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Boi Neon: Sensibilidade Luminosa

 
 
 
A potencialidade do discurso poético está em dizer as coisas de forma indireta. Penso que o diretor Gabriel Mascaro, no filme Boi Neon, consegue tratar de uma realidade já tão repetida, na literatura e no cinema, e acrescentar novidades. O boi sempre presente, quase o personagem principal, marca a narrativa apontando para a repetição dos afazeres cotidianos. Um cotidiano simples e provisório, pois os personagens estão na condição de itinerantes acompanhando a industria dos rodeios. 
 
No filme, os rodeios nordestinos aparecem com uma roupagem atual, status de grande espetáculo e mobilizando um alto capital através de leilões. Nesse sentido, a paisagem é antiga, mas o investimento é novo. A geografia é o agreste pernambucano, mas as ações são contemporâneas.
 
As sutilezas pontuam o filme principalmente através das sensibilidades ambíguas dos personagens. Iremar (Juliano Cazarré) é um peão comum, mas que sonha trabalhar em uma fábrica de roupas. A Galega (Maeve Jinkings), uma mulher sem frescura, é a motorista do caminhão de bois e líder de um grupo de peões. A sua filha, Cacá (Alyne Santana), flutua pelos vários espaços do filme. Ela é uma criança que não conhece o seu pai e vive uma vida sem muitos afetos, ao ponto que, uma das cenas mais emocionantes do filme é o momento que ela pede um abraço ao peão Ismael. Um abraço que dura poucos segundo, porém profundo, terno e interminável.
 
 
 
 
O Boi Neon fala sobre a “vida de gado”, mas com um olhar poético. O “Neon” aparece como a metáfora que ilumina as sutilezas presentes nas pequenas mudanças ao longo tempo cotidiano. Mudanças nos modos de existência, vividos nas cidades e também no campo. No filme, o “gênero” é um tema tratado com bastante ambiguidade – as coisas, não parecem ser o que são à primeira vista. A ambiguidade do discurso potencializa sua mensagem e politiza sua estética.
 
Aos poucos o cinema brasileiro vai consolidando formas narrativas sensíveis para falar de suas muitas realidades. Com o olhar atento para as nuances dos entremeios silenciados que perpassam as experiências no ritmo lento do cotidiano. 
 
 
Demetrios Galvão
 
 

O Leão Náufrago, um conto de Daniel Ferreira

O Leão Náufrago

Daniel Ferreira*

 

Conta-se que, certa vez, naufragou em alto-mar um navio que, dentre outras coisas, transportava animais para um zoológico. Aconteceu de um desses animais, um leão vindo da África, conseguir alcançar uma ilha bastante extensa.

Logo que começou a explorar o local, o leão percebeu que aquilo era um verdadeiro paraíso: tinha água fresca, animais de pequeno e médio porte para alimentá-lo e não havia mais nenhum predador além dele. Vendo tudo muito aprazível, o leão tratou de banquetear-se. Caçou uma gazela das maiores que já tinha visto, sendo preciso empregar muita força para segurá-la. Morta a gazela, o leão refestelou-se com entranhas e carne da melhor qualidade.

Passado algum tempo naquela ilha, e diante de tão farta mesa, o leão desenvolveu seu paladar, como uma madame cheia de gostos, ele só queria comer o fígado de suas caças, desprezando quase todo o restante da potencial refeição. Não tardou para que, em todos os cantos da ilha, grandes concentrações de urubus e outros animais carniceiros aparecessem, pois o leão matava vários animais por dia, os outros bichos sequer conseguiam dar conta das carniças. O leão, mais do que nunca, sentiu-se como rei.

Um dia, quando o sol já começava a se por, o leão caçou um porco do mato e estava a lamber-lhe o sangue que escorria da jugular quando, surpreso pela audácia, ouviu alguém lhe chamar. O leão olhou para o local de onde vinha a voz e percebeu que era um velho urubu com as penas já acinzentadas da idade. O urubu, que estava empanturrado e empoleirado sobre uma carniça, disse-lhe:

- Então você é o tolo que se diz rei desta ilha?

O leão grunhiu ameaçador para o velho urubu, sem que a ave ao menos se abalasse.

- Leão tolo, guarda estes teus dentes, guarda a tua gula e a tua sanha de matar. Será que não vês que, da maneira que procedes, estás a acabar com as caças desta ilha? Sei que ela te parece grande por não ter outro com quem dividir o alimento, mas isso é o que tu pensa, muito maior é o mundo lá fora e, mesmo aqui, tudo há de acabar-se. Fica tu sabendo que, se continuar a matar tantas gazelas e tantos porcos quanto te convier, chegará a hora em que todos os animais desta ilha vão perecer e, junto com eles, tu perecerá.
Se, de início, o leão ficou ofendido, ao final tudo pareceu-lhe muito engraçado. Para completar a graça, o leão pulou em direção ao urubu com zombaria:

- Voa daqui urubu velho, esta ilha é minha, nunca mais volte.

