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Acrobata n 7 - Se Equilibrar Na Tormenta

Acrobata n 7 -- Se Equilibrar Na Tormenta

(Editorial)

 

Os tempos de crise nos trazem questões novas a serem resolvidas, nos fazem rever as perspectivas e as fontes energéticas que nos alimentam. O cenário exige in­ventar um habitat de ideias novas para superarmos as limitações da cultura capitalística que desmobiliza nossas forças. Talvez reabitar a morada ancestral que abandonamos em troca de um projeto de acúmulo e de uma existência vazia. A Acrobata chega com signo do número 7, buscando um equilíbrio em meio à tormenta política que vivemos.

Para manter viva a ligação com o debate indígena no Brasil – compromisso que assumimos desde a primeira edição – Amilcar Bezerra faz uma reflexão política a partir do filme “Martírio”, realizado por Vicent Careli (2016). Temos também a revolucionária Coleção Tembetá, organizada e publicada pela editora Azougue, com 12 livros de pensa­dores indígenas contemporâneos.

 

 

A entrevista da edição é uma celebração aos 80 anos do provocador Jomard Mu­niz de Britto e sua poética pedagógica. Imageticamente a edição ganha feições amerín­dias pelo trabalho do músico e artista visual Gil Duarte.

A discussão literária se adensa com o texto da escritora e pesquisadora Élida Lima sobre o poeta paraense Max Martins. As feiras de publicações independentes que se espalham por todo o Brasil ganham espaço no texto da Ana Rocha, figura à frente da Polvilho Edições. O conto dessa edição é do Carlos Henrique Schroeder. A poesia, como sempre, traz um mapeamento sem fronteiras: Ricardo Aleixo, Mar Becker, Júlia de Car­valho Hansen, Philippe Wollney, Marcelo Ariel, Nayara Fernandes, Wanda Monteiro e Maria Rita Kehl, além das traduções de haikais japoneses feitas por Paulo Franchetti.

Convidamos três críticos de cinema para abordar eixos temáticos inéditos na revista: o cinema Blaxploitation, conduzido pelo jornalista Heitor Augusto; as marcas do horror udigrúdi no cinema brasileiro dos anos 70, escrito pelo pesquisador Carlos Primati; e, para fechar, o cineclubista Alderon Marques compartilha suas impressões de “Nise: o coração da Loucura” (2016), dirigido por Roberto Berliner.

Na sessão “ensaio visual”, a artista Luna Bastos apresenta o seu trabalho e fala um pouco sobre suas recentes produções, do seu universo de formas e afetos. O nosso “processo de criação” chega chegando com o espaço de gestão e criação CAMPO, que tem uma forte atuação com a dança contemporânea.

Com a montagem dessa edição, esperamos poder proporcionar um bonito arqui­pélago sensível e um pouco de ar puro para os nossos leitores.

 

 

 

Balada Literária em Teresina - Programação

BALADA LITERÁRIA EM TERESINA

Autor homenageado: TORQUATO NETO

 

UMA GELÉIA GERAL

A Balada Literária, evento que acontece há doze anos na Cidade de São Paulo, chega a Teresina, em uma versão reduzida de dois dias, de 20 a 21 de outubro no Complexo Cultural Pedro II.

Tudo porque o homenageado deste ano é o piauiense Torquato Neto. "Há tempo que eu quero tirar um pouco a Balada Literária do grande centro e levá-la a outros quatro cantos", diz o escritor, criador e curador do evento, Marcelino Freire, que já reuniu, nesses anos "baladeiros", nomes como os de Antônio Cândido, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto, Adélia Prado, João Ubaldo Ribeiro, Lygia Fagundes Telles e Ney Matogrosso.

