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Sarau de Segunda com Letras

 

O Sesc Centro promove na próxima segunda-feira (30) o Sarau Segunda com Letras, dentro do projeto Trilhas Literárias. Será às 19h no Bar Genu Moraes, anexo ao Theatro 4 de Setembro. O objetivo é divulgar e cultivar a literatura piauiense em Teresina, associando literatura à musica, à linguagem visual e à vivência literária, além de promover novos trabalhos.

Dentro da programação do Sarau estão a premiação do Leitor do Circuito Sesc de Leitura, divulgação do Edital Prêmio Sesc de Literatura 2017, lançamento do livro Baú de Poesias, da escritora infantil Raíssa Lages Neiva, bate-papo literário com Demétrios Galvão e Thiago E, intervenção artística com a exposição Caos sem Olho, do poeta e publicitário Italo Lima, intervenção poética com João Henrique Vieira e Lucas Rolim, intervenção artística musical com Marcus Sousa (Sonoridas) e Fabrício Santos (Música Tio~), além do lançamento da Revista Acrobata.

O Sarau Segunda com Letras acontecerá nas últimas segundas-feiras dos meses de janeiro, abril, julho e outubro, sempre no Bar Genu Moraes, às 18h30.

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Sarau Segunda com Letras | Theatro 4 de Setembro – Bar Genú Moraes | 30/01 | 19h | Gratuito | Livre para todos os públicos |

 

www.pi.sesc.com.br

Bruno Molinero - Poemas

Bruno Molinero, autor do livro de poemas Alarido (ed Patuá, 2015), estudou na Escola de Comunicações e Artes da USP, na Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba) e na Universitat de les Illes Balears (Espanha). Jornalista, escreve para a Folha de S.Paulo desde 2010. Foi vencedor do prêmio Jovem Jornalista, do Instituto Vladimir Herzog, finalista do prêmio Nascente, da USP, e indicado ao Prêmio Folha. Em 2012, representou o Brasil no World Event Young Artist, na Inglaterra. Alarido integra a Coleção Patuscada 2, projeto premiado com o ProAC - Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo.

 

marcela, 43, casada

 

matei, sim senhor
porque quis
não, até que era bonzinho
na gaveta da cozinha. uma daquelas grandes, sabe?
isso, ele estava no sofá
de costas
não, não me viu
dei dois passos e a lâmina escorregou para a cabeça dele
não tirei porque mancharia ainda mais o tapete
ora, se sabe, por que pergunta?
desculpe. sim, o corpo ficou lá
depois saí
mansão. era muito rico
não. deixou tudo para as meninas
eu sabia, sim senhor
porque quis, já disse
cansei de subir em pau de sebo. deslizar fácil não tem graça
sim. mas vou ficar muito tempo?
é que deixei a panela no fogo

 

 

salete, 66, centro de atenção psicossocial álcool e drogas III

 

como estão os répteis?

sacodem as inexoráveis

escamosas

patas pela sala?

e os demais tortos

insodáveis

sempre deitados

nas saliências sinuosas

ainda seguem

salutares

inoxidáveis?

os répteis da somália

onde estão?

bocas cheias de cáries

e gengivas incipientes

segregados

dos novos répteis da sarjeta?

e os toscos ascos

santificados

pelas sementes do sussurro

do socorro

do insano

sentados com os velhos

répteis sintomáticos

sibilantes de sovina

e soltos pelos cantos

onde estão?

 

silêncio

 

os répteis

sopram

segredos

 

 

priscilla, 19, dois três sete

 

o que mais me irrita aqui dentro

é o espelho em forma de losango

 

mais que a árvore de natal

encostada no pole dance

ou que os tapas na bunda

e meu sorriso cimentado para não desagradar o cliente

mais que pau de obra

cavocando o meio das minhas pernas

como se procurasse petróleo

mais ainda que o grupo de amigos

tão bêbados

que nem conseguem fazer o pau subir

mas exigem que continue chupando borrachas molengas

até dar câimbra na boca

 

o vidro irrita mais

porque não instalaram outro

e é tão pequeno

que a gente mal pode retocar a maquiagem

 

já reclamei um milhão de vezes

pedi para colocarem um dos grandes

no teto de cada quarto

o que agradaria os rapazes

e me ajudaria um bocado

 

mas não

sempre dizem a mesma coisa

é muito caro

não temos verba

quem sabe no mês que vem

 

o que ninguém imagina

é que, se chego em casa

de manhã

borrada

roupa amassada,

meu namorado nem me olha

vira de lado

sem dar bom dia

um beijo no pescoço

ou puxar meu cabelo

 

de propósito

 

pois já está careca de saber

que adoro quando ele faz isso

e que a culpa

é do maldito espelho losango

que não deixa eu me arrumar

quando saio do trabalho

 

 

Lançamento da Revista Acrobata n 6

foto: Lucas Rolim

foto do primeiro lançamento da Acrobata n 6, os editores da revista com o escritor paulo Machado.

