Cidadeverde.com

Campo Aberto / Arrow in the Heart

CAMPO TEM ESTREIAS ESTA SEMANA*

 

O novo espaço, situado no bairro São João, traz performance e intervenção urbana com participações locais e internacionais.

CAMPO, espaço que se propõe como incubadora-disparadora de ações em gestão e criação artística contemporânea, vem realizando desde 25 de janeiro um intenso intercâmbio envolvendo artistas e produtores-gestores culturais do Piauí, Bahia, Rio de Janeiro, Uruguai e Holanda. Esta semana são duas ações simultâneas que se abrem para a cidade: os projetos “Campo Aberto” e “POROS”. 

Campo Aberto / Arrow in the Heart
De 03 a 05 de março, estreará a instalação performática Arrow in the Heart, como compartilhamento público das residências de gestão e de criação do Projeto Campo Aberto, uma parceria entre Demolition Incorporada (Brasil) e Wild Vlees (Holanda), com suporte do Performing Arts Fund NL e Ministério das Relações Exteriores da Holanda. 


A obra parte de questões como “invisibilidade” e “coisificação” para discutir um sentido de humanidade pleno, palpável e abrangente, que possa ser aplicado no mundo em que vivemos, aqui e agora. Em ação, oito intérpretes vindos de lugares e experiências bastante distintas: corpos que se tornam objetos, disponíveis e em display, (in)animados pelo desejo de se tornarem humanos, na artificialidade de um campo de batalha cravado de disparos.

“O que é ser humano? Nós somos humanos? O que nos faz humanos? Nós não somos tão especiais quanto pensamos. Nesta residência nós procuramos virar objetos. Para ver como é ser um, e sentir o quão diferente é ser humano. E o quão diferente “ser humano” é de ser um objeto. O que é ser humano quando nós somos mais vistos e tratados como objetos? Objetos de uma economia de Mercado, objetos de desejo…” (Tamar Blom, coreógrafo)

serviço
ARROW IN THE HEART ? instalação performática
dias 03, 04 e 05 de março (quin a sáb)
às 20h, no CAMPO | Teresina-Brasil
++
bate-papo com público após a apresentação do dia 04
inteira R$ 10 | meia R$ 5 / classificação indicativa: 12 anos
bilheteria, prévia do bar da vampa e trailer bucho cheio abertos a partir das 18h dos dias de apresentação, sujeito à lotação. 
CAMPO gestão e criação em arte contemporânea: Rua Padre José Rego, 2660, no bairro São João, esquina com a avenida Belisário Cunha.
 

foto: Mauricio Pokemon

POROS
Aberturas na pele do Campo.
Ao artista piauiense Maurício Pokemon foi dada uma fachada em branco e o desafio de pensar junto com o Campo uma intervenção urbana sobre como o lugar entende e pretende sua relação com o entorno: moradores e artistas do São João, de diferentes bairros de Teresina, assim como de outros lugares do Brasil e do mundo. 

“A proposta me levou a caminhar pelo bairro, fotografar moradores e trabalhadores, e sentir a vida que há ali. Venho desenvolvendo meu trabalho sobre comunidades e tentando aplicar a técnica da colagem nas fotos criadas a partir de vivências como essa. O projeto Poros me levou a pensar na fotografia como uma ferramenta de aproximação entre comunidades, a pensar com quem a arte ali desenvolvida pode e quer dialogar, lidando diretamente com moradores e artistas, quebrando as fronteiras implantadas em nosso imaginário sobre o lugar de cada um desses, e, envolvendo valores e saberes empíricos-- substância que move meu trabalho.” (Maurício Pokemon, artista visual)


FICHAS TÉCNICAS

ARROW IN THE HEART
Concepção, criação e direção: Tamar Blom
Criação e orientação dramatúrgica: Marcelo Evelin
Coordenação de Produção: Job Rietvelt e Regina Veloso
Produção: Andréa Alves, Antônio Vagner, Arthur Doomer, Artenilde Soares, Gui Fontineles, Humilde Alves, Isabela Silveira, Renata Fortes.
Performance: Eduardo Mota, Fernanda Silva, Mariana Flores, Patricia Mallarini, Samuel Alvis, Soraya Portela, Vanessa Nunes, Zé Reis.
Fotografia: Maurício Pokemon.
Realização: Demolition Incorporada + Wild Vlees, com suporte de Performing Arts Fund NL e Dutch Ministry of Foreign Affairs
Agradecimentos a Adolfo Severo, Dudu Moreira/Vampa, Juliana Campelo e Marina Lobo

POROS
Criação e fotografia: Maurício Pokemon
Concepção e produção: Regina Veloso
Making of: Gelson Catatau
Realização: Campo | gestão e criação em arte contemporânea + Marka Mídia Exterior
Agradecimentos a Vitor Arruda, Valério Araújo, André Gonçalves e a todos os moradores e artistas que gentilmente cederam suas imagens.

