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O leitor de HQs no Brasil sorriu em 2015

texto: Aristides Oliveira*

Como leitor, estou degustando com mais atenção as produções de Quadrinhos realizadas no Brasil. Nesse curto tempo percebo que a cena é potente, por isso decidi me afastar temporariamente de Gotham para passear nos traços da turma que vem experimentando algumas ousadias que tiram a gente do eixo e da previsibilidade.

Nessa passagem pelas prateleiras, comecei a apoiar alguns projetos no Catarse realizadas por autores que são vizinhos e pesquisar nomes que hoje estão sendo referências pra mim: Bá, Moon, Montanaro, Joniel Santos, DW, Gus Moraes e por aí vai...

Nesse mosaico de impressões visuais diversas, nada foi tão inteligente do que reunir parcela deste cenário em crescimento (basta lembrar o sucesso do FIQ 2015) no FABULOSO Quadrinho Brasileiro de 2015. 

Uma publicação da Narval em parceria com a Veneta, o leitor tem acesso a mais de 30 trabalhos de artistas dos mais variados Estados (produzidos entre julho de 2014 e junho de 2015), selecionados numa convoncatória articulada por Rafael Coutinho e Clarice Reichstul. Como editor convidado desta edição temos Érico Assis.

Por mim, esta antologia é além de um livro: é um documento que todo leitor que leva esta linguagem a sério deve obter, pois reune um contexto de produção intensa em plena sintonia com nomes consagrados e a nova geração da HQ no país.

O FABULOSO representa que nossa criatividade está abrindo novos caminhos para o quadrinho experimental, onde o sentido das narrativas estão cada vez menos arraigadas às jornadas lineares e ganhando porosidades, possibilidades, fricções... São imagens de um cotidiano-aventura, mergulhos de consciência, de trânsitos que percorrem do absurdo para o assustador, da política ao sexo, da mitologia ao humor mais sacana. É o quadrinho brasileiro fortalecendo sua originalidade para o mundo. 

É o que senti na experiência com nomes que não tinha contato, mas que agora faz parte do meu repertório de buscas por mais leituras como Denny Chang, Odyr, Marcello Quintanilha, André Kitagawa, Ricardo Coimbra (virei fã em segundos...), Bruno Maron, Marcelo Saravá, Marco Oliveira, Pacha Urbano, LoveLove6, Gabriel Góes, Pablo Carranza, Marcelo D'Salete. Essa galera entrou para meu calendário de leituras em 2016.

Tomem nota, esta antologia é fundam ental.

 

*Aristides Oliveira, professor de história na UFPI. Escreve na coluna Entre Linhas no portal Capital Teresina e é co-editor da Revista Acrobata.

** texto publicado originalmente na coluna Entre Linhas no portal Capital Teresina.

Entrevista com os editores da Livrinho de Papel Finíssimo Editora

 
A Livrinho de Papel Finíssimo (PE) é uma editora singular, que leva em sua composição temperos diversos, costurando caminhos pelo underground dos fanzines e das subculturas urbanas, sempre com o som pesado em alto volume. Os editores(as) Camilo Maia, Rodrigo Acioli Peixoto, Sabrina carvalho, Leta e Fred Vasconcelos,  trazem em suas práticas o princípio da ação direta, a paixão pelo que faz e apresentam um cuidado manual e artesanal na produção de livros, livrinhos, livretos, zines e diversas modalidades de publicações de impressos. A Livrinho é um exemplo de editora/editores que encara as publicações independentes como um sentimento e uma atitude a serem vivenciados cotidianamente, como um modo de existência.
 
Ao longo de 2015 a Livrinho participou ativamente do cenário pernambucano.  Marcou presença na Bienal do Livro de Pernambuco com stand e oficinas. E ainda organizou um grande evento chamado Publique-se - Festival de Publicação Independente que aconteceu no Museu da Cidade do Recife, Forte das Cinco Pontas, entre 27 de outubro e 01 de novembro. O evento reuniu produtores e editores independentes de diversas partes do Brasil, em um ambiente de confraternização e de debates sobre a produção editorial independente. A programação se dividiu entre mesas redonas, oficinas e feira.
 
