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Nydia Bonetti - Poemas

 

 

Nydia Bonetti, 1958, engenheira civil, Piracaia, interior de São Paulo. Mantém o blog L o n g i t u d e s - (http://nydiabonetti.blogspot.com). Tem poemas publicados na Revista Zunái, Germina Literatura, Revista Mallarmargens, Revista Eutomia e outros sites literários e culturais e antologias diversas. Publicada ainda em 2012 pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos). Também em 2012, pela Coleção Instante Estante – Minimus Cantus, Castelinho Edições, projeto de incentivo à leitura. Teve seu livro SUMI-Ê publicado em 2013, pela Editora Patuá. Ainda em 2016 lança ‘de barro e pedra’, pela Editora Urutau. 

 

Seleção de poemas retirados do livro – de barro e pedra – que será publicado até o final do ano pela Editora Urutau, que inaugura com este livro o sistema de financiamento coletivo:  http://www.editoraurutau.com.br/financiamentos.

 

***

sonhei um rio barrento - que corria às avessas
e invadia a casa
subitamente
tentava

com minhas garras
salvar coisas e gente
não conseguia
um leite condensado (eu dizia) um copo d'água

aquele livro azul

minha mãe
(são tantas as fomes)

 

 

***

o tempo é de pedra e corta – preciso

feito lâmina

e a pele fina treme

ao sopro

do vento

por isso canta rios onde se espelha

águas serenas antes

dos pés

tocarem o fundo

em busca

do rosto

que a cada passo se afasta

enquanto

o sangue tinge as águas de vermelho

sem ser tempo de amoras 

 

 

***

recuso-me a nomear estrelas

não as conheço

 

— distantes
 

nomeio pedras

— irmãs

 

 

***

a dor molda o poeta feito um oleiro

e o barro se contorce

entre silêncios, palavras e espantos

vaso de terra

que ao sopro mínimo de vento

canta:- nervos expostos

flor da pele

 

 

***

dentro de mim

moram silêncios de pedra

 

renegadas palavras

 

lavas

que não ousaram fluir

 

(pra não ferir montanhas) 

 

 

Matheus Arcaro - conto - Dois Homens Mortais

                                                                                                                                                                                          Ramon Oviedo

Dois Homens Mortais

Matheus Arcaro

 

O corpo de Saulo Dantas acaba de ser sepultado, às 17 horas do dia 09 de dezembro de 2012. Celebração singela e poucas homenagens sob um discurso lívido. Se ele não tivesse se desfeito das evidências que descobrira em 1999, talvez alguém recuperasse sua pesquisa, e hoje seu nome poderia ser cravado numa das cobiçadas linhas do livro da História Universal. Mas ele preferiu entregar sua memória às presas do tempo. Não, “preferir” não é o verbo adequado. Na verdade, Saulo se viu sem escolha diante daquelas amostras e, por um sentimento de pertencimento à espécie, desfez-se dos resultados.

Seu ato nada teve a ver com ostentação da própria imagem: a foto de Saulo não sairia na capa de uma revista semanal com o título “O benfeitor do ano”. Tampouco teve relação com misticismo ou religião. Ao contrário, Saulo professava seu ateísmo desde criança: um dia, na altivez dos seus oito anos, não suportou mais a ideia de ter alguém vigiando seus passos e resolveu desinventar Deus. Também não fazia sentido para o menino a passagem do barro à vida. Se Adão fora esculpido com argila, como se formara a costela de onde Eva fora originada? Os ossos sempre foram muito importantes para Saulo. Por isso, anos mais tarde, desejou ser ortopedista. Mas desistiu da ideia quando se imaginou com quarenta anos, gordo, encerrado numa sala vestida por uma luz hepática. Então, em 1959, graduou-se em paleontologia.

Da formatura ao dia da descoberta há um trecho de quarenta anos preenchido com o mestrado e o doutorado, aulas em diversas universidades, palestras, conferências internacionais e atuação em laboratórios renomados. Das atividades em laboratório, a mais significativa fora a análise do Santo Sudário em 1978. Juntamente com uma equipe de cientistas, Saulo efetuou uma série de exames que demonstraram que o desenho que aparecia no pano não poderia ter sido forjado: as manchas eram mesmo de sangue humano. De um homem que viveu na Palestina no primeiro século, cujos traços coincidiam com a descrição Evangélica de Jesus.

