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A Sintaxe da Cidade e da Natureza em (In)visíveis Cotidianos, de Carlos Orfeu

A Sintaxe da Cidade e da Natureza em (In)visíveis Cotidianos, de Carlos Orfeu

Alexandra Vieira de Almeida*

 

No livro “(in)visíveis cotidianos”, de Carlos Orfeu (Literacidade, 2017), encontramos as duplas faces da natureza e do urbano. Se, por um lado temos a desertificação da cidade (com sua violência e agressividade), podemos perceber uma densificação da natureza nas coisas, na linguagem. Utilizando uma poética dos objetos, que, como o poeta mesmo diz que “racionaliza-se”, Carlos Orfeu, ricamente, constrói uma sintaxe dos objetos e da natureza, uma “COISILÍNGUA” ou uma “NATURALÍNGUA”, revelando que as doses de animalidade são pertencentes a ambas as linguagens: “...sobre a sintaxe liquefeita do chuveiro”.

Ele constrói essa sua linguagem própria a partir não do choque entre real e signo, mas nos seus múltiplos entrelaçamentos: “...a cadeira é um signo/infinito de leituras/em sua anatomia dura”. A matéria da poesia não é feita, aqui, de sonhos, mas dos movimentos do real, aquele que se esconde nas malhas de sua visibilidade: “...no lado esquerdo da cena/o espelho/num passe de mágica/come a sala/a flor/o grito/o sonho’’. A palavra tem sua própria realidade que é feita de carnadura e de fantasmas, do visível e do invisível, aquilo que se depreende do encobrimento das formas, o que lhe cobre com seu manto de perversidade.

A (in) visibilidade é feita de sua poeticidade magistralmente elaborada, cobrindo as coisas, a natureza, a cidade, o homem de seus mistérios grávidos de linguagens inaugurais. Carlos Orfeu, belamente, recria o real pela linguagem imagética, com metáforas plenas, cheias, perfeitas a plenos pulmões: “...bailarina surrada é o jornal/no solavanco do vento.” A agressividade, a violência não é algo exclusivo do urbano, isso também se densifica na natureza, mostrando a unidade de tudo no seu canto universal. No verso “no focinho do fuzil” se vê o hibridismo entre o animal e o artificial. Não há trégua, refúgio. O temor e o tremor acorrentam o homem e a natureza.

O que nos une é o sentido que a poesia nos dá: “...entre nós o deserto se desfaz na desconstrução da ausência/grito que nos une”. O grito, essa elevação da voz artística, de revolta, de senso crítico preenche o deserto de uma plumagem verde de esperança. A cidade não é mais um cemitério de ossos, em Carlos Orfeu, eis a ultrapassagem. A poesia é um refúgio para os homens que podem caminhar de mãos dadas, embora a realidade apresentada pelo poeta seja um beco sem saída. Basta ao verso essa travessia, feita de pão e espírito.

Esse grito é caracterizado por versos curtos, sintéticos que desconstroem a sintaxe das florestas e das cidades, abarrotadas de signos, de informações. O verso mínimo potencializa o real naquilo que ele tem de essencial, tirando todo excesso dos sinais urbanos e dos tons agressivos da natureza. Na bela contracapa assinada por Flávio Castro, temos: “A sua poesia é enxuta: gestos mínimos grafitados na galáxia da página”. É intenso o jogo entre a visibilidade das palavras e a invisibilidade dos espaços brancos, prenhes de vazios, numa poesia que joga com a arte concreta.

Por outro lado, a linguagem da modernidade de Carlos Orfeu é revestida pela antiguidade do canto lírico; a sua poesia, rica em imagens originais, causa um estranhamento e, ao mesmo tempo, uma familiaridade com relação a tudo aquilo que vivenciamos. Como disse Goethe numa carta a Schiller: “O poeta é poeta por saturação da experiência”. Essa saturação daquilo que vivenciamos é, paradoxalmente, dirimida pelo minimalismo dos versos curtos de Orfeu que, apesar de sua enxutez, potencializa sentidos múltiplos em sua abertura, em sua experimentação.

