Cidadeverde.com

Philippe Wollney - Poemas do Livro "Ruinosas Ruminâncias"

Philippe Wollney, é poeta, Editor e pai de Nina. Mora em Goiana-PE. Publicou caosnavial: ou o sabor sujo (2016), Mas esse ano eu não morro (2016), Desassossego: poemas para desastres sentimentais (2017) e Ruinosas Ruminâncias (2017) livro vencedor do IV Prêmio Pernambuco de Literatura.   

 

a nossa  ruí na

“o amado de hathor, a dona de  tu rquesa”

 

: nas ruínas de uruk não há nenhuma menção sobre nós :                 não há nossas iniciais gravadas em cunhas nas paredes do templo à inana

                        og                   ç              :

: não escreveram nossa história nas plaquetas de nippur :  não nos sepultamos no fosso da morte da antiga cidade de ur :

não existimos nos hieróglifos do templo de karnak :                       mas os amantes de serabit já gravavam em rocha : e todas as nossas cartas de amor nos levam à fenícia : porque antes dela : há deuses com cornos de carneiro :                      n

     ç                 : os que parem o caos :           os que personificam o amor e a guerra no mesmo corpo na mesma pedra :             no mesmo sol : e nas suas placas de argila contavam mulheres e ovelhas :              cevada            e            vacas : facas : cabeças : espadas - não falam de casais :                                 j                      : talvez estejamos mergulhados na areia da cidade de tell brak :   o nosso eco nos palácios escavados dos anasazis : escrevendo os petróglifos de utah :                       o nosso mito astro-erótico na pedra do ingá :                                                  : escavando o nosso desenho de mostro-casal feito em nazca  - ainda desconhecido - assim como era desconhecida a pirâmide submersa em okinawa : assim como é desconhecido os significados dos hieróglifos de harappa : os rongorongos da          ilha de páscoa - que podem conter referências a nós :                              n                                            ch              

    h        :              

não                         tenha dúvida que        o amor escreve em pedra : arranca topos de montanhas  : ergue toneladas          de rochas sem nenhum sentido : e continua fazendo o que sabe de melhor :

 

- enterrar   civilizados

 

 

ruir é o melhor remédio

“eu sofro de juventude essa coisa maldita”
tom zé


: puta que pariu aconteceu de novo :  não deveria encontrar estada ou moradia na travessia pelo inferno : era pra ser como os eremitas que adentram na floresta e desaparecem por anos : e quando retornam : brilham e sua saliva sacia a sede das multidões : ou como os peregrinos dos desertos : enfrentando as dunas e o tédio : num sol que queima clavículas e omoplatas : ou como os monges tibetanos que escalam montanhas e meditam no topo do mundo : comendo flores com espinhos : e o pior disso tudo : são esses textos que invadem a minha rotina e sacolejam meu acento : esses textos que tomaram todo o meu café : esses textos que me foderam assim como as tropas de choque fodem os manifestantes em todo o país :  um texto arma branca em meu corpo não blindado

 


ruir é o melhor remédio iii
“a saudade é como um cão sem coleira”
juliano holanda


quando percebeu
que nunca mais se viriam 
quando tomou pra si
que nunca iriam se ver :
coou um café forte – como
a violência das lembranças
pôs a mesa para dois e
ao som do coltrane
fez tapiocas com 
recheio de queijo coalho 
– achavam que tapioca e café 
combinam com o free jazz 
– e comeu ambas
porque ainda tinha fome de dois :
apenas o café na xícara no lado 
oposto da mesa esfriou :
esse sempre era mais amargo

 


ruir é o melhor remédio v
“posso te amar os intestinos, menina, os precipícios, as feridas e as facas”
biagio pecorelli

 

sinapse após sinapse
o meu desejo cavalga
entre vazios : e assim
do abismo dos corpos
os líquidos se bebem :
é como alguém que 
sobrevive do orvalho 
nas manhãs do deserto
ou o mel do cálice
das papoulas-vermelhas :
sabe-se que na natureza
rios alimentam outros rios
e nos pântanos a vida goza
que a chuva em certos casos
molha a pele e a fere
e dos corpos - o abismo
também se bebe

 

Henri Michaux - A Verdadeira Poesia Faz-se Contra A Poesia

A Verdadeira Poesia Faz-se Contra A Poesia*

Henri Michaux | Tradução de Rui Caeiro

 

Desde o início deste Congresso numerosas recomendações foram dirigidas ao escritor: debruçar-se sobre os problemas sociais, meditar nas repercussões da sua palavra, pesar as suas responsabilidades, sem falar de outras exortações que as mais das vezes podemos encontrar nos sermões.

