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A seleção, o brasileiro e a política. O que têm em comum?


Phillipe Coutinho: autor do 1º gol do Brasil contra Costa Rica, em um jogo que quase fez o brasileiro perder a fé na seleção  (FOTO: CBF)

 

Já quase no final do segundo tempo do jogo entre Brasil e Costa Rica, o placar apontava um empate sem gol. E os brasileiros já davam sinais de impaciência. Surgiam até de forma mais explícita críticas a Neymar, algumas delas – desqualificadoras – de um narrador que 90 minutos antes festejava o jogador como a síntese da genialidade brasileira nos campos. A mudança traduz dois traços da nossa relação com o futebol: primeiro, queremos sempre ganhar – e não aceitamos nada menos que isso; segundo, somos extremistas, sem meios termos e saímos do endeusamento sem reservas à condenação sem pudor.

O comportamento do brasileiro em relação ao futebol diz muito da alma nacional, da relação do país com tudo o que faz o nosso dia a dia. E revela muito mais ainda do comportamento que deveríamos ter ante questões como a corrupção, a política, os serviços essenciais e o nosso próprio compromisso com o que é importante.

Na cabeça do brasileiro, somos a Pátria de Chuteiras, o País do Futebol, o maior vencedor de Copas. Perder é o mesmo quer ver jogar no lixo uma das poucas coisas em que realmente somos reconhecidos como top. Aceita-se isso, e ponto. Mas deixamos o futebol seguir sem planejamento, com um calendário ridículo e uma gestão que dialoga permanentemente com a corrupção – a cúpula da CBF que o diga.

E se somos o país do Futebol, exigimos que vença. Mas se não vencer, não olhamos o todo: encontramos um Bode expiatório e tudo fica em paz. No jogo contra a Costa Rica, se o placar não tivesse mudado quando o ponteiro já entrava nos acréscimos, o Bode Expiatório da vez poderia ter sido Neymar.

Sim! Ele mesmo. O mesmo Neymar que era visto quase como um Deus em seguida se transformaria em diabo. O “Menino Neymar” tão festejado pelo locutor, o mesmo locutor que já começava a preparar a torcida para cobrar do jogador o resultado adverso. Depois de expiar o namorado de Bruna Marquezine – talvez até com algo sobrando também para ela –, tudo voltaria ao normal. O brasileiro estaria de novo com a alma lavada e a responsabilidades longe de seus ombros.

Sorte de Neymar e Marquezine que o resultado mudou. O Brasil venceu. E o brasileiro voltou a ficar feliz. Não quer nem saber da corrupção na CBF, nem da falta de planejamento de nosso esporte, tampouco da carta branca que – através da nossa apatia e condescendência – damos a essa gente.

Azar do Brasil, que vai seguir dependendo dos valores individuais como recurso para superação da má gestão.

Azar muito maior ainda porque essa relação com o futebol também se dá com a política, com os serviços essenciais, a corrupção, violência, a educação ruim e a saúde calamitosa. Se as coisas não funcionam, encontramos alguém ou alguma coisa para culpar. E ponto. Não nos responsabilizamos se consagramos velhas práticas e até as referendamos, na medida em que as consideramos naturais. “O Brasil é assim mesmo”.

O drama maior é que, ao contrário do futebol, os problemas do Brasil não serão resolvidos com um talento individual que faça a jogada de gênio capaz de desequilibrar o jogo.

No caso do Brasil, jogamos uma final a cada dia. E a decisão é resultado do coletivo – com especial participação do brasileiro comum, que soma 209 milhões de jogadores.

TCE aponta apropriação indébita no caso dos recursos dos consignados


Rafael Fontesles, em solenidade em que é homenageado pelo governador Wellington Dias: explicações ao TCE sobre consignados

 

A oposição tem agora o respaldo do Tribunal de Contas do Estado (TCE) para cobrar explicações sobre o destino do dinheito que é descontado dos servidores em nome dos empréstimos consignados. Segundo relatório técnico do TCE, há atraso sistemático de repasses, apropriação indébita e o calote em 2017 pode ter chegada a R$ 200 milhões.

