Cidadeverde.com

Francisca Trindade: um legado de militância política

  • _MG_0597.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0594.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0589.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0583.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0573.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0568.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0567.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0565.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0563.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0559.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0553.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0550.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0547.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0546.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0541.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0537.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0535.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0533.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0531.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0528.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0526.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0525.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0523.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0519.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde
  • _MG_0517.jpg Thiago Amaral/ Cidadeverde

O Dia Internacional da Mulher é associado a fatos que simbolizaram a luta por ideais, direitos e conquistas em diversas partes do mundo. No Piauí essa batalha se confunde com a história de vida de Francisca Trindade. Mãe, mulher e negra, ela optou por seguir o caminho da política para mostrar que era possível lutar por melhores condições de trabalho, salário e dignidade.

Trindade nasceu no dia 26 de março de 1966, justamente o mês das mulheres. De família humilde, estudou em escola pública. Era a caçula de quatro irmãos. Começou a sua trajetória em movimentos sociais na zona Norte de Teresina, mais precisamente no bairro Água Mineral, onde morava. 

"Estudou em escola pública, depois foi para a Igreja, através da Pastoral da Juventude, daí começou aquela indignação. Ela começou a ver a diferença entre as classes sociais e passou a se perguntar o motivo de que no bairro X tem calçamento e no dela não tinha. Por que alguns bairros tinham casas bonitas e no dela não tinha, bem como água, luz. Daí ela se envolveu no movimento estudantil e começou a lutar. Ela era muito inteligente", relata saudosa a irmã mais velha, Marli Trindade.

Segundo ela, a entrada na política foi consequência de seu engajamento no movimento estudantil.  "Minha irmã gostava de dizer que nunca pensou em ser uma pessoa da política. A Trindade chegou aonde chegou por mérito dela. Por ser mulher quebrou várias barreiras. Tinha a questão do preconceito. O povo dizia que lugar de mulher era na cozinha e cuidando dos filhos. Tudo isso ela conseguiu transformar. Ela era uma muito determinada", conta Marli. 

Foi eleita primeira suplente de vereador em Teresina em 1992, pelo PT, ocupando de fato a cadeira dois anos depois com a eleição para deputado estadual do então vereador Wellington Dias. Sua candidatura foi lançada dentro de um hospital. Trindade passou cinco meses internada após sofrer um acidente de moto. "A candidatura dela de vereadora foi lançada em cima do leito de um hospital. Uma das amigas dela chegou e disse que ia lançar ela. Ela passou 5 meses no hospital sem poder se mover. A Trindade fazia comício em cima de caminhão. Eles colocavam uma poltrona pra ela sentar e fazer o comício", relembra, ressaltando a determinação da irmã.

"Quando queria uma coisa ia buscar e não esperava nada cair. Foi quando começou na política. Ela sempre procurou defender as pessoas mais humildes. Tinha tudo para não chegar aonde chegou. Mulher, negra e pobre, chegou aonde chegou sem comprar ninguém. Jamais corrompeu alguém ou se corrompeu. A história da Trindade é um exemplo a ser seguido", afirma Marli.

Após exercer o mandato de vereadora de Teresina, foi questão de tempo a chegada de Francisca Trindade à Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi). Seu mandato no legislativo estadual teve início em 1998. Quatro anos mais tarde bateu recorde de votação (165.190) e elegeu-se deputada federal. "Hoje as pessoas estão desmotivadas e principalmente a classe menos favorecida. Acho que as pessoas deviam se espelhar na história de vida da Trindade. É uma história de orgulho. O que as pessoas acham que é impossível, na verdade é possível", frisa.

Fundação resgata vida da parlamentar

Mãe de Ian (14 anos) e Camila (15 anos), parte da história de vida de Francisca Trindade está preservada na fundação que leva seu nome. Localizada no bairro Mocambinho, a ong realiza ainda trabalhos sociais e atende crianças e adultos carentes.

