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Ithalo Furtado - Poemas

 

 

Ithalo Furtado, escritor, compositor, produtor cultural e geminiano. Prefere orquestrar silêncios que causar barulho. É fã das canções que só são absorvidas usando fone de ouvido num lugar isolado. Autor dos livros de poemas Uma Pedra em Cada por Enquanto e Dolores (e os remédios para dormir).

 

 

 

 

silêncio
desajuste
móveis empoeirados no peito

e a anti-sala do senso mofou
o assoalho com a chuva de ontem me veio
um psicopata da guiné dizer que 
há esperança do outro lado do mundo mas eu
preciso resolver o binômio de newton o empréstimo
do jardineiro o câncer de um jovem cubano pra sentir
que tenho força e profusão eu preciso sanar o
que me é caro e grita

silêncio
desajuste
móveis empoeirados no peito

nada de novo sob o solo de cítara refaço
cordéis e palavrões com maestria me parece
que os jovens que se perdiam pelo mundo agora
fumam seus sonhos sem motivo nada mais triste
que a revolta pela revolta nada mais triste que
não sentir revolta ao ver o mofo tomar conta 
da anti-sala do almoxarifado do quarto de hóspedes espano
os vasos chineses e alguns cristais sobre a 
mesa de centro ainda há muito pó ainda há

silêncio
desajuste
móveis empoeirados no peito

eu busco a distopia punks na missa das
seis entoam louvores ao caos selvagens em busca
de abrigo jardins de merda culto ao corpo
apenas e tão somente o corpo e as mensagens
do inimigo sincero breu nada de novo uma dolores
em cada por enquanto acabaram os remédios sonho 
já não há eu tenho sede e a água infinita não me beija
os pés preciso voltar pra casa mas o mofo tomou conta
da calçada lá dentro meus fantasmas trincam taças e
pronunciam meu nome ao nada o pó funda seu reino
e tudo o que me sobra é

 

 

Holograma

 

O resto você já sabe ou
são histórias que inventam no bar
tudo se elaborou entre dias de cão
e noites clandestinas no meu 
coração estrangeiro o teu
senso de náufrago me avisou
sobre aquelas coisas todas
que silenciam no almoço 
pai mãe parente distante
casamento emprego mais suco
quanto silêncio fazem meus peixes
no aquário são como as vozes todas
do meu peito quando estou
entre vocês quanto silêncio fazem
os pássaros na gaiola do vizinho são
como aqueles sonhos de eterna juventude
presos numa imagem surda no centro da sala

O resto você já sabe ou
são histórias que inventam no bar
não sei quase nada dos amigos 
que morreram ano passado mas conheço
seus poemas já me cortei já me curei
com vários deles foram anos difíceis
me entenda o meu senso de náufrago
me avisou sobre aquelas coisas todas
que fazem força pra viver
ante o olhar inquisidor
que é alto e vivo nos jantares
pai mãe amigo importante
casamento emprego outra dose
quanto barulho fazem os quadros que pintei
com o resto da tinta que meu pai jogou pela janela
em nome do futuro em nome de deus quanto barulho
fazem as rachaduras vivas do assoalho marrom
são como meu coração estrangeiro quando estou
entre vocês preso num holograma sádico de mim

 

 

Outra solidão latina

 

fui eu que esqueci de tirar a poeira dos
móveis a ferrugem das horas os pássaros do peito
fui eu que esqueci os olhos na lareira as unhas
no teu cóccix a pilha vencida no relógio da vida
fui eu que esqueci de ser como os outros de estar
como os outros de viver sem ninguém fui eu que
esqueci os dilemas no rádio os edemas na cara
os problemas no bar eu que esqueci que era apenas

outra solidão latina