Cidadeverde.com

Franck Santos - Poemas

Franck Santos é um homem comum, ilhado em São Luís, cidade esta que tem mar, porto, muitas histórias, sol e céu azul o ano inteiro, mas prefere dias nublados e chuvosos, uma casa no campo, vinho e blues.

Publicou os livros Fogo Fátuo (2011) e Quando o azul não desbotava (Editora Penalux, 2014), ambos de prosa poética. Agora, Poemas para dias de chuva, pela Editora Patuá.

 

 

***

Na vastidão da tarde magenta

Minha pele quente. Minha boca ávida.

Espera seu corpo. Seus veludos. Seus desenhos.

Na vastidão de uma tarde de deserto dessa cidade

Ofereço minhas geleiras. Um violão. Meu tesão.

Espero seus olhos de mangá-potiguar. Seu tarô.

                                   [Seus mistérios, algumas canções.

Na vastidão das tardes iguais, que não mais existirá,

                                                           [quando você chegar

Minhas flores amarelas. Um livro de poemas.

Meu coração.

Seus pés cansados.

 

 

***

Houve um tempo em que eu não amava ainda

mas as canções de amor traziam em mim uma

                                                           [ nostalgia longínqua

longínqua como os olhos da minha avó

aos sessenta e cinco recordando os dezesseis.

eu disse-lhe: não é você, é outra aquela que

                                   [se esgueira defronte seus olhos

mas ela insiste em dizer: sou eu mesma.

Há quem nasça com a dor dentro de si

como a semente de memórias.

Não quero aos sessenta e cinco recordar meus dezesseis

minha dor é a de hoje

não a dos anos longínquos

em que não serei mais eu.

 

 

***

Nos encontramos nos labirintos noturnos
quando tateávamos o nada
sem saber o que faríamos das esquinas
dos nossos corpos tão próximos.
Signo, arcano, nossos nomes
foram senhas
descobrimos ser da mesma tribo.
Nos fliperamas garotos não nos viam
nem os michês nas calçadas
ou as prostitutas nos bares
quem não se oferecia?
Nas vitrines das lojas manequins riam
todos parecíamos saídos da mesma máquina
mas não sabíamos a quem a noite pertencia.

 

 

***

Pedaços de cartas. Tuas mãos vazias.

Pelos olhos teus, lanternas chinesas.

num jardim tropical.

Um taxi cruza branco veloz a cidade. Uma chuva ácida

                                                           [desaba na cidade.

As antenas trêmulas captam imagens lunares.

o ritmo do oceano me atravessa na madrugada

e na manhã

todos os voos voltam à sua origem.

Jaula do silêncio que sou

reconstituo teus versos nas cartas em pedaços

onde figura teu nome apagado.

Ideograma.

Um rio que não tem cura

sob a minha porta

libra em touro.

 

conheça os autores e livros da editora Patuá