 

foto: Mauricio Pokemon

foto: Mauricio Pokemon

*Informações retiradas da página do evento https://www.facebook.com/events/960439520670941/

 

 

Malabares às Mãos: Ser Escritora ou Escritor no Brasil

 
 
texto: Micheliny Verunschk*
 
 
O poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo (1942-2007), em algumas das crônicas do livro Marco Zero (Cepe, 2009), chama a atenção para certas condições a que a criação literária em países como o Brasil se submete e que acabam por se tornar fatores determinantes da dedicação do autor para com sua obra, obra aqui entendida, é claro, como o projeto de arte de uma vida, ou mesmo de uma nação (Dom Quixote, para a Espanha, e A Divina Comédia, para a Itália, que o digam).
 
Cunha Melo elenca  as dificuldades materiais dos "escritores de formação proletária" como um dos principais impasses para aqueles autores, numa perspectiva em que ele também se insere: que entre as demandas de sobrevivência e a necessidade de investir na sua própria formação de escritor e ainda dedicar tempo à própria escrita se tornam  malabaristas com vários pratos, bolas, malabares às mãos. O velho equilíbrio entre o feijão e o sonho, diz ele, que coloca nas condições de classe os principais desafios para o escritor naqueles últimos anos do século XX.  Não há aqui determinismos, é importante ressaltar. Ou como diz Cunha Melo na crônica "O suor do poeta":
 
Mas tanto as condições de classe quanto as outras, favoráveis ou adversas ao exercício de escrever , não são determinantes  da boa ou da má qualidade das obras, como se pode exemplificar com um Milton, pobre e cego, escrevendo o seu "Paraíso perdido", e um Goethe, rico e saudável, escrevendo seu "Fausto".
 
A esse propósito, recentemente, dois fatos me chamaram a atenção. Terminando de ler o terceiro ou quarto livro do português Valter Hugo Mãe, em uma nota, o autor agradece a uma Câmara Municipal por uma casa onde ficou retirado por alguns dias a fim de terminar o romance. Peguei um outro livro de Hugo Mãe  e outro agradecimento, dessa vez à entidade diversa, pela mesma espécie de benefício. O segundo fato, uma notícia publicada em jornal, conta de uma escritora carioca radicada na Califórnia, Martha Batalha, às voltas com a publicação do seu primeiro romance, desdenhado pelas grandes editoras nacionais mas que, após o eficiente trabalho de uma grande agência literária, está sendo vendido a várias editoras da Europa.
 
Obviamente os dois exemplos citados acima se afastam paradoxalmente da nossa realidade. A notoriedade conquistada por Hugo Mãe certamente abre caminho para que, em Portugal, condições acessíveis de dedicação lhes sejam asseguradas (talvez não idealmente, mas de maneira eficaz). Por certo, uma conquista como essa não se faz sem algum talento e muito esforço pessoal. Entretanto, também não se faz sem um projeto político. Patrocínios como esse são ainda uma utopia no Brasil, em que editais, bolsas de residência e outros mecenatos para escritores são, não apenas raros, como os primeiros alvos de degola em tempos de crise econômica. No caso de Martha Batalha, para além de sua inserção prévia no mercado (foi editora antes de se lançar como autora) a possibilidade de um agenciamento literário com evidente poder de fogo, é realmente uma tangente a qual a grande maioria não dispõe.
 
Sem anteparos que garantam uma imersão exclusiva naquele que é o seu trabalho, a escrita, e sem os recursos materiais e ou profissionais que assegurem alguma notoriedade no mercado (sempre da perspectiva do talento, é bom frisar), resta ao escritor sem plumas aquela vida de equilibrista:  formar-se, enfrentar o mercado, divulgar  (e muitas vezes vender) o próprio livro, preparar mesas e palestras, sem nem sempre estar seguro de que irá receber a remuneração devida por isto, ler os clássicos (e os contemporâneos), participar de feiras, mesas e festas, sem segurança de recebimento do pro-labore acertado, tourear com as editoras e, ainda, escrever o livro,  a resenha, o prefácio, a orelha, a tese, o artigo, a matéria, a reportagem. Caso seja mulher, e caso seja mulher e com filhos, some-se a isso ainda ultrapassar os bloqueios de gênero impostos pela sociedade e mercado, e ainda dar conta da jornada tripla, aquilo que se entende como a "missão da mulher", para não falar de uma certa má vontade dostatus quo crítico e literário.
 
