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Joyce Mansour - Poemas

Joyce Mansour nascida Joyce Patricia Adès, em Bowden, Inglaterra, no dia 25 de julho de 1928 e morta em Paris em 27 de agosto de 1986, foi uma poetisa egípcia de expressão francesa ligada ao Surrealismo.
 
[Poemas traduzidos por Floriano Martins, 2016 ARC Edições. Integram o volume Viagens do Surrealismo (org. Floriano Martins), ainda a ser lançado]
 

[Não há palavras]
 
Não há palavras
Somente pelos
No mundo sem verdor
Onde meus seios reinam
Não há gestos
Somente a minha pele
E as formigas que queimam entre minhas pernas untadas
Levam máscaras de silêncio enquanto trabalham
Chegam a noite e teu êxtase
E meu corpo profundo essa polpa sem pensamento
Engole teu sexo agitado
Durante seu nascimento
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Eu roubei o pássaro amarelo]
 
Eu roubei o pássaro amarelo
Que vivia no sexo do Diabo
Ele vai me ensinar a seduzir
Homens, veados, anjos de asas duplas
Ele vai rasgar minha sede, minhas roupas, minhas ilusões
Ele vai dormir
Mas o meu sono será através dos telhados
Murmurando, gesticulando, violentamente fazendo amor
com gatos
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Um rato]
 
Um rato
Nada mais que um rato
Menos que um pouco
Apenas um rato
Abria caminho
Até meu sexo
Nada mais que um sexo
Menos que um rato
Apenas o sexo de um meio negro
Menos que um branco
No coração um negro
Menos que um homem
Mais que um rato
Nada mais que um pouco
Tem piedade Deus meu
Do rato
 
[Déchirures, 1954]
 
 
[Nua]
 
Nua
Flutuo entre despojos com bigodes de aço
Com a ferrugem de sonhos interrompidos
Pelo suave bramido dos mares
Nua
Persigo as ondas de luz
Que correm sobre a areia semeada de crânios brancos
Muda eu planejo sobre o abismo
A densa gelatina do mar
Pesa sobre meu corpo
Monstros legendários com bocas de piano
Se refestelam na sombra dos abismos
Eu durmo nua
 
[Rapaces, 1960]
 
 
[Sonho com tuas mãos]
 
Sonho com tuas mãos silenciosas
Que remam sobre as ondas
Rugosas caprichosas
E que reinam sobre meu corpo sem equidade
Eu estremeço e murcho
Pensando nas lagostas
De antenas ambulantes e ávidas
Que raspam o sêmen dos barcos adormecidos
Para logo estendê-lo sobre as cristas do horizonte
As cristas preguiçosas empoeiradas de peixes
Em que me refestelo todas as noites
A boca plena as mãos cobertas
Sonâmbula de mar salgada de lua
 
[Rapaces, 1960]

Chama-se Poesia Tudo o que Fecha a Porta aos Imbecis

texto: Aldo Pellegrini*

 
A poesia tem uma porta hermeticamente fechada para os imbecis, aberta de par em par para os inocentes. Não é uma porta fechada com chave ou com ferrolho, mas sua estrutura é tal que, por mais esforço que façam os imbecis, não conseguem abri-la, enquanto cede à simples presença dos inocentes. Não há nada mais oposto à imbecilidade que a inocência. A característica do imbecil é sua aspiração sistemática a certa ordem de poder. O inocente, ao contrário, nega-se a exercer o poder porque possui todos.
 
Obviamente, o povo é o possuidor potencial da suprema aptidão poética: a inocência. E no povo, aqueles que sentem a coerção do poder como uma dor. O inocente, conscientemente ou não, move-se num mundo de valores (o amor em primeiro lugar); o imbecil move-se num mundo no qual o único valor é dado pelo exercício do poder.
 
Os imbecis buscam o poder em qualquer forma de autoridade: o dinheiro em primeiro lugar e toda a estrutura do Estado, desde o poder dos governantes até o microscópico, porém corrosivo e sinistro poder dos burocratas, desde o poder da Igreja até o poder do jornalismo, desde o poder dos banqueiros até o poder que dão as leis. Todo esse acúmulo de poder está organizado contra a poesia.
 