"Uma característica da Balada sempre foi essa mistura. A de todos os gêneros de expressão. Do Piauí já vieram muitos autores. De todo canto vem sempre um artista se juntar a nós". Irmanar-se àquilo que Freire chama de "literatura sem frescura". No ano em que Torquato é celebrado, não poderia ser diferente. Haverá escritores, cantores, pintores, cineastas. Para a Balada Literária de São Paulo, que vai de 8 a 12 de novembro, já estão confirmadas, por exemplo, entre outras, as presenças de Tom Zé, Arnaldo Antunes, Márcia Castro, Conceição Evaristo, Paulo Lins, Milton Hatoum e Jards Macalé. Ele, inclusive, um dos principais parceiros de Torquato, que fará o show de abertura da Balada em Teresina na noite do dia 20 de outubro, no Theatro 4 de Setembro, com a participação especial da cantora piauiense Patrícia Mellodi.

O Governo do Estado do Piauí, com a sua secretária de cultura, entendendo a importância dessa homenagem, que já tem rendido frutos para a redescoberta da obra de Torquato, é um dos que apoiam a Balada Literária, que também terá uma versão em Salvador, de 3 a 5 de novembro. Da capital baiana, virá o poeta Nelson Maca, que estará no show de Emerson Boy no encerramento, a acontecer também no Theatro 4 de Setembro.

Alguns artistas locais, como Thiago E, Demétrios Galvão, Wellington Soares e Lucas Rolim, tanto participarão da festa em Teresina como da de São Paulo. "Eventos assim ajudam a humanizar a figura dos escritores. Torquato tinha essa humanidade e essa pluralidade. Vamos festejar isto em grande estilo e com muito afeto. A família de Torquato Neto, o primo George Mendes e o filho Thiago Nunes, será meio que a anfitriã das três Baladas. Vai ser um viva coletivo a Torquato. Todo mundo junto. Em uma grande geléia geral", diz Marcelino Freire. "Em tempos tão sombrios, a arte de Torquato vem nos dizer ainda mais. Sempre atual, sempre à frente do seu tempo", completa.

Para saber mais sobre a programação em Teresina, em Salvador e em São Paulo, é só acessar: www.baladaliteraria.com.br

Abaixo, confira o que vai acontecer em Teresina e venha participar.
A entrada é franca.


BALADA EM TERESINA,
dias 20 e 21 de outubro – entrada franca:


Dia 20 de outubro, sexta:

- 18h00: Abertura na Galeria do Clube dos Diários:

“Desde que saí de casa / trouxe a viagem de volta / gravada na minha mão”

- Exposição “Torquato’s - fragmentos poéticos” com curadoria de GEORGE MENDES;

- Exposição “Poesia visual”, com curadoria de GUGA CARVALHO;

- Entrega da programação da BALADA LITERÁRIA 2017

- 19h00: Espaço Osório Júnior,

Geléia Geral:

- Tensão, Tesão e Criação: Roda de Poesia sob o comando de JOÃO HENRIQUE VIEIRA e DEMETRIOS GALVÃO, com participação de LARA MATOS e LUCAS ROLIM, de Teresina, e de OMAR SALOMÃO, do Rio de Janeiro. Na ocasião, será lançada a sétima edição da revista Acrobata.

- 20h00: Espaço Genu Moraes,
“Pra Dizer Adeus”:

Lançamento dos livros :

“Torquato Neto: um poliedro de faces Infinitas”, de Edwar Castelo Branco e Vinicius Cardoso; “O risco do berro”, Isis Rost; e

 “Fragmentos Poéticos – A Palavra em Construção”, que registra o processo criativo de Torquato Neto, com George Mendes e Viriato Campelo. Na ocasião, também será lançada a nova edição da revista Revestrés

- 21h00 – Theatro 4 de Setembro,

Let's Play That:

- PATRÍCIA MELLODI, abrindo o show de Jards Macalé

- Show com JARDS MACALÉ

 

Dia 21 de outubro, sábado:

10h00 – Teatro Torquato Neto,

“Leve um homem e um boi ao matadouro.
O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi ”.