Apesar do êxito nos outros âmbitos, nada era mais prazeroso para Saulo do que as pesquisas de campo. E foi numa expedição em Jerusalém que ele descobriu as amostras que poderiam fazer de seu nome ponto de partida para os debates de fim de tarde: aclamado por uns; execrado pela imensa maioria. É bem verdade que o grupo liderado por Saulo tinha o intuito de encontrar vestígios do reinado de Davi. E encontrou. Porém, como as pesquisas laboratoriais subsequentes não revelaram nada de extraordinário, o material foi catalogado e arquivado.

Meses depois, numa tarde mais longa que o tempo, Saulo se lembrou das amostras e se propôs a examiná-las novamente. Por quê? Há coisas maiores que qualquer explicação. Algo simplesmente o arrastou para a sala adjacente e ele viu-se com os olhos grudados no microscópio. Após quase uma hora, várias lâminas já tinham passado pelo aparelho até que uma fez suas pálpebras suspenderem-se além do exigido pela clareza. Fragmentos de ossos humanos! Heroicamente conseguiu conter-se: atravessou a sala e guardou as lâminas com o rosto refletindo indiferença. Mas o pensamento puxava a noite que teimava em não se entregar; a expectativa pelo período em que poderia examinar os ossos com mais cautela fazia das suas pernas seres autônomos. Acompanhado pela solidão, Saulo começou suas análises. Passou doze horas fazendo anotações e comparando os fragmentos com amostras antigas. O sol se despia pela janela quando, com os dedos trêmulos, ele retirou os óculos ao mesmo tempo em que afastou o rosto do microscópio. Do topo da testa desceu uma cortina de suor. A marca da incredulidade contornou as pupilas envelhecidas. Não pode ser! Não é possível!

– Bom-dia, Saulo. O que não é possível?

Não viu o colega entrando. Também não escutou sua pergunta. Escondeu as lâminas no bolso do jaleco e saiu com os pulmões pedindo mais oxigênio. Ficou três dias sem aparecer no laboratório. Só saía da cama para reabastecer o copo com uísque. Das muitas perguntas que se fazia, uma latejava nas fontes: como os ossos estavam a mais de dez quilômetros do sepulcro dito santo? Saulo pensou na hipótese de alguém que tentara pintar o ocorrido com cores sagradas, escondendo sob a terra aquele corpo o mais longe que pôde carregar. Pois era preciso que a profecia da ressurreição se consumasse!

Nos intervalos do efeito do álcool, se recordava dos tempos da faculdade, principalmente da retórica impecável do velho professor Alcântara. “A verdade científica é tão elástica quanto a verdade religiosa. Dependendo do que se precisa provar, mira-se a luz para a direita ou para a esquerda; para cima ou para baixo.” Sim, talvez os resultados estejam errados; talvez eu os tenha interpretado de maneira distorcida. Tinha que comparar outra vez aqueles fragmentos de ossos com as amostras do Santo Sudário colhidas em 1978.

Ainda com os olhos inchados e a boca dormente, Saulo voltou ao trabalho. Carregou o dia nos ombros, sem trocar muitas palavras com os companheiros. Assim que ficou só, pegou as lâminas como se fossem fatias do seu futuro. Refez os testes e, teimosamente, o resultado mostrou-se idêntico em todas as provas. Ficou absorto o resto da madrugada: olhos fechados, mãos soltas sobre o regaço, queixo colado no peito. Uma amálgama cinza tomava sua cabeça: os rendimentos da descoberta misturavam-se às consequências do seu possível anúncio. Em menos de duas horas, os pesquisadores entrariam pela porta. A respiração começou a encurtar.

Cientificamente, agarrou-se à possibilidade de que a mortalha e os ossos não pertencessem a Jesus. Contudo, mesmo se assim fosse, o alicerce do ocidente ainda corria riscos. Vigiado pelos ponteiros do relógio, Saulo andava de um lado a outro pela imensa sala. Passos largos, vista turva. De repente, parou no centro do laboratório. “Se Deus não existir, tudo será permitido”. A frase, cuja origem ele não se lembrava, bateu feito uma flecha no peito. Poucos minutos depois, Saulo ateou fogo nos fragmentos de ossos. Ossos que hoje, no dia de sua morte, fariam dele um homem imortal.

 

 

*Matheus Arcaro nasceu em 1984 em Ribeirão Preto, onde vive atualmente. Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico e palestrante. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. Seu livro de contos ‘Violeta velha e outras flores’, publicado em 2014 pela Patuá, vem recebendo ótima crítica em âmbito nacional. Lançou em 2016, pela Patuá, o romance “O lado imóvel do tempo”.

