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Sarau Letras e Cia

 

O Sesc vai realizar nesta sexta-feira (29), a partir das 18h no anexo do Café Literário Genu Moraes/Teatro 4 de Setembro, o Sarau Letras e Cia com intervenções artistas e poéticas do Roda de Poesia. O evento é aberto ao público e conta com a participação de escritores de Teresina. 

Dentre as atrações, o escritor Wellington Soares que recitará poesias, contos e crônicas de sua autoria e de outros escritores. Ele vai autografar o seu recente trabalho o livro “O dia em que quase namorei a Xuxa” – uma coletânea de crônicas que publica desde 2006 no jornal Meio Norte. 

O objetivo do sarau é divulgar o Prêmio Sesc de Literatura 2016, cujas inscrições encerram dia 12 de fevereiro. Os interessados devem acessar a página www.sesc.com.br/portal/site/premiosesc/Inscricao/ . O concurso é realizado em todo o país pelo Sesc em parceria com os regionais premia trabalhos inéditos nas categorias conto e romance. Podem concorrer ao prêmio, escritores brasileiros e estrangeiros com mais de 18 anos, residentes no Brasil e que não tenham obras publicadas. 

+ http://www.pi.sesc.com.br/programas/cultura/apresentacoes-artisticas/1391-sesc-vai-realizar-sarau-literario.html

 

Editoras Independentes - Episódio 01

As editoras independentes são o grande barato do momento no cenário literário contemporâneo. A bibliodiversidade produzida por esse setor editorial é fantástica. São muitas as editoras e são muitos também suas propostas de ação, publicação e projetos editoriais. A questão que envolve o mercado editorial é um tema que tem chamado muito a minha atenção como escritor e editor de revista. Em todas as edições da Acrobata tem um artigo, uma entrevista ou uma discussão que envolve o trabalho de publicar e a reflexão sobre o mercado. Pensando o “mercado” de forma ampla, não só o famigerado circuito das grandes editoras e megalivrarias. Mas também, um universo que começa a se estruturar na paralela, com feiras independentes (Miolos, Publique-se, Plana, Tijuana, etc) e utilizando o suporte eletrônico/virtual como plataforma. 
 
Nesse momento, existem editoras de pequeno porte, alternativas, undergrounds e independentes em todas as partes do Brasil. Algumas produzem o livro convencional, mas em pequenas tiragens e com o foco em autores iniciantes. Outras, preferem a pegada artesanal, explorando papeis diferenciados e processos de impressão alternativos. Tem também, as que trabalham com o papelão, em parceria com as associações de catadores, fazendo a discussão da economia solidária.
 
Ser independente hoje é sinônimo de novidade, de pulsação vivaz. Nos últimos anos, boa parte dos indicados e ganhadores de prêmios literários vêm dessas pequenas casa literárias que são a utopia possível pensada por “loucos necessários”, para usar uma expressão do editor Sérgio Cohn. O Janelas em Rotação já iniciou a publicação de uma série de entrevistas com editores independentes. Até o momento já foram 2 e logo mais virão mais.
 
Na semana passada, a revista eletrônica Usina lançou o primeiro episódio da web-série "Editoras Independentes", uma série de entrevistas em vídeo com algumas editoras independentes - Azougue, Oito e Meio, Cozinha Experimental e Oficina Raquel. A iniciativa da revista dá visibilidade a uma discussão instigante que toma conta dos debates e dos fazeres ligados ao universo do livro independente. A série aborda, no primeiro episódio, o que significa ser independente e as demais questões desse universo. Os próximos três episódios irão desenvolver a história de cada uma delas.
 

Editoras Independentes - Episódio 01 from Revista Usina on Vimeo.

 
 

Fronteiras Blues – Entre o Céu e o Inferno

O que esperar de uma banda chamada Fronteiras Blues com um disco intitulado “entre o céu e o inferno”? 
 
Depois de ouvir o disco várias vezes e de ter assistido alguns shows, posso dizer que a banda realiza o que toda boa banda de rock blues faz. O som é pesado e sem firulas, guitarras intensas e refrãos que pegam de primeira . Os músicos da Fronteiras Blues fazem um som que lembra os bons tempos do Barão Vermelho, a intensidade do Led Zeppelin e a pegada selvagem do Rival Sons.
 
