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Noélia Ribeiro - Poemas

A pernambucana Noélia Ribeiro mora para Brasília desde 1972. Formada em Letras na UnB, lançou Expectativa, em 1982; Atarantada (Ed. Verbis), em 2009, e Escalafobética (Ed. Vidráguas), em 2015. Tem poemas publicados em antologias brasileiras e nas revistas eletrônicas Mallarmagens e InComunidade. Recebeu o Prêmio FAC 2017 – Igualdade de Gêneros na Cultura (SECULT-DF). Será uma das homenageadas do Salão de Poesia Psiu Poético, em Montes Claros, em outubro de 2017.

 

SOBRE AS ONDAS

 

Conversando com o mar,

decifrei meus tsunamis

de paixão

(também os teus).

 

Consultando o mar,

percebi a inevitável

arrebentação

das ondas ao léu.

 

Contemplando o mar,

vi-te mergulhar

desvairado,

e me afoguei por um momento.

 

Compreendendo o mar,

afugentei o vício

de amar sem razão,

salvando-me do afogamento.

 

 

CLIMA ETÉREO

 

Todo minimalista,

ele entrou no íntimo

(de Eurídice)

sem deixar pista,

estancando

o sangue natural,

o desejo do gozo

e o mais ínfimo

detalhe vital

de feminice.

 

Febril,

secou cabelos

lábios, pele, pelos,

atingindo,

em tom levemente senil,

o óleo da vagina,

sagrado elixir de menina.

 

Calado e repentino,

fez soar o sino,

acelerando o tempo etéreo

por horas e horas,

em 40 graus de quentura,

para depois,

nem tão sério

nem tão apressado,

ensejar

naquela senhora,

em vez de amargura,

um olhar womanizado.

 

 

MOVIE

 

A vida repousa em uma sala escura

para projetar-se intensa, púrpura

como filme de Woody Allen.

Na poltrona, penso esperançosa

no dia em que brotará do Cairo a rosa.

 

Assim saladespero uma eternidade...

Assim permaneço na escuridade,

sem perceber o lanterninha

que iluminará nas entrelinhas

algo de que não me lembrava mais:

 

o filme da minha vida estava há muito tempo em cartaz!

 

 

DEEP IN MY MIND

 

Deep in my mind,

rola um filme de segunda

com close no peito e na bunda

e beijo fake pra começar.

Tem dedos que brincam,

línguas que dançam jingles

in the dark

sem hora pra terminar.

 

Tudo free, sem o olhar severo

de quem quer que seja.

 

Inside of me é assim, baby.

Outside, porém, é outro lance:

 

Meu amor nada sabe

da minha sandice.

Não beija quente

nem fala inglês.

Toca-me com doçura

e ama minha nudez

de moça pura.