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Pedaço de mim: mães aprendem a viver após suicídio dos filhos e dão mensagem especial


Leidinalva Soares abraça o jaleco da filha Jordana, que estudava  Enfermagem na UFPI ( foto: arquivo pessoal). 

Amor de mãe é incondicional. Eterno. Os filhos nunca se vão; eles ficam no cheiro, pelos cantos da casa, nos lugares visitados, nos sonhos, na memória e em cada sorriso ou lágrima. Eles permanecem presente em tudo que já viveu e no que deixou por viver em sociedade. 

Valdete Silva e Leidinalva Soares. Duas mães que não se conhecem, mas que vivem o luto e a dor – em todas as suas particularidades - de perderem os seus filhos em um ato de suicídio.  Elas precisaram enfrentar o sentimento de culpa, a angústia e convivem com a saudade dos filhos Edvaldo Silva e Jordana Soares.

Neste domingo, Dia das Mães, elas têm um recado especial para outras mães que vivem a mesma saudade, para a sociedade que precisa trazer o assunto (suicídio e depressão) para o campo da discussão e às pessoas que – por algum momento – pensaram em tirar a própria vida.  


“Olá, eu sou Valdete Maria da Silva, pedagoga, 42 anos. Meu filho se chama Edvaldo José Silva Fontinele, tinha 20 anos e cursava Arquitetura. O ocorrido foi dia 7/04/2015. Hoje moro com minhas duas filhas (Catarina e Clarice). É difícil ainda definir quem é Valdete hoje, mas posso dizer que hoje sou uma pessoa mais serena, que entendeu a brevidade da vida”.       

Luto, ausência e rotina. 
A esperança do reencontro.

Valdete contou ao Cidadeverde.com que poucas são as lembranças até dois dias após o sepultamento do filho e que a rotina era apenas um dia após o outro, uma sensação que estava em outro plano, até tomar consciência de que tudo de fato ocorreu: não há mais mensagens no celular, as piadas, o som dos sorrisos fartos, a comida que sobra na panela e as louças não amanhecem mais sujas dos lanches preparados nas altas horas da noite. 

 “Se eu o encontra-se hoje diria a ele o que sempre disse: Eu Te Amo. Eu ia ver aquele sorriso largo e ouvir a resposta: ‘eu também, velha gostosa’. E se me sobrasse tempo diria ainda: ‘me perdoe se eu não soube ser a mãe que você precisava’”, diz Valdete, acrescentando que a saudade passa a ser a definição de muitas mães que viram os seus filhos partir.

“Entendo que a dor está muito ligada à culpa. Eu não sinto culpa. O amor da mãe é tão incondicional que não existe o dolo em suas ações ou omissões, somos humanas passíveis de acertos e falhas. Filho não vem com manual de instrução, a relação é consolidada nos erros e acertos. Nós mães devemos lembrar que somos supermães, mas não temos superpoderes que tudo sabe, que tudo vê e tudo pressente e que na adolescência eles se relacionam bem melhor com amigos do que com os pais (e isso é natural, faz parte da formação deles). Precisamos saber também que, apesar de nossos filhos nascerem de nossas entranhas, eles são outro indivíduo,  com personalidade própria,  com pensamentos próprios, com vontades próprias. Não temos o poder de controle desse indivíduo que saiu de nós”

  Valdete Silva                    

 

Uma saudade que se vive todos os dias. 
O Amor que fortalece.

Lembrando-se da frase de Cecília Meireles (ao lado), Leidinalva recorda da filha Jordana, que tinha 21 anos e era estudante de Enfermagem: “Que seu perfume, Jordana, se irradie por todos os dias da minha vida. Difícil pensar a vida sem ela. Sempre via muito de mim nela, só que, na verdade, ela era eu mesma, melhorada”. 

A mãe, que buscou forças na religião e no acompanhamento psicológico, recorda dos conselhos de Santa Teresinha: “'Quando tem menos de nós, há mais de Deus’. Peço que o sofrimento de Jordana, que a fez sair da vida terrena, possa ter sido aliviado por Deus. Só o Amor pode nos socorrer de nossas misérias, e é este Amor que nos unirá para sempre, até o meu último suspiro, para o nosso encontro eterno"

Leidinalva, professora e também mãe de dois rapazes (João Victor e Lauro Vinicíus), comenta que diante da incompreensão dos fatos e da busca incessante das respostas que não se respondem, "só resta o esforço para encontrar um novo sentido para a vida". Dentre elas, ajudar outras famílias a entender e combater os sintomas da depressão, fazendo com que outros jovens não se percam nessa doença.

“A morte da minha filha Jordana foi a própria notícia gritando ao mundo que agira daquela forma não para socorrer a sua dor, pois já não valia mais a pena, mas propor – quem sabe – que aquela tragédia era o reconhecimento de nossa incompletude, de nossa condição humana falha, dos nossos limites. Poucas haviam sido, às vezes, em sua vida, que Jordana demostrava vestígios de suas limitações e, muito menos, qualquer possibilidade de destruir seu futuro", conta a mãe.  

 

 

Palestra pela vida
 
Dia 17 de maio de 2017 completa um ano que Jordana faleceu. Na busca por ajudar outras famílias, principalmente adolescentes, a família da jovem está organizando uma palestra para discutir os sinais da depressão e o suicídio. A atividade, que iria ocorrer na próxima quarta-feira (17), foi adiada para junho deste ano. O local e a data serão divulgados. O evento será aberto ao público.

 Paciência para ter respostas
 
Às pessoas que estão em um momento de fragilidade, um conselho de mãe: "tenha paciência, faça sua parte, procure por ajuda. Perder a vida é muito forte e não vale a pena; a dor e o trauma é muito grande para quem fica. A vida é muito boa, foi dada por Deus e sempre devemos buscar respostas para nossos conflitos seja na religião, na arte, com apoio psicológico, com os amigos, na família ou na busca por um ideal. Busque respostas, o que não pode é ficar isolada em si", pede Leidinalva.  

 

Carlienne Carpaso
carliene@cidadeverde.com