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Em Teresina, doulas já trouxeram mais de 200 bebês ao mundo

Maria Romero e Graciane Sousa
redacao@cidadeverde.com


Doulas Naira e Márcia

Em dois anos e meio como doulas em Teresina, Márcia Silva e Naira Cibele participaram de cerca de 100 partos cada uma. Quase 200 bebês nasceram sob os cuidados das duas profissionais, que hoje possuem entrada livre em maternidades privadas e casas de parto da Capital por meio da lei 4935/2016. A atuação das doulas, ao contrário do que muitos pensam, não se assemelha ao de uma "parteira", mas visa garantir conforto e acolhimento às grandes protagonistas no momento do parto natural humanizado: as mães. 

Para ser doula, a mulher pode realizar um curso cuja carga horária varia de 80 a 120 horas e não está apta a realizar intervenções famacológicas. 

Naira explica:

"A doula não faz toque, não escuta os batimentos cardíacos do bebê e não tira pressão, isso é função da enfermeira obstetra ou do médico obstetra. A doula usa massagens, posicionamento, banho quente, palavras de conforto, trabalha mentalmente aquela gestante e deixa o ambiente preparado para aquela mulher se sentir confortável, confiante e acolhida". 

Doula faz massagem para alívio das dores

Márcia, com suas massagens, aromaterapia com sálvia e lavanda francesa, as compressas de água quente e o posicionamento sobre a conhecida bola de Pilates, tornou-se conhecida entre as mães de Teresina como a "doula das mãos de fada". 

"Você não tem ideia de como isso alivia a dor", confidencia a advogada Marisol Andrade entre uma contração e outra, exibindo para nossa equipe a compressa morna com seu aroma floral suave. A compressa fica sobre o ventre da mãe, durante o momento em que sente dor.

Foi pensando na saúde dela e do filho que Marisol optou pelo parto humanizado e foi aí que a advogada contratou uma equipe para assisti-la. Assim, surgiram na vida da então futura mamãe, Márcia e mais duas profissionais (sendo uma médica e uma enfermeira obstetras) que passaram a acompanhar sua gestação a partir do 5º mês.

Marisol no 9º mês de gestação

"Me senti bastante segura durante toda a gestação pois sabia que tinha uma equipe à minha disposição.  A ginecologista (obstetra), enfermeira (obstetra) cuidaram da parte técnica, da minha saúde e do meu filho. Já a doula deu suporte psicológico para mim, meu esposo e demais familiares, olhava pra gente com outros olhos. A médica, por exemplo, escutava o meu coração e do bebê. Já a doula fazia o alívio da dor de forma não farmacológica, mas por meio de massagens, além de me ajudar a não desistir. Com elas, a minha única a ansiedade era por querer ver o bebê, pois a gente passa a gestação inteira querendo saber qual o dia que ele vai nascer", relembra a mãe.

A advogada pretendia ter um parto normal, mas teve que respeitar a vontade do bebê que veio ao mundo por meio de uma cesariana, o que não causou frustração à nova mãe. Marisol optou por sentir todas as contrações e e só foi para a mesa de cirurgia após indicação médica. 

Matheus veio ao mundo no dia 02 de maio

 

Ela estava com 40 semanas e três dias e após mais 29 horas em trabalho de parto deu à luz Matheus, que nasceu no dia 02 de maio. 

"A preparação para o parto normal foi o diferencial para a minha rápida recuperação da cirurgia. Apesar de não ter conseguido finalizar o parto de forma natural, meu propósito foi alcançado: o Matheus nasceu quando quis. Passei por todas as etapas do parto normal e isso fez muito bem pra saúde do meu filho, que foi capaz de mamar já na primeira hora de vida, não teve nenhuma complicação, não necessitou de observação ou oxigênio e permaneceu ao meu lado desde o momento que saiu da minha barriga", diz empolgada a advogada. 

Além dos benefícios para o bebê, ela conta que o parto humanizado fez muito bem também para ela. 

"A minha recuperação está sendo excelente. Para se ter uma ideia, com menos de dez dias após o parto, já estava com o mesmo peso de antes de engravidar", disse.

A mulher tem que ser respeitada

Contudo, a escolha pelo parto normal e humanizado não foi tão fácil por alguns fatores como pressão de familiares e a dificuldade em encontrar médicos em Teresina que realizassem o procedimento.

"Antes mesmo de engravidar, sempre quis ter parto normal. Só começamos a entender com  o tempo, o que era o parto humanizado, pois a primeira coisa que vem à cabeça é que é um parto em casa, na água, e não é isso. O parto humanizado é aquele que respeita o corpo e a vontade da mãe. Nele não há violência obstétrica ou procedimentos desnecessários. O médico pergunta antes de fazer qualquer tipo de procedimento", disse a mãe do pequeno Matheus. 

O pai de Matheus, Vinícius Andrade, também advogado, conta que decidiu acompanhar a decisão da esposa. "Eu desde o início quis acompanhar a decisão decisão, fazendo de tudo para que ocorresse tudo bem", declarou.

Após descobrir a gravidez, Marisol passou por três obstetras até encontrar um que pudesse assisti-la através do parto normal. Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa ideal de cesáreas é de 10% a 15% dos partos em um país, o que na prática é bem diferente. 

"É muito difícil encontrar um médico que queira assistir e acompanhar o parto. Se a gente for parar pra pensar, eles são muito mal remunerados para fazer um parto normal, pois ela ganham o mesmo valor para fazer uma cesárea. No parto normal, o médico tem que se dedicar pelo menos 12 horas do dia dele. Enquanto que ele consegue fazer de cinco a seis cesáreas por dia. Ele só consegue fazer um parto por dia. Então, acredito que essa dificuldade venha dessa questão financeira", diz Marisol que cita ainda fatores tido como 'culturais'.

"A sociedade impõe que a mulher tenha cesariana. As pessoas perguntam: como você vai ter um bebê sem saber o dia que ele vai nascer? sem montar o quarto da maternidade para receber as visitas? Isso não existe. Em Teresina, ter um parto cesárea virou cultural. Você vê aqueles quartos de maternidade que parecem o aniversário da criança", critica a advogada.

As doulas e o empoderamento feminino

E apesar dos muitos mitos que cercam o trabalho das doulas e o que seria o parto humanizado, Márcia e Naira destacam que a procura pelos serviços tem aumentado significativamente a cada ano em Teresina. 

"A procura tem aumentado sim, porque a humanização do atendimento tem sido um movimento internacional. Além do mais, as pessoas acham que o parto natural é algo para quem tem muito dinheiro, e não é", destaca Márcia. 

Marisol diz que o custo benefício do acompanhamento vale o que é pago. Hoje, em Teresina, ter o acompanhamento de uma equipe para o parto assistido - com doula, enfermeira e médico obstetra - custa cerca de R$ 7 mil. Os custos hospitalares não estão incluídos, caso a gestante opte por um estabelecimento privado, mas a equipe pode atender a mulher em um Centro de Parto Natural público. Teresina hoje possui dois: na maternidade Dona Evangelina Rosa e na do bairro Buenos Aires.

Pensando na importância desse trabalho junto às mulheres, Márcia e Naira criaram a Casa Mães de Gaia, local voltado para o empoderamento, suporte e acolhimento de homens e mulheres para o parto.

"Mesmo as mulheres não gestantes podem se beneficiar desse tipo de acompanhamento, porque temos massagens, terapias para autocuidado, rodas de conversa, tudo voltando para o feminino, para cuidar da mulher em todos os seus ciclos de vida com foco na cura pela natureza", explica Naira.