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André Ricardo Aguiar - Poemas

 

André Ricardo Aguiar, nascido em Itabaiana-PB, residente em João Pessoa, tem publicado diversos livros entre poemas, contos e literatura infantil. Autor de A idade das chuvas e Fábulas portáteis (Patuá). Na literatura infantil publicou O rato que roeu o rei (Rocco) e Chá de sumiço e outros poemas assombrados (Autêntica), ambos selecionados pelos PNBEs para as bibliotecas estaduais Brasil afora. Participa do Clube do conto da Paraíba.

 

 

CASCA

Depois que o livro sonha
o tempo que era árvore
o antes dos seus frutos
agora colhidos em forma
de mãos, que rápidas,
furtam as páginas em 
um pequeno soar de asas
e aterrissagem.
 


ESCORPIÃO R.I.P.


Parece um broche perdido
daqueles que guardam veneno.

Pequeno tanque de guerra
ou carro com guindaste

tão sinistro como aparece
também furtivo some. 

Não vem ao caso que eu 
o mate com o chinelo

que a pá e a terra
lhe sejam leves.

 

 

BOSQUE

Uso todo tipo de coisa que faça
que apascente meu pensamento
ou mesmo que o faça trotar
largo ou feliz nas escarpas do sentido
.
Pego em dias calmos a lenha fria
dos assuntos, das coisas mais chãs
e árvores desembestadas que caem
para as férias do papel.
.
Monto armadilhas: seja alçapão branco
ou teclado em riste, ou mesmo a linha
de pescar da caneta com isca na ponta
.
O que vale é o urro de presa que cai
na trapaça, e quanto mais dentro
mais livre: palavra.
 

 

ALUGUEL

Vivo numa casa chamada
corpo, que não quitei

e que perambula, serpente
de atalhos, daí meu endereço

quase em bote, nunca é o
mesmo: a casa em que

habito embora durmo ao
relento, pois quanto mais

me fecho, mais fora fico
de mim, a casa que a duras

penas sou eu, a casa de berço
e de cova, futura ruína

em que pergunto de mim,
à porta.

 

 

Maria Do Sameiro Barroso - Poemas

Maria Do Sameiro Barroso, Nascida em Braga (Portugal), em 1951, é poeta, médica, tradutora, ensaísta e investigadora nas áreas de Literatura Portuguesa e Alemã e História da Medicina; Vice-Presidente do Pen Clube Português entre 2012-2014, representante do World Poetry Movement (WPM), Delegada Cultural do Liceo Poético de Benidorm em Portugal e Membro Honorário do 66 Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora.

É autora de livros de poesia, traduções e ensaios, publicados em Portugal e no estrangeiro, e organizadora de antologias e eventos culturais. Foi galardoada com vários prémios de poesia, entre os quais o “Prémio International de Poesia Palavra Ibérica” (2009), com o original Uma ânfora no horizonte.

O seu livro Poemas da noite Incompleta, publicado pela Editorial Escrituras (São Paulo, 2010), foi seleccionado entre os sete livros de autores portugueses do Prémio Portugal Telecom 2011, no Brasil.

Dentre os vários livros de pomas publicados: O rubro das papoilas, (1987; reedição em 1997); Rósea Litania (1997); Mnemósine (1997); Jardins imperfeitos (1999); Meandros translúcidos (2006); Amantes da neblina (2007); Vindimas da noite (2008); Uma ânfora no horizonte, edição bilingue português-castelhano (2009); Poemas da noite incompleta, São Paulo, Brasil (2010); O corpo, lugar de exílio (2013); Idades sonâmbulas (2013); A cidade dos animais, poesia infantil (2013); A noite tem garras de seda, Textos em prosa (2013); Aras de Dioniso (2013); Ilhas/labirintos (2014); As suturas do tempo (2014); Antidotum. Poesia (2014); Um violino sentado no éter (2014); A inquietação dos alaúdes. Poemas mouriscos (2014); Turquesas do olhar. Poesia (2014); A mansão dos hibiscos (capa de Laura cesana, 2015); Papoilas Submersas (2017).

 

# Os poemas publicados são do livro Papoilas Submersas.

 

TEMPO INDEFINIDO

 

Desfaço-me num anel de renda antiga.

Tenho a boca vazia, um fruto vermelho,

alperces secos

e um ramo de aloendros

a toldar-me o rosto.

É Natal, eu sei.

E não devia pensar em coisas vazias,

nem na matéria gasta, devorada

pelo tempo.

O musgo escorre na solidão

dos presépios.

Um crânio de estrelas também.

É tempo de viver, tecendo a púrpura,

o coral, as próprias horas,

a seda antiga,

e o silêncio que sucumbe entre pérolas

e cinza,

no tropel de um verso.

 

 

A PRIMEIRA VERSÃO SOBRE OS ABISMOS

 

Na Primavera, a primeira versão das trevas

trespassa o inquieto florir das laranjeiras.

Ouço o seu gemido, no voo atordoado

dos insectos.

Antigamente, havia lagartixas estabilizando,

com o seu sangue frio, os ébrios perfumes

que me atravessam o sangue, debicado

por melros negros.

