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André Ricardo Aguiar - Poemas

 

André Ricardo Aguiar, nascido em Itabaiana-PB, residente em João Pessoa, tem publicado diversos livros entre poemas, contos e literatura infantil. Autor de A idade das chuvas e Fábulas portáteis (Patuá). Na literatura infantil publicou O rato que roeu o rei (Rocco) e Chá de sumiço e outros poemas assombrados (Autêntica), ambos selecionados pelos PNBEs para as bibliotecas estaduais Brasil afora. Participa do Clube do conto da Paraíba.

 

 

CASCA

Depois que o livro sonha
o tempo que era árvore
o antes dos seus frutos
agora colhidos em forma
de mãos, que rápidas,
furtam as páginas em 
um pequeno soar de asas
e aterrissagem.
 


ESCORPIÃO R.I.P.


Parece um broche perdido
daqueles que guardam veneno.

Pequeno tanque de guerra
ou carro com guindaste

tão sinistro como aparece
também furtivo some. 

Não vem ao caso que eu 
o mate com o chinelo

que a pá e a terra
lhe sejam leves.

 

 

BOSQUE

Uso todo tipo de coisa que faça
que apascente meu pensamento
ou mesmo que o faça trotar
largo ou feliz nas escarpas do sentido
.
Pego em dias calmos a lenha fria
dos assuntos, das coisas mais chãs
e árvores desembestadas que caem
para as férias do papel.
.
Monto armadilhas: seja alçapão branco
ou teclado em riste, ou mesmo a linha
de pescar da caneta com isca na ponta
.
O que vale é o urro de presa que cai
na trapaça, e quanto mais dentro
mais livre: palavra.
 

 

ALUGUEL

Vivo numa casa chamada
corpo, que não quitei

e que perambula, serpente
de atalhos, daí meu endereço

quase em bote, nunca é o
mesmo: a casa em que

habito embora durmo ao
relento, pois quanto mais

me fecho, mais fora fico
de mim, a casa que a duras

penas sou eu, a casa de berço
e de cova, futura ruína

em que pergunto de mim,
à porta.