O relatório foi concluído ontem, assinado por sete técnicos, a maior parte integrante do Ministério Público de Contas. O texto final condena categoricamente o desconto de recursos do salário do servidor ou pensionista, sem o repasse devido. Sem meias palavras, qualifica a operação como apropriação indébita, como está à página 29:

“Negar o pagamento de despesas regularmente liquidadas, sem que haja justificativa sustentada jurídica e tecnicamente, faz com que o Poder Público possa se apropriar de recursos que a ele não pertence. Tem-se como ilegal o cancelamento, de ofício e sem a devida justificativa, de créditos a que credores/consignatários têm direito por despesa executada e liquidada”.

O relatório diz ainda que há um operador fantasma atuando no sistema financeiro do Estado. É o que fica claro à página 30, quando diz ter encontrado “autorização, criação e uso indevido de perfil de acesso não identificável com senha de administração no SIAFE-PI para registro de operações”.

São descobertas muito graves, que ganham contornos ainda mais graves quando observam-se os volumes de recursos envolvidos. Um buraco de mais de R$ 200 milhões referentes, entre passivos de 2017 não repassados (isto é, recebidos dos servidores e não repassados aos credores), passivos cancelados de 2016 e liquidações e passivos cancelados de 2017.

“Além disso” – conforme diz o relatório – até o final de 2017 “houve o cancelamento ilegal” de mais de R$ 324 milhões “relativo às despesas com pessoal que continham uma ou mais consignações retida”, que se somam a outros R$ 97,9 milhões referente à folha de pagamento; a quase R$ 226 milhões “referente à folha de inativos e pensionistas” e mais R$ 1 milhão referente a pensionista e inativos do BEP.

O relatório do TCE responsabiliza especialmente o corpo de diretores da Secretaria da Fazenda, à frente o Secretário Rafael Fonteles e o superintendente Emílio Júnior. Os dois e mais uma meia dúzia de outros servidores da SEFAZ serão chamados a dar explicações sobre essa situação.

O documento dá respaldo ao discurso da oposição, que apontava já para esse processo que é qualificado como apropriação indébita. Também reforça uma leitura de quase insolvência do Estado, que se desdobra em recursos de engenharia financeira para manter as contas minimamente sob controle.

PTC decide: Collor já não é mais candidato à presidência

 

O PTC decidiu que o senador Fernando Collor não é mais candidato a presidente da República nas eleições deste ano. A decisão foi tomada ontem, em Brasília, em reunião da Executiva Nacional do partido: por unanimidade, ficou decidido que o partido vai priorizar a eleição de uma bancada parlamentar mais robusta, e que o melhor caminho é a liberação dos diretórios estaduais em relação à disputa presidencial. Collor está fora da corrida presidencial.

Segundo o deputado Evaldo Gomes, presidente do PTC no Piauí, a decisão é importante porque permite que o partido seja arejado, dentro do projeto de renovação da política perseguido pelo PTC. Evaldo diz ainda que, dentro dessa renovação pretendida, não teria sentido a sigla apostar em um nome que tem uma biografia marcada inclusive por um processo de impeachment motivado por denúncias de corrupção.

Ainda segundo Evaldo Gomes, o PTC vai se empenhar em formar uma boa bancada que permita superar a cláusula de barreira – ter 1,5% dos votos nacionais para a Câmara, eleger pelo menos 9 deputados federais e alcançar 1% dos votos dados para deputado federal em pelo menos nove estados. No Piauí, o partido projeta a possibilidade de eleição de um deputado federal e pelo menos três deputados estaduais.
 

Candidatura Collor não emplacou

Apesar do argumento ético, a decisão do PTC de desistir da candidatura Collor pode ter uma explicação mais prosaica: a candidatura do ex-Caçador de Marajás simplesmente não deslanchou. Não emplacou. As últimas pesquisas a situaram com intenção de voto ao redor de 1%. O índice mostra a falta de viabilidade da postulação, ainda mais em um partido pequerno, sem grandes estruturas estaduais.

Para se viabilizar, Collor precisaria mostrar resposta popular ao seu nome, o que não aconteceu. Sem essa ressonância, ele ficou impossibilitado de dar o passo seguinte, que seria a busca de apoios em outras siglas. Agora acontece o desfecho: Collor deixa de ter o apoio até mesmo do próprio partido.

