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João Henrique Vieira - Poemas

João Henrique Vieira é escritor, jornalista e produtor cultural. Natural de Teresina. É formado em Comunicação Social (UESPI). Teve textos publicados em revistas como Trimera, Roda de Poesia & Tambores e outras. Publicou de forma independente em 2010 o livro de poemas “Olá, meu caro” (disponível na página facebook.com/olameucaro), e prepara para o segundo semestre de 2017 um novo livro de poemas. É poeta e coordenador do Projeto Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação, coletivo de poetas e produtores culturais contemporâneos teresinenses. 

 

ornamental

 

insetos trepam tranquilos

nas flores do quintal

e piratas trazem especiarias (sem amônia) mais baratas

 

urubus circundam os olhos azuis do céu

e de pequenos aparelhos eletrônicos vemos homens desmanchando cidades

 

de uma garrafa plástica jogada ao mar de lixo, lê-se

– o prazer é barato, caro é viver.

 

 

sob o cinza depois do fogaréu

 

esperança é uma pedra a ser jogada

o peso leve a dor diária

esperança tem fogo não tem arma

 

o tempo traz num sopro imortalidade

quando o bicho afaga a linguagem

 

na madrugada o bicho canta

dorme

e o noticiário pincela um cinza na paisagem

 

o dia grita

o bicho junta pedras e oferece abraços

a esperança é uma pedra

 

 

art bar

 

trabalhadores atravessam os versos de Belchior pela praça pedro segundo diluindo preocupações pela paisagem

– os olhares de longe não têm endereço –

 

a cerveja dos últimos centavos engole o homem devagar

o amor edifica a alma corta a carne ajuda a pagar as contas

os tempos não estão para encontros mas sabemos tudo uns dos outros

o ofício tem sido amassar em papéis pequenas iluminuras de um fim de tarde  

 

 

sexo e solidão a três

 

sobe a luz do mesmo poste

embacenta como todas as noites

com lua ou sem lua, com mais ou menos vida

que estava a luzir aquela esquina há bastante tempo

encontraram-se na mesma hora não marcada

mas sempre pontual 

doidinho, celinha e lulu

um drogado

uma puta velha e viciada

e um viado metido a besta

 

ao ver doidinho, celinha abre um sorriso escrachado e com um sonoro tapa na bunda diz pra lulu

- hoje eu vou trepar e me chapar, ô coisa boa é fuder doidona, vem doidinho, vem!

Lulu esgueira-se e de rabo de olho diz, dar para aquele ali, meu cu nem treme

– pau é pau, é tudo igual, ficou duro eu engulo, disse às gargalhadas celinha

– e fuma! Lembrou-lhe lulu

a puta não se conteve e soltou

– me desculpa, bicha, mas priquito é priquito, faz milagres

 

ao cabo de meio baseado, doidinho enfia a mão na bunda de celinha, enquanto lulu passa a goma no baseado de modo lamber como se chupasse um pau

doidinho olha e diz, doido pra chupar um pau, né luluzinha, luís augusto!

– vai tomar no cu, fidirrapariga!

– eu vou, mas tu não vai, zomba-lhe doidinho

 

celinha pega o baseado e põe um peito pra fora do decote

 

celinha doidinho noite lulu e o poste

– trepada na esquina –

sexo e solidão a três.