A banda iniciou suas atividades no início de 2013 e é composta por Janis Oliveira (vocal), Marcelo Carvalho e Pablo Arruda (guitarras), Pedro Ualef (baixo) e Benício Brandão (bateria). Depois de várias apresentações em Teresina e de ter tocado nos festivais “Grito Rock” e “Rock Cordel” em Fortaleza/CE, os caras gravaram ao longo de 2015 o primeiro disco "entre o céu e o inferno" no Patrese Stúdio. A arte de capa ficou a cargo do desenhista e quadrinhista CardosoNot Tnt.
 
O disco traz composições em português e inglês. Inclusive, destaco as que são cantadas em português, como as: o triste fim de jhonny, fuga contínua, o que desregra os sentidos,  porcos e caminhos tortos, isso só para citar algumas. Fora a intensidade sonora, um elemento que chama bastante atenção é qualidade das letras, escritas pelo vocalista Janis Oliveira, como a “o triste fim de jhonny”:
 
O que se dissolve sempre em tons de guerra.
São sempre as noites de Jhonny.
Que quando acorda o vazio lhe cerca
Mas a tristeza não some
Vivia achando que seria melhor
Morrer de ópio do que de tédio
Vendo o triste fim chegar 
Tomando de porre seus remédios
 
(...)
Morreu achando que foi melhor
Viver de opio que de tedio
Viu o triste fim chegar
E teve overdose de remédios
 
ou a música “fuga contínua”, que tem um refrão empolgante que pega de primeira:
 
Quem fala em teus sonhos quem cala tua boca?
Quem bebe teu vinho quem inveja tua roupa?
E cunha o medo pra te acordar
Na calada da noite lhe vigiar...
 
(...)
Um abismo para a lucidez
Um abismo para a lucidez
Um abismo para a lucidez
Um abismo!
 
As letras dessas músicas dizem muito sobre quem vive entediado e sufocado na cidade de Teresina. Principalmente, pela falta de opções culturais e pela mentalidade mesquinha e tacanha que permeia todos as instancia dessa cidade. Assim, a fuga aparece como uma possibilidade real e também, como um sensação vivida por muitos.
 
(...)
E pra viver minha decência 
Vou negar toda essa influencia
Que só me deixa mais fraco
E aumenta minha decadência 
 
Eu vou chegar lá no alto
Só pra ver como olha pra baixo
E aprender como se ama
Sem precisar descer do salto
 
E pra provar que sou forte
Andarei lado a lado com a morte
Por mais longe que seja o caminho
Eu sei que com ela
Eu não ando sozinho.
 
A música “porcos” é um brado irônico e sarcástico, no melhor estilo blues rock. Encara as adversidades de frente e tira onda, com a rebeldia que fez de Jim Morrison um dos grandes poetas da juventude das décadas de 1960/70 e que até hoje tem sua poesia de pé.
 
 
Fronteiras Blues - Triste Fim de Jhonny - Live @ 202 Sessions
 
 
A Fronteiras Blues surge no cenário de Teresina/PI para se juntas a outras ótimas bandas do gênero, como a Neandertais, o BR 316 e a já extinta Clínica Tobias Blues. Desse modo, o cenário se fortalece com ótimas bandas e apresentações marcantes. Todas essas bandas fazem um som firme, maduro e os discos começam a aparecer.
 
É importante que se diga, o cenário da música autoral no Piauí tem se destacado de forma independente e sem a presença das secretarias de cultura (Estado e Município), sobrevivendo na base de parcerias e colaborações. O que por um lado, mostra que as instituições estão completamente ausentes do fomento cultural local e assim, o mérito é todo dos artistas. Mas por outro, se essas instituições estivessem fazendo o seu papel, o nosso cenário cultural estaria em outro patamar. 
 
Recomendo para aqueles(as) que ainda não ouviram o disco ou não assistiram os caras no palco que procure logo conhecer a Fronteiras Blues. Fica a dica.
 

