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Bruno Molinero - Poemas

Bruno Molinero, autor do livro de poemas Alarido (ed Patuá, 2015), estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, na Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba) e na Universitat de les Illes Balears (Espanha). Jornalista, escreve para a Folha de S.Paulo desde 2010. Foi vencedor do prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, finalista do prêmio Nascente, da USP, e indicado ao Prêmio Folha. Em 2012, representou o Brasil no World Event Young Artist, na Inglaterra. Alarido integra a Coleção Patuscada 2, projeto premiado com o ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo.

 

marcela, 43, casada

 

matei, sim senhor
porque quis
não, até que era bonzinho
na gaveta da cozinha. uma daquelas grandes, sabe?
isso, ele estava no sofá
de costas
não, não me viu
dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele
não tirei porque mancharia ainda mais o tapete
ora, se sabe, por que pergunta?
desculpe. sim, o corpo ficou lá
depois saí
mansão. era muito rico
não. deixou tudo para as meninas
eu sabia, sim senhor
porque quis, já disse
cansei de subir em pau de sebo. deslizar fácil não tem graça
sim. mas vou ficar muito tempo?
é que deixei a panela no fogo

 

 

salete, 66, centro de atenção psicossocial álcool e drogas III

 

como estão os répteis?

sacodem as inexoráveis

escamosas

patas pela sala?

e os demais tortos

insodáveis

sempre deitados

nas saliências sinuosas

ainda seguem

salutares

inoxidáveis?

os répteis da somália

onde estão?

bocas cheias de cáries

e gengivas incipientes

segregados

dos novos répteis da sarjeta?

e os toscos ascos

santificados

pelas sementes do sussurro

do socorro

do insano

sentados com os velhos

répteis sintomáticos

sibilantes de sovina

e soltos pelos cantos

onde estão?

 

silêncio

 

os répteis

sopram

segredos

 

 

priscilla, 19, dois três sete

 

o que mais me irrita aqui dentro

é o espelho em forma de losango

 

mais que a árvore de natal

encostada no pole dance

ou que os tapas na bunda

e meu sorriso cimentado para não desagradar o cliente

mais que pau de obra

cavocando o meio das minhas pernas

como se procurasse petróleo

mais ainda que o grupo de amigos

tão bêbados

que nem conseguem fazer o pau subir

mas exigem que continue chupando borrachas molengas

até dar câimbra na boca

 

o vidro irrita mais

porque não instalaram outro

e é tão pequeno

que a gente mal pode retocar a maquiagem

 

já reclamei um milhão de vezes

pedi para colocarem um dos grandes

no teto de cada quarto

o que agradaria os rapazes

e me ajudaria um bocado

 

mas não

sempre dizem a mesma coisa

é muito caro

não temos verba

quem sabe no mês que vem

 

o que ninguém imagina

é que, se chego em casa

de manhã

borrada

roupa amassada,

meu namorado nem me olha

vira de lado

sem dar bom dia

um beijo no pescoço

ou puxar meu cabelo

 

de propósito

 

pois já está careca de saber

que adoro quando ele faz isso

e que a culpa

é do maldito espelho losango

que não deixa eu me arrumar

quando saio do trabalho