Como a poesia significa liberdade, significa afirmação do homem autêntico, do homem que tenta realizar-se, indubitavelmente ela tem certo prestígio ante os imbecis. No mundo falsificado e artificial que constroem, os imbecis precisam de artigos de luxo: cortinados, bibelôs, jóias e algo assim como a poesia. Nessa poesia que eles usam, a palavra e a imagem convertem-se em elementos decorativos e, desse modo, seu poder de incandescência é destruído. Assim é criada a chamada “poesia oficial”, poesia de lantejoulas, poesia que soa oca.
 
A poesia nada mais é do que essa violenta necessidade de afirmar seu ser que impulsiona o homem. Opõe-se à vontade de não ser que guia as multidões domesticadas e se opõe à vontade de ser nos outros que se manifesta em quem exerce o poder.
 
Os imbecis vivem num mundo artificial e falso: baseado no poder que se pode exercer sobre os outros, negam a rotunda realidade do humano, a qual substituem por esquemas ocos. O mundo do poder é um mundo vazio de sentido, fora da realidade. A poesia é uma mística da realidade. O poeta busca na palavra não um modo de expressar-se, mas um modo de participar da própria realidade. Recorre à palavra, porém busca nela seu valor originário, a magia do momento da criação do verbo, momento em que não era um signo, mas parte da própria realidade. Mediante o verbo, o poeta não expressa a realidade, mas participa dela.
 
A porta da poesia não tem chave nem ferrolho: defende-se por sua qualidade de incandescência. Somente os inocentes, que têm o hábito do fogo purificador, que têm dedos ardentes, podem abrir essa porta e por ela penetra na realidade.
 
A poesia pretende cumprir a tarefa de que este mundo não seja habitável somente para os imbecis.
 
 
(texto retirado do livro, Surrealismo e Novo Mundo, Ed. Univesidade/UFRGS, 1999)
 
 
*Aldo Pellegrini (1903 – 1973) foi um poeta, ensaísta e crítico de arte argentino. Em 1926 fundou em Buenos Aires junto a Marino Cassano, Elías Piterbarg e David Sussman o primeiro grupo surrealista da Argentina e da América do Sul, que deu origem à publicação de dois números da revista Que em 1928. Pellegrini também participou da criação e edição das revistas Ciclo, Letra y Línea e A partir de cero. Sua importante obra poética foi reunida em 1952 em um único livro com o título La valija de fuego, republicada pela Editorial Argonauta em 2001.

Rosa Alice Branco - Poemas

Rosa Alice Branco é uma poeta portuguesa, nascida em Aveiro em 1950. Publicou os livros Animais da Terra (1988), Monadologia Breve(1991), O Que falta ao Mundo para ser Quadro (1993), A Mão Feliz. Poemas D(e)ícticos (1994), O Único Traço de Pincel (1997), Da Alma e dos Espíritos Animais (2001), Soletrar o Dia (2002), O Mundo Não Acaba no Frio dos Teus Ossos (2009) e Gado do Senhor (2011).
 
 
 
A TUA PELE DESCALÇA
 
Veio uma onda . A varrer o meu sono .
Caminhava nele como caminho na areia .
Nada me une ou divide. Nada me retém.
Sentas-te onde me sento no teu colo
e peço sempre a mesma história . A tua voz
cria as memórias que hei-de ter . Por agora
caminho ao longo das gaivotas e grito como elas
quando a maré baixa . Às vezes apoio-me num rochedo
para dizer “casa” e logo desmorono. Sigo descalça
como tu para dizer “seguimos”. Mas são apenas sons
sob o sol de maio. Murmúrios do que não serei.
Sempre tive problemas com o verbo ser. Faço
e desfaço as malas, entro e saio das gavetas.
Pausa na camisa que vestiste da última vez.
Uma vontade de amarrotar, desapertar os botões
e sentir lá dentro a tua pele cá fora.
Tudo isto é tão verdade como podem ser os botões
de uma camisa escrita. Confesso que não pensei na cor,
ou se era às riscas. Agora acho que podia ser a de quadrados.
Em qualquer delas a tua pele entra na minha.
 
