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Valciãn Calixto - Poemas

Valciãn Calixto, integrante do coletivo/selo Geração TrisTherezina, responsável por divulgar parte da produção piauiense independente. Lançou em 2015 o livro de poesias Reminiscências do caseiro Genival. Em 2016 estreou na música com o elogiado disco FODA!, destaque em sites especializados em Música. Como autor conquistou o 2º lugar no 1º Concurso Literário da Academia De Letras Do Médio Parnaíba (ALMP-PI), Prêmio Da Costa e Silva – Poesia, Categoria Piauí, ano 2015; Menção Honrosa no 1º Prêmio Poeta Mário Gomes (Premius Editora 2015); foi finalista do Prêmio Feuc de Literatura (2014) com o poema ‘Exerciclos’; Integra a antologia literária Versos Cotidianos - ano 2015, realização Editora Itacaiúnas, do Pará; possui poema publicado na Revista SubVersa, produzida no Brasil e especializada em literatura luso-brasileira contemporânea e Revista Revestrés. Atualmente está em fase de gravação do seu segundo disco, que será lançado ainda este semestre.

 

 

Um gole ao estivador Braz

 

É uma terça-feira no cais,

Os postes um a um perdem o fogo.

Nunca mais estive lá

Para ver que os bares hoje fecham cedo

E os barquinhos de papel na pia

Velejam futuros marujos.

 

Teu cabelo é a parte negra na areia

Que a onda acabou de molhar.

Teus brincos, anéis e pulseiras:

Conchas trazidas do mar.

E as ondas, uma atrás da outra,

Rebolado de água e sal.

 

Tu, porém, ilha distante,

Cercada de monstros marinhos,

Habitada por indomáveis ferozes

Que a sinal nenhum de fumaça

Navio algum me socorre.

Tu somente, tesouro perdido,

Mapa varrido do meu peito

Na garrafa que cruza o cais.

 

 

Factual

 

Bibica, 19 anos, nóia.

Todo o Memorare sabia.

Até que a mulher de um policial foi assaltada,

Isso em plena luz do dia.

 

Bibica foi morto no início da noite.

Disseram que nem foi ele.

Depois ninguém nem tocou mais no assunto,

Ninguém mais quis saber,

Ainda tentou pular o muro...

 

 

Exerciclos

 

Há um mês em meu calendário que resseca os dias.

Encharca de terra e lágrimas meus olhos

Por saber que descansam almas,

Repousam corujas sobre galhos adormecidos

No calor de fogo-fátuos e velas estremecidas

E por saber que a saudade,

Somente a saudade

Não descansa nunca

Há um mês.

 

 

Chorrin

 

Quando me vir com uma faca no peito

Tendo você emperrado uma do mesmo jeito,

Você sabe que nada pode ser feito,

Eu sei que nada pode ser feito,

Que nada pode ser feito,

QUE NA-DA PO-DE SER FEI-TO!

 

Você fala qualquer coisa,

Eu gesticulo qualquer coisa

E independente de qualquer coisa

Nada pode ser feito,

Nada pode ser feito,

Nada pode ser feito,

NA-DA PO-DE SER DES-FEI-TO!

 

Quando você me vê a seus pés suplicando,

Um ateu ridiculamente pela primeira vez na vida implorando,

Chorando e pedindo até pelo amor de deus,

Você simplesmente diz que nada pode ser feito,

Não comigo assim desse jeito,

Que não saber aceitar foi meu pior defeito,

Que a gente até poderia ter voltado se eu tivesse me comportado direito.

 

 

Ylo Barroso Fraga - Poemas

 

O poeta cearense Ylo Barroso Fraga, radicado em Brasília há 4 anos, acaba de lançar a segunda edição de seu Tris, livro de poemas que está em sua segunda edição. 

 

 

O POÇO AZUL

 

tristeza que não acaba, mina

limpa, clara e profunda

quanto mais se afunda

no fundo de nossa alma

mais ela fica cristalina:

na capa, poeira fina

no oco, sem fundo, a calma.

 

pesa a leveza dos olhos

leve a certeza do não que sim, do sim que não

que ao firmamento conduz

e à desmesura leva

 

levo um novelo

envolto em leveza

e enlevo, e velo

o sacro ofício da vida.

 

 

SONHAR COM PEIXES

 

os quadris dos peixes,

seus ângulos insuspeitos,

sua mudez telepática:

 

o que me move enquanto pesco,

anzol sem isca,

o que interrogo e doura

sob a tez ondulada do riacho;

 

o que anima, imagino,

a viuvez do vento, ao transformar

dor e beleza em alimento.

