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Thiago Scarlata - Poemas

Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor e criador/editor do blog literário Croqui . Teve poemas publicados nas Antologias “Âmago” (Editora Regência/SP - 2011) e “Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016” e também nas Revistas “Gueto”, “Escamandro” “Mallarmagens” e “Poesia Brasileira Hoje”, além de blogs literários. Foi finalista do PRÊMIO SESC DE LITERATURA 2016 , vencedor do CONCURSO MOTUS – MOVIMENTO LITERÁRIO DIGITAL 2017 e finalista do III CONCURSO DE POESIA “PRÊMIO JAYME ROLDON 2011. Após esse hiato de 5 anos, retoma a escrita e agora publica seu primeiro livro de poesia, de título "Quando não olhamos o relógio, ele faz o que quer com o tempo", pela Editora Multifoco.

E-mail: scarlatatts@gmail.com
 

 

Refração


o cego compõe

suas próprias cores,

sua cidade.

não é o cego um condenado

 

como a sombra

que é o jeito da luz

ser as coisas que toca,

ele tem um hábito

 

 

Cinzeiro


Tempo, esse velho surdo e apressado

que não mede a teia que tece

desobriga grão a grão

(sem qualquer objeção)

pastoreando em rostos e restos

 

as cinzas de minha avó

ainda conservam sua leveza

sutileza-pó

 

guarnecido pelo silêncio

e tragado pela digestão da manhã

saco o verbete:

"só há disparo quando o peito engatilha"

enquanto uma infame ogiva

beija o chão da Palestina

 

as cinzas de meu avô

ainda conservam sua decência

granulado-humor

 

após sua leitura este poema

deve ser cremado e distribuído

no mais próximo mato

[mini monte de métrica poeira]

fermentando, assim, de alguma maneira

o devir do pasto

 

quanto ao poeta mais pra frente

a tradição jogando laço,

selando o corpo

pairá fibra e porosamente

deixo aqui testamentado:

às minhas cinzas,
o sopro

 

 

Vacância


não sou parteiro

minhas mãos não herdam

o vinagre dos nascimentos

 

não sou porteiro

nunca forcei maçanetas e nem tenho

a prerrogativa das entradas

 

não sou marceneiro

sequer me comovi do alto

com o verniz que progrediu nos caibros

 

o pedreiro que tentou me habitar

era tão bruto que não movia

a pedra do estado burro

 

meu pai, ah, meu pai, não me peça

pra lavrar a pomada desta terra

abortar de seios cios

a bacia do leite virgem

os punhos que ordenham agora

são eles que agridem

 

pai, nada aqui é lembrança

nem aqui ou em qualquer outro

basta de profecias redondas!

arromba teu porão, pai!

grita mais que a veia embala!

pai, desenha tua própria bandeira!

e me alforria dessa porteira...