Carvalho Junior - Poemas

Carvalho Junior é a assinatura literária do professor/escritor, de Caxias-MA, Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior, especialista em língua portuguesa, 30 anos, autor dos livros de poemas Mulheres de Carvalho (Café & Lápis, 2011), A Rua do Sol e da Lua (Scortecci, 2013) e Dança dos dísticos (Patuá, 2014). Vencedor do Troféu Nauro Machado de Poesia (2015) no I Festival Maranhense de Conto e Poesia promovido pela Universidade Estadual do Maranhão. Organiza o sarau Na Pele da Palavra. professorcarvalhojunior@gmail.com

 

 
O RIO E EU 
 
uma folha duma árvore qualquer 
dançava na corrente de águas, 
flutuávamos o rio e eu 
um no silêncio do outro,
até o instante em que mergulhamos 
num voo de segredos dos silvos 
dum pássaro de nome não revelado.

 

 

ABRIGOS

 

lá onde desdormem as borboletas hematófagas,

no buraco da fechadura dum castelo de marimbondos,

no sétimo sonho do menino sonâmbulo,
nos zigue-zagues das sombras das asas das libélulas,

na chúvida versilínea polissemia das nuvens,
na luz de lamparina dos lábios do relâmpago,

nos becos dos bicos de cores da boca do arco-íris,
nos cúrvidos assobios dos ventos,

no rastro do rabo de uma estrela cadente,
no piercing da orelha do livro em construção,

na oca do olho do coração do homem,
na casca do ovo e do coco dum santo do pau oco,

nos cândidos caminhos do umbigo da lua,
nas saliências das pernas de meu amor...

em todos esses lugares eu moro, desmoro,
corro, namoro, choro, morro e desmorono.

dos melhores abrigos, 
apartamento que divido
com um joão-de-barro.

 

 

CLARÃO

a fome – ave de rapina –
fita o que nos desalimenta,
cada farelo que nos consome:

os ásperos grãos

de pão,
de guerras,
de prêmios,
de dinheiro,
de poder...

caberia tudo
num só clarão de espanto ou
num bater de asas sovinas?

a fome, de modo inclemente,
mata com pílulas de culpa,
de exílios e silêncios cortantes!

um sonho de capa de jornal:
em fase de inapetência e autoflagelo,

a fome suicida-se,
com uma garfada,
no fundo da vasilha
em que jantava vazios.

CID CAMPOS E O PRAZEROSO INFERNO DE SIGNOS DA POESIA

texto: Thiago E*
 
Esfregando tradição e vanguarda, o paulista Cid Campos é um dos músicos mais importantes do país atualmente, embora não tenha (ainda) o reconhecimento que merece. Quando o assunto é unir poesia de invenção e música experimental, Cid prepara ligas realmente consistentes, resultando em beleza e originalidade.
 
Recentemente, lançou, de forma independente, o disco O Inferno de Wall Street – Profetas em Movimento (2015), reunindo trechos do poema épico O Guesa Errante, do maranhense Sousândrade, e textos bíblicos dos profetas Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oséias, Jonas, Joel, Amós, Naúm, Habacuc e Abdias.
 
 
 
 
O álbum reúne várias participações especiais numa fantástica diversidade de interpretações. As leituras foram feitas pelos poetas Augusto de Campos, Décio Pignatari, Arnaldo Antunes, Walter Silveira e pelos intelectuais José Mindlin, Lauro Moreira, Ricardo Araújo e Danilo Lôbo. Tudo ao som de composições, feitas por Cid, para espetáculos de dança.
 
É impressionante a entoação certeira de Augusto abrindo o disco com versos de Sousândrade. Aos 85 anos, ter essa voz limpa e claríssima é para poucos. O poeta é um dos melhores leitores de poesia que temos, e nos leva com a fala exata:
 
 
                                                                        Mais forte que amor
                                                                        É a dor;
                                                                        Mais que ambos é a pública luz.
                                                                        [...]
                                                                        Vede os vagabundos
                                                                        Mimundos
                                                                        Que ostentam rodar e brilhar.
 
 
A produção musical e os arranjos de Cid Campos criam o tom épico necessário para o poema. Num crescente, o vento e o fogo crepitando se desenvolvem em instrumentos de sopros e tambores – construindo tensão e expectativa para a travessia d’O Guesa – até se transformarem em timbres eletrônicos, climas militares, quase-hinos, pianos, e acabar em calma e fogo novamente.
 
