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Paisagem Sonora Que Faz Sonhar

Diria que esse segundo disco da banda Guardia, “Imperfei”, é noturno, pois a noite é pano de fundo em quase todas as músicas. Insinua espaços de sombra e de luz, com a sutileza de quem passa calado com sua timidez-grave-suave. Marca uma presença para aqueles que estão atentos às nuances delicadas da paisagem. Nesse ambiente de penumbra, desenrolam-se amores, desencontros, desilusões ao ponto do sujeito se perder sem mapa de si em um silêncio de chumbo. Mas que, nem por isso, deixa de ir pra rua: “cedo, cedin/ nem venha se lamentar/ hoje eu to tomado na fera/ olhe a carne que tá pedindo rua/ vou ver a lua se levantar”.

Nesse segundo trabalho, a Guardia constrói uma paisagem sonora muito singular de suas personalidades (Cavalcante Veras e Jan Pablo). As músicas falam de relações a dois e suas consequências, complexidades imperfeitas sem pieguice. A dupla continua mantendo o equilíbrio do primeiro disco, que teve ótima repercussão, mas aprimorando o tempero que leva na recita-intuitiva, suavidade, delicadeza, letras bonitas e uma sonoridade que faz sonhar.

 

Ouça o disco: https://onerpm.com.br/disco/album&album_number=104077711

As músicas da Guardia oferecem um chão tranquilo pra caminhar de bobeira e assim, o disco toca várias vezes sem você perceber e as músicas se apresentam: Le-gal, Arcanjo, Luiz Caldas. Nessa primeira parte do disco, uma música que chamaram a atenção é a Samir, que leva o nome do irmão do Jan Pablo. Um som que empolga pelo prazer-pop que a música oferece, correnteza leve e gostosa que arrasta a qualquer lugar: “um coração que bate por teu sangue/ um coração bem mais forte que antes/ já não nos resta nada além do canto/ um som que soa com dotes de santo/ e anula toda a dor de nossa estrela”.

Não é fácil dizer coisas desconcertantes, de modo que o ouvinte goste de ser deslocado. Mas a Guardia faz isso gentilmente, com quem escuta o seu som e embarca na voz do Cavalcante Veras, como nas músicas Benzadeus e Cão Secreto.  Em Hipercampo, uma das músicas mais pesadas e fortes do disco, a guitarra marca presença com corpo firme, o som vem em cheio no ouvido e a pele vibra, quem ouve segue sem pestanejar: “carecemos da agilidade/ do repente de quem nunca/ espera a morte chegar/ por o movimento num laço/ toda a altura no salto/ o viva vaia tatuado no braço/ enquanto alguém sangra infeliz”.

Outra música que faz companhia a Hipercampo é a Ponte Wall Ferraz, que indica certa geografia da cidade. Alias, é comum encontrar partes da cidade de Teresina nas letras da banda, indicando os pontos de caminhada e as subjetividades urbanas dos músicos. A música é velocidade e tensão, traz adrenalina nas palavras: “vou surfando trem na hipervia/ nessa guia sigo viagem/ vou surfando trem na hipervia/ tempo adentro peço passagem”.

A cada faixa é perceptível que o músico Jan Pablo consegue criar sonoridades elaboradas que acolhem as letras em um clima de muita harmonia, como em Vá Sarar, De Cor e Legião de Jorge. Assim, a trilha segue na veia-som-sangue-bom e no meio do caminho tudo é felicidade, mas felicidade de ouvir um bom disco que traz a noite, a velocidade da via, mas também a melancolia e tristezas delicadas. Na Guardia, falar de amor e de desilusões faz esticar o sentimento do corpo com um bom-gosto-sofisticado. Mas o bacana é que ao final, tudo sara: “o que se aprendeu/ teu verbo purifica e cura/ vá/ vá sarar vá”.


“Imperfei” é um disco que faz a gente pensar para além do obvio e imaginar que a música nos faz alimentar os pequenos infinitos que guardamos no peito.

 

Discografia da banda: http://www.guardia.net.br/discografia.html

Onde A Poesia Acontece?

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“escrever o que não acontece é tarefa da poesia” Manoel de Barros
 
Onde a poesia acontece? Qual o melhor lugar para se falar de poesia?
 
Inicio com essas perguntas simplistas para dizer que tod@s têm necessidade de poesia e de que, ela faz bem para a nossa saúde mental. A poesia nos ensina a sonhar para dentro e nos lembra, de que não podemos perder a dimensão utópica da existência. 
 
No último final de semana, alguns escritores resolveram encarar a estrada e o desconforto das empresas de ônibus Irmãos Coragem e Bonitão, e foram até a cidade de Luzilândia para bater papo sobre diversos assuntos do campo literário. Eu também resolvi, encarei as ironias da estrada “coragem” e “bonitão” e aceitei o convite do professor e poeta Ivanildo Di Deus e do poetamigo Rubervam Du Nascimento e fui participar do 2º FLIÁGUAS – Festival Literário das Águas. Evento que aconteceu sem nenhum financiamento institucional e foi realizado pela iniciativa corajosa do Ivanildo Di Deus, com o apoio do SINTE-PI.
 