A cidade é cadavérica, revela seu rosto de morte e assombro, o que lateja vida é a plenitude dos versos do poeta por ora aqui estudado: “...nada pode consolar o homem em tempos caóticos”. Não há saída, refúgio na violência do mundo, que pode ser salvo pela poesia de poetas como Carlos Orfeu. Essa crueldade, negatividade é muito bem explicitada numa das epígrafes do livro, da grande escritora Maria Helena Latini: “Às vezes a vida/ é um bife cru sobre a pia/Simetria de azulejos brancos/e uma faca suja de sangue.”

No belo prefácio de Airton Souza ao livro de Carlos Orfeu, temos: “É exatamente com essa maestria que Carlos Orfeu vem cerzindo, a cada poema, o cotidiano e seus invisíveis dilemas na pele dos homens diários”. Em Orfeu a nudez das paredes do cotidiano, algo aberto, exposto em sua nudez, leva à impossibilidade do que não pode ser visto. O silêncio convive na sua frieza e mutabilidade: ...”nas paredes/em despudor de silêncio/a litania do invisível”. O que não pode ser dito em linguagem cotidiana é gritado nos mais raros versos desse poeta excepcional que sabe mostrar em meio ao mofo, à rachadura, a quebra do cotidiano, o segredo da epifania, do imóvel e do silencioso: “...no cio do limo/a sinfonia do mofo/lavra/o segredo/da/rachadura”. Esse silêncio, essa rachadura do invisível, do indizível e do silêncio da linguagem é a contraface do grito, que pode ser dito através da fragmentação da linguagem, em cortes abruptos dos versos, levando à liquefação da realidade que se consome em um torvelinho insano.

Tal riqueza na poesia de Carlos Orfeu revela que ele não é um poeta de um único tom, mas demonstra as múltiplas faces da realidade. Como um Proteu que se metamorfoseia em inúmeras formas, apresenta as verdades aos leitores preparados. Não a verdade engessada e absoluta, mas aquelas relativas ao dom de poetar, que é profecia, vidência, o olhar o invisível com olhos do cotidiano. No livro Além do visível: o olhar da literatura, Karl Erik Schollhammer escreveu: “O poder da palavra é identificado com o despertar da imagem mental durante a leitura, uma imagem essencial na dinâmica cognitiva que se nutre tanto dos recursos imaginários fornecidos pela experiência viva do leitor, quanto das imagens culturais acumuladas em sua formação com ser social”.

Carlos Orfeu potencializa, através de seus versos imagéticos, o poder da imagem mental, acionando a criatividade do leitor que preenche com a imaginação os interstícios cortantes dos seus versos que levam a um processo de esvaziamento e preenchimento a partir da palavra viva e dinâmica, próxima à pele da vivência, do cotidiano e da experiência. Numa anti-epifania das coisas, o poeta aqui em questão quebra com a maravilhosa imagem do noturno, símbolo da beleza dos poetas e do lírico.

A partir do viés cotidiano, Orfeu causa uma desestruturação: “...o verde balança/a noturna tristeza do quintal/o banzo blues/empluma/insone/num tanque/o satélite/minguante/cintila/diáfano/na/turva/água/do/dia/passa-/do.” Aqui, o poeta quebra o horizonte de expectativas do leitor. Em Orfeu, temos imagens naturais/urbanas dentro e fora da casa, revelando uma realidade em camadas como as cascas das cebolas. Ele, a partir da sutileza da linguagem lírica, descreve a agressividade da natureza, do fora: “...no canto da varanda/por onde formigas/brotam como fachos negros//e canibalizam o feto da chuva/na casca da cigarra morta”.