Ciro volta ao ataque e mostra que continua o ‘Velho Ciro’


Ciro Gomes: um potencial eleitoral que pode esbarrar nas reações do pedetista consideradas destemperadas 

 

Em almoço com o presidenciável Ciro Gomes (PDT), em abril passado, um parlamentar piauiense amigo do ex-ministro disse que tinha duas certezas sobre o futuro do pedetista. A primeira, que Ciro seria candidato à presidência, sim. A segunda, que no correr da campanha o representante do PDT faria alguma besteira capaz até de comprometer a campanha. A candidatura é uma perspectiva, mas ainda não está garantida. Quanto às derrapagens, dessas o ex-ministro já está cuidando. E no plural.

Esta semana foram duas derrapagens sonantes, trazendo de volta o Ciro Gomes tão criticado da campanha de 2002: sem trava na língua, pouco diplomático e cabeça quente. É o “Velho Ciro” de volta, destemperado, em um tipo de conduta que pode até ganhar alguns adeptos, mas pode afastar outros mais.

Em 2002, o à época candidato do PPS chegou a crescer bem nas pesquisas e ameaçou a liderança de Lula (PT). Mas foi atropelado pelos ataques de José Serra (PSDB) e pelos próprios tiros no pé. À época, ganhou a antipatia das mulheres ao dizer que sua então esposa, Patrícia Pilar, teria um papel de “dormir com o presidente”. Também brigou com ouvintes de uma rádio na Bahia e enfrentou manifestantes nas ruas, além de ter a companhia de um vice – Paulinho da Força – cheio de pendências a resolver.

Resultado de tanta querela: Ciro despencou e acabou quarto, atrás de Lula, Serra e Garotinho.

Nesse momento, Ciro ainda não aparece em posição de segundo turno. Mas o desempenho das últimas pesquisas e o movimento da centro-esquerda (e até de um pedaço da direita) no sentido de apoiá-lo, começou a colocá-lo como uma alternativa viável, real. O problema é que Ciro não contém a língua e compra briga com quem apareça na frente.

Esta semana chamou de “Capitãozinho do Mato” um vereador de São Paulo ligado ao movimento MBL. Também discutiu com a platéia em um debate em Belo Horizonte. Mostrou que não está muito para desavenças e simplesmente abandonou o auditório.

Com esses gestos, Ciro reafirma uma postura antiga, a de destemperado, de que não leva desaforo para casa. Uma postura que gera desconfiança em muitos. Nessa altura do campeonato, tal desconfiança só aumenta.
 

Imagem de ‘desaforado’ como estratégia

Segundo boa parte dos analistas, a demanda popular no Brasil de hoje pede um candidato com imagem de pulso forte. Isso explicaria a liderança de Jair Bolsonaro (PSL) e o crescimento de Ciro Gomes – embora não se relacione com a força de Marina Silva (Rede). Ciro e Bolsonaro estariam atento a essa demanda e esticando a corda, elevando o tom da "macheza".

O problema é que Ciro vai além da imagem de pulso forte e de quem diz o que pensa. Ele descamba para a imagem do destempero e do desequilíbrio. Muitos analistas também avaliam que esta eleição pode se decantar por uma opção do equilíbrio, uma alternativa capaz de reconciliar o país.

Se essa última versão prevalecer, Ciro – mais até que Bolsonaro – estaria destoando.

Candidaturas definidas? Nem no governo, nem na oposição


Wellington Dias e Ciro Nogueira: nomes intocáveis de uma chapa governista que gera novas discussões e alimenta especulações

 

“Não tem nada definido”.

Foi assim, com uma frase curta e seca que uma personalidade de estreita ligação com o MDB e o governo petista definiu o cenário pré-eleitoral, a apenas um mês do período das convenções partidárias. A frase tinha como endereço a chapa governista. Mas bem pode se referir ao cenário nas oposições, onde candidaturas começam a ser questionadas e nomes novos especulados para a disputa do Palácio do Karnak.