Segundo Augusto de Campos, estudioso e difusor de Sousândrade (1832-1902), O Guesa tem diversas inovações. Escrito entre 1860 e 1880, o livro é “um poema épico-subjetivo” todo fragmentado, montado com colagens, palavras compostas, e ordenado analogicamente – fazendo dele um precursor do Simbolismo e do Modernismo, além de ter praticado modos poéticos que ainda apareceriam na nossa literatura contemporânea.
O primeiro prazer que o disco proporciona é o sonoro: maravilha ficar ouvindo os estalos da junção de justaposições em inglês e português. O ritmo da música e do poema envolve o ouvinte. A densidade das metáforas e a soma de palavras, idiomas, faz com que o conteúdo dos poemas não seja totalmente apreendido na primeira audição, dando vontade de ouvir outras vezes para nos aprofundarmos em suas camadas semânticas e descer ao prazeroso inferno de signos da poesia.
 
É necessário observar o caráter revolucionário do trabalho de Cid Campos. Quando ele faz arte, faz política. Esses dois termos são misturados, amalgamados. Sempre geram potência. Para citar um exemplo, no dicionário Houaiss, o conceito de “política” está inseparável do conceito de “arte”: “Política é a arte de governar”, “a arte da organização, direção e administração de nações…”, “arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido…”. Os termos estão juntos o tempo inteiro. E ainda há um conceito para “política” que poderia ser muito bem um conceito para “arte”: “habilidade no relacionar-se com os outros”. Na superfície, a política objetiva um resultado já planejado. Todavia, a arte também tem em vista o imprevisível, a obtenção de resultados não pensados. Logo, sua arte é política porque sempre leva a possibilidade de se relacionar, criativamente, com a outra pessoa, a possibilidade de impulsionar alguém a algo, a possibilidade também de governo e desgoverno de quem absorve aquela criação.
 
 
 
 
Desde a produção sonora do incrível CD “Poesia é Risco” (1995), em parceria com Augusto de Campos, Cid proporciona a circulação e a recriação de autores fundamentais, como Blake, Rimbaud, Joyce, Cummings. Além de musicalizar poemas visuais dificílimos: “velocidade” (de Ronaldo Azeredo), “banheiro público” (de Walter Silveira), “máximo fim” (de Arnaldo Antunes), “life” (de Décio Pignatari), “fecho encerro” (de Haroldo de Campos), “cançãonoturnadabaleia” (de Augusto de Campos); e compor lindas canções para textos extremamente desafiadores, como “O verme e a estrela” (de Pedro Kilkerry), “O mocho e a gatinha” e “Canção da falsa tartaruga” (ambos de Lewis Carrol), “Alface” (de Edward Lear) e “sem saída” (de Augusto de Campos), todas gravadas por Adriana Calcanhotto.
 
Ouvir as músicas e as trilhas de Cid, em seus outros álbuns, No Lago do Olho (2001), Fala da Palavra (2004), Crianças Crionças (2009), Nem (2014), notamos que o artista busca, aos poucos, transformar nossa percepção da realidade – interferir na vida cotidiana com o inusitado. Ao viver profissionalmente trabalhando com poesia inventiva, mas estranhíssima para o grande público e, certamente, pouco rentável, Cid pode até ser considerado louco, de dar murro em ponta faca, mas segue seu som emocionando, transfigurando nosso comportamento – sendo, simplesmente, um dos mais lúcidos de nós.
 
 
O Inferno de Wall Street – Profetas em Movimento, e todos os discos de Cid Campos, podem ser ouvidos em seu site: http://www.cidcampos.com.br/sec_discografia_view.php?id=42
 
 
 
* Thiago E é poeta de testes, músico e compositor. Autor do livro e disco Cabeça de Sol em Cima do Trem (2013). Integra a banda Validuaté, com a qual lançou os discos Pelos Pátios Partidos em Festa (2007), Alegria Girar (2009), o EP Este Lado Para Cima (2013) e o CD e DVDValiduaté ao vivo (2015). É editor da revista Acrobata. Mais informações aqui:https://soundcloud.com/thiagoe https://www.youtube.com/watch?v=R9SqXd3himM https://issuu.com/revistaacrobata
 
** texto publicado originalmente na revista Musa Rara

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