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Carla Diacov - Poemas

 

Carla Diacov, São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975. Formada em Teatro. Estreia em livro, além da participação em algumas antologias, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas revistas on-line e impressas. Se atraca com as plásticas o tempo inteiro, movimento que a serve a construir em conjunto de matérias ou que a traz de volta às letras somando algo da extração da borracha. Gosta de abordar o sangue. Tende a ser serial. Em Agosto de 2016, publicou A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições). Em 22 de Setembro vê lançado o primeiro volume de Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, Portugal, 2016).

 

# os desenhos também são de autoria da Carla Diacov.

 

 

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o bebê de clarice não para de chorar

nunca

conta já dois anos e não para de chorar

chora que parece expelir ideias para o fim do mundo

chamaram um padre um pastor mais um padre e uma

benzedeira

lá da feira de acari

nhá nená falou fazer um patuá com

dois dentes de alho roxinho

uma pétala de amor-perfeito mas não tão perfeita

tinha de estar meio comida de bicho

a pétala

e o bebê chorava mais e ainda mais quando ouvia

a receita ditada na sala ao lado

dois cacos de termômetro e dois de seringa

e a ponta duma teta de vaca preta morta

o bebê de clarice não para de chorar

nunca

já com o patuá no pescocinho ofegante choroso

o bebê de clarice

ainda em prantos

soluçou

PIDE A TOCAR A LA GRAN MUÑECA, MAMÁ!

e morreu de engasgado com a gosma típica das lamúrias sem fim

 

 

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uma mulher mais ao norte trocou seu foda-se por um candeeiro. então se arrependeu e não teve como destrocar. já tudo estava fodido. a mulher jurou vingança. jurou até que sua sombra jurou vingança. outra mulher mais ao sul passou a sentir cólicas nos olhos e nos cotovelos. são as próprias vagas de se foder que embaralham retaliações. então não se faça de bordadeira intocável. trate de se foder.

 

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daqui eu não vejo a américa
quando colombo descobrir que a gente se deseja há milênios
ele também não verá a américa
do topo dos teus cílios eu ainda não vejo a américa
o mundo é novo 

um desejo fresco faz bolhas no horizonte do aquário

 

 

canja

 

em expansão

o ódio o amor

ainda que nada nada

em água em expansão

um banheiro em pleno ódio

onde jaze teu rosto quando

fundo aqui um amor cheio de ódio

o banheiro no ódio

você na banca de jornais

eu a ronronar alhos curry no banheiro

ódio e preces

um banheiro para o ódio que

o ódio que se come cru

abrir um banheiro para o ódio

ao ódio tudo porque o ódio

busca toda a satisfação o gosto de tudo

você na banca de jornais

eu na briga onde espero por ti

temperos gosto receitas

um deus faria o mesmo eu sei

pois deus faria o mesmo e fez

você na banca de revistas com ornatos para interiores

um banheiro todo para o ódio que te espera

há anos

há gerações

afio os punhos empunho a faca

como cortar um ovo meu deus do céu dos interiores

enquanto o jornaleiro faz lucro faço banheiro

quem nunca

jesus maria e josé

esfaqueou uma galinha

morta na pia borrada de creme dental

não sabe o que é o ódio de um amor tão macio

suculento

quem nunca meteu alhos pelos furos na bendita

quem nunca escorregou junto do choro da baba

quem nunca se machucou num tanto amor

quem nunca morreu no banheiro cravado no ódio da espera

amor

quem nunca leu nesses olhos a manchete ordinária

quem nunca amolou um garfo nos dentes do todo ódio

tamanho banheiro em pleno ódio

preces

um banheiro na cozinha em pleno ódio amor

em expansão

se esse banheiro fosse um cofre

se todo meu ódio fosse esse ladrão