No governo, aumenta a suspeita dos aliados de que o PT cresce os olhos e até sonha em ter uma cabeça de chapa pura, a sigla oferecendo governador e vice. Esse sonho petista, até a semana passada, era sussurrado por alguns poucos mais atrevidos. Mas ganhou corpo depois da pesquisa Cidade Verde/Opinar, que colocou Wellington Dias (PT) em liderança folgada. Agora há mais vozes falando do terma, e sem a preocupação de apenas sussurrar. Deixam claro que só dois nomes estão realmente decididos: Wellington e Ciro Nogueira (PP).

No cálculo petista, os aliados se contentariam em ter as vagas ao Senado. Cabe perguntar: estarão mesmo os aliados contentes? Ao que tudo indica, não. A mesma personalidade que pronunciou a frase lá de cima repete uma outra frase, bem comum: “Muita água ainda vai rolar”.

É difícil pensar em desmonte da aliança governista, ainda mais no quadro revelado pela pesquisa, onde a oposição aparece fragilizada. Mas os oposicionistas também se movimentam. E mostram que também lá a pesquisa Cidade Verde/Opinar produziu efeitos.  Um movimento se materializa no sentido de tentar fortalecer o nome de Luciano Nunes (PSDB). Outro pode levar à apresentação do deputado Dr. Pessoa (SD) como candidato não a senador, mas a governador.
 

Oposição tenta mostrar viabilidade

Se o governo ganha tempo para a definição de sua chapa majoritária, a oposição tenta correr contra o tempo perdido e os índices (de intenção de voto) não conquistados. O prefeito Firmino Filho resolveu colocar a cara na campanha de Luciano Nunes. É um apoio importante, necessário para reafirmar a candidatura tucana como competitiva.

Mas o desempenho de Elmano Ferrer (Podemos) na pesquisa fez surgir um movimento em torno do deputado Dr. Pessoa. Ele que já havia se anunciado como postulante a uma cadeira no Senado, agora está sendo animado a disputar o Karnak. O cálculo é que ele e Luciano podem viabilizar o segundo turno.

E os que cochicham no ouvido do parlamentar do SD dizem que ele pode ser o nome que iria enfrentar Wellington nessa segunda volta eleitoral.

MDB tem lugar certo na chapa majoritária, diz João de Deus


João de Deus: PT tem posição fechada em relação à candidatura de Regina Sousa e chapa pura na disputa por vagas na Assembleia

 

O MDB terá um lugar certo na chapa majoritária. Quem garante é João de Deus, que até março era líder do governo na Assembleia Legislativa. A afirmação tem como base os encontros do PT, e as manifestações do próprio governador Wellington Dias. Ele nega que haja discussão interna sobre a possibilidade do partido pleitear a vaga de vice.

“Quem decide sobre a vice é o governador”, ressalta João de Deus. Segundo ele, os temas discutidos pelo partido se restringem à formação da chapa proporcional e a candidatura de Regina Sousa à reeleição. O petista diz ainda que o governador tem assegurado a presença do MDB na chapa majoritária.

“Eu deduzo que é a vice”, afirma, levando em conta que está assegurada uma vaga ao Senado para Ciro Nogueira (PP) e o PT reivindica a outra para Regina Sousa.
 

Chapa proporcional pura para Estadual

Segundo João de Deus, a principal preocupação do partido é com a formação da chapa proporcional – deputado federal e deputado estadual. A grande maioria das lideranças petistas defendia chapa pura – disputar cadeiras sem fazer aliança. As negociações devem levar, no entanto, a duas formas de disputa.

O partido “não faz cavalo de batalha” para a chapa pura no caso da disputa de vagas na Câmara dos deputados. Mas faz, sim, para a disputa por assentos na Assembleia Legislativa.

Os petistas dizem, no entanto, que o principal projeto do partido é a renovação do mandato do governador Wellington Dias. “Não queremos atrapalhar esse projeto”, diz João de Deus.

PSDB também duvida de Alckmin


Geraldo Alckmin: candidato tucano à presidência da República não decola e gera dúvidas dentro do próprio PSDB

 

Em sabatina realizada pelo SBT e Folha de S. Paulo, no dia 23 de maio, o pré-candidato do PSDB à presidência da República, Geraldo Alckmin, foi questionado pelo baixo desempenho nas pesquisas de intenção de voto. Sendo mais diretos, os entrevistadores perguntaram por que ele não decolava. A resposta foi com outra pergunta: “O que é decolar?”.