 

Arianne Pirajá - Poemas

 

Arianne Pirajá. Sem etiquetas (esforço), sou o que sou, conterrânea desse poeta vampiro, Torquato. (Tris)Teresina, Terehell, de luz estourada e suor, muito suor. Escrevo, escrevo, escrevo. Exploro outras áreas também: pintura, ilustrações, desenhos, fotografias. Sempre na poética. Estou no blog "Cheia de céu e de inferno" e adoro visitas.

 

http://cheiadeceuedeinferno.blogspot.com.br/2016/10/voce-nao-sabe-mas.html

 

 

 

EM BALADA

 

Ontem balançamos na rede, eu e ela

Eu, nutrindo minha esperança de tranquilidade

Ela, garantindo minha desconcentração 

 

Eu empilhei os meus tormentos numa tentativa dispersa de capturá-los
Alfinetá-los
Vê-los mortos, enfim

São muitos mundos
Dentro de mim 

Enquanto concentro-me em respirar num embalo harmônico
Percebo que confundo as raízes da dor
Agonizo muito depois do golpe
Ironizo a necessidade de encasular-me
Continuo a rodar pelas imundices cotidianas
Com a vista cansada, deixo a beleza passar
E afasto o gasto impulso de chorar

Mas benza Deus! O véu desliza gentilmente à minha frente
E com o pé, interrompo o gemido da corrente 
Lembro da amiga, do bom senso nas palavras:
Tranquilidade na alma, estudo disciplinado, coração reservado
E calma

É só por estar viva que posso sangrar

 

 

SILÊNCIO IMENSIDÃO

 

Como se dentro de mim eu soubesse que só o silêncio é capaz de dizer imensidão 
Nos maquiamos em contradições, incapazes de entender (comer) a ausência de separação 
O tao do uno 
Nossas línguas vibram afoitas o medo de desaparecermos no silêncio
O medo do vazio pressentido 
E, apesar da barulheira, só há o vazio 
Apesar das notícias do mundo 
Mesmo que haja vida 
Mesmo que haja morte 
Maior que isso 
Dentro disso 
E antes disso 
Há o silêncio 
Este enorme silêncio que somos nós


 

FEROZ

 

Difícil mesmo é deixar
Abrir os dedos da mão
Respirar
Tomar a cerveja, comer o pão
Caminhar

Vejo tudo ao contrário
Os dias são vertiginosos e todas as feras cravam os dentes ao que lhes pertence

Eu, mais caracol caracujo que fera, finjo-me fera sou fera quero dentes que não tenho quero amar

quero esse ar de quem não quer nada e tem tudo dentro, mirando firme o horizonte os montes vivos

Quero um terreno tranquilo e molhado
Não silencioso mas calmo

A selvageria elegantérrima que encontro na terra não no estrume

 

 

Carlos Henrique Schroeder - conto - O Tempo Que Resta

                                                                                                                                                                                 Gabriel Archanjo

O Tempo Que Resta

*Carlos Henrique Schroeder

 

Eram botões difíceis de apertar. Duros, poderia se dizer. Marcelinho fazia força e careta, e conseguia. Ainda funcionava, mesmo depois de tudo. Na verdade os botões sempre foram duros, mesmo antes da morte de Ricardo. A gavetinha estava rachada, e por trás do plástico Marcelinho dizia que via algumas manchas de sangue, ainda.

— Caduquice, menino. Esse negócio tá tinindo. E dê graças que tá funcionando, esse troço.

Funcionar é uma palavra ambígua demais. A vida funciona? Não, sempre estraga.

Era impossível abrir a gavetinha, e, portanto, impossível de trocar o lado da fita. Sempre o mesmo, o Lado A, sempre a mesma fita, o mesmo lado. Há vidas de um lado só mesmo. Dó ré mi fá só.

Marcelinho sabia quantas músicas havia no Lado A, pois conseguia vislumbrar, mesmo nas letras gastas, o conteúdo: Há Tempos, Pais e Filhos, Feedback Song for a Dying Friend, Quando o Sol Bater na Janela do Teu Quarto e Eu Era Um Lobisomem Juvenil. Mas somente a primeira música tocava bem, as demais pareciam patinar algumas vezes, e acelerar em outras.

— Será esta a voz do diabo?, pensava o garoto.

“Há tempos” era justamente a de que Ricardo mais gostava.

— Aí, Mano, escuta só isso.

O garoto nunca esqueceu quando o irmão colocou os fones em seu ouvido. Foi a primeira vez em que ele compartilhou de algo, um gesto que não fosse...