Esta forma de conceber o homem e o artista dentro do homem como perfeitamente conscientes um do outro e associados, ou o segundo comandado pelo primeiro, se é muito natural tratando-se de jornalistas ou ensaístas, já o é menos tratando-se de criadores e só com muita dificuldade é aplicável aos poetas.

O poeta não é uma excelente pessoa que prepara a seu grado cozinhados perfeitos para o género humano.

O poeta não é uma pessoa que medita nessa preparação, que a segue com atenção e rigor para em seguida entregar ao consumo o produto acabado, com vista ao maior bem-estar de todos.

O poeta não se entrega a essa operação e, mesmo que o quisesse, seriam magros os resultados. A boa poesia é rara em regime de patronato, tal como nas salas de reuniões políticas. Se alguém se torna fogosamente comunista, não resulta daí que o poeta que em si há, que as suas profundidades poéticas, sejam atingidas. Exemplo: Paul Éluard; marxista encarniçado, mas cujos poemas são aquilo que sabeis, de sonho, e do género mais delicado. Temos um exemplo análogo num poeta fascista de verbo extremamente violento, que se manifesta apaixonadamente e quase exclusivamente animado pela grandeza de seu país, cujos poemas, no entanto, ficaram intactos, belos e iguais, de acordo com um clima interior eminentemente sereno e clássico e sempre fora do domínio da política. Terceiro exemplo, um homem que em tempos foi um burguês descontente, e grande poeta. Depois de Louis Aragon se tornar militante comunista, devotado como ninguém à causa, mas medíocre poeta, os seus poemas de combate perderam toda a qualidade poética. Pouco importam, aliás, estes exemplos a que outros se poderiam opor, onde o talento poético seria sem dúvida discutível. Há muito que o fenómeno de que falo surpreendeu toda a gente e, em primeiro lugar, os poetas.

Não, o poeta não faz passar para a poesia aquilo que quer. Não é uma questão de vontade, nem de boa vontade. O poeta não é senhor de si próprio.

Identicamente, não está de forma alguma dentro das nossas possibilidades fazer entrar a realidade no sonho, nem o dia na noite.

Não basta observar cavalos durante o dia para infalivelmente sonhar com eles à noite, não basta propormo-nos muito obstinadamente contemplá-los em sonho para aí os ver aparecer. Não há processo seguro de provocar a aparição de seres em sonho. Para isso não basta a vontade, nem a inteligência.

Assim acontece, em menor grau, com a Poesia de inspiração.

Misteriosamente, determinado problema social, politico, que emociona e interessa o homem na prosa da existência, se assim posso dizer, perde, uma vez chegado à zona das ideias poéticas, todo o dom de perturbação, toda a vida, toda a emoção, todo o valor humano. O problema aí não circula, já não vive, ou não chegou a descer até essas profundidades.

Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social.

Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias.

É isso a transfiguração poética.

O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias, que frequentemente são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo anti-social ou a-social, ele pode ser social.

Para evitar a contradição relativamente a nomes actuais, prefiro escolher o exemplo de um artista criador, de um género muito menos puro que a Poesia, mas em relação ao qual há unanimidade de simpatia: Charles Chaplin. Criou um tipo de vagabundo, chamado Charlot, nitidamente imoral. Pontapés, rasteiras aos polícias sempre que os encontra; escarnece de todas as autoridades, não trabalha. Se trabalha, parte tudo, engana o patrão, não respeita a mulher de outrem, é rapinante quando a ocasião se apresenta, é um não-valor social e, contudo, ele teve uma tal influência, de tal modo reconciliou pessoas com a vida que o podíamos considerar um dos benfeitores da nossa época.