Quase um mês depois, Alckmin continua a não saber o que é decolar. E com desempenho bem fraco nas pesquisas até agora divulgadas, o candidato gera dúvidas dentro do próprio PSDB. Para saber as razões do tucano não ganhar altura, o próprio partido resolveu fazer uma sondagem de avaliação. E descobriu que a situação é mais grave que a imaginada: nem aqueles que dizem votar em Alckmin acreditam na candidatura do ex-governador paulista.

A avaliação era para consumo interno, mas o resultado ganhou projeção pública através da Folha de S. Paulo. O dado mais revelador é que até mesmo os paulistas que fazem a opção por Alckmin não acreditam sequer na candidatura, quanto mais na vitória do tucano. Segundo a Folha, esses paulistas acham que o ex-governador não será candidato – e será substituído por um outro nome.

As dúvidas em torno do potencial de Geraldo Alckmin não são de hoje. Ainda no final do ano passado já se questionavam os baixos índices. Mas o partido manteve as esperanças de uma reação a partir de abril, quando deixaria (como de fato deixou) o governo de São Paulo para cuidar unicamente da campanha. Foi pior: ao invés de crescer, caiu.

O candidato tucano tem carisma quase zero, o que lhe valeu o apelido de "Picolé de Chuchu". Mas o partido também vai mal de imagem, o que também não ajuda o candidato. Nesse quadro, o PSDB não sabe o que fazer com seu picolé.
 

Dória pode ser mais que ‘fake news’

Na mesma sabatina de maio, os jornalistas quiseram saber de Geraldo Alckmin o que pensava das informações que colocavam João Dória Jr como seu substituto como candidato á presidência. “É fake news”, disse. A informação torna a ganhar corpo e tem muita gente dentro do próprio tucanato que gostaria de ver o ex-prefeito no lugar de Alckmin.

Mas a substituição não é fácil – e talvez não agrade nem a Dória, nem ao PSDB.

Dória é líder na corrida pelo governo de São Paulo. Pode não ser interessante trocar de projeto nessa altura do campeonato. Também o PSDB deve pensar duas vezes: quem seria o candidato a governador de São Paulo? Levar Dória para acorrida presidencial pode significar por em risco também a possibilidade de eleição para o Palácio Bandeirantes.

Brasil leva Taça com quase todos os tipos de situação política


JK e Beline: o flerte do "Presidente Bossa Nova" com a seleção que encantou o mundo na Copa da Suécia

 

Na relação entre política e futebol, a história mostra que o Brasil vence a Copa do Mundo com quase todo tido de sistema político. Só faltou a monarquia. Assim, se é importante neste momento a discussão sobre o nosso tão criticado “presidencialismo de coalizão”, não tem muita (ou talvez mesmo nenhuma) relevância se somos presidencialistas ou presidencialistas.

Vale conferir como era o exercício do Poder nacional em cada ano de título:

• Copa de 1958, Presidencialismo: O regime era presidencialista puro. O governante de plantão era uma dos mais carismáticos presidentes que já tivemos: Juscelino Kubitscheck, o “Presidente Bossa Nova”, que vendia um Brasil renovado. Não deixou de flertar com o sucesso da Canarinho.
• Copa de 1962, Parlamentarismo: Estávamos no parlamentarismo-tampão, implantado como forma de contornar a crise pós-renúncia de Jânio Quadros. O Primeiro-Ministro era o discreto e pressionado Tancredo Neves.
• Copa de 1970, ditadura: O Brasil vivia o sufoco de um regime marcado pela excepcionalidade. O ditador de plantão era Garrastazu Médici, que patrocinou um dos períodos mais duros da história nacional. Ele aproveitava a Copa para posar de popular, com direito a radinho de pilha no ouvido, em pleno Maracanã. E usou (na marra, claro) a seleção para colher frutos políticos.
• Copa de 1994, Presidencialismo: Era o mandato do primeiro presidente eleito desde a redemocratização, mas já sem o eleito: no rastro de escândalos de corrupção, Collor havia renunciado e Itamar Franco estava no Planalto. Itamar posou com a Canarinho, para cumprir a função de presidente feliz com sua seleção vitoriosa.
• Copa de 2002, Presidencialismo de Coalizão: Fernando Henrique estava no poder. Também posou com a seleção. Mas a crise econômica nem dava muita margem ao uso político. Quem quis tomar para si os louros da vitória foi Ciro Gomes, que ficou em quarto lugar na disputa presidencial daquele ano.
 

