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Carlos Orfeu - Poemas

 

Carlos Orfeu: Nasceu em Queimados. É devoto das artes, sobretudo, da literatura e  poesia. Publica em blogs pessoais, revistas e blogs literários. O poeta lançará, em breve,o  seu livro Invisíveis Cotidianos pela editora Literacidade.

 

***

sede é como um rugido de rio

encontrando a margem da garganta

 

sede é peixe uterino

no oceano do corpo

 

visto por fora

despido no espelho

visível deserto de assombros 

 

sede é a possibilidade de romper

o naufrágio e adejar na superfície

 

 

***

debaixo

da pia

um par

de mágoas

envelhecem

 

ratos visitam

a caligrafia das estradas

grafadas na lamúria das solas

 

no

ato

da

fome

 

como se fossem restos

de estômagos nos pratos

roem cada parte sentimental do couro

 

devoram

o tempo

e os endereços

sem o esteio do retorno

da classe social 

de

ordinárias

botas

tristes

 

 

***

rubra árvore

no parque público

acena suas mãos sinuosas

aos navios de brisa

 

dispersa folhas como aves

na epiderme do ar

 

plácidas

ásperas

como cadáveres

em

tons

de

outono

 

 

***

o crepúsculo anfíbio 

salta para trás da poeira de barro

 

na embaçada paisagem

de ruínas

rosários de gengivas

luzem ósseas para mãos

exasperadas

 

perambulam

nos entulhos

pertences

significantes

o nada é tudo

que finda  

 

o repórter documenta

a travessia de bicicletas agonizadas

um vira-lata/ enlutado

andarilho da magreza

passeia/ entre os corpos

carbonizados

 

sussurros  serpenteiam até o céu

 

 

***

no focinho do fuzil

a paz mutilada

 

nas vielas

o incêndio dos sangues

a chacina dos sóis

 

o medo é o traje de cada manhã

mais escura que à noite

 

fuzilam

a cor negra dos corpos

sua honra

concede pétalas de lágrimas

em revoada

 

sobre o asfalto

o declínio no beijo da mãe

com o fel de grito na articulação das juntas do pai

ajoelha cruzes no rosto do filho

 

a tragédia solta seus cães

coturnos famintos

desfilam sua pérfida fúria

latem algoz a covardia

 

o repórter cumpre a ordem do sistema

oculta

da lente

a morte

silenciosa

 

coletando ossos

o riso canta

na residência de lábios

que sonham amanhecer