- Uma conversa sobre a arte feita fora e dentro do grande eixo.
MARLEIDE LINS conversa com PAULO WERNECK, da revista Quatro Cinco Um, MARIANA FILGUEIRAS, jornalista que descobriu
a voz do Torquato, e OMAR SALOMÃO, poeta 

- 14h00: Teatro Torquato Neto,

Louvação:

Um encontro com os amigos e familiares do Anjo Torto: WELLINGTON SOARES conversa com GEORGE MENDES, CLAUDETE DIAS e DURVALINO COUTO 

- 16h00: Teatro Torquato Neto,
“Não faço a menor questão de fazer sentido.
Basta o meu amor redivivo”
 

- Uma conversa sobre letra e música com JARDS MACALÉ e CARLOS RENNÓ, mediação de PATRÍCIA MELLODI e THIAGO E

- 18h00: Espaço Osório Júnior,
Sarau Poético:
“Eu, brasileiro, confesso minha culpa meu pecado”.

- Canto de Poesia com ÉLIO FERREIRA, FELICIANO BEZERRA

- Instrumental: MACHADO JÚNIOR e RICARDO TOTTE 

- 19h00 – Theatro 4 de Setembro,
“Só quero saber do que pode dar certo.
Não tenho tempo a perder”

Uma MESA DE GLOSA, vindo direto de Pernambuco, tem como tema a vida e obra de Torquato Neto, com os poetas populares DAYANNE ROCHA,

ELENILDA AMARAL, DUDU MORAIS, HENRIQUE BRANDÃO e CAIO MENESES, com mediação de LUNA VITROLIRA

- 21h00: Theatro 4 de Setembro,
“O Piauí está ficando cada dia mais perto”:

- Show com EMERSON BOY e CONVIDADOS 
Abertura com o poeta NELSON MACA,
de Salvador

 

ONDE ACONTECE A BALADA
EM TERESINA:

-
GALERIA DO CLUBE DOS DIÁRIOS, THEATRO 4 DE SETEMBRO, ESPAÇO OSÓRIO JÚNIOR, ESPAÇO GENU MORAES e TEATRO TORQUATO NETO (dentro do Complexo Cultural do Theatro 4 de Setembro, Praça Pedro II, 14)


PARA SABER MAIS SOBRE A BALADA LITERÁRIA 2017, INCLUSIVE SOBRE A PROGRAMAÇÃO
EM SALVADOR E SÃO PAULO,
acesse: www.baladaliteraria.com.br

A Sintaxe da Cidade e da Natureza em (In)visíveis Cotidianos, de Carlos Orfeu

A Sintaxe da Cidade e da Natureza em (In)visíveis Cotidianos, de Carlos Orfeu

Alexandra Vieira de Almeida*

 

No livro “(in)visíveis cotidianos”, de Carlos Orfeu (Literacidade, 2017), encontramos as duplas faces da natureza e do urbano. Se, por um lado temos a desertificação da cidade (com sua violência e agressividade), podemos perceber uma densificação da natureza nas coisas, na linguagem. Utilizando uma poética dos objetos, que, como o poeta mesmo diz que “racionaliza-se”, Carlos Orfeu, ricamente, constrói uma sintaxe dos objetos e da natureza, uma “COISILÍNGUA” ou uma “NATURALÍNGUA”, revelando que as doses de animalidade são pertencentes a ambas as linguagens: “...sobre a sintaxe liquefeita do chuveiro”.

Ele constrói essa sua linguagem própria a partir não do choque entre real e signo, mas nos seus múltiplos entrelaçamentos: “...a cadeira é um signo/infinito de leituras/em sua anatomia dura”. A matéria da poesia não é feita, aqui, de sonhos, mas dos movimentos do real, aquele que se esconde nas malhas de sua visibilidade: “...no lado esquerdo da cena/o espelho/num passe de mágica/come a sala/a flor/o grito/o sonho’’. A palavra tem sua própria realidade que é feita de carnadura e de fantasmas, do visível e do invisível, aquilo que se depreende do encobrimento das formas, o que lhe cobre com seu manto de perversidade.