Acontece que as palavras do urubu passaram a concretizar-se. Até mesmo o leão percebeu que já não encontrava facilmente porcos e gazelas, às vezes tinha que se contentar com animais bem menores e difíceis de capturar. No dia em que não encontrava nenhuma caça, o leão tinha que comer as carniças que ainda existiam em razoável quantidade na ilha. Mas, daí, chegou o dia em que também não encontrou mais carniças.

Tentou uma dieta de frutas, mas aquilo não lhe satisfazia o estômago e tampouco lhe agradava. Arriscou-se até mesmo na pescaria, mas fracassou, sua única façanha na água foi alcançar aquela ilha.

O fato é que o leão já estava bastante desnutrido e sem forças quando viu passar ao seu lado um macaco. Foi o que bastou para que o coração do leão acelerasse e seus olhos brilhassem. Aquele era sem dúvida um dos últimos macacos da ilha, porque o leão também aprendera a caçar macacos e matara muitos e lhes comera o fígado. Não sabia o leão, entretanto, que aquele macaco era um sobrevivente, não seria capturado facilmente e, assim sendo, o macaco já estava no alto de um coqueiro quando o leão saltou para o ataque. Aquele salto foram as últimas forças do leão. Cansado, ele caiu pesado na areia, sentido a vida esvair-se, forçando o ar em seus pulmões, dando à vista ainda mais a saliência de suas costelas sob o pelo desgrenhado e grosso. Olhando para cima do coqueiro, o leão viu o macaco e viu também o velho urubu que lá estava balançando sobre uma palha. Foi o macaco quem falou:

- Esse leão levou muitos dos meus, quase todos, agora não há quem lhe salve, mas posso conduzi-lo.

O velho urubu viu que, ao dizer isso, o macaco arrancava com os dentes um coco. Foi o que bastou para o urubu entender, nisso anunciou ao leão:

- É minha vez, majestade. Já que não me ouviste e tanto fogo tinha para a matança, agora vê se parte, minha fome já não pode esperar. Ao macaco, digo obrigado.

Dito isso, o macaco arremessou o coco na cabeça do leão, deixando-lhe morto e pronto para o banquete do velho urubu.

Na ilha, a vida continuou, nunca mais se ouviu falar de leões.

 


*Daniel Ferreira, é contista. Autor de “Sob a Sombra da Noite” (2005). Gosta de cerveja e Radiohead

 

Coleção Gato Letrado em Defesa do Leito

texto: Andreia Brites
 
 
 
A coleção Gato Letrado é uma fonte privilegiada onde os mediadores podem ir beber. O curriculum dos escritores ajuda, mas o aspeto mais relevante desta coleção da editora brasileira Pulo do Gato é que os seus textos não são instrutivos, alguns serão até pouco óbvios para quem procura estratégias para aplicar no terreno. Ainda bem. O mediador, especialmente o profissional, mas não só, tem de se afastar do seu universo e ler, o que se aplica tão seriamente ao texto literário como à teoria sobre leitura, promoção, educação, literatura. Não o fazendo, corre um risco muito sério de se deixar instrumentalizar por estratégias e ferramentas restritivas, que limitarão o mundo dos seus leitores. Dar a ler requer uma prática continuada de leitura crítica, pensante. É isso que os seis livros que já foram editados oferecem. Lançados coletivamente em 2012, contam com nomes maiores da promoção da leitura: duas colombianas, Sílvia Castrillon e Yolanda Reyes, duas argentinas, Maria Teresa Andruetto e Cecília Bajour, um mexicano, Daniel Goldin e uma brasileira, Marina Colassanti compõem o catálogo que se faz, essencialmente, de comunicações apresentadas em Congressos, Encontros e Feiras do Livro. Cada livro é prefaciado por um autor brasileiro de qualidade, como Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós ou a própria Marina Colassanti. É uma forma de fazer chegar ao Brasil um conjunto de vozes essenciais, e dar início a um compromisso da editora: fazer livros para crianças e jovens leitores e livros para formadores de crianças e jovens leitores. Há sempre uma espécie de magia numa história bem contada. Marina Colassanti, para além de o saber dizer, também o sabe escrever, como comprova a sua vasta e premiada obra. Quando a história é biográfica e narrada com aquele efeito de sinceridade, a emoção do leitor é quase certa. A juntar a tudo isto, a curiosidade de saber como se chega a um determinado lugar. A história que Colassanti partilha é a da sua construção leitora, juntando aos livros que leu, as metáforas e os símbolos que pretendem significar os seus efeitos e que traduzem, para além disso, a subjetividade e singularidade da própria literatura. Depois de Como se fizesse um cavalo, discorrer sobre mecanismos e artificialidades do mercado traça um paralelo perfeito entre o bom e o mau.
 