 
 
CENÁRIO COM OS PÉS DE FORA
 
Deitamo-nos com a cama por fazer.
Uma pilha de blusas cai. Chão de verão.
Amor à tardinha com a vida desarrumada,
as coisas ao meio. Até o silêncio está
desarrumado. Gosto desse cenário.
Há nele uma verdade que nem mesmo sei.
O meu quarto antigo sempre em desalinho
com os livros no chão ao pé da cama. Sentir
que a vida não é uma coisa útil e as horas,
e tu menos ainda, sem dobra no lençol
e os pés de fora. Foi isto que quis
a minha vida. Sem buraco do ozono,
sem buraco de fome ou de balas
atravessando os lençóis do mundo.
 
 
Rosa Alice Branco recita o poema "Sem Livro de Reclamações"
 
 
SEM LIVRO DE RECLAMAÇÕES
 
No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim.

 

 

SOLETRAR O DIA

 
Tenho tudo por dizer e gasto palavras
para lá chegar. Não sei se me afasto
ou se chego perto. Se alguma vez rocei
a pele do essencial. E pergunto sempre
para quê estas linhas que me teimam.
O passado não é o que está feito,
mas o que palavra alguma fará de novo.
Por isso leio sempre o futuro, mas não sei
para que lado do tempo escrevo. E se soubesse
que arrasto as letras como um caranguejo
diria que só tenho esta mão de palavras.
Soletro os dias em cada coisa que me olha
quando me sinto a vê-la. É tudo.
E não há desculpas para o que faço.
 
 

Revista Acrobata nº 5

 
 
Caminhando contra a intolerância contemporânea e a depressão nacional, a revista Acrobata levanta sua bandeira do afeto e da arte e segue adiante. Lamentamos por não termos lançado a edição de nº 5 ainda no ano de 2015, mas celebramos imensamente o sucesso da edição de nº 4, lançada ainda no primeiro semestre. Nesse momento, estamos com os 4 números esgotados e um dos poucos lugares que os leitores ainda podem encontrar exemplares das 4 edições é na livraria Entrelivros. De todo modo, todas as edições estão disponíveis em nossa página do ISSUU.
 
A Acrobata nº 5 está finalizada e será lançada no decorrer do mês de janeiro. Então, antes que o ano acabe, vamos apresentar para os leitores quem são os autores(as) que estão na edição. 
 
O primeiro destaque fica por conta do artista plástico e grafiteiro piauiense Hudson Melo, que ilustra toda a edição.
 
A nossa entrevista é com a atriz e produtora Helena Ignez. A história da Helena é marcada pelo trânsito nos mais importantes movi¬mentos cinematográficos brasileiros dos anos 60 e 70. Foi no Cinema Novo que conheceu e trabalhou com Glauber Rocha (com quem foi casada) em O Pátio (1959), entre outras obras fundamentais como Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias, e O Padre e a Moça (1965), de Joaquim Pedro de Andrade. Mas podemos dizer que sua aproximação com o diretor Rogério Sganzerla (com quem também foi casada) gerou seus filmes mais intensos, política e esteticamente, seja em O Bandido da Luz Vermel¬ha (1968), A Mulher de Todos (1969), Copacabana Mon Amour (1970), Sem Essa Aranha (1970), entre outras parcerias de forte impacto para o cinema nacional.
 

Na sessão de artigos de literatura, temos: o trabalho do pernambucano José Juva sobre a poesia xamânica do poeta Roberto Piva; o paraibano Paulo Vasconcelos discutindo a literatura contemporânea fora do grande eixo RJ-SP; uma turma de São Paulo capitaneada pelo Daniel Scandurra falando o projeto de digitalização e disponibilização da revista Código, editada originalmente entre os anos de 1974 e 1990; e um perfil biográfico da poeta portuguesa Violante do Céu, que viveu no século XVII, escrito pela pesquisadora piauiense Socorro Fernandes.
 
Na sessão de artigos de cinema, algumas discussões fundamentais: um texto do pesquisador José Luís Silva, sobre o filme piauiense Cipriano, do diretor Douglas Machado; e o belíssimo artigo escrito pela Natasha Karenina sobre o filme Os Incompreendidos, um clássico do diretor François Truffaut.
 
Ainda temos um artigo escrito pela americana Monique Ortiz (Lancaster / Austin) falando de sua trajetória na música. Ela é Vocalista, baixista e compositora da banda Alien Knife Fight, também trabalhou no projeto sonoro A.K.A.C.O.D, em colaboração com o saxofonista Dana Colley (Morphine) e com o baterista Larry Dersch. Atualmente, ela é uma referência no Gothic Blues e Post-Punk contemporâneo.
 