 

 

LUAR

 

a velha língua do lago

engendra a palavra luar.

no abismo nada tomba:

novo idioma é forjado,

perfumes chegam do mar,

informes dados pelos navegadores

aos fantasmas enfunados nas velas.

 

a velha língua do lago

e seu semblante glabro

roca que fia

e desafia o traduzir.

 


PINTAR

Para Gil Fraga

 

o vento da melancolia enroscou-se em minhas narinas

e as águas paralisaram.

só o pintor se interessava e expunha o sol,

mas a claridade amainava

a verve plástica do horizonte

- esticando -

e por fim a fímbria

do traço trêmulo

alcançou a nota exata e fugaz

e viu-se na tela o movimento

do que na mente ia.

 

 

Revista Malembe nº 4

Malembe n 1, 2 e 3

 

A Malembe é uma revista literária impressa surgida em setembro de 2015, em João Pessoa/PB. Editada de forma artesanal por Guilherme Delgado, Carlos Nascimento e Débora Gil Pantaleão, a revista tem buscado a multiplicação dos espaços restritos. E por “restrito”, leia-se “possível”. A possibilidade do fazer. De fazer arte e literatura, e assim manter diálogos. Escritores estreantes ao lado daqueles que já inspiram uma caminhada duradoura. Experimentação e maturação propondo juntos. Como uma publicação dessa natureza tem de ser. Isso vem se traduzindo na colaboração cada vez mais significativa com outros estados. Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Ceará já colaboraram, trazendo a literatura que nos interessa agora. Entre as seções, há poesia, conto, crônica, artigos, traduções e entrevistas.

A quarta edição da Malembe, recém-lançada, é dedicada à autoria feminina. Da colagem de Layla Gabrielle (PB) que compõe a capa à entrevista com a querida Maria Valéria Rezende (SP/PB). Uma amostra consistente da produção dessas mulheres. A poesia de Amanda Vital (MG), Bruna Mitrano (RJ), Iolanda Costa (BA), Mariana de Matos (MG/PE) e Tyara Veriato (PB/SP) – essa última, estreando. A seção voltada à tradução tem Nina Rizzi (CE) traduzindo a poesia viva da argentina Alejandra Pizarnik. Na seção de contos, Aline Bei (SP) participa com “Eva”. Por fim, a historiadora Letícia Carvalho (PB) discute a invisibilidade das mulheres negras e sua resistência através da literatura, em artigo intitulado “A escrevivência de Conceição, os ônibus às 6h da manhã e a nossa história a ser conhecida”.

 

Malembe n 4

 

Contato: malembepb@gmail.com  / Facebook: revistamalembe / Instagram: @revistamalembe

 

 

Rosana Chrispim - Poemas

Atualmente vivendo em Valinhos, SP, Rosana Chrispim nasceu em Carandaí, MG, em 1958. Formada em Jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo (1984), trabalhou por quase 30 anos como Produtora Gráfica.  Integrou o Grupo Livrespaço de Poesia, Santo André, SP e, em  conjunto com os demais integrantes, publicou Coletânea Livrespaço II, 1984, Literatuando - Coletânea Livrespaço III, 1985, Subvertida Palavra - Coletânea Livrespaço IV, 1988, e Sete Versus Sete (E se resolvermos falar de amor...) - Coletânea Livrespaço V, 1990. Foi uma das editoras da Revista Livrespaço, 1992-1993, que ganhou o Prêmio APCA como melhor realização cultural de 1993. É de 1996 a plaquete Poética da Essência. Semelhanças, o primeiro livro solo, foi publicado em 1986 e Entretempo, o segundo, em 2003. Em 2017 publicou o livro Caderno de Intermitências.

 

 

perturbação

 

a alma se acomoda

se ajeita

            inquieta

paixão e razão

sendo uma e muitas

 

quadro a quadro

nenhuma imagem límpida

nenhum som nítido

 

            em suspensão

poeira de ruídos

indícios de mo(vi)mentos

(des)encontram o tempo remido

 

 

todas as certezas

duvidam                               

 

 

inapagado

 

entre rudimentares

parcas memórias

fotogramas

amarelados do presente

inimaginado

            (cedo o exercício de não sonhar)

que a noite não guardou

 

indagação e procura

 

dado por perdido o encanto

o olhar correndo

mais longe que o longe esbarra

no deslocado

abandonado

par de vermelhos do guidão

 

tristeza e susto deixados

no paradeiro

do velocípede levado

 

