermina o que é adequado para um ou outro”, defende Clarissa. Ou seja, não são só as meninas que ganham ao poder brincar de carrinho ou espadas etc., mas os meninos também ganham ao poder brincar de comidinha, casinha, boneca etc. Ela relata um fato familiar para exemplificar essa questão.

 Pesquisadora e mestra em Antropologia e Arqueologia, Clarissa Carvalho
 
“Aconteceu um fato interessante com meu filho do meio, José Luiz: quando meu terceiro filho (Antonio) nasceu, Zé Luiz passou a querer brincar muito de boneca. Isso nunca foi um problema em casa, mas um dia, ao pegá-lo na escola, ele reclamou que a professora não havia deixado ele brincar com a boneca bebê. Fui perguntá-la porque e ela explicou que alguns pais não gostam e, por isso, ela tinha oferecido outro brinquedo ‘mais masculino’. Expliquei que ele podia brincar, sim, e que, como ele via o pai cuidando do irmão mais novo, botando pra dormir, dando banho, etc, era esperado que ele começasse a imitar esse comportamento também”.
 
Para a pesquisadora, a não diferenciação de atividades ajuda a ampliar as possibilidades de todos e é um passo rumo a uma sociedade mais igualitária entre gêneros até porque crianças não nascem reproduzindo práticas opressoras relacionadas ao gênero, raça ou orientação sexual.
 
Na prática, as famílias adeptas querem ampliar as experiências de vida das crianças permitindo que elas reconheçam a própria identidade de gênero bem como às das pessoas ao seu redor.

Pedagoga Luciane Santos
 
Preconceito e Evasão Escolar
 
A pedagoga Luciane Santos explica a necessidade de discussão sobre gênero nas escolas uma vez que a discriminação, preconceitos e o bullying são as principais causas da evasão escolar. Ela pontua ainda que a escola é um ambiente heterogêneo, onde convivem as mais diversas culturas, religiões e arranjos familiares. Por isso, é preciso que os profissionais da área recebam orientação para respeitar a individualidade e criando um ambiente de diálogo entre os alunos e os pais.  A escola não pode fechar às portas para a identidade de gênero.
 
Luciane ressalta que a escola quando discute gênero não está impulsionando a sexualidade das crianças, e sim destacando a importância da igualdade de gênero reforçando o respeito com a diversidade.
 
 “A identidade de gênero não se resume a questão da sexualidade, essa história de ‘ideologia de gênero’ não existe. Gênero discute a dissociação do que é somente coisa de ‘menino’ e de ‘menina’. Como eu vou dizer para os alunos que as meninas não podem jogar futebol porque isso é coisa de menino? Como uma escola pode defender isso? Pelo contrario, precisamos é discutir a igualdade de gênero, e não reforçar esse tipo de discriminação”.  
 
Em Teresina, a Câmara de Vereadores discute o projeto de Lei Nº20/2016 que proíbe o debate sobre as questões de gênero nas escolas de educação básica da rede municipal da capital. Para ela, a criação de uma lei que proíba essa discussão é um retrocesso no ensino do país.
 
“A partir do momento em que se omite esse debate, a escola está formando pessoas que não vão respeitar a diversidade. Dessa forma, a escola acaba por potencializar a violência contra a mulher e a homofobia”, diz Luciane, destacando que o Brasil é o quinto país que mais registra morte de mulheres por questões de gênero, sendo que a cada hora e meia uma mulher é assassinada. Somente em janeiro de 2016, 56 mulheres trans foram mortas.

Professor e psicólogo Emanoel Lima


Respeitar as diferenças
 
Já o professor e psicólogo Emanoel Lima, que possui doutorado em Psicologia Social, alerta que, em âmbito local, o Piauí permanece tradicionalista com as famílias seguindo um padrão conservador. Além disso, ele alerta que a sociedade é intolerante às diferenças e que as crianças precisam desde cedo conviver e respeitar a diversidade, seja ela de gênero, orientação sexual, de raça e/ou religiosa, por exemplo.

“O Conselho Federal promoveu vários debates sobre isso e aponta que a nossa sociedade é intolerante a toda e qualquer diferença. É importante a discussão de gênero com as nossas crianças porque, o que prova o sofrimento nas pessoas, é a imposição de um modo de viver. Na nossa sociedade, existe uma prescrição de papeis de como se deve ser no ponto de vista da sexualidade e do gênero; só que a sexualidade é algo que se vive ao longo da sua vida, não existe algo prescrito”.

Ele comenta ainda que é preciso aumentar o debate nas escolas e nos campos sociais porque os piauienses, em sua grande maioria, são heteronormativos e intolerantes com a ruptura dessa “lógica social”.  

“Nós precisamos apresentar para as nossas crianças as diferenças no mundo, que elas possam entender que as diferenças têm o direito de serem vividas porque se a gente não considera as diferenças o mundo não existe”.
 
 
Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com