A escalação dos poetas é ampla e variada: Laís Romero (PI); Daniel Scandurra (SP); André Vallias (RJ); André Monteiro (MG); Joãozinho Gomes (PA/AP); André Ricardo Aguiar (PB); Tarso de Melo (SP); Rosa Laura (SP); Lia Testa (PR/TO). Além do poeta português Luís Filipe Marinheiro e do poeta argentino Fernando Noy, traduzido pelo Wanderson Lima (PI). 
 
Para fechar a edição temos ainda um conto do Sidney Rocha (CE/PE); a sessão processo de criação é com o produtor Eduardo Crispim (PI). Ele fala da série de vídeos S3TART e dos 6 episódios em que ele acompanha e entrevista artistas plásticos que espalham sua arte pelas ruas de algumas cidades do nordeste; e pra encerrar, um quadrinho que tem o roteiro escrito pelo Aristides Oliveira, que é um dos editores da revista, e o desenho do quadrinista Joniel Santos.
 
Agora é aguardar um pouco que logo logo a Acrobata n 5 estará circulando. Em breve iremos divulgar as datas e locais dos primeiros lançamentos. 

Dalila Teles Veras - Poemas

 
Dalila (Isabel Agrela) Teles Veras, natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, (1946), emigrou com a família para o Brasil (São Paulo, Capital), em 1957. Em 1972, após seu casamento com o advogado e escritor Valdecirio Teles Veras, radicou-se em Santo André.
 
 
Publicou mais de uma dezena de livros, nos gêneros poesia, crônica e o livro "Minudências", um diário do ano de 1999. Participou de inúmeras antologias no país e no exterior. Possui trabalhos (artigos, ensaios e textos literários) publicados em jornais e revistas de todo o país e do exterior. Atua à frente da livraria, editora e espaço cultural Alpharrabio. 
 
 
Entre os vários livros publicados estão: Lições de Tempo (1982); Inventário Precoce (1983); Madeira: do Vinho à Saudade (1989); Elemento em Fúria (1989); Forasteiros Registros Nordestinos (1991); Poética das Circunstâncias (1996); A Palavraparte (1996); A Vida Crônica (1999); As Artes do Ofício - um olhar sobre o ABC (2000); Minudências (diário) (2000); À Janela dos dias - poesia quase toda (2002); Vestígios (2003); Poesia do Intervalo (2005); Solilóquios (2005); Pecados (2006); Retratos Falhados (2008); Solidões da Memória (20150).
 
 
Os poemas aqui publicados são do seu último livro “Solidões da Memória”, lançado ainda no mês de dezembro.
 
 
Para saber mais sobre a poeta é só acessar 
 
 
RIZOMA
 
vestígios de pegadas nas areias
restos d’ossos roídos e d’espinhas
António Barahona
 
a infância e a memória 
da infância, submersa
na líquida travessia
 
vez por outra
o atlântico deposita
ossos datados
nas terras do exílio
 
(a menina antiga
recebe os sinais
códigos esquecidos
legendas para o lembrar
– revivências)
 
a memória da infância
é a memória possível
(e só a memória cabe recriar)
 
 
 
CARTOGRAFIA SOLETRADA
 
quietos fazemos as grandes viagens
José Tolentino Mendonça
 
o tio
 
(marinheiro, remetia
cartões postais
dos portos por onde
atracava seu navio
 
ulisses consanguíneo
sempre voltava para
contar, no seu
contar/inventar
reinventava-se
ficcionava-se)
 
soletrava cartografia
no imaginário da
destinatária
 
 
 
PASSAGEM
 
porque não sou desta ilha, cresceram-se
as assas que me afastam e desesperam
José Viale Moutinho
 
ansiado
o fogo de dezembro
coroava de assombros os
corpos bordados por urtigas
as pernas grossas de ladeiras
os olhos da mesma paisagem
(o fogo, artifício
intermitência do existir)
 
ano findo, meia noite
em ponto, os apitos dos vapores
invadiam terraços e janelas
nos parapeitos, iluminados
estremeciam-se
corpos e ilha
 
o mar, vagas ocultas
acendia-se
em esplendor
em fogo, os olhos
virgens de incêndios
armazenavam centelhas
(reserva e antídoto à monotonia
do novo e igual calendário)
alvoroço
para o poema vindouro

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