Alexei Bueno faz uma grandiosa análise da poesia brasileira no livro Uma história da poesia brasileira. Vejamos como ele interpreta um dos significados da poesia: “...onde, lançando mão desse material de banalíssimo uso diário, vulgarizado em todos os instantes da nossa vida, que é a palavra, algo se constrói que não nasce dela, apenas se utiliza, e a transcende largamente.” Aqui, para Carlos Orfeu, é o lado invisível da linguagem. A partir do cotidiano, ele o transcende a partir da palavra, tentando superar o caos e a violência como resistência.

Na experiência erótica, por exemplo, o poeta revela a profundidade da vida e da morte, o que é visível e invisível aos olhos: “...cama vazia//manhã/cinzenta//sem você/a cama/é um fosso//-frio-//o quarto/um homicídio por dentro.” A carnalidade não está apenas dentro e fora daquilo que nos circunda. Está dentro do corpo, nas entranhas do ser, que é feito de vida e de morte, de Eros e Thanatos. A morte por dentro é uma ausência que a chama não pode apagar. O fora, o quarto é o resquício desta presença que quer continuar na consciência dos amantes. Refletir sobre o prazer, eis o outro lado dos versos de Orfeu, suavizando a violência do mundo esquartejado e fragmentado pelo medo.

Portanto, nesse poeta que se apresenta com a faca certeira dos grandes poetas, não deixando nada a dever à poesia maior, ele mescla o sujo, o feio com o belo, o grotesco e o cru com o delicado. Com a aceleração do discurso poético, temos um poeta ágil que não deixa de ter a leveza do canto lírico que também é feito de perversidade e peso. Com cortes rápidos entre as palavras e versos curtos, essa agilidade demonstra a própria necessidade do real. Seja no meio urbano ou na natureza, Carlos Orfeu cria uma sintaxe própria numa poética inusitada e precisa como o corte da lâmina afiada. Nesse livro, o poeta, magnificamente, trabalha com a linguagem de forma original, moderna, mas ele não repele a antiguidade do tom lírico, sempre atualizado por poetas que sabem o que fazem. E, Carlos Orfeu realiza muito bem sua proeza em nos encantar com poemas de uma beleza rara e singular.

 

________________________

*Alexandra Vieira de Almeida – Escritora e Doutora em Literatura Comparada (UERJ)

 

Sofia Mariutti - Poemas do Livro "A Orca no Avião"

 

Sofia Mariutti nasceu em são paulo em 1987. formou-se em letras-alemão pela usp e trabalhou até 2016 como editora da companhia das letras, onde foi responsável pela reedição das obras de paulo leminski, ana cristina cesar e waly salomão, entre outros livros. organizou antologia comemorativa dos trinta anos da editora, o livro é um poema (2016) e o livro das listas: referências musicais, culturais e sentimentais, de renato russo (2017). para a companhia das letrinhas, traduziu do alemão os livros a orquestra da lua cheia (2010), a visita (2016) e os voos de thiago (2016). a orca no avião é seu primeiro livro.

 

 

 

 

RÉQUIEM PARA O ALTO RIO NEGRO

 

nos aguaçais os aguapés

cruz, canhoto! —

bolem... peraus dos japurás

de assombramentos e de

[espantos!...

                                                                                                                            

manuel bandeira

 

 

nos igarapés do rio uaupés

cada igreja erguida é um túmulo

cabari japú tiquié timbó

riachos não ainda desenhados

nos mapas de navegação virtual

 

nas margens do rio içana

cruzes foram içadas

e fincadas com empáfia

no topo de templos cristãos

atestando “aqui jaz o povo tal”

hupda tukano siriano baniwa

pira-tapuya todos enterrados

sob os internatos salesianos

 

desana não é decano

dow não é deão

não há missão sincera que ensine

casamento camiseta de algodão

culpa plástico perdão

triquíase tracomatosa

 

