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Lucas Rolim - Poemas de O Mirábolo

Lucas Rolim é poeta, editor independente e fez algumas traduções. Como poeta, é autor de O Mirábolo (Ed. Moinhos, 2017) e dos livrinhos artesanais No Panorama do Tempo o Menino se Alarga (2015), Os Cantos de Eleanor (Selo Kizumba, 2017), entre vários outros. É membro do coletivo Acrobata e do grupo Tensão, Tesão & Criação, participando ativamente das rodas de poesia e do circuito artístico da cidade. Teve poemas e traduções publicados em revistas, jornais, sites e antologias. Nasceu em Teresina, onde habita e é habitado.

 

e-mail: olucasrolim@outlook.com | facebook: fb.com/olucasrolim

 

 

dois amantes

& a metamorfose

 

I

dois amantes marcham de muito longe

dentro da madrugada que os desafia

 

deixam suas terras danças e músicas

para se encontrarem no silêncio do deserto

 

um vem do ocidente que lhe diz

morrerás antes que o sol te acolha

 

outro desponta do oriente que o alerta

do deserto vieste e teu espírito é areia

 

a trilha que seguiram madrugada a fio

pertence agora ao Vento Leste – suas pegadas

foram extintas com a visita da noite que sopra.

 

 

II

frente a frente no seio das dunas

os amantes sabem que não há miragem

— que de carne e toque é feito o momento

 

para que a palavra do primeiro acenda

como fogo vivo nas orelhas do segundo

 

é preciso que se ergam defronte de si

 

mirando a esfinge que no outro habita

& volvendo ao que o sonho tornou real

 

desnudando o enigma & virando peixe

no mar que engole o deserto em sua

vertigem & mudez.

 

 

 

 

o que aprendo

"Tu procuras algo que transcenda o mundo

eu procuro o mundo no mundo ou para aquém dele”

| António Ramos Rosa |

 

sob o astro incendiário

assisto à cerimônia das rochas;

 

o que aprendo

é um nutriente sólido par’os dias,

uma ciência das coisas que existem no silêncio.

 

quando a voz alteia,

o detalhe passa despercebido,

anoitece o que antes era claro

– o olho atento se dissolve.

 

as rochas têm uma dança particular

e em seu ritual cabem todos os séculos.

 

o que aprendo

é o mistério que se enverga sobre as coisas belas,

o espanto que vem das incertezas.

 

as rochas me ensinam

que não há senão a dúvida.

 

 

pelas cercanias

 

desiludidos,

 

cruzavam a espera

levando um mapa de ausências,

uma distância inquieta.

 

ruínas

e compulsões revisitadas.

desertos povoados novamente.

 

(as trilhas guiavam

a antigos hedonismos)

 

eles herdavam o sigilo

de seus quartos e recordavam

conversas aflitas.

 

em seus corpos

ardia a inscrição da noite:

os piores dos cegos. os piores dos cegos.

 

era tempo de saber

o paradeiro da angústia

e abrigar-se no conforto das conchas.

 

tempo de habitar

silêncios.