Superar a dispersão causada por todos esses elementos e ainda a maior ou menor dilapidação de tempo nas redes sociais (que a julgar pela queixa de muitos amigos escritores é algo a se levar em conta também) são os desafios diários do escritor na composição e dedicação à obra (esse ideal).
 
Por outro lado, não se trata de congelar o cotidiano, nem de esperar condições ideais ou imaginárias para o exercício de uma vida pela escrita (ou pela literatura, se assim se preferir). Escreve-se bem, mesmo em condições não favoráveis como a que vive o escritor contemporâneo em países como o Brasil (países emergentes, em crise, sob o fascismo cotidiano etc), assim sabemos. Mas se se espera que o violinista ou a ginasta ou a bailarina sejam os melhores  em suas áreas, se se persegue esse caminho porque lhes são dadas horas de treino, estudo e condições, por que não se cobrar e também construir condições práticas e políticas para isso no que diz respeito ao ofício de escritor? 
 
Anos atrás o movimento Literatura Urgente, capitaneado por Ademir Assunção e subescrito por outros tantos escritores, iniciava um diálogo com o Ministério da Cultura no qual uma vigorosa pauta de sugestões de políticas públicas para o fomento da literatura se delineava. Em algum momento, no entanto, o diálogo foi atravancado e nesses últimos anos a dissipação dos espaços de comunicação e embates nessa direção é evidente.
 
Há saída? Há solução para além da escolha diária da literatura, quer sejam os deuses ou as musas ou o relógios de ponto propícios ou não? Certamente. Mas isso passa por muitos caminhos, desde a construção de um mínimo estado de bem estar social até a criação de zonas de verdadeira interlocução entre os interessados (coisa para a qual, até agora, as redes sociais não parecem de fato contribuir). Ou seja, o caminho é longo e árduo, mas que não deveria ser em nada espantoso para quem, equilibrando-se à beira do abismo ainda se atenta aos malabares.
 
 
 
*Micheliny Verunschk é autora do romance Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida – projeto com patrocínio da Petrobras Cultural. Também é autora dos livros Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada(Edições Bagaço, 2003) e A Cartografia da Noite(Lumme Editor, 2010). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom como livro Geografia Íntima do Deserto. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade  Católica de São Paulo. O romance nossa Teresa - vida e morte de uma santa suicida - ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura 2015 - categoria melhor romance de 2015 - autor estreante acima de 40 anos.
 
** Texto publicado originalemnte no blog da autora - Ovelha Pop http://ovelhapop.blogspot.com.br/2016/02/escrevendo-no-brasil.html?m=1
 
 

Edson Cruz - Poemas

 

EDSON CRUZ

Autor, pela Patuá, dos livros de poemas O canto verde das maritacas - Antologia Poética + Inéditos e Ilhéu, Edson Cruz (Ilhéus, BA) é poeta, editor e coordenador de Oficinas Literárias. Graduado em Letras pela USP, estudou Música e Psicologia. Fundador e editor do site de literatura Cronópios(até meados de 2009) e da revista literária Mnemozine. Este é seu terceiro livro de poemas. Antes, lançou Sortilégio(poesia), em 2007, pelo selo Demônio Negro; como organizador, O que é poesia?, pela Confraria do Vento/Calibán; em 2010, uma adaptação do épico indiano,Mahâbhârata, pela Paulinas Editora. Em 2011, foi contemplado com Bolsa de Criação da Petrobras Cultural com o livro Sambaqui, pela Crisálida Editora. É editor do site de Literatura e Adjacências, MUSA RARA (www.musarara.com.br) e do selo MUSA RARA, em parceria com a Terracota Editora. É curador e mediador do ciclo de diálogos O que é a Poesia?, organizado pela Casa das Rosas. Blogue: http://sambaquis.blogspot.com

 

 

A MÁQUINA


Aqui jaz meu poema
fazendo-se
de morto
na página que há 
pouco
já foi alva 
feito um teorema
que não se pode refutar.

Até que você o leia
insufle a vida
que lhe falta
e o transforme 
em delicado mecanismo
que venha sorrateiramente atingir
o desejado alvo. 

Touché?
 

 

BIBLIOTECAS


A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela. 
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.


 

ARABESCOS


As crianças equilibram borboletas 
e planetas.

Os homens enxugam copos 
com sua dor.

As mulheres geram bentos
e arrebentos.

Gafanhotos devoram os verdes
da paisagem.

Profetas esboçam desígnios
no deserto.

Os bêbados balbuciam coerências
borrachudas.

Os poetas cadenciam tudo
o que tocam. 