os shorts jeans quando se molham

ficam pesados e atrapalham

o movimento das pernas

das mulheres do alto rio negro

 

essa igrejinha de fachada

tão charmosa azul e branca

está vendo? tome tento

é um túmulo

 

sobre as sobras de uma noite de festa

resta apenas um demônio

sombra negra

justificando o que ninguém entende:

o suicídio de duas jovens índias

cada uma em um canto da aldeia

batizada pela igreja

santa cruz do cabari

 

a corda que sustenta os sonhos numa rede

quando amarrada no pescoço

inaugura um sono profundo

que as livrará de todo o mal

 

sucumbir ao abismo da existência

esse modo tão branco de morrer

a palavra de cristo não sei mas

a questão de camus

chegou até lá

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

quinhentos anos de cortejo

e os índios seguem carregando as cruzes

do seu próprio funeral

 

nos igarapés do rio uaupés

nas margens do rio içana

hoje todos os afluentes do alto rio negro

vestiram preto

 

 

DESEQUILÍBRIO DOS CORPOS 

 

no escuro do quarto dos fundos

há um violão deitado de bruços

o oco do ventre recluso

nenhum ensejo de música

 

será que tombou com o vento

ou foi a fanfarra dos gatos

o golpe fatal?

 

em torno um silêncio de túmulo

suscita o homicídio perfeito

sem sangue vestígios sinais

 

quiçá voluntariamente

o instrumento se lançou

desesperado:

falta-me uma corda,

já não sirvo para arpejo

 

com o ré arrebentado

ele enlaçaria o próprio pescoço

como aquele guitarrista

love will tear us apart

 

o violão suicida, no fundo

é um corpo sedento como qualquer outro

que se umedece e abre quando faz calor

 

 

LUGAR COMUM

 

essa semana passou

voando

parece que vai cair

uma água

o tempo está

fechando

você acha legal?

eu também apesar

que vou embora de motoca, né?

quanta chuva que bom

que amanhã já é sexta

espero que o tempo

melhore essa semana

passou voando

 

 

Lia Testa - Poemas do Livro "Sanguínea até os Dentes"

 

Lia Testa gosta de palavras que se encontram em permanente estado encantatório e de envolvimento. busca ritos degustativos de salivas que molham a linguagem numa fala erótica e de erotização. acredita que a poesia está em todos os espaços para recodificar o corpo. tenta viver/estabelecer uma íntima relação de atravessamento com a palavra, pelo desejo/sonho de encontrar seu intenso e incessante tecido (palpável ou impalpável), para chegar a um estado poético possível. toma a sua produção como um “work in process”, impelida de desdobramentos múltiplos, de energias moventes e de imersões. Além de se dedicar à produção poética e à produção de obras-colagens (feitas à mão), é professora de Literatura Portuguesa da UFT, Mestre em Letras e Doutora em Comunicação e Semiótica. Têm trabalhos publicados em revistas acadêmicas e literárias, participa de algumas antologias poéticas e é autora dos livros “guizos da carne: pelos decibéis do corpo” (Poesia Menor, 2014) e “sanguínea até os dentes” (no prelo)

Contato em: lialeny@uft.edu.br ou liapoeta@hotmail.com

 

 

 

***

nasceu. não queria tirar as garras da pele primeva. temia o voo anorgânico. desvencilhava-se se houvesse voos-casulos. não havia. olhos postos nas peles. thânatos a espreitar. desejo de refazer o que se desfez. afirma o pouso não pouso. pathos. desvios. errância. clara fenda de|fusão.