Não tenhamos pontos de vista professorais sobre arte. Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores?

Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência.

Por isso, em vez de os comparar a pregadores espalhando a boa ou a má nova, há que compará-los ao primeiro homem que inventou o fogo. Foi um bem, foi um mal? Não sei. Foi um novo começo para a humanidade. Uma sucessão de novos começos faz uma civilização. É isso também o que o poeta mais deseja, um novo começo, uma vitória sobre a inércia, sobre a sua, sobre a da época, sobre o entorpecimento sem fim dos reaccionários.

Vemos assim que a poesia, mais do que um ensinamento, mais até do que um encantamento, uma sedução, é uma das formas exorcizantes do pensamento. Pelo seu mecanismo de compensação, liberta o homem da atmosfera viciada, deixa respirar aquele que asfixiava. Transforma um estado de alma intolerável noutro satisfatório. É, pois, o social, mas de uma forma mais complexa e indirecta do que se diz.

Sem o parecer, respondo desta maneira à pergunta: “Qual a finalidade da poesia?” – A de nos tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável.

Para falar mais especialmente da poesia nova, esta tende a procurar obter o segredo do estado poético, da substância poética.

Abandonando o verso, o versículo, a rima, a rima interior e até o ritmo, despojando-se cada vez mais, ela busca a região poética do ser interior, região que outrora era talvez a das lendas, e uma parte do domínio religioso. (Uma parte apenas. O poeta e meu amigo Jules Supervielle acaba de exprimir uma ideia análoga.)

Uma confiança acrescida proveniente da confiança dada, uma confiança particular devida ao progresso da psicopatologia, da psicanálise, da etnografia, talvez da metafísica, e dum neo-ocultismo, um conhecimento cada vez mais circunstanciado das relações cérebro-inteligência, cérebro-glândulas, cérebro-sangue, espírito-nervos, o estudo dia a dia mais desenvolvido e experimental das perturbações da linguagem, da sinestesia, das imagens, do subconsciente e da inteligência, tende a dar ao poeta a curiosidade de tocar tudo isso do interior, e o gosto de incursões mais audaciosas nos estados secundários, nos estados perigosos do eu.

Por outro lado, as modificações na vida privada e social dos homens, cada vez mais rápidas graças ao maquinismo e à intrusão da ciência nos elementos mais humanos, obrigarão o poeta a criar paralelamente uma nova óptica. Tal é, segundo creio, o maior futuro imediato da Poesia.

Mas um poeta (nasceu um hoje, talvez) subverterá sem dúvida esta nova poesia. Tanto melhor.

Porque a verdadeira Poesia faz-se contra a Poesia da época precedente, não certamente por ódio, embora por vezes ingenuamente dê essa aparência, mas porque é chamada a mostrar a sua dupla tendência, que é em primeiro lugar trazer o fogo, o impulso novo, a nova tomada da consciência da época, e em segundo lugar libertar o homem de uma atmosfera envelhecida, gasta, viciada.

O papel do poeta consiste em ser o primeiro a senti-la, a descobrir uma janela para abrir ou, mais exactamente, em abrir um abcesso do subconsciente.

Foi talvez neste sentido que se disse: “O poeta é um grande médico”, como aliás o cómico. Assim ele manifesta a sua segunda tendência, que chamei exorcizante. Faz desaparecer a sedução da época precedente, da sua literatura e, em parte, também da época presente. Essas duas tendências conjugam-se, de resto, numa só força em direcção ao futuro.

Vemos que no início o poeta está sozinho, parte sozinho à descoberta. A sua verdadeira acção social vem mais tarde, quando a humanidade quase sem ele querer o incorpora.

Esta incorporação faz-se de forma tão natural que muitas vezes imaginamos retrospectivamente, com algum simplismo, que o poeta deu o tom à época precedente.

Assim se torna eternamente actual o poeta que teve a coragem de não o ser demasiado cedo.

