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Ricardo Escudeiro - Poemas

 

Ricardo Escudeiro nasceu em Santo André-SP, em 1984, onde vive. É autor dos livros de poemas “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Graduado em Letras na USP, desenvolve projeto de mestrado com interesse em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos de Gênero. Assina a coluna “desglutição”, no Portal Heráclito. Atua no ensino fundamental II, no ensino médio e como assistente editorial na Patuá.

 

do fundamentalismo de um lar

 

mariazinha cresceu

em uma casa bem família

com pai de família

na patente mais alta

bem cidadão de bem

 

firmemente orientada

a ser mulher extremamente

direita

docilmente

pela voz materna domesticada

 

seja vaso e escrava

mais nada

 

mais ou menos

quando deixava de ser menina

se percebeu

gostando de meninas

 

a mulher que nela se precipitava

divagou sobre as reações

do tal lá do patente alta

algumas gravadas no espelho

por vezes em segredo

negado

rosto de mãe

trincado pela mão de macho

 

no quarto sozinha

enquanto a corda terminava de estrangulá-la

seu último sopro aliviou

 

já nem mulher nem menina

passa agora

a mais nada

 

e desabitou a casa

 

 

kuzuri

 

tateio

o que não se segura

só isso

 

e as baratas e os wolverines e os gojiras

 

sobrevivem

a atômicos ataques

 

não morre

também

esse animal pequeno

módico

índice de imaterialidades

que levamos dentro até mesmo

 

sem

essa de

 

pertencimento

 

sem

essa de

 

acredito falar por todos

 

quando o fora não existe

a ferocidade do renascimento

só de quem já ficou

entre o que pendula e a bigorna

 

 

audição cega

 

The Voice Angola

 

“Whisper words of wisdom

Let it be”

(The Beatles apud Alfredo Yungi)

 

sonorizar a extensão

de uma vala

de uma presença

de uma dor

da privação de coisa qualquer

urgente ou desnecessária

dedilhar escalas inexistentes com dedos leigos

de mãos leigas que não sabem se ficam no bolso

ou tamborilam o ritmo no nada

 

entalhar música no ar

raro efeito

quando da falta

das inexatas ferramentas

dentro do som

de dentro das suas vozes

moldamos todos os nossos

instrumentos transparentes

de nossos músicos imaginados

 

e estragar a solenidade fechada

na cerrada pálpebra do que se diz

história

e na semínima que é aquela eternidade

de visão ofuscada

enquanto o breu interior negocia com o clarão

de janela bruscamente escancarada

deixar-se calar pelo som

das gargantas das almas silenciadas

 

e não são já mais os fantasmas

viajantes solitários

 

 

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