Sou inteira assim, na minha casa,

no meu jardim, com as aves que me inebriam

com o seu canto, com o sol, a luz

e as bagas dos mirtilos.

Ontem, plantei dois pés de framboesas,

junto ao galinheiro antigo onde cachos de figos

nascem de uma figueira que brotou

num pequeno orifício do velho cimento.

O musgo e os detritos devem ter alimentado

a raiz firme com a água funda,

entre o poço, as pedras, os lírios e as açucenas,

Na quietude do vento, há ainda orvalho,

Sinos e o fogo que se perpetua

no florir das árvores, nos tapetes de pétalas,

a neblina etérea, no rasto dos anjos

que se perderam,

no das aves que aqui pousaram.

 

 

AS NOVAS HORAS

 

Os pássaros despontam sobre o teu cabelo,

a águas precipitam-se nas baías.

As novas horas despontam,

os rios preparam-se para invadir

a tua boca, entre lances de dados,

marcas deixadas na areia,

augúrios celestes,

ou círculos desenhados

em quimeras que esvoaçam,

quando os caprichos do acaso cintilam

nas linhas sobrepostas

e a vida inicia um novo ciclo,

ao som de valsas, polcas,

inaugurando a sede e a vertigem

no seu secreto caudal.

 

 

FEBRILMENTE

 

Nasço com as luzes mais altas,

acesas no penúltimo degrau das sombras,

o corpo envolto ainda nos braços

da minha laranjeira,

derrubada na escuridão tempestuosa

da última noite de Natal.

Dela sobram pássaros, laranjas, folhas,

o vento, a chuva intensa,

e a raiz parcialmente apodrecida

que a fez tombar febrilmente

sobre a minha face.

A ela me acolho, à sua seiva, ao seu fulgor,

às toalhas de chuva,

e aos muros que irromperam, há muito,

para amparar as sombras

e a face fracturada destes dias.

Os seus troncos envolvem-me suavemente

nas noites, dilatadas entre a água, o incenso,

a talha barroca e a narrativa azul do ouro

e dos presépios.

Na chama das imagens fracturadas, nasço,

escutando o rodopiar das aves moribundas,

anjos furtivos adejando,

entre laranjas, música, trompetes de chuva,

escrevendo labirintos, longas espirais,

nas horas mágicas, luminosas

de um poema para o primeiro dia. 

 

 

João Batista de Carvalho - poemas

 

João Batista de Carvalho (PI, 1981) Poeta e professor da cidade de União-PI. De origem humilde, portador de sensibilidades herdadas de sua Avó - lavadeira de roupa - responsável pela sua criação. Fez Mestrado em Letras (UESPI). Autor do livro de poemas “Fagulhas” (2008). Vencedor de prêmios de poesia em sua cidade e em Teresina. Já editou zines, poemas em canetas e organizou vários saraus em União e em outras cidades. Organiza, desde 2007, o evento artístico “Cesta de Poemas”, em que, dentre outras atividades, publica anualmente uma antologia de poetas unionenses. Tem poemas publicados em blogs, sites, revistas e jornais. Em sua conta no facebook publica regularmente poemas e outros tipos de textos. Foi um dos poetas participantes do livro “Baião de todos”, coletânea organizada por Cineas Santos, em 2016.

 

 

as horas entretecidas

 

não há arrimo para as horas

       que se imprimem

nas revistas da memória

 

     este casulo que devora

o que abriga: finos

      fios de metamorfose

 

nada - nem as palavras -

               devolve

às cacimbas do corpo 

              as águas

    que o tempo evapora

 

e que vão ressurgindo

               apenas

 riacho em ruínas

 ante o mirar das

       marrecas  do agora

 

 

do pássaro que contempla

 

o que em ti não alcanço

       com os poderes da carne

serve para dar músculo ao poema

 

que mais posso querer

se te posso contemplar?

 

se posso engravidar palavras

com o que não cabe na existência?

 

quem disse que é triste o pássaro

que em vez de bicar a fruta

                                 do alçapão

prefere cantar com toda força

a beleza de poder ter fome?

 

 

meu poema

 

meu poema é quintal

sem cerca

           biqueira de casa

           em tempo chuvoso

 

meu poema: pedra

                        de baladeira

entre os dedos

          de um menino afoito

 

           água de cacimba

na goela dos dias

           que nunca terminam

 

riacho de lavar roupas

               manchadas  

    de perdas e insultos

 

varal de estender vestes

                 molhadas

    do que sou e busco

 

Micheliny Verunschk - Poemas

 

Micheliny Verunschk é autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy 2003), O Observador e o Nada (Edições Bagaço, 2003), A Cartografia da Noite (Lumme Editor, 2010) e b de bruxa (Mariposa Cartonera, 2014). Foi finalista, em 2004, ao prêmio Portugal Telecom com o livro Geografia Íntima do Deserto. Publica em 2014 seu primeiro romance Nossa Teresa -vida e morte de uma santa suicida (Editora Patuá, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural), vencedor do Prêmio São Paulo de 2015. É doutora em Comunicação e Semiótica e mestre em Literatura e Crítica Literária, ambos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 

 

Separação

 

eu não lembro onde estava

em 17 de abril de 1998

é uma data aleatória

para preencher um documento

talvez tenha sido

a data da minha morte

ou da sua

talvez tenha sido um dia qualquer

ou aquele dia

em que a vizinha cega

tenha gritado e assustado o cão

e você tenha dito para ela ou para mim

assim você só piora as coisas

eu não lembro onde estava

exatamente em 17 de abril de 1998

nem se meu corpo era mais ágil do que hoje

nós dois correndo no meio da chuva

contando com que os relâmpagos não nos acertassem

ou a chuva de arroz e flores entre sorrisos

 

[na verdade venho esquecendo algumas coisas].