 

 

* “A verdadeira poesia faz-se contra a poesia” é os discurso que Henri Michaux pronunciou no 14o. Congresso Internacional dos PEN Clubes, que teve lugar em Buenos Aires de 5 a 15 de Setembro de 1936. Esta tradução, de Rui Caeiro, foi publicada em 1988 pela editora &etc e em 2009 pela editora Bonecos Rebeldes, ambas de Lisboa, Portugal.

 

# O texto foi retirado do Caderno de Leituras n. 12 das Edições Chão da Feira. www.chaodafeira.com #

 

Tarso de Melo - Poemas do livro "Íntimo Desabrigo"

Tarso de Melo (Santo André. 1976) lançou os seguintes livros de poemas: A lapso (Alpharrabio, 1999), Carbono (Alpharrabio, Nankin, 2002), Planos de fuga e outros poemas (CosacNaify, 7Letras, 2005), Lugar algum (Alpharrabio, 2007, apoio da Bolsa Vitae de Artes), Exames de rotina (Editora da Casa, 2008) e Caderno inquieto (Dobra, 2012, apoio do PROAC/SP), reunidos no volume Poemas 1999-2014 (Dobra, E-galáxia, 2015). De seu livro mais recente, Íntimo desabrigo (Alpharrabio, Dobradura, 2017), foram retirados os poemas aqui publicados. É autor também dos estudos História da literatura em Santo André (Fundo de Cultura, 2000) e Direito e ideologia (Expressão Popular, 2009). Organizou diversos livros, entre os quais: Vidas à venda (com Eduardo Bittar; Terceira Margem, 2009), Cidades impossíveis (com Eduardo Bittar; Portal, 2010), Literatura e cidadania (com Reynaldo Damazio; Dobra, 2013, apoio do PROAC/SP), Subúrbios da caneta (com Reynaldo Damazio; Dobra, 2014), Outras ruminações (com Reynaldo Damazio e Ruy Proença; Dobra, 2014) e Para a crítica do direito (com Celso Kashiura Jr. e Oswaldo Akamine Jr.; Outras Expressões, Dobra, 2015). De autoria de Renato Russo, organizou The 42nd St. Band (Cia. das Letras, 2016) e O livro das listas (com Sofia Mariutti; Cia. das Letras, 2017). É advogado e professor, com doutorado em Filosofia do Direito pela USP.

 

 

 

Íntimo desabrigo

 

daqui ouço a voz dos seus talheres inúteis

seu colchão em que afundo a cabeça que já não me serve

chinelos sapatos passam sapatos chinelos pousam

 

daqui corto os pulsos em suas tesouras cegas

de suas facas o ferrugem escorre como lava como larvas

de pregos faço o castelo em que vai deitar minha hora

 

os calendários todos que a água podre funde à pedra

as pedras tortas que desaguam nos calendários podres

os dias todos que as pedras podres rasgam do calendário

 

o céu de concreto o sal dos afetos o mal o mar de asfalto

é sob eles é sobre eles é deles que tento falar mas não

mas não falo a língua gira em sua sopa rala em sua vala

 

o zíper de sua mochila oca o caco de seu copo tosco

os tocos de sua voz a foz da minha fala nela desaba

onde guardei minha história onde morei até ontem

 

 

Verônica

 

Eu queria ver apenas as fotos em que Verônica está linda.

Nunca mais ver Verônica como os homens a quiseram.

Nunca mais ver o homem que os homens arrancaram de Verônica.

O bicho que os homens buscaram dentro de Verônica, nunca mais.

Não suporto as fotos em que Verônica desaparece

sob os escombros em que os homens a transformaram.

Não suporto as fotos, os homens, seus socos impressos em Verônica.

Nunca mais quero ver os olhos, o sangue, as marcas

que os homens acharam detrás dos cílios de Verônica.

Nunca mais quero ver os gritos que os homens estamparam

na cara, nos dentes, no sonho, no globo ocular de Verônica.

Nunca mais quero ver o que os homens fizeram para verem

a si próprios em Verônica, para não se verem em Verônica.

Nunca mais quero ver os cabelos que os homens acharam

sob os cabelos de Verônica, o corpo que espancaram sob as roupas

de Verônica, o monstro que pariram com seus chutes.

Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais.

 

 

Companheiro

para Antonio Possidonio Sampaio (in memoriam)

 

água parada, sabíamos, não era sua vida

mais cedo ou mais tarde iremos, você iria

 

tantos anos, quase todo dia,

gostávamos tanto de falar

quanto de um não dizer que mais dizia

 

e assim estávamos sempre conversando

cada um lendo suas coisas

escrevendo suas coisas

mas num assunto sempre mesmo

ao nosso modo, fundo, mudos

 

e hoje, um hoje tão longo

passei o dia a dois metros da última conversa

certo de que ela não terminará

a milhas da coragem do último abraço

o corpo frio que não lhe cabe

o corpo frio que não nos cala

 

foda, amigo, foda

foi olhar da porta da sala

em que você sempre estava

as fotos das crias, das lutas, do que importa

e ver que até a cadeira chorava

 

e alguém, talvez um eu que juntos fizemos,

folheava um a um os seus livros

procurando o leitor que lhes falta

 

 

Shodô

 

[é bem provável que você não esteja lendo estas palavras aqui | como é provável que eu não as esteja escrevendo | como rasgos num papel qualquer em abstrato | em ato como frases silenciadas | de um poema político que a ninguém coube escrever | de uma canção de amor que a ouvido algum agrada | de um cansaço entre outros | de um outro mar que se abre sob os pés sobre a cabeça peito adentro | e quando rasgamos o papel não rasgamos o que as palavras já fizeram conosco | e quando sujamos o papel com o que nos suja não há mais retorno | não há retorno em nós | o que há é apenas essa mancha que chamamos nós e que não migra | não há serifa sob a sola das palavras em que nos rasgamos | não há sossego | quando escrevo abismo quando escrevo caio quando desabo desabito-me | não há remate não há piso não há teto | e restamos boquiabertos | e o melhor que dizemos é o que nossas tintas | as tintas que somos | dizem sozinhas contra nossa vontade | contra nós | escapando de nossa inútil vigilância | vazando para a página que ainda não tivemos coragem de abrir | mas se inaugurou sem nos consultar]

 

 

Samarone Lima - Poemas do Livro "A Invenção do Deserto"

Samarone Lima é jornalista e escritor. Nasceu no Crato, Ceará, e vive no Recife desde 1987. É autor dos livros jornalísticos Zé: José Carlos Novaes da Mata Machado - reportagem biográficaClamor - a vitória de uma conspiração brasileira e Estuário - crônicas do Recife. Foi finalista do prêmio Jabuti com o livro-reportagem Viagem ao crepúsculo, em 2010, e com o livro de poesia A praça azul & Tempo de vidro, em 2013. Recebeu, com o livro O aquário desenterrado, de poesia, o 2º Prêmio Brasília de Literatura e o Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, ambos em 2014.

 

 

MANUAL DE ESPERA E SOLIDÃO

 

Como o silêncio sem rastros

De um animal desvairado

Com seu cheiro difícil de esquecer

De tão próximo.

 

Ou o espaço que damos

Entre os ossos

Dessa ausência doentia

De tudo o que se quer.

 

Como se aquilo que se perde

Não virasse outro abismo –

O de ter sido.

 

E mesmo assim, se promulga a voz

Do absoluto desejo.

 

Tão imaculado, tão limpo, tão puro

Que sequer precisa de um nome

Para saber-se vivo.

 

 

VESTÍGIOS

 

Algumas perguntas são prematuras

Como o irmão que nasceu antes

E não vingou.

 

Outras ofendem o amor.

 

O pó da infância e da saudade

Não tem resposta

(Sequer pensa nos móveis carcomidos

Nos múltiplos tempos da espera).

 

Tanto amor, tanto amor

E o perdão resvala apenas

Quando os corpos adormecem.

 

Algumas respostas

Têm tanto ardor

Que ferem

(Retornam como uma pedra que dorme).

 

Só o desespero não responde.

 

 

RESILIENTE

 

Resiliente.

Assim me chamou nas dobras

A antiga amiga.

 

No corpo que torceu e retorceu

Ao seu centro noturno

E desigual.