— Não enche!

— Sai fora!

— Porra, que moleque chato!

Marcelinho limpava todos os dias o walkman. E não cansava de olhá-lo. Sony. Botões de apertar. Legião urbana. Fita branca. As quatro estações. AM/FM. Play. Stop. Pause. FF. RW.

— Pra que limpar tanto isso aí, menino!

— Poeira, mãe, poeira.

Quando se mora a menos de cinquenta metros da BR 101, percebe-se que a poeira dança, dia e noite.

É uma neblina seca que cobre os dias com uma tessitura opaca. As palavras tinham gosto de terra. A voz é sempre cansada, um pigarro ininterrupto.

Marcelinho e sua mãe moravam numa pequena casa de tábuas coloridas, com dois cômodos, um banheiro e uma cozinha. O garoto sabe que mora em algum lugar entre Curitiba e Balneário Camboriú, pois todos dizem que um lado do asfalto, o A, mais próximo de sua casa, leva para Curitiba, e o B para Balneário Camboriú. O A destruiu sua família.

— Foi o asfalto que matou teu pai. Foi o asfalto. E teu irmão também.

Para o jovem de nove anos de cabelos cacheados, o asfalto era o irmão do diabo. Todos temiam o asfalto, até o vô Neco, que a mãe dizia que era “sabedor das coisas”.

— Marcelinho, nunca brinque perto do asfalto, ele não perdoa. Você viu o que aconteceu com

seu pai e com seu irmão.

Quando o pai morreu, o garoto soube o que era um sentimento misto: alegria e tristeza.

Foram-se o bafo de cachaça, as surras de caniço, o choro do irmão, o som seco das mãos do pai no rosto lívido da mãe, os gritos. Foi-se o pai.

Dizem que o pai de Marcelinho estava tão bêbado que queria encostar nos carros, no meio da pista.

— Vem cá, fia-da-puta! Te pego, olho de fogo!

A morte do pai trouxe o silêncio. A do irmão, o vazio.

Ricardo morreu porque “confiou nas pernas”, segundo o vô Neco. Quando a mãe e Marcelinho escutaram o estrondo, sabiam que não teriam pão para o jantar. Ele morreu escutando a primeira música da fita, segurando o walkman. Marcelinho achava que ele havia apertado o Stop antes de morrer, e que isso era uma mensagem para ele, um sinal. Decorou a letra e passou a imitar a entonação de Renato Russo.

– Tá caduco, menino! Parece teu irmão, que Deus o tenha...

Ele gostava da comparação, e cantava ainda mais alto, com sua voz esganiçada. E escutava, escutava e cantava (embora não compreendesse de todo a letra).

 

Parece cocaína

Mas é só tristeza

Talvez tua cidade

Muitos temores nascem

Do cansaço e da solidão

Descompasso, desperdício

Herdeiros são agora

Da virtude que perdemos...

 

Palavras como tristeza, cansaço e solidão causam grande impressão em qualquer garoto, ainda mais quando se mergulha nessa tríade diariamente. Marcelinho batia ponto num pequeno amontoado de terra, perto do poço. Ele e seus dois carrinhos de plástico. E gostava de conversar com o pequeno morrinho, um pouco menor que ele, atribuindo a ele certa forma humana, em sua imaginação, claro. Dizem que sonhar com formigas é um sintoma da solidão. Marcelinho sempre sonhava com formigas. Elas o mordiam nos sonhos. Quando apareciam formigas em seu morrinho, ele voltava para o quarto, para o walkman.

 

Há tempos tive um sonho

Não me lembro, não me lembro...

Tua tristeza é tão exata

E hoje o dia é tão bonito

Já estamos acostumados

A não termos mais nem isso...

Os sonhos vêm, os sonhos vão

O resto é imperfeito...

Vô Neco dizia que não sonhava mais, que o asfalto roubara seus sonhos.

 

— Há algum tempo, antes da duplicação, acordar era um milagre. Todos os meses o asfalto levava um, dizia o vô Neco a Marcelinho.

Neco perdeu a mulher e três filhos para o asfalto. Sabia mais do que ninguém a força do bicho-lata, e do bicho-asfalto.

— Nunca brinque muito perto dele, pois o asfalto é tinhoso, está só esperando para engolir você, fique sempre próximo ao poço. Mais seguro.