 

 

***

a palavra amor

comporta todo esse desastre

todo esse choro e desencontro

todas as guerras pelo nome 

Helena 

ou Fatma 

ou Maria 

ou César 

ou Miguel 

etc etc ao infinito?

a palavra amor 

comporta todas as tecnologias

para um abraço

o avião o trem 

a velha carroça encostada nos fundos da casa

e essas cartas 

essas músicas

essas joias e penduricalhos?

a palavra amor 

comporta todo os filmes

do cinema americano

as balas zunindo de ciúmes e desengano?

a palavra amor comporta

todos os verbos 

e esses versos mal escritos

que envergonhariam os primeiros 

habitantes das cavernas?

a palavra amor comporta 

tanto bicho morto

pilhas de livros

tantas fogueiras 

e luas ao redor do sol

e ainda as vozes que pairam sobre as cabeças

eu te amo te amo te amo?

a palavra amor

[esse móbile girante

objeto perfuro-cortante]

comporta a minha vida 

e a tua?

 

 

a velha Safo

 

a velha Safo

não saiu da ilha

lira nos braços

pronta a conquistar

o mundo

ou pelo menos 

atravessar o Rubicão

 

foi se ocupando

paciente e rigorosa

de tecer palavras

e de se apaixonar

por marinheiros

essa fauna flutuante

e erradia

que tanto se aproxima

ao fazer mesmo da poesia.

 

a velha Safo

não saiu da ilha

lira nos braços

mas não quis pouco

[musa encarnada]

esse pouco da gente

que com pouco

se contenta

uns poucos risos

e barquinhos de papel.

 

nem memória

nem saudade

nem o violento

sopro de Eros:

enquanto erro

masco chicletes

me perco

entre mensagens

e faço meu tanto

de poemas ruins

a velha Safo 

apenas me sorri. 

 

Paul Auster - 3 Poemas

Paul Auster nascieu em 1947 em Newark, Nova Jersey, Estados Unidos, e estudou literatura francesa, inglesa e italiana na Columbia University, em Nova York. Viveu em Paris de 1971 a 1975. De volta a Nova York, em 1980 mudou-se para o bairro do Brooklyn, onde vive e trabalha até hoje. Poeta, tradutor, crítico de cinema e literatura, romancista e roteirista de cinema, publicou ensaios, memórias, poesia e ficção.

Os poemas que seguem, são do livro “Todos os Poemas”, com tradução de Caetano W. Galindo e publicado pela Companhia das Letras,

 

Autobiografia do olho

 

Coisas invisíveis, enraizadas no frio,

e crescendo para esta luz

que some

em cada coisa

que ilumina. Nada termina. A hora

retorna ao começo

da hora em que respiramos: como se

nada houvesse. como se eu pudesse ver

nada

que não seja o que é.

 

No limite do verão

e seu calor: céu azul, morro púrpura.

A distância que sobrevive.

Uma casa, erguida em ar, e o fluxo

do ar no ar.

 

Como estas pedras

que redesmoronam na terra.

Como o som da minha voz

em tua boca.

 

 

Braile

 

Legibilidade da terra. o couro

claro do osso,

e a guinada de nuvens pluma-e-bem-estar

num ar vitimado – não mais

por ler

 

“Quando parares nesta estrada,

a estrada, dali em diante,

desaparecerá.”

 

E soubeste, então,

que havia dois de nós: soubeste

que de toda esta carne do ar, eu

encontrara o lugar

onde uma palavra

crescia selvagem.

 

Nove meses mais negra, minha boca perfura

as luminosas trilhas

que cruzam as tuas. Nove vidas

mais fundo, o grito ainda é

o mesmo.

 

 

Obituário do tempo presente

 

Para ele é tudo a mesma coisa –

onde começa

 

e onde acaba. Clara de ovo, seu olho

claro: diz

leite de ave, esperma

 

escorrendo da palavra

dele mesmo. Pois o olho

é evanescente,

agarra-se só ao que é, não mais aqui

 

ou menos aqui, mas em toda parte, em todas

 

as coisas. Ele nada

memoriza. Nem anota

 

coisa alguma. Se abstém

do coração

 

das coisas vivas. Ele espera.

 

E se começa, acabará,

como se o olho tivesse aberto no bico

 

de um pássaro, como se jamais tivesse começado

a ser em parte alguma. Ele fala

 

de distâncias

não menores do que estas.

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