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Nazim Hikmet - 5 Poemas

Nazim Hikmet é provavelmente o poeta turco mais conhecido século XX. Seus poemas já foram traduzidos para várias línguas.

Embora Hikmet tenha se unido a Atatürk na Guerra da Independência da Turquia (1919-22) trabalhando como professor – profissão-chave para espalhar o nacionalismo turco –, ele já contestava a versão oficial que negou (e ainda nega) os massacres na Armênia em 1915, quando a Turquia era aliada da Alemanha.

Estudou sociologia e economia na Universidade de Moscou de 1921 a 1928 e entrou para o Partido Comunista da Turquia na década de 1920. Em 1928, depois de voltar à Turquia sem visto, escreveu artigos em jornais, roteiros de filmes e peças de teatro. Por causa de seu retorno ilegal, foi encarcerado. Foi solto em 1935 para ser sentenciado de novo, nesse caso por um tribunal militar, em 1938, por atividades que haviam levado jovens soldados a se revoltarem – mais especificamente porque seu poema “O Épico de Sheik Bedreddin” estava sendo lido por jovens praças no Exército. Como resultado de processos internacionais, foi solto de novo em 1950.

Após perder a cidadania turca, morou na União Soviética e em outros países socialistas, finalmente tornando-se cidadão polonês em honra a seu antepassado que havia lutado contra os russos. No exílio viajou bastante, tornando-se membro do Conselho Mundial da Paz, dividindo plataformas com outros membros célebres como Sartre, Picasso, Neruda e Aragon. Seus poemas foram encenados por artistas famosos como Pete Seeger e Paul Robeson.

Casou-se três vezes. A seqüência de poemas líricos aqui apresentada foi escrita para sua primeira mulher, Piraye, na prisão. Logo depois de ser solto, em 1950, Hikmet e Piraye divorciaram-se.

Sua obra deixou de ser censurada na Turquia em 1964, e hoje seus livros e versões musicadas de sua obra podem ser encontrados em qualquer loja.

# Poemas do livro “Poemas a Piraye” traduzidos por Marco Syrayama de Pinto e John Milton. Material na íntegra

http://www.revistas.usp.br/clt/article/viewFile/49452/53531

 

 

20 de setembro de 1945

 

Nesta hora tardia

de uma noite de outono

estou repleto de suas palavras;

palavras que são eternas como o tempo e a matéria,

nuas como o olho,

pesadas como a mão,

 e brilhantes como as estrelas.

 

Suas palavras chegaram a mim,

de seu coração, de sua cabeça e de sua carne.

As suas palavras a trouxeram,

eram: mãe,

eram: mulher

e companheira...

Eram melancólicas, amargas, alegres, esperançosas, heróicas,

suas palavras eram humanas...

 

 

22 de setembro de 1945

 

Quando leio um livro:

nele você está,

quando ouço uma canção:

nela você está.

Quando me assento para comer o meu pão:

 sentada diante de mim você está,

quando trabalho:

diante de mim você está.

 Você, que está sempre presente comigo:

não podemos conversar,

não podemos ouvir nossas vozes:

você é minha viúva há oito anos...

 

 

24 de setembro de 1945

 

O mar mais bonito:

é aquele que não foi descoberto ainda.

A criança mais bonita:

não cresceu ainda.

Nossos melhores dias:

são aqueles que não vivemos ainda.

 A palavra mais bonita que quero lhe dizer:

é aquela que não disse ainda...

 

 

26 de setembro de 1945

 

Nos escravizaram,

nos aprisionaram:

a mim dentro das paredes,

a você, fora delas.

A nossa condição é insignificante.

O pior é:

conscientemente ou não,

 carregar a prisão dentro de si...

A maioria das pessoas está destinada a essa situação,

as pessoas que são honestas, trabalhadoras e boas

e que merecem ser amadas assim como eu a amo...

 

 

7 de outubro de 1945

 

Atravessaram o mar aberto os gritos dos homens à noite

com os ventos.

Passear ainda é perigoso

no mar aberto à noite...

 

Faz seis anos que este campo não é arado,

estão lá os rastros dos tanques como sempre estiveram.

Os rastros dos tanques estarão cobertos

de neve neste inverno.

 

Ó luz dos meus olhos, luz dos meus olhos,

os noticiários estão mentindo de novo:

para que o balanço dos exploradores feche com cem por cento de lucro.

Mas quem voltou do banquete do Anjo da Morte

voltou com a sentença...