A natureza redesenha o mundo 
em fractais.

 

 

os livros do autor - Ilhéu e o Canto Verde das Maritacas - podem ser adquiridos no site da Editora Patuá 

http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=210

 

Um Novo Campo é Aberto em Teresina

O espaço, localizado no bairro São João, se propõe como ambiente de gestão e criação em linguagens contemporâneas
 
CAMPO foi concebido como incubadora de uma gestão construída a partir de objetos estéticos em processo e diálogo junto a comunidade. É parte de um novo momento de atuação do coreógrafo piauiense Marcelo Evelin, e da produtora Regina Veloso, após a experiência acumulada nos 9 anos do Núcleo/Galpão do Dirceu,  com a parceria conceitual da gestora Sônia Sobral--responsável pela gestão das artes cênicas do Itaú Cultural entre 1999 e 2015. Abriga 2 estúdios, 1 escritório e 1 café-bar que servirá de local de ações e convívio voltadas à comunidade, com mais de 1.500m2 de área multiuso. 
 
CAMPO é um novo espaço para se pensar, fazer e difundir arte e disciplinas afins, e, como parte dele, o estúdio Demolition Incorporada-- plataforma de pesquisa e criação de Evelin, que vem estabelecendo relações locais, nacionais e internacionais no decorrer de seus 20 anos. 
 
 
foto: Mairicio Pokemon
 
Vem acontecendo desde de 25 de janeiro e segue até 05 de março a ação primeira do CAMPO, com apoio do Performing Arts Fund NL: o projeto Campo Aberto, uma colaboração entre Demolition Incorporada e a companhia holandesa Wild Vlees. Este toma o formato de Residência Artística, entendendo-a como ação transversal de formação que não se restringe ao modelo de oficina ou laboratório, onde um saber se sobrepõe ao outro. Considerando todo e qualquer tipo de saber como passível de compartilhamento, esse “aprender” se dá, e vem se dando, através de conexões estabelecidas no grupo e pelo agenciamento singular das informações disponíveis. São ao todo 16 artistas e produtores residentes, selecionados via convocatória pública que obteve mais de 80 inscrições vindas de 14 diferentes lugares do Brasil e de outros países, como Uruguai, Colômbia e Portugal.
 
 
       
foto: Mairicio Pokemon
 
As residências reúnem um grupo de artistas e um grupo produtores/gestores em fluxo contínuo de troca, contato e convivência, que terão como encerramento, de 03 a 05 de março, um compartilhamento público da performance que está sendo criada. A concepção e direção é de Tamar Blom com orientação dramatúrgica de Evelin, enquanto a residência de gestão criativa acontece sob condução de Regina Veloso e Job Rietvelt. 
CAMPO fica localizado `a Rua Padre José Rego, 2660, no bairro São João, esquina com a avenida Belisário Cunha e conta com parada de ônibus e ponto de taxi ao lado.
 
 
foto: Mairicio Pokemon
 
"Desde minha chegada o que mais me marca é o fato de contextos tão diversos de Brasil passarem por desafios tão similares: capacitação  dos agentes culturais, dificuldade de articulação em redes heterogêneas e arbitrariedade das gestões públicas saltam aos olhos aqui ou em Salvador"
Isabela Silveira/BA 
 
"Um encontro raro de diferentes experiências/campos de quem faz produção e criação em Teresina e alguns locais fora dela. A possibilidade de conhecer de mais perto o que lhes move e como fazem, abrir canais de diálogo e construção na cidade. Entender/reconhecer que pouco pensamos e refletimos sobre o que fazemos e sobre o que desejamos-precisamos fazer em médio e longo prazo."
Regina Veloso/PI.
 
 
 
*Reliase de divulgação do espaço O Campo

As Bibliotecas e Alguns de seus Frequentadores

texto: Claudio Willer*
 
Desenvolvi uma hipótese algo arriscada sobre o título Uma Temporada no Inferno, de Jean-Arthur Rimbaud. No original, Une Saison em Enfer que, dependendo do tradutor, é uma temporada, uma estada, uma estadia, uma cerveja (para Mario Cesariny) no inferno.
 
