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Gravação com Temer mostra relação ‘normal’ da política com pilantragem


Aécio e Temer, protagonistas de gravações da JBS: faceta de um Brasil "esperto" que precisa ser mudado

 

Nos dias anteriores à bomba da JBS, o Brasil via o presidente Michel temer viabilizar a tramitação das reformas trabalhista e da Previdência à base do velho e conhecido “toma lá, dá cá”. E a reação era sempre mesma: no Brasil isso é normal. É assim que se faz política. As gravações feitas pelos donos da JBS mostram outra faceta do “é assim que se faz política”.

A normalidade é a esperteza. É a malandragem. É o levar vantagem em tudo, como bem diz a tão conhecida Lei de Gerson.

Mas aí é que vem o problema da nossa política: a pilantragem naturalizada. E o que o país pede – ou pelo menos brada, discursa – é um novo rumo. Tirar da normalidade e colocar no estranhamento esse tipo de conduta. Fazer do jeitinho brasileiro – tão festejado aqui quanto reprovado mundo a fora – um ato estranho, condenável.

As revelações em torno da delação dos donos da JBS mostram um líder de oposição pedindo R$ 2 milhões de reais como o adolescente que pede à mãe um trocadinho extra para comprar o presente da namoradinha. Vê-se o presidente da República recebendo sem constrangimento, e já alta hora da noite, um sujeito que – todo mundo sabia – era alvo de suspeitas e, provavelmente, de investigações.

As gravações da JBS são apenas a última cena dessa que parece uma ópera bufa mas é, de verdade, uma tragédia. São década e décadas de malandragem festejada, a confirmar a análise de Márcio Moreira Alves, em livro de 1994, sobre a diferença entre Estados Unidos e Brasil, diante de um escândalo. Lá, diz Márcio, se o sujeito é pego com a boca na botija, está lascada. Aqui, acha logo um jeito de fazer um acordo com o esperto do lado, num esquema de proteção mútua.

O raciocínio que perdura é “me proteja que, quando for sua vez, eu protejo você”. Esse argumento foi usado expressamente por Eduardo Cunha, quando do julgamento em que teve o mandato cassado por seus próprios pares. Dizia sem sutilezas: se vocês me cassam, logo poderão ser vocês.

Tomara que Eduardo Cunha tenha razão nesse quesito particular. Porque o que o Brasil precisa não é naturalizar a malandragem. O país carece – e carece muito – é de práticas ética, pautadas pelo coletivo e o interesse público. Festejar a malandragem, naturalizar o “toma lá, dá cá” é uma forma muito simples de legitimar essa faceta do Brasil que precisa ser modificada.