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Nina Rizzi - Poemas

 

Nina Rizzi (SP, 1983), historiadora, tradutora e poeta, vive atualmente em Fortaleza/ CE. Tem poemas, textos e traduções publicados em diversas revistas, jornais, suplementos e antologias. Autora de tambores pra n’zinga (poesia, Ed. Multifoco, 2012), caderno-goiabada (prosa-ensaística, Edições Ellenismos, 2013), Susana Thénon: Habitante do Nada (tradução, Edições Ellenismos, 2013), A Duração do Deserto (poesia, Ed. Patuá, 2014), Romério Rômulo: ¡Ah, si yo fuera Maradona! (versão em espanhol, Ed. Dubolsinho) e geografia dos ossos (poesia, Ed. Douda Correria/ Portugal). Publicará em 2017 um novo livro de poesia e dois de tradução; coedita a escamandro – poesia tradução crítica [https://escamandro.wordpress.com/], e escreve seus textos literários no quandos [http://ninaarizzi.blogspot.com].

 

 

ceciliana

 

escorre o óleo do mundo - lima

de rícino, reino

 

mínima grama ou toda

canteiro, fecundo

 

a poesia é de quem

precisa, disse o carteiro

 

lhe ria, além a lama

ternas de exílio e poda

 

te revisito, o mundo - olha

 

entre as pernas.

 

 

crepúsculo sobre o rio acaraú

 

há em meus olhos uma beleza tão triste:

tamanho o estio, até os carnaubais estão

assim, feito meu peito

 

árido, ardido.

 

(do livro: tambores pra n’zinga)

 

 

pastoral da ribeira

 

uma casinha incendiada surge no prédio ao lado

o  rio cobre as vigas e pedras e cimento e pó

sob o rio se eriçam casas-lama os homens prontos e um emprego

trilhos e pregos e gente balouçam na casinha incendiada ao lado

 

afunda os pés de brincar co’ ua nanã que ri o ferro que afunda largo

um afogamento pronto pra uma cidade que nasce com seus homens fortes

na peneira a colher demora a massa e mofa e demora a massa

o fogão de barro submerso no lugar que nasce

 

acena um oi para a gente que vem incendiada

arde o fogo e a água a pedra e ferro da gente que vem

 

olha pra a direita         mais adiante

folhas de palmeira pra palhoça um pouquinho de amianto

entulho e câncer e as cabritinhas tão bonitinhas ó as galinhas

cisca cisca cisca

 

ôôôôôôôôôôô

camisas numeradas regatas largas e de manguinhas

 

uma cidade emerge submersa

uma ponte metálica de madeira uma ponte

escaiada caiada com luzinhas pra piscar e muda muda

olha a novacor de dez em dez segundos

 

um conjunto habitacional popular há quase cem quilômetros

da gente que levanta e nasce uma cidade submersa

sete prediozinhos de três andares pra amontoar a gente

saída de uma favela onde se gritar um estádio de futebol

 

ôôôôôôôôôôô

 

uma cidade surge submersa no prédio ao lado

é tanta gente é tanta gente e tudo que sente e faz a gente

 

incendeia, amor

 

incendeia

 

(do livro: geografia dos ossos)