Como se sabe, ao final de 1870, Rimbaud tinha 16 anos e já escrevia belos poemas. Tentara fugir por duas vezes de Charleville, a cidade natal nas Ardenas, norte da França. Na primeira, chegou a Paris, foi preso e mandado de volta para casa. Na segunda, foi à Bélgica. Com a guerra franco-prussiana, tudo parou. A escola fechou, não havia aulas, nada para fazer. Conforme registrado em biografias e sinopses biográficas (é suficiente, para o que pretendo examinar, aquela preparada por Ivo Barroso para as edições completas de Rimbaud pela Topbooks), o adolescente enfiou-se na biblioteca local. Atravessou a biblioteca: leu-a de ponta a ponta. Chegou até os fundos, ao espaço onde guardavam obras não recomendadas, que não deveriam ser lidas: havia tratados de alquimia, de ocultismo. Debruçou-se sobre eles. Foram leituras decisivas. Inspiraram uma virada hermética em sua poesia, evidente em “Coração roubado”, “As vogais” e outros poemas que marcaram sua ruptura com o parnasianismo. A seguir, escreveria a “Carta do Vidente” para Paul Demeny. Para relembrar, cito um trecho:
 
Eu digo que é preciso ser vidente, se fazer vidente.
 
 
 
 
O poeta se faz vidente por um longo, imenso e pensado desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; ele busca a si mesmo, ele exaure em si mesmo todos os venenos, para então guardar apenas as quintessências. Inefável tortura na qual necessita de toda a fé, toda a força sobre-humana, onde ele se torna entre todos o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, – e o supremo Sábio! –Pois ele chega ao desconhecido! Uma vez que ele cultivou sua alma, já rico, mais que todos! Ele chega ao desconhecido, e quando, enlouquecido, ele acabaria por perder a inteligência de suas visões, ele as viu! Que ele estoure em seu sobressalto pelas coisas inaudíveis e inomináveis: virão outros horríveis trabalhadores; eles começarão pelos horizontes onde o outro se abateu!
 
Portanto, o poeta é realmente o ladrão do fogo. […] – De resto, toda palavra sendo idéia, o tempo de uma linguagem universal virá!
 
Lendo os magos, desenvolveu a idéia do poeta iluminado e vidente, Prometeu capaz de expressar-se na “linguagem universal”. Em seguida, viriam a poesia experimental do Álbum Zútico e as prosas poéticas. Uma temporada no Inferno, da qual um dos capítulos é “A alquimia do verbo. E Iluminações – ou Iluminuras, conforme o tradutor.
 
Já escrevi bastante sobre Rimbaud. Observei que percorreu cinquenta anos de história da literatura em cinco anos de produção, dos poemas parnasianos – porém já irreverentes, alguns contundentes – até as prosas poéticas. Essas passariam a ter maior circulação a partir de 1912. Se houvessem sido publicadas na década de 1920, sem revelar o autor, passariam por mais uma das criações dos surrealistas, ao lado daquelas de André Breton, Roberto Desnos, Paul Éluard, Louis Aragon e outros que iam sendo lançados.
 
Pois bem – e aqui vem minha hipótese arriscada: “Inferno”, tradicionalmente, era o nome dado ao setor da Biblioteca Nacional francesa onde ficavam armazenadas obras proibidas, que ninguém deveria ler. Guillaume Apollinaire, poeta extraordinário, grande iniciador e pensador das vanguardas, conseguiu permissão para entrar no “Inferno” e assim teve a chance de ler o Marquês de Sade e outros libertinos: leituras decisivas para inspirar sua contribuição ao gênero, em As onze mil varas, A mulher sentada e outros títulos.
 
Pergunto: e se essa denominação fosse geral? E se esse termo, “inferno” valesse para o setor de obras proibidas de todas as bibliotecas francesas? Nesse caso, “Uma temporada no Inferno” também poderia significar uma temporada na biblioteca. Ou, mais especificamente, no setor de obras proibidas ou não recomendadas da biblioteca.
 
Rimbaud é ambivalente e polissêmico. São frequentes em sua obra as expressões com duplo ou múltiplo sentido. O título Illuminations: seriam iluminações no sentido de revelação ou epifania? Ou iluminuras, coleções de gravuras campestres em inglês, conforme teria declarado a seu amigo, o poeta Germain Nouveau, ao pedir-lhe que encaminhasse os originais a Verlaine em 1874? Os assassinos do “Eis o tempo dos assassinos” e outras passagens: são criminosos? Ou, de modo fiel à etimologia, “haxixim”, fumadores de haxixe, como observa Ivo Barroso? Ambos. Em Rimbaud não é um ou outro – é um e outro.
 
Por isso, entender seu Inferno como aquele da teologia cristã, de outras teologias e mitologias, ou como reinterpretação daquele de Dante (conforme Marcelin Pleynet, entre outros) – portanto, como fonte da sabedoria – não elimina esta interpretação. Vale, ao menos, como metáfora, ou pelo conteúdo simbólico, adicionando-se a tantas outras já apresentadas por críticos: de que Uma temporada no Inferno é alegoria da situação na França durante a guerra franco-prussiana; ou de que trata da relação de Rimbaud com Verlaine, por exemplo. Todas, em alguma medida, plausíveis, pois, insisto, a escrita de Rimbaud é polivalente.
 
