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Maria Do Sameiro Barroso - Poemas

Maria Do Sameiro Barroso, Nascida em Braga (Portugal), em 1951, é poeta, médica, tradutora, ensaísta e investigadora nas áreas de Literatura Portuguesa e Alemã e História da Medicina; Vice-Presidente do Pen Clube Português entre 2012-2014, representante do World Poetry Movement (WPM), Delegada Cultural do Liceo Poético de Benidorm em Portugal e Membro Honorário do 66 Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

É autora de livros de poesia, traduções e ensaios, publicados em Portugal e no estrangeiro, e organizadora de antologias e eventos culturais. Foi galardoada com vários prémios de poesia, entre os quais o “Prémio International de Poesia Palavra Ibérica” (2009), com o original Uma ânfora no horizonte.

O seu livro Poemas da noite Incompleta, publicado pela Editorial Escrituras (São Paulo, 2010), foi seleccionado entre os sete livros de autores portugueses do Prémio Portugal Telecom 2011, no Brasil.

Dentre os vários livros de pomas publicados: O rubro das papoilas, (1987; reedição em 1997); Rósea Litania (1997); Mnemósine (1997); Jardins imperfeitos (1999); Meandros translúcidos (2006); Amantes da neblina (2007); Vindimas da noite (2008); Uma ânfora no horizonte, edição bilingue português-castelhano (2009); Poemas da noite incompleta, São Paulo, Brasil (2010); O corpo, lugar de exílio (2013); Idades sonâmbulas (2013); A cidade dos animais, poesia infantil (2013); A noite tem garras de seda, Textos em prosa (2013); Aras de Dioniso (2013); Ilhas/labirintos (2014); As suturas do tempo (2014); Antidotum. Poesia (2014); Um violino sentado no éter (2014); A inquietação dos alaúdes. Poemas mouriscos (2014); Turquesas do olhar. Poesia (2014); A mansão dos hibiscos (capa de Laura cesana, 2015); Papoilas Submersas (2017).

 

# Os poemas publicados são do livro Papoilas Submersas.

 

TEMPO INDEFINIDO

 

Desfaço-me num anel de renda antiga.

Tenho a boca vazia, um fruto vermelho,

alperces secos

e um ramo de aloendros

a toldar-me o rosto.

É Natal, eu sei.

E não devia pensar em coisas vazias,

nem na matéria gasta, devorada

pelo tempo.

O musgo escorre na solidão

dos presépios.

Um crânio de estrelas também.

É tempo de viver, tecendo a púrpura,

o coral, as próprias horas,

a seda antiga,

e o silêncio que sucumbe entre pérolas

e cinza,

no tropel de um verso.

 

 

A PRIMEIRA VERSÃO SOBRE OS ABISMOS

 

Na Primavera, a primeira versão das trevas

trespassa o inquieto florir das laranjeiras.

Ouço o seu gemido, no voo atordoado

dos insectos.

Antigamente, havia lagartixas estabilizando,

com o seu sangue frio, os ébrios perfumes

que me atravessam o sangue, debicado

por melros negros.

Sou inteira assim, na minha casa,

no meu jardim, com as aves que me inebriam

com o seu canto, com o sol, a luz

e as bagas dos mirtilos.

Ontem, plantei dois pés de framboesas,

junto ao galinheiro antigo onde cachos de figos

nascem de uma figueira que brotou

num pequeno orifício do velho cimento.

O musgo e os detritos devem ter alimentado

a raiz firme com a água funda,

entre o poço, as pedras, os lírios e as açucenas,

Na quietude do vento, há ainda orvalho,

Sinos e o fogo que se perpetua

no florir das árvores, nos tapetes de pétalas,

a neblina etérea, no rasto dos anjos

que se perderam,

no das aves que aqui pousaram.

 

 

AS NOVAS HORAS

 

Os pássaros despontam sobre o teu cabelo,

a águas precipitam-se nas baías.

As novas horas despontam,

os rios preparam-se para invadir

a tua boca, entre lances de dados,

marcas deixadas na areia,

augúrios celestes,

ou círculos desenhados

em quimeras que esvoaçam,

quando os caprichos do acaso cintilam

nas linhas sobrepostas

e a vida inicia um novo ciclo,

ao som de valsas, polcas,

inaugurando a sede e a vertigem

no seu secreto caudal.

 

 

FEBRILMENTE

 

Nasço com as luzes mais altas,

acesas no penúltimo degrau das sombras,

o corpo envolto ainda nos braços

da minha laranjeira,

derrubada na escuridão tempestuosa

da última noite de Natal.

Dela sobram pássaros, laranjas, folhas,

o vento, a chuva intensa,

e a raiz parcialmente apodrecida

que a fez tombar febrilmente

sobre a minha face.

A ela me acolho, à sua seiva, ao seu fulgor,

às toalhas de chuva,

e aos muros que irromperam, há muito,

para amparar as sombras

e a face fracturada destes dias.

Os seus troncos envolvem-me suavemente

nas noites, dilatadas entre a água, o incenso,

a talha barroca e a narrativa azul do ouro

e dos presépios.

Na chama das imagens fracturadas, nasço,

escutando o rodopiar das aves moribundas,

anjos furtivos adejando,

entre laranjas, música, trompetes de chuva,

escrevendo labirintos, longas espirais,

nas horas mágicas, luminosas

de um poema para o primeiro dia.