A (in) visibilidade é feita de sua poeticidade magistralmente elaborada, cobrindo as coisas, a natureza, a cidade, o homem de seus mistérios grávidos de linguagens inaugurais. Carlos Orfeu, belamente, recria o real pela linguagem imagética, com metáforas plenas, cheias, perfeitas a plenos pulmões: “...bailarina surrada é o jornal/no solavanco do vento.” A agressividade, a violência não é algo exclusivo do urbano, isso também se densifica na natureza, mostrando a unidade de tudo no seu canto universal. No verso “no focinho do fuzil” se vê o hibridismo entre o animal e o artificial. Não há trégua, refúgio. O temor e o tremor acorrentam o homem e a natureza.

O que nos une é o sentido que a poesia nos dá: “...entre nós o deserto se desfaz na desconstrução da ausência/grito que nos une”. O grito, essa elevação da voz artística, de revolta, de senso crítico preenche o deserto de uma plumagem verde de esperança. A cidade não é mais um cemitério de ossos, em Carlos Orfeu, eis a ultrapassagem. A poesia é um refúgio para os homens que podem caminhar de mãos dadas, embora a realidade apresentada pelo poeta seja um beco sem saída. Basta ao verso essa travessia, feita de pão e espírito.

Esse grito é caracterizado por versos curtos, sintéticos que desconstroem a sintaxe das florestas e das cidades, abarrotadas de signos, de informações. O verso mínimo potencializa o real naquilo que ele tem de essencial, tirando todo excesso dos sinais urbanos e dos tons agressivos da natureza. Na bela contracapa assinada por Flávio Castro, temos: “A sua poesia é enxuta: gestos mínimos grafitados na galáxia da página”. É intenso o jogo entre a visibilidade das palavras e a invisibilidade dos espaços brancos, prenhes de vazios, numa poesia que joga com a arte concreta.

Por outro lado, a linguagem da modernidade de Carlos Orfeu é revestida pela antiguidade do canto lírico; a sua poesia, rica em imagens originais, causa um estranhamento e, ao mesmo tempo, uma familiaridade com relação a tudo aquilo que vivenciamos. Como disse Goethe numa carta a Schiller: “O poeta é poeta por saturação da experiência”. Essa saturação daquilo que vivenciamos é, paradoxalmente, dirimida pelo minimalismo dos versos curtos de Orfeu que, apesar de sua enxutez, potencializa sentidos múltiplos em sua abertura, em sua experimentação.

A cidade é cadavérica, revela seu rosto de morte e assombro, o que lateja vida é a plenitude dos versos do poeta por ora aqui estudado: “...nada pode consolar o homem em tempos caóticos”. Não há saída, refúgio na violência do mundo, que pode ser salvo pela poesia de poetas como Carlos Orfeu. Essa crueldade, negatividade é muito bem explicitada numa das epígrafes do livro, da grande escritora Maria Helena Latini: “Às vezes a vida/ é um bife cru sobre a pia/Simetria de azulejos brancos/e uma faca suja de sangue.”

No belo prefácio de Airton Souza ao livro de Carlos Orfeu, temos: “É exatamente com essa maestria que Carlos Orfeu vem cerzindo, a cada poema, o cotidiano e seus invisíveis dilemas na pele dos homens diários”. Em Orfeu a nudez das paredes do cotidiano, algo aberto, exposto em sua nudez, leva à impossibilidade do que não pode ser visto. O silêncio convive na sua frieza e mutabilidade: ...”nas paredes/em despudor de silêncio/a litania do invisível”. O que não pode ser dito em linguagem cotidiana é gritado nos mais raros versos desse poeta excepcional que sabe mostrar em meio ao mofo, à rachadura, a quebra do cotidiano, o segredo da epifania, do imóvel e do silencioso: “...no cio do limo/a sinfonia do mofo/lavra/o segredo/da/rachadura”. Esse silêncio, essa rachadura do invisível, do indizível e do silêncio da linguagem é a contraface do grito, que pode ser dito através da fragmentação da linguagem, em cortes abruptos dos versos, levando à liquefação da realidade que se consome em um torvelinho insano.