Segue uma entrevista que fiz com o pessoal da Livrinho De Papel Finíssimo.
 
Quais os caminhos da Livrinho de Papel Finíssimo para produzir e fazer seus livros circulares? 
 
Quanto à produção dos nossos livros temos três caminhos: 1 – nossas proposições editoriais, linhas como “Olho de Bolso” e “Literatara” que são autores convidados e os livros são produzidos de forma artesanal em nossa oficina gráfica. Uma máquina laser, e papéis variados, bem como os formatos de encadernação e trabalhos de capa igualmente singulares são pensados de acordo com cada proposta, mas que seguem as determinações de formato mais geral. Nós destacamos o nosso próximo lançamento “Homo Ludens” como um exemplo deste trabalho artesanal. 2 - Dentro ainda da esfera artesanal temos os clientes, que contratam nossos serviços e expertises para confecção dos seus livros. 3 - A depender do projeto gráfico e dos anseios do cliente e de nossas limitações artesanais, terceirizamos os serviços de impressão e montagem. Sobretudo quando a tiragem é superior a 200 exemplares, como o exemplo de “A Morte e a morte de Frei Caneca”, que teve como tiragem 1000 exemplares e foi impresso pela Gráfica Cepe. Quanto à visibilidade, contamos com um blog livrinhoeditora.blogspot.com.br, e no facebook um perfil e uma fanpage. A visibilidade do produto reside basicamente na visibilidade de nossas ações, lançamentos, participação em eventos literários, feiras, palestras e debates, além da repercussão dessas ações na imprensa formal.
 

Camilo Maia, Leta Vasconcelos, Rodrigo Acioli Peixoto e Fred Vasconcelos.

 

Como vocês chegam até os autores, ou são eles que chegam até vocês? 

A Livrinho de Papel Finíssimo Editora é filha dileta dos fanzines, e como tais carrega em seu modo de ver e produzir ações artísticas das mais variadas expressões plásticas, gráficas e literárias de nossa contemporaneidade, com ele a publicação de amigos. Ela nasce do desejo comum de alguns amigos em publicar suas próprias experiências e experimentar em coletivo o processo editorial. Hoje, há seis anos de distância do fanzine, que ainda fazemos, há instalado uma competência reconhecida além de um trabalho já feito com algumas dezenas de escritores, artistas plásticos, gráficos e congêneres. De um lado, convidamos artistas para publicação, mas também recebemos clientes e prestamos serviços que cobre todo o ramo editorial e todo o processo de feitura de um livro. Neste caso, o que nos importa é o desejo de publicar um livro no qual acreditamos, seja esteticamente, politicamente, ou os dois ao mesmo tempo, já que estética e política sempre estão de algum modo imbricadas. Para mostrarmos um exemplo de como trabalhamos estamos para publicar uma coletânea de título “História Sujas e Mal Acabadas do Rock’n’Roll” em parceria com a Caderno Listrado e com o coletivo de Serigrafia Supertrampo, o corte editorial do livro foi um convite feito a diversos ilustradores e escritores para que eles compusessem suas histórias e ilustrações baseadas em músicas que escolhemos previamente, em um período extremamente curto (uma semana) para que pudéssemos confeccionar em tempo hábil o livro. Nele participaram não só artistas que já foram publicados por nós de alguma forma, mas tantos outros que ainda não o foram. Este livro, em fase de diagramação, não terá como fim o comércio, posto que sua forma de produção e encadernação é demasiado trabalhosa. É um livro de arte, com pouquíssimos exemplares. Mas por outro lado, o crescimento de nossas produções artesanais nos colocou em outro lugar, agora temos a procura de diversas pessoas interessadas em se publicar ou publicar amigos, familiares etc. Ainda preservamos o espírito fanzineiro, do desafio, da politização e estetização da vida literária, mas acrescido de novos desafios de caráter mais profissional.
 