Por levar vida de marginal, especialmente durante o período em que viveu em Paris, e por ser um autor à margem em seu tempo, reconhecido tardiamente, Rimbaud tornou-se protótipo do poeta marginal, além de maldito. Outros dessa família também tiveram experiências de revelação em bibliotecas e atravessaram infernos.
 
Especialmente significativo é o que ocorreu com Gregory Corso, poeta da Geração Beat nascido em 1930. Estava literalmente no inferno quando descobriu bibliotecas. Recém-nascido, a mãe o deixou – fugiu, por não agüentar o marido, um brutamontes. Corso passou a infância entre lares de adoção, fugas e reformatórios. Menino de rua, delinqüente, foi preso três vezes antes de completar 20 anos. Aos 13, por um furto, acabou entre adultos, criminosos violentos, na prisão de Tombs. Aos 16, foi pego pela terceira vez, por participar de um golpe elaborado – com mais três comparsas, conseguiu roubar 25.000 dólares, bastante dinheiro na época. Cumpriu pena no presídio de segurança máxima de Clinton. Lá havia biblioteca. Em suas palavras: “Um velho me passou Karamazov, Os Miseráveis, O Vermelho e o Negro, e assim aprendi, e me tornei livre para pensar e sentir e escrever”. Saiu da cadeia “enamorado por Chatterton, Marlowe e Shelley”.
 
 
 
 
Corso já tinha o hábito da leitura desde garoto, conforme relatou em depoimentos:
 
Eu ia para as bibliotecas o tempo todo e lia todos os livros que podia – livros sobre retórica, por exemplo. Como você fica esperto, Gregory? Veja, eu só fiz o ensino básico, foi o máximo que consegui. Como ficar esperto? Precisa ler livros.
 
E assim foi lendo manuais de gramática e retórica, e até dicionários. Mas uma coisa é ampliar o domínio da linguagem como meio para relacionar-se com a realidade; para controlá-la. Outra, a revelação através da criação literária, motivando-o a escrever.
 
Em 1950, depois de sair de Clinton, Corso despertou a curiosidade de Allen Ginsberg, que o viu escrevendo à mesa em um bar do Greenwich Village: quis ver o que o rapaz fazia, e imediatamente reconheceu seu talento. Em 1955, estrearia em livro com Lady Vestal, através de uma edição patrocinada por colegas de Harvard, onde fez cursos de literatura. A seguir, mais um livro, Gasoline, publicado pela editora City Lights do também beat Lawrence Ferlinghetti. No prefácio, Ginsberg o qualificou como “grande arremessador de palavras e provavelmente o melhor poeta da América”. Outros títulos viriam, entremeados por escândalos, como aquele da leitura do sarcástico poema “Bomb”. Levou uma vida itinerante. Chegou a morar na Grécia, onde deu aulas de criação poética. Está sepultado em Roma, ao lado do túmulo de seu idolatrado Shelley. Episódios burlescos e exibições de má conduta não faltaram em sua biografia. Mas nunca parou de ler: por exemplo, encerrou-se em bibliotecas para sua pesquisa sobre hieróglifos e cultura do Egito que resultou no “Geometric Poem”, poesia visual, manuscrito ilustrado publicado em Long Live Man. Décadas depois, retornaria a Clinton, não para cumprir pena no0vamente, mas para dar palestras com a finalidade de estimular o gosto pela leitura entre jovens prisioneiros.
 
Corso não foi o único integrante da Geração Beat com essa relação com infernos e bibliotecas. Neal Cassady celebrizou-se com inspirador e personagem de Jack Kerouac, através de On the Road, onde é Dean Moriarty, seu parceiro de viagens e aventuras. Deixou uma obra pequena: a narrativa autobiográfica O primeiro terço (publicada no Brasil pela L&PM) e cartas que impressionaram vivamente Kerouac, como a “Joan Anderson Letter”, dada como perdida e recentemente redescoberta.
 
O pai de Cassady era alcoólatra e a mãe os abandonou. Foi menino de rua – e um consumado delinqüente, com passagens por reformatórios. Teria roubado dezenas de automóveis na adolescência. Mas frequentava a biblioteca local, em Denver, Colorado. Entre outras descobertas, entusiasmou-se com Proust e Nietzsche. Chamou a atenção de Justin Brierly, próspero advogado, benfeitor de rapazes, que o apoiou – assim como, entre outros jovens, a Hal Chase, futuro antropólogo. Esse o apresentaria a Ginsberg e Kerouac em Nova York: o que se seguiu àquele encontro é histórico e lendário.
 