Também o editor Daniel Goldin começa, no ensaio “Os Dias e os Livros”, que dá nome ao livro, por narrar a sua experiência de construção leitora: dos tempos em que o distante pai lia em voz alta para os filhos à conceção da leitura como passaporte para o conhecimento e o prestígio social. Da infância à idade adulta, Goldin expõe os vários estádios por que passou, os preconceitos que alimentou e que se viu forçado a abandonar. O caminho das emoções e da aceitação da ficção como realidade fez-se desacreditando e somando novos parceiros de partilha, até chegar a uma conclusão surpreendente: as viagens que os livros nos proporcionam ultrapassam sempre as viagens reais. “Viajei para a Europa por ter lido Nietzsche, Cortázar, Breton. Ao chegar a Paris, a cidade já me parecia conhecida. Havia chegado antes com os livros. Mas nunca se cumpriu o que eu esperava ao lê-los. De fato, poucas vezes as promessas foram cumpridas, as portas foram transpostas ou o cofre me permitiu chegar ao verdadeiro tesouro. E, ainda assim, quando o consegui, a completude foi efêmera. A dimensão que os livros iluminam é a da incompletude e da promessa de acalmá-la. A armadilha que nos colocam é que só se pode chegar com sua própria matéria, a linguagem.” Grande parte da obra é dedicada à formação de leitores, questionando as supostas relações de causa-efeito entre leitor e livro, entre escola e leitor, entre leitor e família. Sobre a mediação entre pais e filhos, em “A Paternidade e os Livros: divagações sobre a hospitalidade da leitura”, Goldin reitera a impossibilidade de uma identificação perfeita entre os mediadores pais e os leitores filhos, que leem o mesmo texto mas que o sentem de formas diferentes, que se tocam, mas nunca se abraçam. A voz do adulto chega a funcionar como duplo, porque é a voz de alguém querido pela criança e ao mesmo tempo a voz da história, não se distinguindo em grau de importância. A construção do leitor é sempre distinta, não apenas em relação aos outros leitores, com memórias diferentes, relações sociais e afetivas várias, mas também em relação a si próprio, no tempo. Por isso, o editor destaca uma dimensão histórica, temporal, na formação de leitores, e diagnostica a necessidade de se encontrarem, simultaneamente, elementos de continuidade, ao longo da tradição escrita e oral que terá tido e continuará a ter efeito na construção identitária das crianças. “Para pensar na formação de leitores como processo não falta somente definir a trama de continuidades entre os campos biológicos e culturais, psíquicos e sociais. É preciso também descobrir recortes em que, superficialmente, vemos continuidades.”
 
No livro Por uma Literatura sem Adjetivos, a escritora Maria Teresa Andruetto debruça-se sobre questões relacionadas com a literature dita infantil e juvenil, a escrita, o mercado editorial, a escola, o cânone. A sua experiência confere a cada uma das comunicações (proferidas em seminários, feiras do livro e encontros de especialistas) uma subjetividade enriquecedora, que ultrapassa o mero sentido impressivo e serve de base a todas as suas reflexes teóricas e diálogos com outros pensadores, filósofos e escritores. No ensaio “Algumas questões em torno do cânone”, a autora (que foi distinguida com o Prémio Hans Christian Andersen, em 2012) traça uma análise muito acurada sobre o sentido do cânone. Se o entende como uma resistência ao Mercado dos livros efémeros e sem qualidade, recusa terminantemente o seu valor absoluto considerando-o falacioso, limitativo da experiência leitora de cada um, e perigoso, já que funciona como controlo social. “Não se trata exatamente dos melhores livros, mas daqueles que nos disparam uma flecha que, como o amor, como o amado, não atinge todos igualmente. Não entesouramos o livro mais bem escrito, mas aquele que, possuidor de um punc- tum que o aloja em nossa memória, continua nos questionando acerca de nós mesmos.” Parte da ideia dinâmica de que para haver cânone é necessário que existam livros fora dele e de que essa dialética não é estática, alterando-se em função do tempo, dos agentes mediadores, e dessa, por vezes terrível, ação do mercado. Para o explicitar, partilha a experiência sobre o seu contributo para a construção de um campus literário, na Argentina pós ditadura e os inevitáveis erros de juízo que cometeu. “O que, a nosso ver, era então recomendável e, quase sem exceção, o que perdurou dos anos 1980 até nossos dias, nós o canonizamos (refiro-me ao conjunto de instituições, publicações, congressos e editoras que surgiram naquela época) em nossos cursos, seminários, campanhas de leitura, revistas, reconhecimentos públicos e resenhas. (…) muitas vezes, não soubemos distinguir – entre os inúmeros livros editados que chegaram mais tarde – os que podiam nos revelar algo sobre nós mesmos de outros que eram puro papel inútil, letra impressa incapaz de dizer qualquer coisa.” Chama ainda a atenção para o destaque que as editoras dão aos autores e as formas como os vendem, como produto de marketing, aos principais agentes compradores: as escolas, e como esse fenómeno desvia a leitura do livro para o substituir por figuras que o representam, é certo, mas que em última análise podem não levar à leitura. Importante, e tese recorrente ao longo dos doze ensaios, é que a literatura infantil não deve ser pensada em função do destinatário e apenas como literatura. Assim deve ser o ofício do escritor: uma busca da sua voz, da sua unicidade, e não um preenchimento de espaços dentro do que se pressupõe correto. A literatura, toda ela, deve ser singular, sem obedecer a adjetivos que a cataloguem e limitem. Sobre a receção, haverá boas surpresas.
 