O punho de Reinaldo nos céus argentinos

Há atletas reconhecidos por seu compromisso político. Talvez o mais destacado seja o Doutor Sócrates, que não deixou de lado o engajamento mesmo quando estava em campo. Foi ele quem personificou a Democracia Corintiana, que reverberava no pedido de democracia no Brasil.

Antes de Sócrates tivemos um baixinho rápido que esteve com o Brasil na Copa da Argentina, em 1978. Era José Reinaldo de Lima, ou simplesmente Reinaldo, inesquecível sobretudo para os torcedores do Atlético Mineiro. Além de craque, Reinaldo era engajado. E deixou claro esse engajamento mesmo vestindo a camisa da seleção, quando esse tipo de manifestação é desestimulada.

Reinaldo costumava comemorar seus gols de forma que deixava claro sua posição política, com uma anunciada disposição à luta: firmava os dois pés no chão e, o tórax empinado, lançava o braço esquerda para trás enquanto levantava o braço direito, com o punho fechado.

Fez isto em plena Copa da Argentina, em um jugo contra a Suécia. Ao marcar, levantou seu punho para os céus argentinos. Era um Reinaldo que deixava um recado para o Brasil, onde a ditadura mostrava suas debilidades e o povo se colocava também disposto à luta. O gesto servia também para as donas da casa, igualmente sob a crueza de uma ditadura.

Ganhar ou perder: a Copa pode ter efeito sobre a política?


Pelé na final de 1970: craque da seleção de um país que vivia uma ditadura empenhada em tirar proveito do sucesso da Canarinho

 

O Brasil estréia amanhã na Copa da Rússia. A Canarinha está entre as favoritas. Indiferente ao favoritismo, há quem torça contra – em protesto, motivado pela (crítica) situação do país, ou contra a corrupção escancarada dos últimos tempos. Um bom exemplo é o grupo de teresinenses que resolveu torcer pela Argentina. Mas há também quem torça a favor, mesmo sendo contra o governo – porque mais importante é o jogo, e a seleção nacional.

A história mostra diversos exemplos de uso político do esporte. Há o caso das olimpíadas de Berlim, em 1936, quando Hitler quis mostra a “Nova Alemanha” ao mundo. Ou o empenho (dentro e fora dos campos) da ditadura argentina, em 1978, para fazer a Albiceleste campeã. E há o caso brasileiro, com exemplos e mais exemplos dessa mistura. Um dos mais conhecidos refere-se à destituição de João Saldanha, às véspera do embarque para o México, em 1970.

No caso do “Escreque” de 70, é bom lembrar que estávamos em uma ditadura. E o uso do futebol foi explícito, como forma de empanar as atrocidades que aconteciam nos porões do regime. Também tivemos a reação dos mais extremados opositores de então: diz-se que torciam contra, para não fortalecer a ditadura.

Vale uma reflexão: o resultado da Copa interfere no humor do brasileiro? Ganhar ou perder pode definir, por exemplo, a relação do eleitor com o governo de plantão?

Vamos conferir a partir dos cinco títulos conquistados pelo Brasil (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002), no comparativo com as eleições presidenciais. Nessa lista de cinco, vamos acrescer as duas Copas realizadas no Brasil (1950 e 2014), ambas perdidas.