O termo “Geração Beat” foi criado por Kerouac, em 1948. Ele se tornou a encarnação desse movimento, através de On the Road e outros volumes de sua obra extensa. Da relação com bibliotecas, há um episódio significativo e tocante. Com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, foi convocado pela Marinha em dezembro de 1942. Por causa de sua condição atlética, pretendiam treiná-lo para operações especiais, a partir de submarinos. Mas, pacifista além de rebelde, não suportava a disciplina; rebelava-se contra toda autoridade. Primeiro, deu um soco em um oficial que lhe arrancou da boca o cigarro que fumava. Em seguida, no grupo de convocados, após ouvir o “Sentido…!”, em vez de enfileirar-se com os demais, abandonou a formação. Saiu andando. Foi achado na biblioteca naval, lendo e tomando notas, normalmente, como se não tivesse acontecido nada. Teve sorte: em vez de o levarem a uma corte marcial por indisciplina, diagnosticaram-no como louco. Ficou algumas semanas internado, fez amizade com outros loucos ou supostos loucos antes de ser liberado, conforme os biógrafos (consultei Memory Babe de Gérard Nicosia) e como relatou no autobiográfico Vanity of Duluoz.
 
Ele podia ter escolhido qualquer lugar para ficar sossegado. Ir para a biblioteca define o contraste entre dois espaços ou duas situações: a opressão através da mais rígida disciplina no pelotão naval, e a liberdade na biblioteca, onde poderia escolher o que quisesse ler.
 
Um autor frequentemente associado à Geração Beat, e de grande prestígio, é Charles Bukowski. A meu ver, tal associação é incorreta, e o próprio Bukowski a rejeitou categoricamente. Seu individualismo e ceticismo o impediriam de ligar-se a qualquer movimento ou plataforma literária. São possíveis, no entanto, paralelos biográficos. Tiranizado por um pai sádico, que o chicoteava, um dos refúgios do futuro autor de Cartas na Rua e Memórias de um velho safado era uma biblioteca pública em sua cidade, Los Angeles. Na coletânea de textos póstumos Miscelânea septuagenária (recentemente publicada pela L&PM) há um poema, “O incêndio de um sonho”, elegíaco, lamentando que “a velha biblioteca pública de L. A. pegou fogo”. Relembra os autores que descobriu lá; as leituras que o impulsionaram a, por sua vez, tornar-se escritor. John Fante, em primeira instância (atuaria mais tarde em favor de seu reconhecimento), Robinson Jeffers, Albert Camus, e muitos outros de uma lista extensa. Um trecho de “O incêndio de um sonho”:
 
Aldous Huxley, D. H. Lawrence
e.e. cummings, Conrad Aiken, Fiódor
Dos, Dos Passos, Turguêniev, Górki,
D., Freddie Nietzsche, Art
Schopenhauer,
Steinbeck,
Hemingway,
e assim por
 
diante…
 
Bukowski levou vida de marginal, viveu de subempregos até alcançar uma situação mais confortável, foi um alcoólatra, armava toda sorte de confusão nos bares que freqüentava. No entanto, ao contrário do que supõem ocasionais imitadores, a marginalidade, apenas, não forma escritores. A leitura é indispensável.
 
Na Divina Comédia, o inferno é cinematograficamente pavoroso. No entanto, aqueles condenados eram videntes. Tinham, segundo Dante, um terceiro olho ou terceira visão que lhes permitia enxergar o futuro. Por isso, Roberto Piva terminou um de seus poemas sobre Dante, de Ciclones, com esta afirmação: “Todas as novidades estão no Inferno.” Na Comédia, profetizam o exílio do poeta florentino, entre outras antecipações. É claro esse foi um expediente literário: Dante já estava exilado em Ravena quando escreveu seu monumento literário. Mas essas descidas ao inferno de poetas – aquela de William Blake é exemplar – são atualizações, na moldura cristã, de um mito mais antigo, de Orfeu: o patrono ou arquétipo dos poetas que desce ao Hades, reino dos mortos. E o mito de Orfeu, por sua vez, é adaptação ou atualização grega de um tema ainda mais arcaico: a própria iniciação dos xamãs, sacerdotes ou feiticeiros tribais, que devem descer ao mundo subterrâneo dos mortos para adquirir poderes. Dos xamãs tribais aos maçons e demais esoteristas contemporâneos, adeptos de doutrinas iniciáticas descem ao reino dos mortos. E seu retorno sempre corresponde a um ganho em conhecimento e poder; à aquisição de algum grau de iniciação.
 