 
               
 
    
 
Também Cecilia Bajour reflete sobre a questão do cânone, do ponto de vista da sua construção. Como se tecem relações entre o tradicional e o contemporâneo, como se ultrapassam fronteiras geográficas ou ainda, como pode cada mediador conceber um cânone que materialize uma ideia individual de literatura infantil e de cultura da infância. Também a promoção da leitura em contexto escolar merece a sua atenção crítica e uma proposta de recolocar as atividades de leitura livre, pensadas para formar leitores pensantes, ao serviço da própria aprendizagem da leitura. Ao contrário de Andruetto, esta crítica literária e mediadora tem um estilo discursivo mais prático, recorrendo menos a argumentações de âmbito filosófico e mais a exemplos de experiências ou situações vivenciadas em contexto de promoção da leitura. “Ouvir nas Entrelinhas, o valor da escuta nas práticas de leitura”, ensaio inaugural do livro com o mesmo nome, é um bom exemplo. Aqui, Cecília Bajour defende a partilha social da leitura, a sua interpretação coletiva como arma para o alargamento da própria leitura. Para o mediador, a responsabilidade é grande: em primeiro lugar, obriga a uma seleção de leituras acutilantes, depois a uma capacidade para despoletar juízos, silêncios, dúvidas, emoções, prazer e rejeição, sem nunca ceder à tentação de fechar sentidos apenas porque tal lhe parece apaziguador, finalmente a saber ler nos leitores os seus sinais. “Além de aprender a escutar os silêncios dos textos e colocá-los em jogo nas experiências de leitura, os mediadores podem aguçar o ouvido aos modos particulares que os leitores têm de se expressar e de fazer hipóteses sobre seus achados artísticos.”
 
Quer o livro de Silvia Castrillon quer o assinado por Yolanda Reyes dialogam e complementam a linha de pensamento de Cecília Bajour. A defesa política da leitura pública e das bibliotecas, assim como a da formação de bibliotecários, é um dos temas centrais de O Direito a Ler e a Escrever. Especialista na área da promoção da leitura (atualmente preside à Associação Colombiana de Leitura e Escrita), Sílvia Castrillon aponta ainda o dedo ao ensino, aos preconceitos e metodologias instaladas, pugnando, por exemplo, pela revalorização da escrita, apagada pela leitura, que, ainda assim, não floresce tanto ou tão bem como poderia. Neste sentido caminha também Yolanda Reyes, ao centrar os seus quatro ensaios no processo de escrita e no ensino. A promotora de leitura, fundadora e diretora do Instituto Espantapájaros, aponta o dedo à frágil relação entre a produção textual das crianças, demasiado dependente das estruturas linguísticas, e a leitura, especialmente a literária. Critica a objetivação escolar da literatura, a assunção de um sentido único e correto para a interpretação e apela à recuperação de uma ideia subjetiva, construtiva, singular, da própria linguagem artística. No ensaio “Ler e brincar, tecer e cantar: apontamentos a partir de oficina de criação literária”,a mediadora apresenta os vários momentos que desenvolveu numa oficina de criação literária: primeiro, ajudar os participantes a encontrarem a sua própria matéria de escrita, depois dispô-la e contextualizá-la, finalmente, dotá-la de um sentido literário. Não será aleatória a proximidade entre os momentos que Reyes destaca e os grandes eixos retóricos da composição literária. Todavia, o que a autora pretende destacar é sobretudo a necessidade de ajudar cada um a encontrar-se e a dificuldade que o potencial escritor, adulto ou criança, tem em levar para o texto a sua formação literária e uma capacidade de brincar, de imaginar, de se permitir sentir fora dos grilhões próprios do sistema linguístico. Falta, no ensino, esta amplitude: “(...) temos de pedir à escola (...) tudo o que se negou a tantos escritores durante tantas gerações de analfabetismo funcional. Se essa ferramenta que é a língua e se essa “educação sentimental” que se nutre da herança literária – da herança simbólica de nossa espécie humana – se fomentasse em nossas escolas desde a mais tenra infância, estou certa de que teríamos mais possibilidade para explorar a própria possibilidade nas ofi cinas de escrita.” A sua mensagem fica muito clara no capítulo seguinte, “Escrever para os Jovens na Colômbia”, quando explicita a urgência de escrever sobre um quotidiano cruel e violento e deixa testemunhos e situações reais que impressionam quem os lê. “(...) talvez, ao oferecer o que ler, possamos dar a cada criança, para que cada um monte – sabe-se lá de que textos cada um necessita – uma caixa de ferramentas que a ajude na tarefa de inventar a sua própria vida, entre o dado e o possível. (E, quem sabe, com algo de impossível, com algo de utopia.)”
 
