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Maria Azenha - Poemas

Maria Azenha nasceu em Coimbra, Portugal, em 1945. Licenciou?se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra e exerceu funções docentes nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Desempenhou atividade docente no Quadro de Nomeação Definitiva na Escola de Ensino Artístico António  roio. É membro da Associação Portuguesa de  Escritores e do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa. Seus poemas integram diversas antologias de poesia. Possui inúmeras publicações em revistas e participações em encontros de poetas, Bienais de poesia e ciclos de conferências. Integra a Base de ados de Autores Portugueses da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas do Ministério da Cultura de Portugal. Alguns exemplos da sua vasta obra são: Pátria d’ água (Edições Átrio, Lisboa, 1991); A lição do vento (Edições Átrio, Lisboa, 1992); O coração dos relógios (Editora Pergaminho, Lisboa, 1999); P. I. M. (Poemas de intervenção e manicómio)(Universitária Editora, Lisboa, 1999), Nossa Senhora de burka (Editora Alma Azul, Coimbra, 2002) e A Casa de ler no escuro (Editora Urutau, 2016)

 

***

Não sabes, leitor, como estou rodeada de silêncio
há uma ave onde este texto se apoia.
fecho os olhos, e o poema traz para este lugar
o búzio dos cofres

escrevo em filigranas de ar
secretas harpas de sombras
onde as primeiras letras ousam pousar.
durante anos treinei o lúmen do coração
em cântaros de sol   subindo os primeiros degraus

depois habituei-me à confidência das aves
pousadas na inteligência dos bosques
movidas a vento e água,
acácias entre mãos

por último a ciência da respiração
no sumo das auroras

 

 

A tua boca sobre marte 


mãe — é dezembro 
se morreste, porque fazes 
tanta força contra os números? 
porque fazes tanta força 
na matéria? 
as máquinas levaram tudo 
— a tabuada a lua. 
a febre dos satélites entrou pela casa dentro. Ouves? 
sentes?... todos os frutos 
ao contrário na tabua­ 
da da neve. 
e a tua boca sobre 
marte. e eu sonhando. 
sonhando o alfabeto como uma 'máquina lírica'. 
sei agora ao contrário 
como se chama o inverno. e as árvores 
todas destelhadas pelos ventos 
de mercúrio. Ë o teu nome dentro 
com toda a força na paisagem: 
as páginas as 
casas 

os peixes encarnados avançando 
pelos números. 

e a chuva toda lá fora ardendo, 
pesada, 
sobre a terra inteira como estátuas puras. 
como se chama, mãe, a neve agora? 
agora, mãe, 
é janeiro 
todo o tempo fora: 
— as máquinas levaram tudo, 
a tabuada a lua.

 

 

O coração dos espelhos

 

há um espelho que canta
e bate na cara e
sangra

atiro o desenho da sombra
da escrita
ao primeiro degrau. e os olhos das aves
cegam.

é uma escada
de
luz
e
trevas

uma escada de água.

atiro a segunda pedra
à sombra
do segundo degrau

avanço na ondulação difícil da casa.

el coração dos espelhos é alto
tão alto

 


Século XXI ao longe! 

De aqui de Portugal saúdo-vos ó todas as máquinas, 
Século XXI ao longe!Estrelas extáticas! 
Cidade com todos os movimentos por fora dos portões do 
[absoluto! 

Todos os vaivéns de Apolo para os cárceres privados 
Todas as lixeiras monumentais pululando comigo, 
Todas as orgias báquicas lá ao fundo dos muros, 
Toda a erecção abstracta na literatura dos poetas 
Toda a pulsação histérica! das raízes, das árvores, das pedras, 
Todos os versos-símbolos roçando-se contra a força de Newton, 
Todas as meretrizes-gestos aos concretos da alma, 
Meus versos, meus pulos, meus urros! 
Minhas sensações maiores em fuga para os símbolos! 
Saúdo-vos! Saúdo-vos enfim deste solo! 
Abram-se-me todas as portas! 
Abram-se-me todas as janelas do passado! 
Grande Carnaval de sensações cariocas, 
Corpo e alma na contiguidade do Universo, 
Ó sempre moderno e eterno átomo dos Cantores Transfinitos 
Na voz universal dos poetas! 

Por tudo isto vos saúdo. 
Por tudo isto vos transmudo 
Na consanguinidade da Terra e para a literatura do futuro. 

Quero escrever agora sem intervalos nesta unidade moderna! 
Quero escrever sem símbolos para a música das máquinas. 
Quer ficar aqui, na impossibilidade de consubstanciar o mundo. 
Quero passar e berrar e fazer literatura a todos os gritos. 
Quero soltar os ventos e ir parar a todos os sítios, 
Ser arremessada, atirada contra os muros, como as coisas que 
[já estão longe, 

E têm a força para além do infinito. 
Ir por fora e por dentro a todos os momentos de tudo, 
Por fora e por dentro de todas as fraternidades, 
Mãos-dadas, palmas, sindicatos, comércios, 
Estrelas extáticas no meu cérebro! 

Século XXI ao longe! 
Quantas vezes beijei o teu retrato! 
Quantas vezes te marquei de Transfinitos! 
Quantas vezes Rousseau, Picasso e todos os génios 
Que estão para além de ti! 
Ah, quantas vezes uma ânsia me ficou... 

Alma-chave!, Alma-fera! 
Alma-seta para todos os meus gestos carnais do passado, 
Para todos os meus espasmos contidos! 
Quantas vezes eu te bati! 
Tu, carregado de limites!, 
Século XXI ao longe! e a Cidade do Futuro! 

Fora os políticos! Fora os literatos ! 
E os mercadores fáceis da literatura! 

Fora com tudo! 

Tudo isso é letra suja que mata 
E esbarra com o espírito. 
Deus é o sentido plurívoco do Universo. 
Deus é o sentido antigo, motor-escada para o progresso: 
Nave, grito, astrolábio, 
Robot de todas as metafísicas! 
Tudo numa grande corrida, numa grande indústria, 
Numa grande marcha para a cidade no espaço. 
Enfim, abstractamente, tudo rodando para cima de tudo 
E fazendo um ruído disperso. 
A alma é só una. 
A alma é só una! 

Por isso é a ti que endereço esta Carta Democrática, 
Ë para ti que eu salto para cima de todas as ânsias inquietas 
e confusas: 
Círculos máximos, paralelos, 
Panfletos de Futuro sobre os muros, 
Paradeiro certo, ó grande libertador do cárcere das mulheres, 
E não só! 
Tua alma é nave! 
Tua alma é ponte! 
Não há apenas o sonho! Há a vida também! 
E talvez uma outra terra para todos os propósitos incompletos, 
Cortejo de mim, 

Avé, salvé! 

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Gargalhadas com mandíbulas colectivas, 
Braços de memória em uníssono nas vigílias, 
Tatuagens com coágulos nos cachimbos 
Velhas a fumar Tempo! 

....................................Quando são dois e é só um a unidade, 

Quando são três e continua a ser Um. 
Quando são muitos e a unidade permanece. 
Quando a inteligência é o princípio superior do Universo. 
Por tudo isto vos saúdo, 
Por tudo isto vos transmudo na voz universal dos poetas! 
Por tudo isto, século XXI ao longe, 
E a Cidade do Futuro!