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Leilão: carro é mais barato que bicicleta

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SÃO PAULO - Na sexta-feira, em um leilão realizado em Guarulhos, o encarregado de manutenção Adilton Curi, de 46 anos, comprou um Fiat Palio 2004 por R$ 4,5 mil. Com esse valor - que corresponde a um desconto de 70% do preço na tabela de usados do Jornal do Carro (R$ 15,4 mil) -, ele não levaria para casa nem uma bicicleta feita de carbono, ideal para quem faz trilhas, vendida a R$ 10 mil.


A compra de carros a preço de bicicleta é um fenômeno recente. É o resultado da ressaca na farra de vendas de carros a prazo dos últimos anos. Os pátios dos leiloeiros estão lotados de carros devolvidos por consumidores inadimplentes, e até dos que foram confiscados por bancos e financeiras. Na outra ponta, o que não falta é comprador em busca de pechinchas.

"O carro não tinha nenhum problema. Fiz questão de comprar de uma financeira, que o havia retomado de um cliente inadimplente, por imaginar que, dessa forma, corria menos risco de comprar um carro ruim", conta Curi.

Não é à toa que especialistas já falam que o crescimento explosivo na venda de carros nos últimos anos virou uma bolha financeira e uma crise de inadimplência que lembra, em menor escala, o subprime americano.

O resultado está nos pátios dos leiloeiros profissionais. Na empresa de leilões Sodré Santoro, o número de carros vindos de financiadoras que sofreram calote cresceu de 9 mil para 15 mil nos últimos três meses, um aumento de 66%. Do total de veículos no pátio, 65% são de carros retomados. Com a superlotação, os funcionários perderam lugar no estacionamento. "Tivemos de ocupar esse espaço com os carros que têm chegado", disse o leiloeiro Luiz Maiellari.


O sinal do agravamento da inadimplência no setor automotivo é que a financeira só toma o carro do devedor em última instância. "Antes disso, há muita renegociação", diz Ayrton Fontes, economista e analista de varejo do segmento de veículos.

"O governo facilitou muito as condições de crédito no ano passado. Muitas pessoas que conseguiram financiar seu primeiro automóvel em até 70 vezes não estão conseguindo honrar a dívida", diz o economista e professor da Faculdade de Economia e Administração da USP Nelson Barrizzelli. "Acho até que podemos falar em um subprime brasileiro no setor."

Nos leilões, o carro é vendido, na média, com desconto de até 30% do valor de tabela. "O desconto também é explicado pela dificuldade do mercado de acabar com o estoque de carros, principalmente usados", diz Fontes. O financiamento dos usados costuma ter juros mais altos, segundo o economista, uma vez que o carro já está desvalorizado e representa garantia menor para o banco.

Apesar de o desconto já ser grande, o melhor lance muitas vezes nem chega ao mínimo estipulado pela empresa dona do carro. "Nesse caso, perguntamos se a venda pode ser feita. Mas, ultimamente, eles não têm tido muita escolha", diz Maiellari.

Inadimplência

A inadimplência de veículos subiu para 5,9% em abril, segundo dados divulgados na sexta-feira pelo Banco Central, batendo novo recorde. Estima-se que o calote do consumidor no pagamento de financiamentos de veículos novos e usados neste ano, até março, já supera R$ 10 bilhões.

"Digamos que há um ano uma pessoa que ganha R$ 2,5 mil por mês comprou um carro de R$ 37 mil para pagar em 60 meses a juros mensais de 0,98%. A prestação comprometerá cerca de 30% do salário", simula Barrizzelli.

"O consumidor ainda terá de arcar com seguro, manutenção e contar ainda com a depreciação do veículo. Juntos, são cerca de R$ 610 mensais, além da parcela do financiamento", conta. "É claro que, com o salário que ganha, não dá para honrar a dívida."

Para o economista, a situação pode piorar ainda mais com a redução do IPI. "Não adianta querer criar situações irreais para o estilo de economia que temos. Com esse estímulo, a inadimplência vai crescer."

Fonte: Estadão

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