Uma leitura comparativa dos livros que integram a coleção permite ao leitor encontrar muitos pontos de consenso, e nenhum (pelo menos relevante) de discórdia. A proximidade destes mediadores, escritores, editores, com o público, um vasto conhecimento teórico sobre literatura (e não exclusivamente sobre literature infantil e juvenil) e um olhar critico sobre a história e o presente dos seus países, fá-los defender alguns pontos essenciais para a leitura e a formação leitora: a literatura é uma fonte de subjetividade criativa, um ato singular, e a leitura dialoga com o texto na mesma medida; a escolar não pode instrumentalizar a leitura e a escrita em função de relações de causa-efeito limitadas a meras estruturas sintáticas e morfológicas ou a uma tradição literária simplifcada e redutora, mal concebida por manuais e dicionários escolares. Partilhar leituras, ler em voz alta, falar sobre o que se lê, escrever para alimentar a imaginação e, numa estreita ligação, conhecermo-nos, conhecermos o mundo e alcançarmos essa magia dinâmica do devir da literatura.
 
 
 
Publicado em:Revista Blimunda / Fundação José Saramago - 01/01/2013
 
 

Graça Graúna - Poemas

 
GRAÇA GRAÚNA – Filha do povo potiguara (RN). Escritora indígena, tradutora. Educadora universitária na área de literatura e direitos humanos. Graduada, Bacharel, Mestre e Doutora em Letras pela UFPE; Pós Doutora em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela UMESP. Em versos, escreveu: "Canto mestizo" (1999), "Tessituras da terra" (2001), "Tear da palavra" (2007). Em prosa, para o público infanto-juvenil, escreveu: "Criaturas de Ñanderu" (2010); para a Editora FTD, em 2013, traduziu três livros de contos indígena da América Latina: "O coelho e a raposa" (povo kiliwa); "O sapo e o deus da chuva" (povo Yaqui); "Baak" (povo maia). Autora de "Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil" (ensaios, 2013). Participa de dezenas de antologias poéticas no Brasil e no exterior. 
 
 
 
RETRATOS 
 
Saúdo as minhas irmãs 
de suor papel e tinta 
fiandeiras 
guardiãs,
 ao tecer o embalo 
da rede rubra ou lilás 
no mar da palavra 
escrita voraz.
 
 Saúdo as minhas irmãs 
de suor papel e tinta 
fiandeiras 
tecelãs 
retratos do que sonhamos 
retratos do que plantamos
 no tempo em que nossa 
voz era só silêncio.
 
 
 
OFERTÓRIO 
 
Comei e bebei! 
estas palavras são meu corpo 
nem alegre, nem triste 
só um corpo 
 
Comei e bebei! 
Nestas palavras minh'alma 
talvez a mais próxima 
de um revoar de sonhos 
 
Mas se este ofertório
 te parece pouco, 
ide ao verso-reverso 
onde o nosso sudário 
continua exposto
 
 
 
CARTOGRAFIA DO IMAGINÁRIO 
 
               (para Ivan Maia, Leila Miccolis, Márcia Sanches e  Urha) 
 
