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Editar e Ser Editor: Gênese

texto: Nathan Matos*

 

Nem todo autor conhece um editor. Na verdade, isso meio que não tem tanta importância, desde que você tenha ao seu alcance amigos que sejam sinceros e cheguem a lhe dizer que o que você escreve merece ser refeito do zero ou que realmente você tem que modificar várias partes do seu texto. A sinceridade deve ser uma ferramenta presente ao redor de qualquer escritor, e deve ser a principal do editor.

Não passa na cabeça de muita gente ser editor. O melhor mesmo é ver o livro publicado, aquele que ficou anos escondido na parte de cima do guarda-roupa, dentro de uma pasta amarela com as páginas já quase mofando. Publicar é o que muita gente quer. E, além disso, vender livros, ter seu livro lido por inúmeras pessoas e vê-lo, certamente, nas estantes das maiores livrarias do país. Isso sim é que é o bom da vida. Não é, mesmo?

Mas para publicar, penso eu, é interessante que se tenha alguém por trás da produção do seu livro, a quem ainda chamamos de editor. Se o bom da vida é ter o livro publicado, o que seria então adjetivado para aquele que criva o pensamento no seu texto antes que ele chegue até o leitor?

Eu não busquei ser editor. Primeiro porque eu nem sabia o que era editar, eu nem imaginava que pudesse haver, por exemplo, algum lugar no país em que isso pudesse ser ensinado ou que a edição tivesse uma história assim como a literatura brasileira. Nada disso me foi ensinado ou mencionado em algum momento. Mas, talvez, a edição tenha me buscado como um processo a partir da relação que criei com a literatura, talvez isso também seja só uma maneira de eu querer fantasiar sobre a situação na qual me encontro, tentando deixar tudo ‘mais bonito’, mais desejável aos olhos de quem fica a ouvir a minha história.

Daí, meio que pela vereda do acaso, cheguei até o mundo editorial, meio que sem saber por qual caminho seguir, a quem perguntar e o que fazer. Parecia, de início, que editar livros era segredo, ninguém queria indicar qualquer que fosse o caminho, e eu ficava como a esperar Godot, indo ao encontro de desconhecidos que as redes sociais me apresentavam. E foi assim que encontrei uma das pouquíssimas fontes de como me tornar um editor. De repente, escutei algo como “Abre uma editora”, a frase vinha repetidamente pela ‘boca’ do barbudo paulistano na tela do computador. Eu ria sozinho dessa ideia maluca que um editor ‘desconhecido’ ao longe tinha a ousadia de me dizer, eu achava que isso era loucura. Criar uma editora? Eu? No Ceará? Melhor não, melhor mesmo ficar a escrever resenhas do que ter que abrir uma editora. Com que dinheiro, afinal?

Então, assim meio que lentamente, me vi lendo os originais de dois amigos que viriam a se tornar editores. Quando percebi, seis meses depois, o primeiro livro editado estava chegando pelos correios; eram duas caixas pequenas, as capas reluziam um amarelo ouro como eu jamais havia visto, era como se eu tivesse agido feito os mineradores, e que agora as joias me chegavam, assim, pelos correios sem perigo algum. A única coisa que eu conseguia pensar era “Tá lindo! Tá lindo! Puta que pariu!”.

 

 

Como eu consegui isso? É que isso, de editar, pegou em mim, como o peixe é pegue pela rede ameaçadora do barco pesqueiro. É, talvez seja isso, a edição é uma rede ameaçadora no início. Mas, pensando bem, talvez a edição também possa ser meu próprio barco pesqueiro depois de um tempo.

E, depois de quase dois anos lendo originais, conhecendo pessoas do mundo editorial, em uma conversa pelo celular com um amigo sobre o que seria interessante escrever em uma coluna mensal, eis que a ideia veio, roubada, mas veio. Que tal escrever sobre os editores brasileiros? Tá aí, pensei! Isso daria mote para ótimos textos e aceitei o desafio.

Comecei a pensar então sobre quais teriam sido as dificuldades para os primeiros editores do país. Existiria alguém por aí que sabe quem foram os primeiros editores do país brasílico? O que eles tiveram que aturar, resolver? Será que era realmente agradável, quer dizer, rentável ser editor? Por qual motivo editavam? Eles foram os primeiros donos de navios pesqueiros literários do país ou será que até nisso fomos primeiramente colonizados?

Fiquei impressionado com o mundo que existe, ainda, ao redor do mundo da edição, e também de seus personagens, que é desconhecido dos leitores e de editores. Quem foi Jorge Caldeira ou Ivana Jinkings? De onde surgiu Schwarcz? Olympio, quem era esse José? Quantos autores, feito Lobato, teriam editado livros? As perguntas foram surgindo em meio a aventura que esses bandeirantes literários percorreram. E, agora, o que tenho em mãos são ideias que precisam ser aparadas, organizadas, revisadas, é necessário expor um pouco mais dessa história.

