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Cláudio Daniel - Poemas

 

Claudio Daniel, poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1962, em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. É doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Publicou 25 livros de poesia, ficção, antologias, ensaios e traduções, entre eles os seguintes títulos: A sombra do leopardo (Azougue, 2001), Figuras metálicas (Perspectiva, 2005), Cores para cegos (Lumme Editor, 2012), Cadernos bestiais, volume I (Lumme Editor, 2015), Esqueletos do nunca (Lumme Editor, 2015) e Livro de Orikis (Patuá, 2015). Participou de antologias de poesia brasileira contemporânea no Brasil e no exterior. Organizou os eventos literários internacionais Galáxia barroca e Kantoluanda, em 2006, em São Paulo, e foi um dos curadores do Tordesilhas, festival ibero-americano de poesia contemporânea, em 2007, e do Tordesilhas, poetas de língua portuguesa, realizado em Lisboa, em 2010. É editor da revista eletrônica de poesia e debates Zunái (www.zunai.com.br)  e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra (http://cantarapeledelontra.blogspot.com). Foi curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Atualmente é colunista da revista CULT.

 

Os poemas publicados, são do livro Livro de Orikis” (Ed Patuá, 2015).

 

OGUM

 

Ogum Oniré

pisca o olho

e cai um dedo

do mentiroso.

Pesca o peixe

sem ir ao rio.

Molamolá

– farejador

de farelos –

livra seus filhos

do abismo.

Ogum Ondó

viajou a Ará

e a incendiou.

Viajou a Irê

e a demoliu.

Senhor de Ifé,

livra seus filhos

do abismo.

Ogundelê

malha o ferro

e faz flechas

de flagelo.

Comedor de cães

fulmina o racista.

Ogum Megê

queima o sangue

do fascista.

Megegê

golpeia o golpista

da revista.

Ferreiro-ferrador

forja a foice

forja o martelo.

Que não falte

o inhame.

Que não falte

massa de pão.

Pai do meu avô,

livra seus filhos

do abismo.

 

Ògún ieé!

 

 

IANSÃ

 

Oiá vem

com o vento

vem e revém

mãe do meu

pensamento.

Faz a pedra

Flutuar.

Escreve

na folha

palavras

de vento.

Mulher-leopardo

faz amor

amar

e medo

sentir medo.

Eeparrei!

Come pimenta

Vermelha.

Dança com pés

vermelhos.

Olha com olhos

vermelhos –

como se

quebrasse

cabeças.

Mulher-leopardo

dona do raio

e do vento

– aquela

que vem

dançando

aquela

que vem

dança-dançando

aquela

que vem

dança-noite-dançando.

Oiá ô!

Tira tripa

do mentiroso.

Fura olho

do preguiçoso.

Mãe do meu

pensamento

não me queime

com o sol

da sua mão.

Afefê Ikú Funã

aquela-

que carrega-

o-chefre-

de-búfalo-

e-dança-

no-cemitério-

coberta-

de-cinzas-

dissipa meu tormento.

 

Eeparrei!

 

 

EXU


Lagunã corrige o corcunda.
Faz crescer a lepra do leproso.
Põe pimenta no cu do curioso.

Legbá ensina cobra a cantar.
Entorta aquilo que é reto,
endireita aquilo que é curvo.

Exu Melekê — o desordeiro
faz a noite virar dia e o dia
virar noite. Surra com açoite

o colunista da revista. Cega
o olho grande do tucano —
e zomba do piolho caolho.

Marabô vai-vem-revém. 
Quente é a aguardente
do delinquente. Elegbará

com seu porrete potente
quebra todos os dentes
do entreguista privatista. 

Bará tem falo de elefante.
É o farsante dos farsantes:
fode a mulher do deputado

hoje – e faz o filho ontem.
Agbô confunde o viajante
e o faz perder a sua rota.

Bará Melekê compra azeite
no mercado — levando peneira
volta sem derramar uma gota.

Larôye Exu! O desalmado
soma pedras e perdas na sina
do condenado. Sete Caveiras:

que seja suave minha sina
neste mundo tão contrariado.
Que seja suave – Larôye Exu!