 
...do meio da noite 
ao meio do dia 
o espanto do universo 
retalhado em fatias 
alimenta o poema 
e a vertiginosa fome de vencer 
o intrincado mundo das palavras 
da noite ao meio dia 
(a)talhos e fatias 
dos muitos caminhos do mundo 
alimentam 
a cartografia do imaginário 
do corpoema 
 

Entrevista com Nathan Matos / Ed Substânsia

Impulsionados pelas discussões do campo editorial independente Nathan Matos, Talles Azigon e Madjer Pontes, criaram em 2014 na cidade de Fortaleza/CE a editora Substânsia. Os três amigos, escritores e apaixonados por livros e literatura, resolveram encarar o trabalho desgastante e apaixonante de editar. Criaram, assim, um espaço para jovens escritores interessadas em ter um livro bem editado e com acabamento de qualidade. Segundo os editores, a Substânsia é “como uma vereda no meio do sertão que nos leva ao poço”. 
 
Hoje a Substânsia tem um catálogo com mais de 20 livros editados e alguns desdobramento importantes: a revista eletrônica Substânsia, participações em algumas feiras de publicações independentes e em eventos literários. Além do trabalho do Nathan Matos à frente do site LiteraturaBR, um dos melhores e mais sérios espaços virtuais que aborda a literatura brasileira contemporânea.
 
Conheçam um pouco mais da Substânsia e dos projetos do Nathan Matos, nessa entrevista que fiz com ele no início do ano de 2016.

 

 
1) Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? Comente sobre essa relação.
 
Acho que o encontro é uma via de mão dupla, como eu já possuía um portal que é voltado para incentivar a publicação de poemas, contos e crônicas de novos autores, acabei conhecendo muita gente. Tento acompanhar, na medida do possível, o que é feito pelo país através das redes sociais, das revistas eletrônicas e sites sobre literatura. E posso afirmar que é um universo impossível de dar conta, nós nunca sabemos e nem poderemos saber o que é feito ou o que foi feito em uma determinada época. Sendo assim, nesse meio tempo, acabei mantendo um diálogo próximo a alguns autores, como o Marco Severo, que tendo conhecido os textos dele através do blog pessoal, acabei chamando para integrar o time de colunistas do LiteraturaBr, e, depois de um ano, tivemos a oportunidade de lançar o primeiro livro de crônicas pela Substânsia, chamado “Os escritores que eu matei”. 
 
Só que, claro, esse encontro aí nem sempre é algo harmonioso. Há muita gente que chega pra perto de você só pra tentar conseguir fazer o livro ser publicado, uma enormidade de pessoas que só querem lhe dar um calote, como já aconteceu com vários outros editores amigos. Depois que você começa a ser comentado, o mínimo que seja, entre os amigos ou profissionais da área muita gente quer se aproveitar, e isso é frustrante, porque você passa o tempo todo querendo ajudar a divulgar, a arranjar espaço para a literatura que ainda é deixada de lado, como a gente bem sabe.
 
Mas, como somos os donos da nossa própria editora, por sermos independentes, podemos publicar pessoas que já conhecemos e que mereciam já estar publicadas, isso acaba contribuindo bastante para criar um elo entre os escritores e nós, editores, pois acaba fortificando a literatura em locais que já mereciam tê-la fortificado. Acho que neste ponto contribuímos bastante com o cenário editorial, em Fortaleza, nos últimos dois anos. Veja o nosso próprio exemplo, os outros dois editores, Talles e Madjer, aceitaram a criar a Substânsia comigo justamente por isso, porque poetas como eles não tinham espaço por serem autores estreantes, não apenas no Ceará mas em outros locais do país, uma vez que é muito escassa a chance de publicar novos autores por grandes editoras. Contudo, com o mercado das editoras independentes se fortalecendo o que se começa a perceber é que os conglomerados editoriais agora estão a criar novos selos justamente para isso. 
 
2) Quais suas estratégias para conseguir vender seus livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo? 
 
Uma das frases que mais se repete no meio editorial é que vender livro é difícil. Pode ser verdade, mas é interessante se perceber que cada vez mais pequenas editoras têm sido fundadas e pouquíssimas têm fechado. Acho que isso se dá porque está se criando uma rede entre os editores independentes que acaba por possibilitar a criação de feiras literárias, encontros literários ou qualquer outra atividade que tenha a literatura como foco. Há cada ano, surge uma nova feira que possibilita vendermos nossos livros em vários estados, se não é possível, por exemplo, nos dirigirmos até o encontro, algum amigo editor se responsabiliza em colocar à venda nossos livros e depois fazer o repasse do valor vendido, isso você não tinha antes. Além disso, usamos as redes sociais e a nossa loja virtual, a ideia é no futuro ter um local para fazer nossos próprios lançamentos e quem sabe poder vender livros de outras editoras como a Lote42 está fazendo e como a Patuá, em breve, irá fazer. 
 
os editores: Madjer Pontes,Nathan Matos e Talles Azigon
 
3) Qual a sua relação (editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?
 