Por isso, em meios às divagações, sempre necessárias, sem um trilho a seguir, de início, vou conhecer algo que não vivi, interligar histórias antigas com atuais, saber de causos que mostrem os bastidores de quem vive do mundo do livro, tentando construir a minha montanha mágica.

Assim, espero que as histórias que tenho pra contar, burilar com os pensamentos que tenho sobre o mercado editorial, possam de alguma maneira conduzir o leitor para algum lugar, que possa ajudar a iluminar decisões, num diálogo constante entre editor, autor e leitor, que são, em absoluto, o tripé que dá sentido a todo o processo de criação por trás do objeto livro.

 

 

*Nathan Matos, Editor e criador do LiteraturaBr. É também editor da Revista, da Editora Substânsia e da Editora Moinhos. A literatura o salvou na adolescência, quinze anos depois ele ainda persiste no sonho.

**Publicado originalmente em 28/01/16 no site LiteraturaBR

 

Bruno Gaudêncio - Poemas

Bruno Gaudêncio - Campina Grande - PB (1985), é escritor, jornalista historiador e professor. Publicou diversos livros, destaque para Acaso Caos (Poemas, 2013, Ideia), Ariano Suassuna em Quadrinhos (Quadrinhos, 2015, Patmos), com ilustrações de Megaron Xavier e O Silêncio Branco (Patuá, 2015).Têm poemas publicados em diversas revistas e sites culturais nacionais e internacionais, a exemplo do Correio das Artes (Paraíba), Verbo 21 (Bahia), Brasileiros (São Paulo), Acrobata (Piauí), Literatas (Moçambique), Orizont Literar Contemporan (Romênia) e Samizdat (Portugal). E-mail: brunogaudencioescritor@gmail.com

 

 

O SILÊNCIO BRANCO

 

Dentro da casa

cabem sérias feridas,

 

elas falam de uma cor ausente

(um silêncio branco)

algo que dilui as retinas.

 

 

O LANÇAR DE DADOS

Para Amador Ribeiro Neto

 

Mallarmé ri

do seu próprio

lançar de dados

 

(cada ponto

uma interrogação)

 

descontinuidade imagética,

 do branco

 

dispersão semântica,

do negro

 

fissuras sintáticas,

nas margens de todas as cores.

 

 

FIOS DO INFINITO

“mesmo com Deus por companhia.

tempo gigantesco é um dia”

(Alberto da Cunha Melo)

 

Os cabelos agem

silenciosamente,

crescem cativos

nas mãos humildes do tempo

 

de tanto comerem os ventos

assoviam a liberdade.

 

 

UM ESPELHO ENTERRADO

 

“o tempo come a memória,

que se alimenta de tempo:

 

ao fim se conta a história

sem o seu dono por dentro”

(Roberval Pereyr)

 

A veracidade do eterno

morde a memória -

antecipa a angústia

dos rastros.

 

a veracidade do eterno

dissipa os sonhos –

prensa a noite

nas listas das culpas.

 

no galope do infinito

os relógios enxergam

um espelho enterrado.

 

 

Quando eu Li Afonso Henriques Neto

Boa parte das minhas referências são marcadas por bons e felizes encontros. Conheci a poesia do Afonso Henriques Neto por intermédio do editor Sérgio Cohn (Ed. Azougue) na Bienal do Livro do Ceará, em 2002. Em uma conversa, durante um sarau, ele me perguntou se conhecia o trabalho do Afonso e eu respondi que não. De imediato ele me deu de presente a antologia “Ser Infinitas Palavras” e logo saltei no fluxo daquele universo de curto circuitos e de palavras cortantes.

 

(…)

nos deitamos à beira de um córrego de transparência
total, vinho puro, lavoura do infinito, flutuação acima
da urina dos anjos, para que a eterna criança ainda se incline,
lábio à flor da música de um deus que arde  e vai passando.