 

 

***

ser peixe

ser a guelra

do peixe

a escama

da guelra

do peixe

ser barbatana

de peixe

a escama

que escama

a guelra

do osso

do peixe

ser a cartilagem

que dobra o peixe

ser olhos de peixe

ser olhos boca

ópera de peixe

a carnuda

cavidade

do peixe

ser espinho

espinha que

rasga o peixe

nadadeiras

que escapam

longe

ser o longo

dorso do peixe

em linha curva

ser a zona neutra

do aquário

o opérculo

semicircular

de guelras

arco de arpão

isca de anzol

ser anzol e peixe

ser a isca

na guerra

ser a guerra

do peixe na

água 

o corpo-orifício

o ar da narina

o branco da

fenda branquial

o olfato

ser o nervo

tongue de peixe

de língua

fusiforme

fiando a água

o céu o mar

fluindo na

sonda aquática

onda de voz

raio rima

peixe-mulher

ser medusas

cristais de guanina

maré

em água doce

ser o sal

ser o peixe

de sal

celacantos

do peixe

ser o muco

da truta arco-íris

o truque da água

a moreia de mole

corpo anguiliforme

ser peixe

ser a guelra

do peixe

 

 

***

ataque de ícaro | na escada rolante | só

ventosas na goela | goela abaixo | só

pedrada na carne | o voo do mundo | só

abaixo do equador | pena fora do ovo | só

sóis órbitas celebram | o olho do vulcão | o grão | só

o mareado espinho | o chão | o vão | de | sol | só

a espinha dorsal | o dorso do peixe | a ponta | só

concêntrica | espetada no ouvido | o ar da água | só

o radar da antena | atenta ao sopro | desafina | só

a estricnina | na língua | o soco | no estômago | só

o saco do som | na bagagem babilônica | silva | só

os fungos sabem a | coreografia do pulo | pula | só

o íntimo andar | nada se diz | já disse: | radiação | só

tudo fronteira | o longo dervixe | deve evoé | vish! | só

de vir aqui | digere | dirige | o fim | . | o começo | só

o eco | a eco | na caverna | saída | do capim santo | só

o resto todo | todo o resto | sabre ensaboado | s.o.s | só

os goles desfibrilados | o nervo | retido na retina | só

o abismo não basta | bastardo olheiro | nuances | só

alcança disfarce | nunca descansa | a mão do poeta | só

 

Quinta Maldita

 
Quinta Maldita é um programa de versos;
de vozes também;
de várias vozes que se misturam, que se tocam, que criam ranhuras;
e, importante, de corpo, ou melhor, da relação da voz com o corpo;
daquilo que vem do dizer poético;
da palavra sendo dita, lida, falada, cantada, dançada;
da palavra junto com instrumentos musicais;
junções melódicas ou não;
com ruídos;
um programa de cores e sotaques;
ah, e texturas;
ah de novo, e de crocâncias;
da relação da palavra com quem a ouve, por mais que isso seja uma segunda intervenção;
da distância entre aquilo que se fala e aquilo que se entende;
do verbo respeitando a relação com o branco do papel, mas pedindo passagem em sua forma mais bruta,
às vezes ligeiramente lapidado,
às vezes sóbrio, às vezes ébrio, às vezes completamente ébrio,
caindo da boca, com hálito, com muito hálito,
tomando as ruas, as calçadas, os calçadões, os bares, os botecos, as feiras, os palcos,
sendo amplificado por caixas de som ou simplesmente sendo ditos, berrados, gritados,
brigando com os ruídos da cidade,
ali na cidade bem ali no lugar onde o verbo precisa estar,
não com precisão, daquilo que precisa ser preciso, mas que pode ser um simples balbucio ou um gaguejar;
o mal dito também cabe no dizer;
pode ser do mal falado, mal cantado, mal dançado, mal lido, mas com toda a força do corpo e junto do coração;
das possibilidades e não como impossibilidade moral da moralidade social ou da moralidade acadêmica;  
da palavra que pode ser pensada na sua relação teórica, sem ser presa pela teoria,
sem ser presa nas gaiolas dos protocolos;
vozes e mais vozes;
vozes.
 