• Copa de 1950: Foi um ano de eleição presidencial, que se realizou em outubro. Portanto, depois da Copa. O Brasil perdeu a Taça em casa. E a oposição ganhou a eleição com Getúlio Vargas.
• Copa de 1958: Não coincidiu com eleição presidencial, que só aconteceria dois anos depois. O primeiro título foi só festa.
• Copa de 1962: A eleição presidencial aconteceu dois anos antes. Assim, o segundo título foi só e somente só festa.
• Copa de 1970: Sob ditadura, o país não votou para presidente. Apesar disso, houve um amplo uso político da seleção, antes, durante e depois da Copa que gerou o Tri para o Brasil.
• Copa de 1994: Taça conquistada. O governo conquistou também a presidência, através de Fernando Henrique. O êxito eleitoral, no entanto, talvez se explique mais pelo sucesso do Plano Real.
• Copa de 2002: Fernando Henrique era presidente, e o Brasil vivia uma crise econômica. A seleção ganhou a Copa, mas não adiantou: a oposição levou a eleição com Lula.
• Copa de 2014: Dilma Rousseff era presidente, e fez de tudo para não aparecer nos estádios, temendo vaias. O Brasil fez um papelão, o país se dividiu nas urnas mas o governo venceu, com a reeleição de Dilma.

Traduzindo: não há relação de causa e efeito entre os resultados em campo e os votos colhidos nas eleições presidenciais do mesmo ano de Copa.

Copa mostra marcas e ídolos planetários


Ídolo plenatário: craque da limitada seleção do Egito, Salah ganhou projeção mundial como uma das estrelas do Liverpool 

 

A Copa da Rússia reafirma um traço que o futebol já mostra há muito: é um fenômeno planetário. A globalização está presente, e isso pode ser visto nos ídolos e nas marcas que dominam a principal competição do futebol. Esse traço planetário, no entanto, traz junto um risco para a própria competição, ainda que não propriamente para o futebol.

Vale lembrar, as relações globais estão presentes no futebol muito antes da globalização ser consagrada como um fenômeno econômico e cultural. As aventuras internacionais de atletas podem ser verificadas há um século. Os atletas sulamericanos, por exemplo, já fizeram parte de times históricos da Europa lá pelos anos 20 e 30 do século passado.

Um bom exemplo é um nome bastante familiar ao Brasil: Béla Guttmann. Húngaro, Guttmann começou a jogar em 1921, ainda seu país. Depois migrou para times austríacos e para os Estados Unidos de onde, já nos anos 30, regressaria à Áustria. Aí começaria uma planetária carreira de técnico: Áustria, Holanda, Hungria, Romênia, Itália, Argentina, Brasil, Portugal etc. Revolucionou o futebol, inclusive no Brasil, como treinador do São Paulo. Quebrou os rígidos esquemas táticos. E se deu bem: ganhou duas Copas dos Campeões com um Benfica magistral, já nos anos 60.

Hoje o futebol está cheio de Béla Guttmann. Gente de um país atuando em outro. E sendo ídolos planetários. Um exemplo: a grande maioria não sabe nada do Egito, mas sabe quase tudo de Salah. Sabe principalmente que ele é uma reluzente estrela do Liverpool.

Esse protagonismo de ídolos planetários, independente da nacionalidade, reforça a centralidade dos clubes no coração dos torcedores de muitos países. Uns (e não só portugueses) torcem pelo Real Madri por causa de Cristiano Ronaldo. Outros se descabelam pelo PSG, por conta de Neymar (e não só brasileiros). E daí por diante. A FIFA sabe disso e teme pelo futuro da Copa, no confronto com outras competições, como a Champions.
 

Marcas planetárias faturam no futebol

Ao lado dos ídolos planetários, estão juntinho as marcas planetárias. A globalização pode ser vista na própria Copa da Rússia, onde sete marcas aparecem como patrocinados do evento. Sete marcas. Seis países diferentes. Duas dos Estados Unidos. Outras seis distribuídas entre China, Alemanha, Coreia do Norte, Rússia e Catar, cada país com uma marca.

Adidas – Alemã. Empresa de material esportivo.
Coca Cola – Norte americana. Marca de refrigerante.
Gazprom – Russa. Empresa de petróleo.
Kia Motor/Hyundai – Coreana. Empresa automobilística.
Qatar Airways – Catari. Empresa aérea.
Visa – Norte-americana. Área financeira (cartão de crédito).
Wanda – Chinesa. Conglomerado com atuação diversa, destaque para multimídia.

Todas com o mesmo objetivo: buscando mercados planetários às custas de um esporte há muito global.

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