 

Acredito que pensamos melhor diante de uma realidade não domesticada. E a poesia do Afonso é uma descarga de muitos volts – um soco que desmantela o corpo, um mal-estar na cabeça – é uma leitura que dá vertigens. Com o passar do tempo, ele se tornou pra mim um professor de assombros. E o poema “vento negro” é um bom exemplo da sua força poética:

 

eles virão dos subúrbios congelados
óleo expelido na música de corpos descascados
mágicas vermelhas vísceras e sementes
enterradas nos pespenhadeiros do sangue
rubis de furacões paralisados
nevroses e tempestades de adagas
tesudas coxas esquartejadas
vapores da loucura formigas desmapeando cidades
uma chuva sem termos uma comunhão
de verbos torturados
palavras do sonho nos altares sem memória.
eles virão nas paranoias transcendentes
arderão nos desfiladeiros de ferro e convulsão
as babas das vidrarias os sexos iridescentes
e as sinfonias serão arrancadas dos ossos
dos prédios onde hibernam as borboletas da treva
sentindo demolindo nos manequins do absurdo
imagens moídas nos computadores turvos
eles virão transbordados desirmanados
furacões de pesadelos tardos
sol por todos os poros a nos desinventar

 

Depois de um poema como esse, nada mais fica no lugar. A avalanche de imagens-delírio nos empurra para lugares impensados. Os pés são desenraizados do chão. Essa poesia, intensa e obscura, me mostrou a selvageria do verbo e a loucura lúcida que deve existir no cerne da pupila do poeta. E isso deve ser transformado, ao mesmo tempo, em uma ponta de lança e em um estado de espírito.

O tal livro me acompanhou por muito tempo, como uma experiência que adiciona bagagem ao corpo. Lia poemas em saraus, mostrava para os amigos, fazia cópias, etc. Carregava ele na mochila para todo lugar. Na época, estava muito interessado na poesia surrealista e em ter encontrado a leitura do Afonso Henriques Neto, naquele momento, foi importante para que eu tivesse compreendido melhor a experiência de profundidade com a linguagem. Então, fui aprender a envenenar as palavras e a cultivar imagens em abismos da carne.

Por fim, passados 12 anos, o Afonso fez a apresentação do meu último livro, Bifurcações (2014). Um atravessamento que perdurou por um longo tempo e ainda hoje ressoa no meu corpo, na minha memória e na minha escrita.

 

 

Demetrios Galvão

publicado originalmente em 05 /02/ 16 no site LiteraturaBR

 

Adriane Garcia - Poemas

Adriane Garcia, nascida em Belo Horizonte, em 1973, é historiadora, arte-educadora e atriz. Escreve poesia, contos, livros infantojuvenis e teatro. Publicou os livros de poesia Fábulas para adulto perder o sono (2013), vencedor do prêmio de Literatura do Paraná – Helena Kolody,  O nome do mundo (2014) e Só, com peixes (2015). Integra o site Escritoras Suicidas.

 

 

SOBREVIVENTE

 

Quem vê aquele menino nadando

Sem jamais blasfemar a água

De seu batismo

 

Não sabe que ele é um peixe

Que escorregou do anzol

Pro rio

 

 

ALEIJÃO

 

Um peixe é um pássaro

Sem asas

Mas um pássaro é um peixe

Sem águas

E não são como nós incompletos

Porque o pássaro

É um contente emerso

O peixe

Bem submerso

O homem escava

Submarinos

E se alada

A descontento:

Os pés de terra.

 

 

PROCISSÃO

 

Deste homem cujo braço direito

Acaba de ser amputado

Sozinho, a torto nado

Espera-se regeneração

 

Histórias de salvação

No fundo do mar

Lázaros aquáticos

Madalenas fluidas

Cegos que

Finalmente enxergaram

Para além das lágrimas

 

Na água salgada

Estrelas mutiladas

Ganharam outros

Braços.

 

 

MENINA DE CRÔNICA DEPRESSÃO

 

Uma vez um peixe que

Estava dentro dela

Suicidou-se

Pulou para fora

De seu pulso

No exato momento em que

O cortou

 

O pessoal da casa

Chegou logo

E o costurou

À força e novamente

 

O peixe era alaranjado

Tinha um néon

E barbatanas de asas

 

Antes de desmaiar completamente

Lembrou-se de que já o tinha visto

Na batina do padre e que

O peixe significava

Uma páscoa

E outra vida.

 

 

Entrevista com Lúcia Rosa, Coletivo Dulcinéia Catadora

Fugindo ao padrão editorial convencional as editoras cartoneiras (cartón, em espanhol papelão), produzem seus livros reutilizando o papelão e trabalham com a perspectiva da economia solidária: sustentabilidade e preço justo. A primeira editora cartoneira surgiu na argentina em 2003, a Eloísa Cartonera, fundada em Buenos Aires, por Washington Cucurto, Javier Barilaro e Fernanda Laguna.

O diferencial dessas publicações é que elas trazem à cena uma discussão social sobre o reaproveitamento do papelão. Os editores trabalham diretamente com as cooperativas de catadores, não só comprando o papelão. Mas na medida do possível, os livros são também confeccionados pelas pessoas da própria cooperativa. Cada exemplar é único, as capas são pintadas manualmente e a diversidade é bem grande.

