Cidadeverde.com

Micheliny Verunschk - Poemas

 

Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

 

Separação

 

eu não lembro onde estava

em 17 de abril de 1998

é uma data aleatória

para preencher um documento

talvez tenha sido

a data da minha morte

ou da sua

talvez tenha sido um dia qualquer

ou aquele dia

em que a vizinha cega

tenha gritado e assustado o cão

e você tenha dito para ela ou para mim

assim você só piora as coisas

eu não lembro onde estava

exatamente em 17 de abril de 1998

nem se meu corpo era mais ágil do que hoje

nós dois correndo no meio da chuva

contando com que os relâmpagos não nos acertassem

ou a chuva de arroz e flores entre sorrisos

 

[na verdade venho esquecendo algumas coisas].

 

 

***

a palavra amor

comporta todo esse desastre

todo esse choro e desencontro

todas as guerras pelo nome 

Helena 

ou Fatma 

ou Maria 

ou César 

ou Miguel 

etc etc ao infinito?

a palavra amor 

comporta todas as tecnologias

para um abraço

o avião o trem 

a velha carroça encostada nos fundos da casa

e essas cartas 

essas músicas

essas joias e penduricalhos?

a palavra amor 

comporta todo os filmes

do cinema americano

as balas zunindo de ciúmes e desengano?

a palavra amor comporta

todos os verbos 

e esses versos mal escritos

que envergonhariam os primeiros 

habitantes das cavernas?

a palavra amor comporta 

tanto bicho morto

pilhas de livros

tantas fogueiras 

e luas ao redor do sol

e ainda as vozes que pairam sobre as cabeças

eu te amo te amo te amo?

a palavra amor

[esse móbile girante

objeto perfuro-cortante]

comporta a minha vida 

e a tua?

 

 

a velha Safo

 

a velha Safo

não saiu da ilha

lira nos braços

pronta a conquistar

o mundo

ou pelo menos 

atravessar o Rubicão

 

foi se ocupando

paciente e rigorosa

de tecer palavras

e de se apaixonar

por marinheiros

essa fauna flutuante

e erradia

que tanto se aproxima

ao fazer mesmo da poesia.

 

a velha Safo

não saiu da ilha

lira nos braços

mas não quis pouco

[musa encarnada]

esse pouco da gente

que com pouco

se contenta

uns poucos risos

e barquinhos de papel.

 

nem memória

nem saudade

nem o violento

sopro de Eros:

enquanto erro

masco chicletes

me perco

entre mensagens

e faço meu tanto

de poemas ruins

a velha Safo 

apenas me sorri.