Tal riqueza na poesia de Carlos Orfeu revela que ele não é um poeta de um único tom, mas demonstra as múltiplas faces da realidade. Como um Proteu que se metamorfoseia em inúmeras formas, apresenta as verdades aos leitores preparados. Não a verdade engessada e absoluta, mas aquelas relativas ao dom de poetar, que é profecia, vidência, o olhar o invisível com olhos do cotidiano. No livro Além do visível: o olhar da literatura, Karl Erik Schollhammer escreveu: “O poder da palavra é identificado com o despertar da imagem mental durante a leitura, uma imagem essencial na dinâmica cognitiva que se nutre tanto dos recursos imaginários fornecidos pela experiência viva do leitor, quanto das imagens culturais acumuladas em sua formação com ser social”.

Carlos Orfeu potencializa, através de seus versos imagéticos, o poder da imagem mental, acionando a criatividade do leitor que preenche com a imaginação os interstícios cortantes dos seus versos que levam a um processo de esvaziamento e preenchimento a partir da palavra viva e dinâmica, próxima à pele da vivência, do cotidiano e da experiência. Numa anti-epifania das coisas, o poeta aqui em questão quebra com a maravilhosa imagem do noturno, símbolo da beleza dos poetas e do lírico.

A partir do viés cotidiano, Orfeu causa uma desestruturação: “...o verde balança/a noturna tristeza do quintal/o banzo blues/empluma/insone/num tanque/o satélite/minguante/cintila/diáfano/na/turva/água/do/dia/passa-/do.” Aqui, o poeta quebra o horizonte de expectativas do leitor. Em Orfeu, temos imagens naturais/urbanas dentro e fora da casa, revelando uma realidade em camadas como as cascas das cebolas. Ele, a partir da sutileza da linguagem lírica, descreve a agressividade da natureza, do fora: “...no canto da varanda/por onde formigas/brotam como fachos negros//e canibalizam o feto da chuva/na casca da cigarra morta”.

Alexei Bueno faz uma grandiosa análise da poesia brasileira no livro Uma história da poesia brasileira. Vejamos como ele interpreta um dos significados da poesia: “...onde, lançando mão desse material de banalíssimo uso diário, vulgarizado em todos os instantes da nossa vida, que é a palavra, algo se constrói que não nasce dela, apenas se utiliza, e a transcende largamente.” Aqui, para Carlos Orfeu, é o lado invisível da linguagem. A partir do cotidiano, ele o transcende a partir da palavra, tentando superar o caos e a violência como resistência.

Na experiência erótica, por exemplo, o poeta revela a profundidade da vida e da morte, o que é visível e invisível aos olhos: “...cama vazia//manhã/cinzenta//sem você/a cama/é um fosso//-frio-//o quarto/um homicídio por dentro.” A carnalidade não está apenas dentro e fora daquilo que nos circunda. Está dentro do corpo, nas entranhas do ser, que é feito de vida e de morte, de Eros e Thanatos. A morte por dentro é uma ausência que a chama não pode apagar. O fora, o quarto é o resquício desta presença que quer continuar na consciência dos amantes. Refletir sobre o prazer, eis o outro lado dos versos de Orfeu, suavizando a violência do mundo esquartejado e fragmentado pelo medo.

Portanto, nesse poeta que se apresenta com a faca certeira dos grandes poetas, não deixando nada a dever à poesia maior, ele mescla o sujo, o feio com o belo, o grotesco e o cru com o delicado. Com a aceleração do discurso poético, temos um poeta ágil que não deixa de ter a leveza do canto lírico que também é feito de perversidade e peso. Com cortes rápidos entre as palavras e versos curtos, essa agilidade demonstra a própria necessidade do real. Seja no meio urbano ou na natureza, Carlos Orfeu cria uma sintaxe própria numa poética inusitada e precisa como o corte da lâmina afiada. Nesse livro, o poeta, magnificamente, trabalha com a linguagem de forma original, moderna, mas ele não repele a antiguidade do tom lírico, sempre atualizado por poetas que sabem o que fazem. E, Carlos Orfeu realiza muito bem sua proeza em nos encantar com poemas de uma beleza rara e singular.