Hoje as cartoneiras são muitas e se multiplicam por vários países. No Brasil não é diferente e posso citar algumas como: Mariposa CartoneiraPé de Letra, Sereia Catadora, Cartoneira do Mar, Malha Fina Cartonera, dentre tantas outras.

Na Balada Literária de 2013 assisti a uma mesa redonda com vários editores independentes e nela, estavam presentes a Lúcia Rosa (Dulcineia Catadora) e o argentino, Washington Cucurto (Eloísa Cartoneira). Desse dia em diante, comecei a observar o movimento das editoras cartoneiras com mais atenção.

A Lúcia Rosa, do coletivo Dulcineia Catadora, me respondeu essa pequena entrevista um tempo atrás e faz parte da série de entrevistas, com editores independentes, que estão sendo publicadas no Janelas em Rotação.

 

Quais seus caminhos para produzir e fazer seus livros circularem? 

O Dulcinéia Catadora produz livros feitos artesanalmente com o objetivo primeiro de gerar renda para as catadoras que participam do coletivo. O livro, como instrumento de veiculação de obras literárias, é decorrência desse processo artístico. Com diagramações simples, em geral as edições são feitas com cópias, e não impressas em gráficas; fazemos tiragens pequenas, de cinquenta, cem livretos e refazemos conforme chegam os pedidos. A visibilidade de nosso trabalho é alcançada por meio de intervenções urbanas, lançamentos, oficinas, ou seja, com a atuação do grupo. Com a venda dos livros , pró-labore recebido com a realização de oficinas e projetos em instituições culturais garantimos a cobertura dos custos envolvidos na produção. Não vendemos nossos livretos em livrarias, mas em lugares alternativos, galerias e enviamos os pedidos que nos chegam por correio.

Como chega até os autores, ou são eles que chegam até você? 

Convidamos alguns autores e recebemos e-mail de muitos escritores novos, com arquivos de suas produções. Achamos importante incluir escritores que ainda não tenham inserção no mercado editorial. Acima de tudo, achamos fundamental que os escritores parceiros entendam como funciona o coletivo e se envolvam com os integrantes do grupo. A feitura dos livros não é um negócio que visa lucro, e a relação com os escritores não tem, portanto, nada de comercial. Baseia-se na troca de experiências e vivências, na cumplicidade de uma postura de resistência, no trabalho conjunto, no processo

Quais suas estratégias para conseguir vender seus livros? Você utiliza algum meio específico, quais suas experiências nesse campo?

A venda de livros é consequência das ações artísticas do coletivo. Participamos de feiras de livros de artistas, desenvolvemos projetos em instituições culturais e é dessa forma que vendemos nossos livros. Em geral, os interessados nos escrevem e enviamos os pedidos por correio.

Qual a sua relação ( editor/editora) com as redes sociais e as diversas possibilidades do mundo virtual? Você explora de que forma esse campo?

Temos uma página no facebook onde registramos nossas atividades, nosso site apresenta uma visão geral do Dulcinéia. Temos também um blog, vídeos disponíveis no Youtube, enfim, o meio virtual é uma ótima opção para divulgar nosso trabalho.

Na sua opinião, qual o papel das pequenas editoras e o que elas trazem de novidade para o cenário literário contemporâneo?

O papel do coletivo é de resistir, de traçar caminhos paralelos ao mercado editorial, de cavar oportunidades, tornar acessível o trabalho de escritores novos e buscar novas propostas literárias, textos experimentais. São essas ousadias dos escritores que têm o potencial de gerar algo novo. Não visar ao lucro é a chave para a nossa liberdade de escolher autores sem ter a garantia de que seus livros vendam bem. Muitas vezes as editoras convencionais vendem o nome do escritor, e não a obra literária. E mais, estar livre dos canais de distribuição, das negociatas com livrarias, das estratégias de marketing significa pensar na qualidade do texto literário, dar vez aos escritores que estão se firmando. Dessa forma, acredito que podemos colaborar para o mapeamento das manifestações literárias contemporâneas.  A liberdade é nosso diferencial, em relação às editoras estabelecidas. O que mais nos importa é apontar, mesmo que timidamente, os caminhos tomados pela literatura contemporânea.

Na sua concepção, o que significa ser INDEPENDENTE no circuito editorial contemporâneo?

O verbete INDEPENDENTE já diz claramente:  "autônomo, desobediente, desobrigado, individualista, insubordinado, liberal, livre, próspero,  separado e soberano". 

 

                                     O LIVRO pelo coletivo Dulcinéia Catadora

 

# conheça os livros da Dulcineia Catadora http://www.dulcineiacatadora.com.br/

# saiba mais sobre o movimento cartoneiro - A Resistência das Cartoneiras

  

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