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Mário Alex Rosa- Poemas

Mário Alex Rosa nasceu em São João Del-Rei, MG. Reside em Belo Horizonte. É formado em história pela Universidade Federal de Ouro Preto, com doutoramento em literatura brasileira na Universidade de São Paulo. É autor dos livros ABC Futebol Clube e outros poemas (2007, infantil), Editora Bagagem, e Ouro Preto (2012, poemas), Editora Scriptum.

 

 

OUTRA CONFISSÃO

 

Toda a tarde tombou

para longe do azul que invadia a janela

em direção ao quarto de hóspedes.

 

A composição ruminava na forma

estranha que aparecia à meia-luz, à beira

da margem não mais tão branca.

 

Essa outra confissão

riscada de black pencil

delatou aquela tarde inteira

tombada sobre um amor de nada.

 

 

NOITE E DIA

 

Depois de apagar as luzes nasceu uma vontade estúpida

de ouvir o eco ausente, engolir a noite a seco, aquela

que permanece no olvido, sem-cerimônia,

afinal a memória conserva os vivos

para lembrar os mortos.

 

Depois olhou de lado, contra a parede,

curvou-se num assombrado silêncio e pensou:

resta aquela noite noiteando os dias.

 

 

JANELA

 

Se não é para tocar, não toque.

A palavra risca os sentidos. Não vê

como estou agora, aos gritos, e não se passou

mais que meia hora.

Às cinco da tarde,

um só eco vai reverberar por toda a cidade.

Se o dia não acordar azul,

se a palavra não escapar pela janela,

a culpa é dela.

 

Às sete da manhã

será apenas para contaminar o silêncio.

 

 

O LUGAR QUE SE HABITA

 

Na falta de mim

invento um outro, muito mais violento,

como aquele no espelho partido

de mim enquanto pensava na primeira pessoa.

 

Na falta da palavra sim,

o que dizer do não,

do lugar que se habita?

Penso na primeira pessoa.

Aqui no branco

ou numa avenida estreita,

a margem é a mesma.

A sombra também.