Acho que a Substânsia ainda poderia ser mais presente nas redes sociais, mas como nós três somos responsáveis por tudo na editora, além de nos preocuparmos com nossos trabalhos e estudos, não sobra muito tempo para ficar divulgando o máximo que poderíamos nossas obras, nosso catálogo. Mas tendo em vista que a maioria dos escritores que publicamos são do Ceará, acredito que isso não tem sido um problema por enquanto, pois, como comentei, ainda há espaço para novas publicações em nossa cidade ou estado, há ainda um nicho muito grande a ser alcançado por nós. Enquanto tivermos quem publicar de nossa região as redes sociais não serão, talvez, o nosso foco principal. Preferimos atuar também criando elos com escolas e empresas como o Sesc, que realiza um projeto fenomenal no Ceará para a literatura.
 
4) Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Acho fundamental. Há cerca de uns cinco anos pra cá, o mercado editorial independente tem contribuído bastante para que novos autores, de ambos os sexos, credos e raças tenham a possibilidade de publicar. Isso é muito bom, mesmo que alguns mais críticos vejam nisto um problema devido à qualidade da literatura que acaba sendo produzida e divulgada. No entanto, acho que o que os leitores aprovarem ou não o tempo se encarregará de nos dizer. As novas casas editorias, com suas baixas impressões, e parcerias que fazem com novos autores facilita para que este cenário que você mencionou seja mais atuante e esteja mais visível do que em outras épocas. Quantos Machados, Rosas, Bandeiras nós não perdemos desde que a literatura no país começou a ser produzida devido a não existir antes essa facilidade nas publicações?
 
 
           
        
 
 
5) Quais as pretensões de um editor independente em um país tão extenso como o Brasil?
 
Acho que a pretensão é viver do que se gosta, do que ama, do que acredita ser uma das ações que pode contribuir diretamente na educação de seu povo. É assim que eu vejo. Eu não sabia que um dia iria virar editor. Desde cedo, imaginei um dia poder editar uma revista, divulgar ela pelo país, mas o rumo que tomei foi outro e edito livros, o que me anima imensamente. Parece clichê quando os editores falam isso, mas qualquer profissional que viva daquilo que gosta de fazer vai entender o que queremos dizer. Ser editor no Brasil é uma guerra, é viver no limite da própria economia pra poder possibilitar novos sonhos, novas produções, novos projetos que acreditamos realmente serem positivos para a melhoria da nossas sociedade. E o que é importante lembrar é que novas editoras estão surgindo em estados que não têm uma história, digamos assim, de um mercado editorial, mas que com certeza possuem escritores de alta qualidade.
 
6) Como você observa, nesse momento, a construção de um certo cenário de feiras de publicações independentes se espalhando pelo Brasil? 
 
Acho que 2015 foi possível evidenciar isso. Foi realmente um boom. Feiras em várias cidades do país, em cidades do interior, capitais, feiras feitas por organizações sem fins lucrativos, outras por organizações privadas, por coletivos, por editoras, enfim, é um mundo que está crescendo e que tem espaço. Já ouvi gente dizendo que isso “já deu”. Não. Pelo contrário, nós nem começamos a fazer o que é possível fazer. Temos que ter feiras de livros, ações que envolvam a literatura de maneira intensa, isso contribui para uma aproximação entre leitor e autor, entre autor e editor, entre o livreiro e o leitor, vários elos importantes para aprofundarmos nossos conhecimentos e nos conhecermos mais e mais é necessário para que encontremos soluções para os nossos problemas e que deixemos apenas de ficar rondando nossos problemas. 
 
7) Você administra/edita o portal LiteraturaBR em parceria com alguns escritores, fale um pouco sobre essa sua frente de trabalho? 
 