Quais as estratégias para conseguir vender os livros? Vocês utilizam algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?
 
A venda de livros é o gargalo da produção independente. Contudo, contamos com alguns pontos de vendas na cidade, e algumas editoras amigas como revendedoras de nossos livros. Além disso, temos os livros na nuvem e os lançamentos como formas de venda e divulgação de nossos produtos. Na verdade, nos lançamentos tiramos maior parte da renda de venda de livros. Em grandes livrarias só alguns títulos, pois, é uma atividade deveras desgastante e em última análise antieconômica, dado os acordos propostos pelas grandes livrarias. Residimos e nos movimentamos pelas margens.
 

Qual a relação dos editores/editora com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Vocês exploram de que forma esse campo?
 
Como havíamos exposto, blog, facebook nos ajudam a vender, mas mais do que isso, a divulgar nossos eventos e lançamentos, que são de fato nossos grandes momentos de vendas. E como editora, nos ajudam a agrupar projetos e os envolvidos, sejam como grupos de discussão, trocas de arquivos. Contudo, ainda não há uma viabilidade plena de sustento com o mundo virtual, ele nos permite articular o outro mundo, mas não viver dele. É uma força que estamos atuando, mas ainda não desenvolvemos as potencialidades que a internet promete. Mas queremos, por que sabemos que uma boa lojinha virtual é capaz de ampliar as vendas.
 
Qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?
 
Sem querer parecer arrogante, diríamos que a novidade está nas margens e não nos centros do universo das publicações. Os centros de publicação tem seus filtros, suas estruturas e suas formalidades de modo que nada emerge ali que já não esteja devidamente aparado e dócil. Nos centros de publicação não há mais o risco, o perigo da escrita. Ou mesmo quando vemos uma figura com uma obra invejável de produções malucas em sua biografia, como um Lourenço Mutarelli, que agora publica na Cia das Letras, mas que muito já rodou pelas estradas imprimentes e loucas das publicações alternativas. Nas pequenas editoras surgem os projetos arriscados, sem cálculo de antemão. É o risco da palavra bruta ainda não devidamente empacotada que emerge daí. São projetos que não poderiam emergir de outros lugares, mas sim das margens inquietas, onde o mundo jamais parou de girar que emergem os livros impossíveis, os textos mais imprevisíveis, os visuais mais loucos e os formatos mais experimentais.
 
O que significa ser independente no circuito editorial contemporâneo?
 
Eis uma pergunta, mais ainda, uma questão, na qual a imbricação nesta definição mobiliza nossa vida, nosso horizonte político e estético. Difícil definir independência. Arrisquemos uma definição etimológica, nela verificamos que o prefixo “in” vem do latim, prefixo negativo, mais “dependere”, que é  “estar preso a, estar pendurado”, formado por “de”, indicando origem, mais “pendere”, “pender”. Não estar preso ou pendurado a algo ou alguém é independência. Entre seus sinônimos, há um em especial que é “autonomia”, que é de etimologia grega e significa ser capaz de gerir suas próprias leis e regras: “auto”, “a si próprio” e “nomos”, “lei”.  Levando em conta o campo semântico de independência e autonomia, temos um horizonte, uma abertura, o campo de um embate, político, estético e ético. Independente certamente significa muita coisa diferente para muita gente, e, se reduzir essa significação etimologicamente é uma tarefa que aparente uma leitura reducionista, podemos, com efeito, tentar, ao menos, cercar os campos de oposição em que esse conceito se encontra, e mais, se pratica. Então, uma editora que tem a independência e a autonomia como horizontes, tem de se situar no combate entre as dependências, entre estarem presas há algo, mais precisamente, estarem presos a instituições e leis já há muito fixadas, gastas e de limitada produção de sentidos. Desde de leis de mercado, estéticas ou morais.  
 