 

________________________

*Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

 

Sofia Mariutti - Poemas do Livro "A Orca no Avião"

 

Sofia Mariutti nasceu em são paulo em 1987. formou-se em letras-alemão pela usp e trabalhou até 2016 como editora da companhia das letras, onde foi responsável pela reedição das obras de paulo leminski, ana cristina cesar e waly salomão, entre outros livros. organizou antologia comemorativa dos trinta anos da editora, o livro é um poema (2016) e o livro das listas: referências musicais, culturais e sentimentais, de renato russo (2017). para a companhia das letrinhas, traduziu do alemão os livros a orquestra da lua cheia (2010), a visita (2016) e os voos de thiago (2016). a orca no avião é seu primeiro livro.

 

 

 

 

RÉQUIEM PARA O ALTO RIO NEGRO

 

nos aguaçais os aguapés

cruz, canhoto! —

bolem... peraus dos japurás

de assombramentos e de

[espantos!...

                                                                                                                            

manuel bandeira

 

 

nos igarapés do rio uaupés

cada igreja erguida é um túmulo

cabari japú tiquié timbó

riachos não ainda desenhados

nos mapas de navegação virtual

 

nas margens do rio içana

cruzes foram içadas

e fincadas com empáfia

no topo de templos cristãos

atestando “aqui jaz o povo tal”

hupda tukano siriano baniwa

pira-tapuya todos enterrados

sob os internatos salesianos

 

desana não é decano

dow não é deão

não há missão sincera que ensine

casamento camiseta de algodão

culpa plástico perdão

triquíase tracomatosa

 

os shorts jeans quando se molham

ficam pesados e atrapalham

o movimento das pernas

das mulheres do alto rio negro

 

essa igrejinha de fachada

tão charmosa azul e branca

está vendo? tome tento

é um túmulo

 

sobre as sobras de uma noite de festa

resta apenas um demônio

sombra negra

justificando o que ninguém entende:

o suicídio de duas jovens índias

cada uma em um canto da aldeia

batizada pela igreja

santa cruz do cabari

 

a corda que sustenta os sonhos numa rede

quando amarrada no pescoço

inaugura um sono profundo

que as livrará de todo o mal

 

sucumbir ao abismo da existência

esse modo tão branco de morrer

a palavra de cristo não sei mas

a questão de camus

chegou até lá

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

quinhentos anos de cortejo

e os índios seguem carregando as cruzes

do seu próprio funeral

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

hoje todos os afluentes do alto rio negro

vestiram preto

 

 

DESEQUILÍBRIO DOS CORPOS 

 

no escuro do quarto dos fundos

há um violão deitado de bruços

o oco do ventre recluso

nenhum ensejo de música

 

será que tombou com o vento

ou foi a fanfarra dos gatos

o golpe fatal?

 

em torno um silêncio de túmulo

suscita o homicídio perfeito

sem sangue vestígios sinais

 

quiçá voluntariamente

o instrumento se lançou

desesperado:

falta-me uma corda,

já não sirvo para arpejo

 

com o ré arrebentado

ele enlaçaria o próprio pescoço

como aquele guitarrista

love will tear us apart

 

o violão suicida, no fundo

é um corpo sedento como qualquer outro

que se umedece e abre quando faz calor

 

 

LUGAR COMUM

 

essa semana passou

voando

parece que vai cair

uma água

o tempo está

fechando

você acha legal?

eu também apesar

que vou embora de motoca, né?