A primeira palavra que me vem é dificuldade. O portal foi criado no intuito justamente de contribuir na divulgação de novos autores. Iniciei sozinho, postando resenhas semanalmente de livros, quando o tempo ainda me permitia ler por prazer e aproveitar e contribuir dando a minha opinião sobre o que achei das obras. Contudo, com os estudos, o trabalho da editora e outros serviços que realizo, esse tempo foi escasseando e ficando cada vez mais difícil de fazê-lo só. Daí, alguns amigos colaboraram outros que fui conhecendo, mas nunca algo tão fixo, apenas um autor me acompanha há dois anos produzindo conteúdo comigo. Agora, pra esse ano, fechei parcerias com pessoas que conheci justamente através de feiras literárias ou pelas redes sociais devido à literatura. Você, Demetrios, é um deles, que contribui selecionando novos poetas para que possamos divulgar; o Marco Severo, a quem tive o prazer de editar o livro, contribui na seleção dos contos que nos chegam de novos autores e agora vamos começar a convidar alguns nomes mais conhecidos, porque sempre achei que grandes nomes podem ser um chamariz para ‘os desconhecidos’, fazer essa mesclagem acredito ser essencial. Além disso, o Marco faz parte do time dos cronistas fixos, ele é quem está comigo há dois anos no Literatura Br. Ao lado dele, agora, chegaram Roberto Menezes da Silva e Rafael Belúzio para fechar o time dos cronistas. Essa aproximação é muito boa, pois proporciona que eu possa acompanhar novos autores de outros estados que muitas vezes não me chegam devido à falta de divulgação. Apesar desses esforços, todo ano, tenho que pedir ajuda aos meus seguidores e a amigos para manter o site no ar, pois pago o servidor e o domínio para o portal permanecer no ar. Mas o portal é algo que me engradece como pessoa e profissional, sou muito grato a ele, pois foi devido a ele que conheci o Eduardo Lacerda, que foi quem me ajudo a fundar a Substânsia. Além disso, tenho certeza, que o portal tem se tornado um ponto de referência entre os melhores portais de literatura do país.
 
 
8) Na sua opinião, qual o papel dos portais e das revista eletrônicas no atual cenário literário?
 
Apesar de as revistas eletrônicas ainda não serem tão lidas, tento acompanhar na medida do possível. A revista 7faces, editada pelo Pedro Fernandes, do Blog Letras In.verso Reverso, é uma das minhas prediletas, sempre a leio de cabo a rabo. A Nota do tradutor é outra importantíssima, mas que parece chamar pouca atenção de quem não é tão ligado à tradução. São revistas importantes porque acabam realizando um trabalho que infelizmente não está sendo possível realizar com tanta força em impresso. 
 
9) Articular edição de livros, administrar um portal literário e participar de evento literários, é essa a dinâmica de quem quer produzir e sobreviver no cenário independente? 
 
Não sei se essa é a melhor dinâmica pra quem quer viver nesse meio (risos), mas é uma possibilidade. Quem convive comigo sabe que essa administração aí não é fácil. Os prazos são curtos a dinâmica pra conseguir fazer tudo e fazer com qualidade demanda uma atenção enorme. Sempre discuto isso com amigos e meio impossível você não fazer várias coisas ao mesmo tempo para poder ter a sua vida pessoal em ordem ao lado da profissional. Atualmente, fora isso tudo, eu ainda presto serviço de revisão, de diagramação e avalio originais criticamente para poder sobreviver pagando as contas. Acho que quem quer viver nesse meio, da literatura, tem que realmente se esforçar porque muita gente deseja isso. Viver de vendas de livros é muito difícil, mas não impossível. Além disso, se formos fazer uma rápida pesquisa, outro ponto que tem crescido no meio literário são as oficinas ministradas por editores, autores e livreiros. Parece que estamos encontrando um meio para que seja possível melhorar essa “economia literária” que conhecemos tão bem. Ainda vemos mais cursos no sudeste sendo realizados, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, mas em algumas outras capitais, como Fortaleza, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre, timidamente isso já é perceptível. E isso é fantástico, pois se continuarmos assim iremos criar um meio de sobrevivência que eu acredito ser muito bom. Contudo, sempre devemos lembrar que é necessário também o apoio do Governo. A luta de todo e qualquer artista, assim como o escritor, é que o Governo olhe mais para a cultura do nosso país. Espero que em breve tenhamos mais editais saindo da gaveta para proporcionar a sobrevivência da literatura entre nós de maneira a possibilitar uma aproximação entre sociedade e literatura.
 
10) Qual o seu principal projeto literário hoje?
 
É difícil responder, eu não tenho um apenas. O LiteraturaBr é algo importante pra mim e que está me possibilitando uma gama de trabalhos que antes eu não poderia ter. Ao lado dele, tenho a Substânsia, junto com meus dois grandes amigos e editores Talles Azigon e Madjer Pontes, que é realmente como um filho. É algo que eu me orgulho de ter feito e de estar fazendo. Acho que o meu principal projeto literário hoje é conseguir manter sempre a leitura próxima a mim, sem isso eu não consigo viver. Sem ler poesia ou um ótimo romance não é possível existir em meio a tanta balbúrdia e caos. Acho que é isso, talvez seja esse meu projeto, não me desfazer nunca da literatura. 
 

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