 
Serviço:
Quinta Maldita todas as quintas
às 23 h
o programa na sexta é disponibilizado no mixcloud:
Produção e seleção de textos: Demétrio Panarotto;
Produção Técnica: Marcio Fontoura;
 
 
 

Demétrio Panarotto nasceu em Chapecó-SC, em 1969. É doutor em Literatura e professor universitário. Publicou, dentre outros, Ares- Condicionados [Nave, 2015], O assassinato seguido de La bodeguita [Butecanis Editora Cabocla, 2014]; “15'39”” [Editora da Casa, Alpendre 2010], Mas é isso, um acontecimento [Editora da Casa, 2008], mais alguns discos e alguns filmes. Vive em Florianópolis-SC.”
 

Nicolas Behr- Poemas do Livro Brasilírica

Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Mora em Brasília desde 1974. Em 1977 lançou seu primeiro livrinho e best seller “Iogurte com Farinha”, em mimeógrafo, tendo vendido 8.000 exemplares de mão em mão. Em agosto de 1978, após ter escrito “Grande Circular”, “Caroço de Goiaba” e “ Chá com Porrada”, foi preso e processado pelo DOPS por “ porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Até 1980, publicou ainda 10 livrinhos mimeografados.

A partir desse ano passou a trabalhar como redator em agências de publicidade. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília, a primeira ONG ambientalista da Capital Federal. Em 1986 abandonou a publicidade para trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza – onde ficou até 1990, dedicando-se, desde então, profissionalmente, ao seu antigo hobby: produção de espécies nativas do cerrado. Co-autor do livro “ Palmeiras no Brasil”. A partir de 1993, voltou a publicar seus livros de poesia, com “Porque Construí Braxília”. É sócio- proprietário da Pau-Brasilia Viveiro Eco loja, casado, desde 1986, com Alcina Ramalho e tem três filhos: Erik, Klaus e Max.

Em 2008 seu livro “Laranja Seleta – poesia escolhida – 1977 – 2007 “ pela Língua Geral, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. Em 2015 o instituto de Letras da Universidade de Brasília instituiu o Prêmio Nicolas Behr de Literatura. Nos últimos anos publicou: Água em pó (2013), Dicionário Sentimental de Diamantino (2016), Chega de Poesia (2016) e Brasilírica (2017)

 

***

 

tenho vinte brasílias

no arquivo morto

 

o que faço?

 

jogue todas fora

mas antes

tire vinte cópias

 

e arquive

 

***

 

aqui não havia nada

só um grande vazio

um deserto

 

aí inauguraram a capital

e o cerrado apareceu

logo depois

 

***

 

a língua áspera do bloco

roça os lábios secos

dos pilotis

 

asas são coxas

que se entreabrem

 

asfaltos eretos

desejam

pubianos gramados

 

eixos fálicos

defloram

úmidos paranoás

 

glandes monumentais

penetram

vulvas de mármore

 

***

 

aquela é a estátua de teseu,

maior herói cerratense

(sim, filho, maior que jk)

 

libertou brasília da opressão

do burocrotauro,

um ser meio homem

meio carimbo que vivia

pelo labirintos dos ministérios,

devorando lentamente qualquer fila

que se formasse à sua frente

 

***

 

subo aos céus

pelas escadas rolantes

da rodoviária de brasília

 

o corpo de cristo

aqui não é pão,

é pastel de carne

 

o sangue de cristo

aqui não é vinho,

é caldo de cana

 

o padroeiro desta cidade

é dom bosco ou padim ciço?

 

***

 

pssss

 

silêncio

ao adentrar

a superquadra

 

antes de ser

matéria compacta

esses pilotis

que você toca

foi sonho

 

toque com cuidado

 

para não acordar

lucio costa

 

 

***

 

os candangos

foram então obrigados a morar

fora da cidade fortificada

 

já os cratasburos

ocuparam a capital logo depois

encontrando a cidade pronta

 

mesmo após brasília

continuaremos desejando

viver em sociedade?

 

 

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