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Nuno Rau - Poemas

Nuno Rau é carioca, arquiteto e professor de história da arte, mestre e doutorando em história da arquitetura, e tem poemas publicados em revistas e sites como Cronópios, Germina, Sibila, Zunai, Mallarmargens, Diversos e Afins, RelevO, em diversos blogs e nas antologias "Desvio para o vermelho" (13 poetas brasileiros contemporâneos), pelo CCSP | Centro Cultural São Paulo, "Escriptonita: pop/oesia, mitologia-remix & super-heróis de gibi", que co-organizou, e "29 de Abril: o verso da violência", ambas pela Editora Patuá e, em fase de organização, a antologia "Poemáquina". Em 2017 saiu seu primeiro livro, "Mecânica Aplicada". É um dos editores da revista eletrônica mallarmargens.com.

 

inútil paisagem imóvel

 

diante de seu corpo, da alma

nem pensar: ela pegou

um táxi em direção

ao centro da cidade

abandonada ou se perdeu

em 78 revoluções

por minuto [você vai

falar de novo no eixo

inexistente, cara?] ou

se desintegrou quando entreviu

no espelho a própria imagem e julgou que poderia ser

antimatéria ou ainda

seu corpo, isso que produz

pensamentos, irrigado com sangue

quente, hormônios e linfa, isso

que pulsa e expele

secreções, não se reconhece

na ideia de alma As fachadas

mudaram de cor, os pântanos

aterrados, flores de concreto

e vidro brotaram da terra, mas

a paisagem permanece

imóvel, áspera [não tem

negócio, meu chapa], mero

 

cenário Enquanto isso, mercadorias

incandescentes inauguram

novos ritos em catedrais

do instante onde séquitos

depositam almas planas em suaves

prestações num jogo

de corpos imolados nas epopeias

controladas por relógios

de ponto, câmeras de captura

de vídeo e catracas biométricas,

à espera, sempre à espera

de uma rave

tão ácida que dissolva a cápsula

impermeável da alegria

pra que ela penetre em todas

as rachaduras

dos muros do presente

e desapareça

 

 

circunstância, 1

 

você não vem novamente - alegou

desta vez a chuva intermitente há

dias persistindo sobre os telha-

dos da sua cidade e da minha. Sou

refém de um animismo primitivo

e me queixo às coisas quando, em repouso,

penso dizerem verdades que ouço

e simulo crer, como no destino

ou na maior parcela das pessoas:

é uma solidão este tumulto

que me ladeia. Em vão, frente à arisca

face do amor, quero o abismo e todas

as suas vertigens, filme inconcluso

onde estou só, sem luz, sem roteirista.

 

 

circunstância, 2

 

você não vem novamente. Alegou,

por último, qualquer outra razão

que tenta demonstrar que as coisas são

como devem, e elas, no fundo, estou-

ram à frente de nossos olhos sem

motivo que se aplique ao repetido

espetáculo banal, sem estilo,

desta fantasmagórica miragem.

Sua cidade e a minha ainda seguem

no seu ritmo. Eu não: me afundo mais

na anestesia ácida que o corpo

arranca dos hormônios em vertigens

provisórias e circunstanciais,

bem como dos poemas e do amor.

 

 

circunstância, 3

 

você não vem – isto é definitivo

como no rapto de viver (surfar

na chama do instante, seu desatino)

a gente vê o presente cancelar

a si mesmo, contínuo, incendiando

cada segundo, agora, na explosão

de um outro a ele atado, ardendo tanto

que nada além da cinza do lixão

do tempo, memória, vai ter assento

no chão do pensamento, e mesmo que

desse rescaldo a gente faça tinta

e imprima em novos livros fragmentos

de espanto, poemas, não vai deter-

se o fim, poeira fina, coisa finda.