Significa aprender a fazer pactos com o diabo sem perder a alma. E, apesar de ser um caminho muitas vezes de poucas compensações financeiras, do ponto de vista criativo, artístico e estético, é altamente satisfatório. Faz valer a pena o caminhar.
 
 

Joyce Mansour - Poemas

Joyce Mansour nascida Joyce Patricia Adès, em Bowden, Inglaterra, no dia 25 de julho de 1928 e morta em Paris em 27 de agosto de 1986, foi uma poetisa egípcia de expressão francesa ligada ao Surrealismo.
 
[Poemas traduzidos por Floriano Martins, 2016 ARC Edições. Integram o volume Viagens do Surrealismo (org. Floriano Martins), ainda a ser lançado]
 

[Não há palavras]
 
Não há palavras
Somente pelos
No mundo sem verdor
Onde meus seios reinam
Não há gestos
Somente a minha pele
E as formigas que queimam entre minhas pernas untadas
Levam máscaras de silêncio enquanto trabalham
Chegam a noite e teu êxtase
E meu corpo profundo essa polpa sem pensamento
Engole teu sexo agitado
Durante seu nascimento
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Eu roubei o pássaro amarelo]
 
Eu roubei o pássaro amarelo
Que vivia no sexo do Diabo
Ele vai me ensinar a seduzir
Homens, veados, anjos de asas duplas
Ele vai rasgar minha sede, minhas roupas, minhas ilusões
Ele vai dormir
Mas o meu sono será através dos telhados
Murmurando, gesticulando, violentamente fazendo amor
com gatos
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Um rato]
 
Um rato
Nada mais que um rato
Menos que um pouco
Apenas um rato
Abria caminho
Até meu sexo
Nada mais que um sexo
Menos que um rato
Apenas o sexo de um meio negro
Menos que um branco
No coração um negro
Menos que um homem
Mais que um rato
Nada mais que um pouco
Tem piedade Deus meu
Do rato
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Nua]
 
Nua
Flutuo entre despojos com bigodes de aço
Com a ferrugem de sonhos interrompidos
Pelo suave bramido dos mares
Nua
Persigo as ondas de luz
Que correm sobre a areia semeada de crânios brancos
Muda eu planejo sobre o abismo
A densa gelatina do mar
Pesa sobre meu corpo
Monstros legendários com bocas de piano
Se refestelam na sombra dos abismos
Eu durmo nua
 
[Rapaces, 1960]
 
 
[Sonho com tuas mãos]
 
Sonho com tuas mãos silenciosas
Que remam sobre as ondas
Rugosas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem equidade
Eu estremeço e murcho
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sêmen dos barcos adormecidos
Para logo estendê-lo sobre as cristas do horizonte
As cristas preguiçosas empoeiradas de peixes
Em que me refestelo todas as noites
A boca plena as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua
 
[Rapaces, 1960]

Chama-se Poesia Tudo o que Fecha a Porta aos Imbecis

texto: Aldo Pellegrini*

 
A poesia tem uma porta hermeticamente fechada para os imbecis, aberta de par em par para os inocentes. Não é uma porta fechada com chave ou com ferrolho, mas sua estrutura é tal que, por mais esforço que façam os imbecis, não conseguem abri-la, enquanto cede à simples presença dos inocentes. Não há nada mais oposto à imbecilidade que a inocência. A característica do imbecil é sua aspiração sistemática a certa ordem de poder. O inocente, ao contrário, nega-se a exercer o poder porque possui todos.
 
Obviamente, o povo é o possuidor potencial da suprema aptidão poética: a inocência. E no povo, aqueles que sentem a coerção do poder como uma dor. O inocente, conscientemente ou não, move-se num mundo de valores (o amor em primeiro lugar); o imbecil move-se num mundo no qual o único valor é dado pelo exercício do poder.
 