Na década de 1990, a rede de bibliotecas públicas de São Paulo tinha elevados índices de freqüência de público, um número enorme de consulentes. Majoritariamente escolares, para fazer “pesquisa”. Bibliotecas públicas cobriam, portanto, a insuficiência ou falta das bibliotecas escolares. Hoje, essa demanda de fontes de informação para as pesquisas escolares é suprida pelo meio digital, com suas ferramentas de busca. Que as bibliotecas recuperem a função histórica, como lugar simbolicamente infernal e celestial, estimulando aventuras intelectuais.
 
Depois que o artigo foi publicado na revista eletrônica Musa Rara e divulgado pelo Facebook, recebi comentários que corroboram:
 
De Lucas Guimaraens, poeta e filósofo mineiro: Que eu saiba, a palavra “Inferno”, neste contexto, foi forjada exatamente no início do século XIX e não se tratava apenas do local onde havia os livros proibidos, mas também artefatos, medalhas, imagens etc. A BNF não foi a única com este espaço restrito. Foi o caso também, em Nápoles, do Museu Arqueológico (aliás, lá, recentemente estive e esta sala ainda se intitula “inferno” mas o acesso é irrestrito agora). A origem, imagino eu, destes infernos, é medieval e, possivelmente, teve seu apogeu com a promulgação do Index Librorum Prohibitorum de 1564. O catolicismo romano florescente em toda a Europa, não seria surpresa se o termo “inferno” fosse utilizado em (quase) todas as bibliotecas, museus etc. Na França, em específico, Bonaparte promulgou um sistema público de restrições ao acesso a livros, por volta de 1800, o que recrudesceu os infernos, imagino. Como disse, a BNF não era a única a possuir/ser um “inferno”. Havia o mesmo na Biblioteca do Arsenal, a Médiathèque André-Malraux em Lisieux, a British Library (com a noção de private case) etc etc. Quando morava na França, visitei algumas bibliotecas em algumas cidades. Pude constatar o “inferno”nas das cidades de Lorient, Nîmes entre outras. Em resumo: toda pertinência à sua arriscada hipótese!
 
De Marcus Fabiano, escritor gaúcho e professor na Universidade Federal Fluminense: Eu achei muito perspicaz e até provável a sua cogitação. De fato, Rimbaud fazia uso frequente de diversas ambiguidades. E, nesse caso concreto, o próprio Dictionnaire de la Pornographie (Paris, PUF, 2005) registra o INFERNO como o retábulo dos livros interditos: “Le mot Enfer renvoie, par métonymie, aux rayons d’une bibliothèque, d’accès restreint et regroupant pour l’essentiel des ouvrages jugés licencieux ou « contraires aux bonnes mœurs »”, conforme verbete.
 
NOTAS:
 
De Rimbaud, Poesia Completa e Prosa Poética, ambas com organização e tradução de Ivo Barroso, publicados pela Topbooks em 1996 e 1998. Dos meus artigos sobre Rimbaud, estão disponíveis on line, da revista Cult: http://revistacult.uol.com.br/home/2013/04/o-rebelde/; e no jornal O Globo: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/11/21/rimbaud-revolucao-rebeliao-417310.asp .
 
As declarações de Gregory Corso estão em The Beat Book, Poems and Fiction of the Beat Generation, Boston: Shambala, 1996, organizado por Ann Waldman. São citadas em meu Geração Beat (L&PM, 2009). E  em Encontros: Geração Beat, Rio de Janeiro: Azougue editorial, 2010, coletânea de entrevistas organizada por Sergio Cohn.
 
Sobre Kerouac e Cassady: MILES, Barry, Jack Kerouac – king of the beats, tradução de Roberto Mugiatti, Cláudio Figueiredo, Beatriz Horta, Rio de Janeiro: José Olympio, 2012. Ou NICOSIA, Gerald, Memory Babe, a critical biography of Jack Kerouac, Middleessex: Penguin Books, 1983.
 
Miscelânea septuagenária de Charles Bukowski foi publicado pela L&PM (Porto Alegre, 2014), assim como outros títulos de sua prolífica produção.
 
 
* Claudio Willer - doutor em letras pela Universidade de São Paulo, é poeta e ensaísta. Traduziu Lautréamont, Ginsberg e Artaud. Recentemente publicou Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio; Geração Beat, ensaio; e Estranhas experiências, poesia
 
**O texto foi publicado originalmente no site Musa Rara. O autor informa que fez pequenos acréscimos ao artigo originariamente publicado . E que adicionou dois comentários postados no Facebook, de Lucas Guimaraens e Marcus Fabiano, reforçando minha leitura.
 
 

Posts anteriores