Marcelinho gostava do poço, com sua água sempre fresca e limpa. Quando estava cheio, quase transbordando, passava horas admirando sua própria imagem, sempre ao som do walkman. O menino sempre fora uma pintura viva, talvez de Bonnard: os olhos tristes escondiam movimentos leves. Depois da morte da mãe o garoto foi viver com vô Neco, do outro lado, o lado B, a dois quilômetros de onde vivia. Deixou de falar e passava horas e horas observando o movimento dos carros, e não havia um dia em que não se lembrasse de quando o barulho da buzina e o da freada do caminhão eclipsaram o último volume do walkman. Do poço pôde ver as madeiras de sua casa, voando.

 

Disseste que se tua voz

Tivesse força igual

À imensa dor que sentes

Teu grito acordaria

Não só a tua casa

Mas a vizinhança inteira...

 

Vô Neco chorava todos os dias, pela mudez do menino por tudo, e imaginava o tempo que resta nos olhos do garoto.

 

 

*Carlos Henrique Schroeder, é contista, romancista e dramaturgo. Autor de “As certezas e as palavras” (Prêmio Clarice Lispector 2010 da Fundação Biblioteca Nacional), “Ensaio do Vazio” (adaptado para os quadrinhos), “A rosa verde”, “Fantasias Eletivas” e “História da Chuva, dentre outros. Coordena o Festival Nacional do Conto e a coleção Formas breves, de contos, pela E-Galáxia.

 

Joãozinho Gomes - Poemas

 

Joãozinho Gomes, poeta e compositor paraense – radicado no Amapá, – nasceu em  20 de outubro de 1957, na cidade de Santa Maria de Belém do Grão Pará. Iniciou suas atividades poética e musical na década de 1970. Em época atual, reconhecidamente como um dos mais férteis poetas-letristas da sua geração, Joãozinho Gomes ostenta uma obra que agrega parceiros – compositores e poetas – de várias regiões do Brasil, entre os quais, nomes famosos da musica e da literatura brasileiras. A sua produção poética e musical consiste em aproximadamente mil canções e, cinco livros, dos quis, cerca de duzentas canções foram gravadas por seus respectivos parceiros e, apenas um livro fora editado, A Flecha Passa e poemas diVersos; recentemente teve seus poemas editados pela Revista Brasileira N° 84 da ABL Academia Brasileira de Letras. Assim sendo, somente vinte por cento de sua extensa obra está publicada.

 

                 

 

EMBRIAGADO MÊS DE ABRIL

Agora, estou no tempo dos insetos.

e até se me quedo imóvel,

voo.

 Astrid Cabral

 

 

Madrugada sombria

 

ébria antemanhã

que à meu brio se inebria,

 

que me breia ao breu

do embriagado mês de abril,

 

hábil mês de abril

 

que se abre ao Bar do Abreu

ao bardo que eu venero,

 

bardo que idolatro

e entre litros, mantras, letro;

 

e não me sinto

neutro ante o seu cetro:

 

e não me sinto

outro ante o seu trono:

 

e não me sinto

outono ante os insetos...

 

 

A SEXTA CENA DA SERESTA

 

Para onde teus olhos miram astros

e Astreia estreia Ateu, o Destronado, Mirastros, o Maestro

                                                           levará a sua orquestra

e ouverás então

fragmentar-se a tua seresta.

 

                                        (Será esta a sexta cena da seresta

                                        a adestrar a alma destra do maestro,

o astro sem modéstia

o qual regê-lo aqui me presto, com o pretexto de

trazer-te a tua janela?)

 

Cacos de astros cairão em tua janela  

– e já nela estarás – e cá irão brindar-te

e contarão os contos do maestro à ilustração do poetastro,

e ao sestro restaurarão a tua seresta 

 

 

O SOBRADO

O Círio vai passando como um rio. 

João de Jesus Paes Loureiro

 

Nesta rua por onde ando agora

                parodiando

a minha sombra

há um sobrado que me

assombra

à sobra de um poeta soçobrado

 

(ouço o seu brado sem soluço   

não sendo consolado)

à solas de uma obra que o tem 

pisoteado,

 

(Por que não me alumbras

hein, poema deslumbrado?    

Por que me emblemas em arames

de ruídos alambrados, se por

meu nome serás eternizado?) 

 

dobro a esquina

e, eis que na taverna Isnard

recita Tavernard;

 

“E eu sinto, então, como um desencantado,

Toda a inutilidade de escrever.”*

 

e crer e ver,

                            ouvir o recitado,

situam-me 

à morte que caminha a meu lado.

 

 

*Fragmento de Esforço Vão

poema de Antônio Tavernard

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