Os imbecis buscam o poder em qualquer forma de autoridade: o dinheiro em primeiro lugar e toda a estrutura do Estado, desde o poder dos governantes até o microscópico, porém corrosivo e sinistro poder dos burocratas, desde o poder da Igreja até o poder do jornalismo, desde o poder dos banqueiros até o poder que dão as leis. Todo esse acúmulo de poder está organizado contra a poesia.
 

Como a poesia significa liberdade, significa afirmação do homem autêntico, do homem que tenta realizar-se, indubitavelmente ela tem certo prestígio ante os imbecis. No mundo falsificado e artificial que constroem, os imbecis precisam de artigos de luxo: cortinados, bibelôs, jóias e algo assim como a poesia. Nessa poesia que eles usam, a palavra e a imagem convertem-se em elementos decorativos e, desse modo, seu poder de incandescência é destruído. Assim é criada a chamada “poesia oficial”, poesia de lantejoulas, poesia que soa oca.
 
A poesia nada mais é do que essa violenta necessidade de afirmar seu ser que impulsiona o homem. Opõe-se à vontade de não ser que guia as multidões domesticadas e se opõe à vontade de ser nos outros que se manifesta em quem exerce o poder.
 
Os imbecis vivem num mundo artificial e falso: baseado no poder que se pode exercer sobre os outros, negam a rotunda realidade do humano, a qual substituem por esquemas ocos. O mundo do poder é um mundo vazio de sentido, fora da realidade. A poesia é uma mística da realidade. O poeta busca na palavra não um modo de expressar-se, mas um modo de participar da própria realidade. Recorre à palavra, porém busca nela seu valor originário, a magia do momento da criação do verbo, momento em que não era um signo, mas parte da própria realidade. Mediante o verbo, o poeta não expressa a realidade, mas participa dela.
 
A porta da poesia não tem chave nem ferrolho: defende-se por sua qualidade de incandescência. Somente os inocentes, que têm o hábito do fogo purificador, que têm dedos ardentes, podem abrir essa porta e por ela penetra na realidade.
 
A poesia pretende cumprir a tarefa de que este mundo não seja habitável somente para os imbecis.
 
 
(texto retirado do livro, Surrealismo e Novo Mundo, Ed. Univesidade/UFRGS, 1999)
 
 
*Aldo Pellegrini (1903 – 1973) foi um poeta, ensaísta e crítico de arte argentino. Em 1926 fundou em Buenos Aires junto a Marino Cassano, Elías Piterbarg e David Sussman o primeiro grupo surrealista da Argentina e da América do Sul, que deu origem à publicação de dois números da revista Que em 1928. Pellegrini também participou da criação e edição das revistas Ciclo, Letra y Línea e A partir de cero. Sua importante obra poética foi reunida em 1952 em um único livro com o título La valija de fuego, republicada pela Editorial Argonauta em 2001.

Rosa Alice Branco - Poemas

Rosa Alice Branco é uma poeta portuguesa, nascida em Aveiro em 1950. Publicou os livros Animais da Terra (1988), Monadologia Breve(1991), O Que falta ao Mundo para ser Quadro (1993), A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos (1994), O Único Traço de Pincel (1997), Da Alma e dos Espíritos Animais (2001), Soletrar o Dia (2002), O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (2009) e Gado do Senhor (2011).
 
 
 
A TUA PELE DESCALÇA
 
Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.
 
 
 
CENÁRIO COM OS PÉS DE FORA
 
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas ao meio. Até o silêncio está
desarrumado. Gosto desse cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e as horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
a minha vida. Sem buraco do ozono,
sem buraco de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.
 
 
Rosa Alice Branco recita o poema "Sem Livro de Reclamações"
 
 
SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES
 
No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

 

 

SOLETRAR O DIA

 
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre o futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
 
 

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