 

Hoje, à partir das 19h, acontecerá mais um lançamento da Acrobata n 6, seguindo um circuito de apresentações da edição ao público. O lançamento será no Café da Gota Serena. A atual edição tem uma ótima entrevista com o poeta e pesquisador Paulo Machado e ilustrações da artista visual italiana Giulia Pex. Além de muita poesia, discussões sobre políticas culturais, audiovisual e literatura contemporânea. Apareçam para batermos um papo e tomar aquele café.

(O Café da Gota Serena fica na Anfrísio Lobão (X com a praça dos skatistas), em frente ao Pão de Açúcar do Jóquei.)

 

Segue um trecho da entrevista com o poeta e pesquisador Paulo Machado, como uma peque amostra.

 

Paulo, em toda a tua fala literária, há uma busca de informação no campo da história pela informação fidedigna, pesquisando no arquivo público, nos jornais, preocupado com a memória da cidade. Como tu costura a relação entre história e literatura?

Tendo nascido e vivido no centro da cidade, percebi mudanças arquitetônicas e comportamentais. As áreas de­ixavam de ser residências e as famílias ausentavam-se. Os imóveis começavam a ser modificados ou demolidos. As práticas de vidas iam sendo substituídas, num processo muito rápido. Começou a surgir, nas mídias impres­sas da época, a afirmação que “Teresina era uma cidade sem memória”. Isso me inquietou. Pode uma cidade não ter memória? E o que significa a memória de uma cidade? Fazendo essas reflexões, comecei a perceber que a memória coletiva é o somatório das memórias individuais. E que a memória coletiva, não corresponde à memória construída nos textos de história. Sabemos que toda História é uma versão, produzida por quem escreveu o texto, a partir de determinantes ideológicos. Muito da memória coletiva é excluída. Há quem afirme: “isso ocorre por esquecimento”. Mas o esquecimento é involuntário. Já o processo de ocultação, este, sim, é resultado de uma decisão. Nesse contexto, me deparei com o poema do H. Dobal, spbre Leonardo da Senhora das Dores Castelo Branco, personagem por mim desconhecido. Até hoje ele continua um desconhecido para muitos piauienses. Quais forças teriam produzido a ocultação de Leonardo? Em 1976, quando fazíamos o Jornal Chapada do Corisco, numa das discussões de pauta, foi colocada a possibilidade que editássemos pela primeira vez, no Piauí, um conto de um piauiense, que só tinha sido editado, uma única vez, em Salvador. Titulo do conto: Fogo. Autor do conto: Vitor Gonçalves Neto. Editor baiano: Pinto de Aguiar. Livro em que o conto foi editado: Contos Regionais Brasileiros, em 1951. Temática do conto: os incêndios ocorridos durante a Ditadura Vargas, na cidade de Teresina, que resultaram na morte de um número sig­nificativo de pessoas! Apopulação que morava em casas de taipa, cobertas de palha. Decidimos editar o conto Fogo, pela primeira vez no Piauí, no Jornal Chapada do Corisco. (...)

Bellé Jr - Poemas

 

 

 

Bellé Jr. nasceu em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná. Viveu em Curitiba, graduou-se em Jornalismo na UEPG e há quase seis anos habita São Paulo. Vive de escrever histórias e estórias. É autor do livro Trato de Levante, publicado e 2014 pela editora Patuá.

 

 

 

 

 

 

o poeta que amo é comunista

não tenho dúvidas sobre meu coração anarquista

e assim seguimos de versos dados

 

apertamos o caudilho e disparo

meu pássaro negro vara a tempestade

num desespero libertário de vida

e de morte

 

rima no poente sangue de nosso povo sulamericano

as tintas sílabas em teu vermelho de oceano

rebelde que nunca se rende

não sei se somos

ou nos tornamos

 

tua poesia tem densidade de cobre

verve vulcânica aflora na altura dos andes

pura lava de copihue

que lavra

a brava terra mapuche

 

 

***

desfaz as horas desse tempo

pro tempo dessas horas

desalmar

 

lembra que agora preciso ir

pois sem demora

já é amanhã dentro de mim

 

vamos ficar mais cinco gramas

de sossego

pra que todo esse nosso desespero se vá

enfim remoendo

nesse dichavador invencível do tempo

e então enrolar em velhos horizontes

o inesquecível e o distante

acender nos últimos raios do poente

de nossa juventude errante

que vai nesse destino esfumaçante

renascendo em círculos infinitos

de baforada

em baforada

 

n’um beque a dois

 

 

***

é preciso apegar-se à mão de um amigo

a qualquer sinal coletivo de gratidão

a qualquer minúscula evidência empírica de solidariedade

às raras empatias capazes

de comungar os homens e as mulheres

é preciso apegar-se às flores e às frutas maduras

e à manga rosa que é as duas

 

faça outubro ou faça verão

 

não há outro jeito, compadre

comadre, de algum jeito

a insanidade se apossou da razão

e tudo começou quando vendemos o último naco

de nossa dignidade

por um prato de arroz e feijão

 

quem consegue esquecer desse dia?

