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Jeanne Callegari - Poemas

 

Jeanne Callegari é poeta. Nasceu em Uberaba, MG, em 1981, e escreveu o livro Caio Fernando Abreu: Inventário de um Escritor Irremediável (Seoman, 2008), biografia do autor gaúcho. Tem poemas publicados em revistas como Raimundo, Modo de Usar, Confeitaria, Parênteses e Escamandro. Jeanne faz parte do grupo de autores que criou o projeto Escritores na Estrada, que vai passar por várias cidades brasileiras com oficinas, bate-papos e leituras. Miolos Frescos (Patuá, 2015) é seu primeiro livro de poemas.

 

perda


esses dias perdi uma memória
soltou da bagagem no dia da mudança
por sorte ficaram outros pacotes 
de segundos gastos
um dia organizo um álbum
bonito, pra guardar lembranças
com legendas espirituosas
na mais perfeita ordem

 

 

para bashô

em silêncio, o pulgão destrói a flor.
ele é a natureza, tanto quanto ela.
o giz que desenhou a lua também fez
as bestas e os corvos
bashô, é preciso abraçar o escuro

 

 

o gato

pode ser insensato
e um tanto quanto leviano
dizer que meu gato
é, dentre tantos,
o mais belo

ele, que mia quando apertado
e é menor que os outros
de sua espécie.

mas o tejo não é mais
belo que o rio que corre
na minha aldeia
assim como os gatos
de concurso
- com seus pêlos
compridos e caras
amassadas -
não são mais formosos
que meu bichano
de olhos amarelos
sem raça definida

não é um siamês
persa abissínio
que se enrola – listrado -
em minha barriga
nem um angorá ou ragdoll
que brinca de esconder
em meus vestidos

meu gato é mais sagrado
que todos os da birmânia.
mesmo quando arranca
sangue de minha pele
(quem mandou não aparar suas garras?)

pode ser que esses gatos
tenham seu charme
- e também não comam se a tigela está pela metade

talvez sejam educados
e não tenham por passatempo derrubar sapatos
livros controles remotos

mas eles não são o meu gato
: eu não sou a pessoa deles
então prefiro
as listras do meu gato
que resmunga quando apertado
e é menor que os outros de sua espécie