Especificamente no sábado à tarde, 28/11, participei de uma das mesas do evento, juntamente com os escritores Rubervam Du Nascimento, Valdecirio Teles Veras e a Dalila Teles Veras. Alguns temas, tais como: “qual o lugar da poesia” e a relação “poesia e cidadania”, nortearam o debate. Ficamos por quase 3 horas desenvolvendo essas questões e outras mais. Na ocasião, o poeta Rubervam lançou o seu livro de poemas ESPÓLIO e eu lancei o meu objeto poético CAPSULAR.
 
Porém, o que mais me chamou a atenção foi o público de cerca 40 jovens que assistiu e participou ativamente do bate-papo. Um público atento, curioso e que se instigou com nossas falas. Vários desses jovens foram pra casa levando nossos trabalhos.
 
Voltei de lá com o corpo vibrando, por ter tido mais uma vez a confirmação de que não existe um lugar “especial” para a poesia acontecer e que o seu lugar, é onde existe sensibilidade e afeto. 

Uma Janela Aberta

Ao som da banda Supercordas // disco: Terceira Terra (2015)// pensei em vários inícios para essa página. Mas um início e um fim são sempre complicados, se o que importa de fato, em um percurso, é o meio do caminho. Pois bem, então podemos saltar para o meio.

O ano está se encerrando com dois indicativos claros para o campo editorial. Primeiro que, com essa economia, o mercado e o consumo de bens culturais começa a ficar comprometido. Inclusive, isso pode ser percebido com a redução de investimentos em todo o circuito. Com a queda nos editais de cultura e o cancelamento de eventos por todo o Brasil. Ontem, 30/11, uma das melhores editoras do país e especialista em livros de arte, decretou que irá encerrar suas atividades após 19 anos de atividade. Tristeza geral para os leitores que admiram as edições da Cosac Naify. A editora tem os melhores projetos gráficos do mercado editorial nacional, com edições bem elaboradas e ótimo catálogo de autores. O editor Chasles Cosac disse preferir fechar as portas, a ter que fazer o mesmo que as outras editoras. Provavelmente, ele está se referia a prática de publicar biografias de celebridades, auto ajuda, livros de colorir, etc. 

Leia mais sobre o assunto 

Na ponta contrária da crise do grande mercado editorial, estão as “pequenas” editoras e suas astúcias. Interessante notar que, nos últimos anos, essas “pequenas”, que são comumente chamadas de editoras independentes, estão se multiplicando e aparecendo cada vez mais. Conseguindo ter seus livros nas listas dos principais prêmios literários do Brasil. No mesmo dia que a Cosac Naify ganhou um das categorias do Prêmio São Paulo de Literatura 2015, com o Estevão Azevedo e o romance “Tempo de Espalhar Pedras”. A Editora Patuá marcou presença com a pernambucana Micheliny Verunschk e o seu livro “Nossa Teresa – Vida e Morte de uma Santa Suicida”. Grandes e pequenas começam a dividir espaços, até então impossíveis.    

 

Se, por um lado, uns estão com as pernas bambas. Por outro, tem gente aprendendo a dar passadas bem firmes. É só observar a lista dos finalistas de todos os grandes prêmios literários do país. No tradicional Jabuti, categoria poesia, dois dos ganhadores são autores de editoras independentes. O carioca Alexandre Guarnieri com o seu “Corpo de Festim”, Editora Confraria do Vento, e o Manoel Herzog com “A Comedia de Alissia Bloom”, Editora Patuá. No Prêmio da Biblioteca Nacional, categoria conto, ganhou uma autora estreante, Carol Rodrigues, com o livro “Sem Vista Para o Mar” pela Editora Edith. Que, por um acaso, também ganhou o Jabuti com o mesmo livro e na mesma categoria.     

  

Não faltam exemplos e isso é um ótimo sinal. Se as grandes têm dificuldades, as pequenas também. O que vale ser ressaltado é que as pequenas estão conseguindo sobreviver e mostrar sua produção, com “planos de negócios” flexíveis e modestos, se utilizando de táticas que encaram as publicações como um trabalho sério, mas sem deixar de lado os toques artesanais e a paixão pelo livro. Nesse cenário, novos autores e livros significativos surgem revigorando a literatura nacional.

O blog JANELAS EM ROTAÇÃO chega para discutir e compartilhar com os leitores notícias e questões do universo cultural. Interligando nossos debates locais com o restante do mundo. O blog irá abordar temas ligados à literatura e ao circuito do livro, bem como às demais manifestações culturais. 

Já existe uma série de entrevistas sendo produzidas para o blog. Uma delas é com editores independentes. Logo mais elas vão aparecer nessa janela.

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