Cidadeverde.com

Quantos 'Pastor-Laranja Everaldo' as eleições brasileiras aguentam?


Aécio e Pastor Everaldo: ao invés de adversários, amigos, irmãos e camaradas com as bênçãos da Odebrecht

 

Causou espanto, nas delações dos ex-executivos da Odebrecht, a revelação de que o Pastor Everaldo, candidato a presidente pelo PSC em 2014, não passava de um “laranja”. De fato, o Pastor encenando um teatro que atendia aos interesses de outro ator, no caso o tucano Aécio Neves. Mas é para causar tanto espanto a presença de laranjas nas campanhas brasileiras – as piauienses incluídas?

Se algum espanto possa causar de verdade a revelação é a afirmação de que a Odebrecht atribuía algum futuro ao tal Pastor. É mais crível imaginar que, ao despejar R$ 6 milhões nas contas de um político sem expressão, a Odebrecht queria mesmo agradar a outro cristão: o também evangélico Eduardo Cunha, que apresentou Everaldo à Odebrecht e se postulava como seu padrinho.

Em Cunha a Odebrecht enxergava futuro. Enxergava, portanto, a possibilidade de retorno. E Cunha mostrou ter futuro, ainda que por pouco tempo, chegando à presidência da Câmara. E é possível que, no posto, tenha facilitado algumas tramitações de matérias e obstruído outras, conforme o interesse da doadora.

Mas a Odebrecht sempre soube otimizar seus investimentos: impôs ao inexpressivo Pastor o papel de laranja, na estratégia de ser camarada com Aécio nos debates entre candidatos em rede nacional. Assim, o Pastor perguntava a ele, Aécio, e sempre perguntas feitas sob medida. Cabe até uma curiosidade: as perguntas também tinham a contribuição da Odebrecht, da mesma forma que teve na elaboração da famosa “Carta ao Povo Brasileiro” de Lula, em 2002?

Mas o papel de laranja, risonhamente desempenhado pelo Pastor Everaldo, não é novidade. Nem no Brasil. Nem no Piauí. Aqui, na eleição de 2014, recaia sobre um dos candidatos ao Senado a suspeita de que cumpria o papel de laranja. Não apresentava propostas. Atacava apenas um adversário. Ponto.

Ponto? Não. Vírgula!

Porque, conforme se dizia em qualquer roda era que atacava um único candidato só e somente só porque cumpria o papel de laranja de outro que se empenhava de verdade pela conquista do posto. Fácil provar? Não.

Da mesma forma sempre se desconfiou dos laranjas, inclusive os nacionais – tais como o Pastor Everaldo. Neste caso, desconfiava-se da suavidade que dispensava a Aécio. E precisou a delação da Odebrecht para evidenciar que as suspeitas eram reais. Que as conversas de mesa de bar tinham fundamento.

Os laranjas são filhos do sistema partidário onde a fabricação de siglas é mais fácil que a abertura de uma pequena empresa. E certamente rende mais. Muito mais, como deixam evidentes as delações da Odebrecht.

Fabrica-se partida como instrumento de negociata. Para uso do fundo partidário. Para troca de favores na eleição (inclusive como laranja). Para a venda de apoio aos governos.

Se quisermos mesmos reduzir essa negociata, é hora de diminuir o número de partidos.

Seria fácil. Basta uma cláusula de barreira. Ou o fim (de verdade) das coligações proporcionais. Mas aí vem a pergunta de sempre: quem (no Congresso) quer isso mesmo?

A persistir o quadro atual, não sabemos é quantos Pastor Everaldo as eleições brasileiras aguentam.