Cidadeverde.com

Lava Jato: o que vem depois?


Marcelo Odebrecht: prisão do empreiteiro simboliza o novo tempo tradizo pela Lava Jato

 

Depois de três anos, a Operação Lava Jato é festejada pela grande maioria do Brasil e atacada por alguns segmentos. Mas os números que esses três anos oferecem parecem ser eloquentemente reveladores: a corrupção faz parte do funcionamento do sistema público brasileiro. E, além da certeza de que é preciso passar o país a limpo, fica a pergunta: o que vem depois da Lava Jato?

Desde 17 de março de 2014, com a prisão inaugural de Alberto Yousef, foram já quase 4 dezenas de operações. E já são 83 os condenados.

A Lava Jato quebrou paradigmas. O primeiro, aquele que dizia que a Justiça, no Brasil, só chegava para ladrões de galinha. Entre os condenados e os investigados que estão em prisão preventiva, há “buena gente”. Políticos de primeira linha, como Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda; e empresários top, como o antes todo poderoso Marcelo Odebrecht.

Também estabeleceu novos conceitos dentro da Justiça Brasileira, especialmente ao se aproximar da visão do Direito Americano, que – entre outras coisas – valoriza a punição pecuniária. Para isso, valeu-se de um instrumento existente desde o início dos anos 1990, mas só regulamento em 2013: a delação premiada.

Em troca de delações ou de multas severas, muitos têm reduzido penas – e revelado muitos outros participantes dos esquemas de corrupção. Desde o seu princípio, já foram recuperados cerca de R$ 8,1 bilhões. Desses, R$ 7,1 bilhões nos acordos de leniência (acordos com empresas). O outro bilhão são valores devolvidos por delatores pessoas físicas.

Números tão robustos dizem o mínimo: o escândalo era enorme e a Lava Jato conseguiu recuperar algo do que foi surrupiado. E diz também que é preciso repensar o funcionamento do sistema político brasileiro.

E aí surge a pergunta: e depois da Lava Jato, o que vem?

Espera-se que o país aproveite a oportunidade para rever várias de suas práticas, muitas delas amparadas em legislação caduca ou matreiramente complexa – como é o caso da legislação eleitoral e partidária. Cobra-se ainda outra atitude da cidadania, principalmente avaliando melhor seus representantes, bem como no acompanhamento (e cobrança) da ação desses representantes.

A Lava Jato, sem dúvida, divide o Brasil num antes e num depois. Por enquanto, aponta para o Brasil melhor no futuro imediato. Mas exemplos como a Operação Mãos Limpas, na Itália, servem de alerta. Lá, acordos de elites jogaram no lixo as conquistas da Mãos Limpas, arrastando o país para o passado.

Aqui, a vigilância e a cobrança devem ser permanentes. Só assim, a Lava Jato não ficará apenas como um registro pontual da história brasileira.