 

M espantalho sem biografia

Aguando as quimeras de si.

 

A ruminação como defesa

Ou como certeza.

 

As brasas que ardem

No tempo da espera.

 

O quase dono de si.

 

O vaqueiro cego

Buscando um cão

Brincando com os espinhos.

 

Capaz de um destino lógico

De amarrar narcisos

Aos vasos inconclusos

Do jardim devastado.

 

De cerzir o passado

Sem álbuns, sem a matéria dos homens.

 

Como quem escreve segredos

Com aspas imaginárias.

 

 

UM NOME À MINHA SOMBRA

 

Eu poderia jogar as mãos no mar

E endurecer porque há o infinito

E me completa.

 

E poderia recolher

O que disseram ser meu

E baixar os olhos em súplica

Como uma intenção desabitada.

 

Nada disso me levaria

A pontos extremos

(E sinto a respiração

Dos mesmos pássaros que sonhei).

 

Acedo. Aquieto.

A imensa ternura, engolfada pelas ondas

Murmura qualquer coisa indecifrável

Que julgava minha.

 

Elaboro a espera.

Mancho de branco o que restou

(As espumas diriam)

E sei que há um nome à minha sombra.

 

É quando o mar percebe a súplica.

E tudo devolve.

Acrobata n 7 - Se Equilibrar Na Tormenta

Acrobata n 7 -- Se Equilibrar Na Tormenta

(Editorial)

 

Os tempos de crise nos trazem questões novas a serem resolvidas, nos fazem rever as perspectivas e as fontes energéticas que nos alimentam. O cenário exige in­ventar um habitat de ideias novas para superarmos as limitações da cultura capitalística que desmobiliza nossas forças. Talvez reabitar a morada ancestral que abandonamos em troca de um projeto de acúmulo e de uma existência vazia. A Acrobata chega com signo do número 7, buscando um equilíbrio em meio à tormenta política que vivemos.

Para manter viva a ligação com o debate indígena no Brasil – compromisso que assumimos desde a primeira edição – Amilcar Bezerra faz uma reflexão política a partir do filme “Martírio”, realizado por Vicent Careli (2016). Temos também a revolucionária Coleção Tembetá, organizada e publicada pela editora Azougue, com 12 livros de pensa­dores indígenas contemporâneos.

 

 

A entrevista da edição é uma celebração aos 80 anos do provocador Jomard Mu­niz de Britto e sua poética pedagógica. Imageticamente a edição ganha feições amerín­dias pelo trabalho do músico e artista visual Gil Duarte.

A discussão literária se adensa com o texto da escritora e pesquisadora Élida Lima sobre o poeta paraense Max Martins. As feiras de publicações independentes que se espalham por todo o Brasil ganham espaço no texto da Ana Rocha, figura à frente da Polvilho Edições. O conto dessa edição é do Carlos Henrique Schroeder. A poesia, como sempre, traz um mapeamento sem fronteiras: Ricardo Aleixo, Mar Becker, Júlia de Car­valho Hansen, Philippe Wollney, Marcelo Ariel, Nayara Fernandes, Wanda Monteiro e Maria Rita Kehl, além das traduções de haikais japoneses feitas por Paulo Franchetti.

Convidamos três críticos de cinema para abordar eixos temáticos inéditos na revista: o cinema Blaxploitation, conduzido pelo jornalista Heitor Augusto; as marcas do horror udigrúdi no cinema brasileiro dos anos 70, escrito pelo pesquisador Carlos Primati; e, para fechar, o cineclubista Alderon Marques compartilha suas impressões de “Nise: o coração da Loucura” (2016), dirigido por Roberto Berliner.

Na sessão “ensaio visual”, a artista Luna Bastos apresenta o seu trabalho e fala um pouco sobre suas recentes produções, do seu universo de formas e afetos. O nosso “processo de criação” chega chegando com o espaço de gestão e criação CAMPO, que tem uma forte atuação com a dança contemporânea.

Com a montagem dessa edição, esperamos poder proporcionar um bonito arqui­pélago sensível e um pouco de ar puro para os nossos leitores.

 

 

 

Posts anteriores