os olhos abrindo-se fatalmente após uma noite

de tormenta fria

ainda assim desejando retornar a ela

e matar os sonhos de hipotermia

como esquecer a maré cheia e súbita

ao abrir as duas densas cortinas?

uma de couro e outra de insolência intempestiva

e deixar que a luz inunde as ideias

e da nascente dos olhos verta

a garoa antes seca

de realidades fundas

tão logo trovoem-se os cílios

e do atrito, a fagulha

faz brotar a manhã depois da manhã

numa ressaca de amanhecer

trazendo de volta tanto ontem

trazendo um hoje pra tanto talvez

 

é preciso acreditar na petulância do adolescente

é preciso acreditar na coragem

do sorriso esperançoso de um velho trabalhador

capaz de vencer as memórias

e o cansaço de viver delas

e nelas restar-se um pouco maior

desgarrar-se da brevidade da existência, arrancar-se

das próprias raízes

já abraçadas à morte

para dedicar à vida uma homenagem de quem

caso pudesse

jamais a esqueceria, jamais

a deixaria à míngua

e a ela voltaria

quantas vezes ela quisesse

 

é preciso creditar o amanhã

aos que ontem acreditaram

é preciso creditar o ontem

aos que acreditaram no amanhã

mas também é preciso creditar a fé

ao presente

mesmo estando ele

mais desacreditado do que a gente

 

 

 

Roberto Piva - Poemas

4 Poemas do Livro "Antropofagias e Outros Escritos"

 

Roberto Piva é um dos poetas de brado mais forte da poesia brasileira dos séculos XX/XXI. Figura central da contracultura no Brasil, soube articular vida experimental com linguagem explosiva. Piva emerge no cenário dos anos de 1960 com uma poesia que bebia na fonte do surrealismo e da geração beat. Seu trabalho extrapolou a dimensão da página e dos livros, por isso mesmo, se tornou um “poeta perigoso”, aquele que poderia desconcertar os arranjos estabelecidos. Sua rebelião e sua política, sempre foram a do corpo, a da sexualidade e da busca por uma espiritualidade pagã.

Em vida publicou: Ode a Fernando Pessoa (1961), Paranóia (1963), Piazzas (1964), Abra os Olhos e Diga Ah! (1975), Coxas (1979), 20 Poemas com Brócolis (1981), Quizumba (1983) e Ciclones (1997). Ao longo dos anos 200, a sua obra completa foi publicada em três volumes Um Estrangeiro na Legião (2005), Mala na Mão e Assas Pretas (2006) e Estranhos Sinais de Saturno (2008).

Roberto Piva faleceu em 2010 e deixou pequenos conjuntos de textos e manifestos, inéditos em livro. Esse material foi publicado no final de 2016, após uma campanha de financiamento colaborativo que aconteceu pelas nas redes sociais e por meio da imprensa cultural. O livro “Antropofagias e Outros Escritos”, saiu pela editora Córrego, e está associado a um esforço de escritores,editores, pesquisadores e amigos do Piva, para manter viva a sua memória e criar uma biblioteca com o seu acervo particular de 6 000 títulos. Bem como, criar um centro de pesquisas.

 

Saiba mais sobre a biblioteca Roberto Piva

Para adquirir o livro – Editora Córrego.

 

 

***

o Amor é claro como uma lágrima

a morte o silêncio, epifania das rosas que desfolham

cobra mascarada enroscada num

hiato do Verão

 

mar calmo & partidas crédulas

Vento amarelo do Sonho

            contornando coxas estendidas na manhã

 

 

***

olhos negros do garoto & seus sonhos

borboleta-mil-patas esvoaçando na agonia

onde eu vii um deus

Villon, o vento sul cola no teu olho

            Uma bela concha

garoto de olhos negros, maturação de um outro mundo

sexo novo, tráfico entre sol & lua

 

 

***

a poesia é perigosa

flores mugem

nuvem rosada rosna

sobre o telhado de taipas

o garoto dilacera o sexo

de Deus numa dentada

relógios desabam do décimo andar

fogueiras propiciatórias enroscam suas línguas

                                   [nas coxas que fogem

canhões cospem cazzos compridos

a poesia é perigosa

a cidade num espasmo lunar se contrai & explode

 

 

Estados Unidos do Fogo

 

fitoplâncton

esta paisagem esta canção

fundo do mar descabelado & fanático

escaravelho que ejacula cravos que assustam

horizonte Klee na palmatória de bronze do Sol

Eu virei do avesso o Amor

            comendo uvas negras

barco cossaco de pirataria elétrica

bombeiros do fogo-fátuo marcaram-me para morrer

eu desço da nave espacial

            no relâmpago que martela suas vísceras

dando pontapé na bunda pedregosa dos velos poetas

 

 

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