 

reação

 

nos dias de pouca paciência

                        rara clareza

                        escassa mansidão

janelas fecham e abrem

                        escuros        

 

em dias de pouca paciência

todas as cores nascem

e morrem em cinzas

            as tintas não secam

            o tempo não adianta

 

anistia vislumbre desconstrução

 

em dias de pouca paciência

o poema brota

de (in)suportar a dor

 

 

aventura

 

mares de inundação

mares de acolher

 

marés e mares de mistério

            atração hipnose fascínio

 

incautos

dublês de navegantes

e peixes

nos lançamos às águas

sem rede ou prece

 

não basta

de nada serve

acatar os ventos

conhecer as cartas

saber nadar

 

mares de pulsão

mares de naufragar

 

imperiosa sorte

 

 

 

Resenha: O desassossego e a invenção nos (in)visíveis

 

Resenha: O desassossego e a invenção nos (in)visíveis

Patricia Porto*

 

Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem, eu a chamo, quanto a mim: literatura. 

Roland Barthes

 

 

nas paredes

em despudor de silêncio

a litania do invisível

 

no cio do limo

a sinfonia do mofo

lavra

o

segredo

da

rachadura

 

Carlos Orfeu

 

 

É nas trincheiras da arte poética do cotidiano que encontraremos novos signos de resistência estética para a poesia. Prova disso é o livro de estreia de Carlos Orfeu, “(in)visíveis cotidianos”, que se desdobra páginas-corpo-poemas em múltiplos olhares que atentam para os “pequenos nadas”, expressão tão bem criada por Michel Maffesoli. Não foi à toa que a leitura das cenas cotidianas, dos frames que o poeta nos apresenta em versos densos e concisos, me levou a dialogar com lugares que refletem a relação entre o poder e o cotidiano, assim como também me fez pensar na relação do homem comum com o invisível corriqueiro. São reflexões que me fazem dialogar com a sociologia, a história, a história dos oprimidos, dos excluídos. Por isso, na leitura de “(in)visíveis cotidianos” não é simples apartar do aspecto crítico e literário da leitura o aspecto sociológico que há na cotidianidade. São poemas sobre o “tempo presente”, sobre a rotina, os pedaços do mundo, os vestígios da vida, os fragmentos que se amontoam como cruzes, estradas, corpos, urgências perfiladas por uma faixa humana também esquecida, abandonada, in-visibilizada. E intuo que na voz do poeta há também outros ditos no desvão das imagens – como palimpsestos, um volume sempre por-vir, uma nova urdidura entre a palavra e a espera.

Há no livro um mundo imagético a ser desvendado pelos leitores, há um convite que leva o olhar a funcionar como pausa.

 

no cio do limo

 

Carlos Orfeu parte do instante para o eterno como se parasse o tempo, o mantivesse em suspenso, e transformasse aquele momento num vórtice que une o todo.

Assim os poemas se conectam num livro-corpo que é também devir. E ler os (in)visíveis é aguçar os sentidos, conhecer as camadas para ouvir “a sinfonia”.

  

a lâmina ceifando a vida em seivas

 

Feito a ninfa Eco - repito “seivas” e vou dedilhando as imagens que o poeta me apresenta. Na minha andarilhagem corro o risco da errância, e dialogo com mais imagens do cotidiano, as de Manuel Bandeira, Mário Quintana, Maria Helena Latini, Líria Porto e outros que me fizeram debruçar o corpo e a alma, todos os sentidos expandidos, para a importância desses significantes, numa outra dinâmica com este cotidiano. Carlos Orfeu chega para compor este painel de poetas e se une aos que ousaram dizer muito com menos, ver muito onde se vê menos, ser bastante sem desprezar esse menos. Porque há nesta arte - uma punção de vida, uma potência na vivência com “os pequenos nadas” e que precisa ser desvelada a partir de uma outra recepção, a que não exclui as  aventuras e as delicadezas do habitual - no seu trágico e belo, seja na voz, no silêncio. Mas para isso será preciso compreender uma lógica avessa à que nos faz perder os sentidos com  excessos.  Será preciso pousar o olhar no tempo íntimo das coisas, no tempo elástico das sensações do corpo, da casa, da rua, do urbano, desse nada que é tanto.

 

corto cebolas

com olhos ensopados

de águas esquecidas 

 

 

*Patricia Porto, maranhense, graduada em Literatura, Mestre e Doutora em Políticas Públicas e Educação, publicou a obra acadêmica "Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte Docente na Escolarização da Literatura” e os livros de poesia "Sobre Pétalas e Preces" e "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos". Participou, ainda, de coletâneas no Brasil e no exterior, integra o coletivo Mulherio das Letras e é colaboradora do portal da ANF (Agência de Notícias das Favelas). 

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