quanta chuva que bom

que amanhã já é sexta

espero que o tempo

melhore essa semana

passou voando

 

 

Lia Testa - Poemas do Livro "Sanguínea até os Dentes"

 

Lia Testa gosta de palavras que se encontram em permanente estado encantatório e de envolvimento. busca ritos degustativos de salivas que molham a linguagem numa fala erótica e de erotização. acredita que a poesia está em todos os espaços para recodificar o corpo. tenta viver/estabelecer uma íntima relação de atravessamento com a palavra, pelo desejo/sonho de encontrar seu intenso e incessante tecido (palpável ou impalpável), para chegar a um estado poético possível. toma a sua produção como um “work in process”, impelida de desdobramentos múltiplos, de energias moventes e de imersões. Além de se dedicar à produção poética e à produção de obras-colagens (feitas à mão), é professora de Literatura Portuguesa da UFT, Mestre em Letras e Doutora em Comunicação e Semiótica. Têm trabalhos publicados em revistas acadêmicas e literárias, participa de algumas antologias poéticas e é autora dos livros “guizos da carne: pelos decibéis do corpo” (Poesia Menor, 2014) e “sanguínea até os dentes” (no prelo)

Contato em: lialeny@uft.edu.br ou liapoeta@hotmail.com

 

 

 

***

nasceu. não queria tirar as garras da pele primeva. temia o voo anorgânico. desvencilhava-se se houvesse voos-casulos. não havia. olhos postos nas peles. thânatos a espreitar. desejo de refazer o que se desfez. afirma o pouso não pouso. pathos. desvios. errância. clara fenda de|fusão.

 

 

***

ser peixe

ser a guelra

do peixe

a escama

da guelra

do peixe

ser barbatana

de peixe

a escama

que escama

a guelra

do osso

do peixe

ser a cartilagem

que dobra o peixe

ser olhos de peixe

ser olhos boca

ópera de peixe

a carnuda

cavidade

do peixe

ser espinho

espinha que

rasga o peixe

nadadeiras

que escapam

longe

ser o longo

dorso do peixe

em linha curva

ser a zona neutra

do aquário

o opérculo

semicircular

de guelras

arco de arpão

isca de anzol

ser anzol e peixe

ser a isca

na guerra

ser a guerra

do peixe na

água 

o corpo-orifício

o ar da narina

o branco da

fenda branquial

o olfato

ser o nervo

tongue de peixe

de língua

fusiforme

fiando a água

o céu o mar

fluindo na

sonda aquática

onda de voz

raio rima

peixe-mulher

ser medusas

cristais de guanina

maré

em água doce

ser o sal

ser o peixe

de sal

celacantos

do peixe

ser o muco

da truta arco-íris

o truque da água

a moreia de mole

corpo anguiliforme

ser peixe

ser a guelra

do peixe

 

 

***

ataque de ícaro | na escada rolante | só

ventosas na goela | goela abaixo | só

pedrada na carne | o voo do mundo | só

abaixo do equador | pena fora do ovo | só

sóis órbitas celebram | o olho do vulcão | o grão | só

o mareado espinho | o chão | o vão | de | sol | só

a espinha dorsal | o dorso do peixe | a ponta | só

concêntrica | espetada no ouvido | o ar da água | só

o radar da antena | atenta ao sopro | desafina | só

a estricnina | na língua | o soco | no estômago | só

o saco do som | na bagagem babilônica | silva | só

os fungos sabem a | coreografia do pulo | pula | só

o íntimo andar | nada se diz | já disse: | radiação | só

tudo fronteira | o longo dervixe | deve evoé | vish! | só

de vir aqui | digere | dirige | o fim | . | o começo | só

o eco | a eco | na caverna | saída | do capim santo | só

o resto todo | todo o resto | sabre ensaboado | s.o.s | só

os goles desfibrilados | o nervo | retido na retina | só

o abismo não basta | bastardo olheiro | nuances | só

alcança disfarce | nunca descansa | a mão do poeta | só

 

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