"A Fundação foi criada pelos amigos. Eles acharam que não tinham o direito de deixar a história da Trindade morrer. Daí  surgiu essa ideia. É uma maneira de manter via sua história de vida e suas memórias. No momento estamos com dificuldade, mas estamos firmes e fortes. Temos uma escola de balé com 250 crianças. Temos cursos de informática básica para capacitar pessoas de baixa renda para o trabalho. Nossa prioridade são pessoas carentes beneficiadas por programas sociais do governo. A gente busca dar oportunidade a essas pessoas", diz Marli.

O próximo passo, segundo a irmã, é documentar a trajetória de Trindade em um livro. Mas o sonho ainda está longe de ser realizado por questões financeiras. "Temos o projeto de lançar um livro contando a história dela. Como a gente não tem recursos, por enquanto estamos só sonhando. É um meio de deixar isso registrado para as futuras gerações. É uma história muito bonita. É um exemplo principalmente  para os políticos", afirmou.

Francisca Trindade morreu no dia 26 de julho de 2003 aos 37 anos, vítima de um aneurisma cerebral. Desmaiou durante um evento que participava. Socorrida, chegou a ser transferida para São Paulo, onde veio a falecer. Se estivesse viva, Marli acredita que a irmã teria chegado ainda muito mais longe.

"Isso não sou eu quem fala. As pessoas falam que hoje, se estivesse viva, ela seria prefeita ou governadora. Quem acompanhou a trajetória dela diz isso. As pessoas votavam nela por que confiavam", finalizou.

Cronologia Francisca Trindade

  • 1966 - Nascimento
  • 1980 - Representou os jovens piauienses na visita do Papa
  • 1981 - Cursou o ginasial nos colégios Edgar Tito e Leão XIII
  • 1984 - Cursou o ensino médio nos colégios Teresina, Cursão e Cipreve, participou como fundadora do movimento coisa de negro e fundou e presidiu a Associação de Moradores do bairro Água Mineral.
  • 1985- Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores
  • 1986- Assumiu a FAMCC
  • 1991- Formou-se em Teologia pela UFPI
  • 1992 - 1ª candidatura a vereadora (1º suplente)
  • 1993 - Assumiu o cargo de vereadora
  • 1996 - reeleita vereadora de Teresina
  • 1998 - eleita deputada estadual com 26 mil votos
  • 2002 - eleita deputada federal
  • 2003 - faleceu em São Paulo vítima de aneurisma

 

Hérlon Moraes
herlonmoraes@cidadeverde.com

Amélia Bevilacqua: excluída da Academia Brasileira de Letras virou símbolo de vanguarda

“[...] só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário. As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes”.

O Artigo 2 do Regimento Interno da Academia Brasileira de Letras, que vigorou desde o início da sua criação, em 1897, hoje talvez não caiba uma discussão acerca de gênero. Mas naquela época, diante de uma sociedade machista com um grupo seleto de grandes nomes de intelectuais endinheirados, a entrada de uma mulher seria algo incômodo, criando intrigas internas. Uma piauiense foi uma das primeiras a permear a polêmica.

De família abastada, a piauiense nascida em Jerumenha em 1860, Amélia de Freitas Bevilacqua era a filha mais velha do desembargador Manoel de Freitas, magistrado e presidente das Províncias do Maranhão e Pernambuco. A educação de berço e o gosto pela literatura a fizeram uma mulher de destaque e, com criação de revistas e publicação de livros em Recife. Ganhou ainda mais notoriedade após o seu casamento com Clóvis Bevilacqua, em 1884, um dos mais importantes juristas do país, membro da Academia Brasileira de Letras e responsável pela elaboração do esboço do primeiro Código Civil Brasileiro.

Muito longe de ser a Amélia da música cantada por Chico Buarque, ela dedicava-se à literatura e era à frente de sua época, sendo a primeira a tentar, com um pedido formal, a entrada na Academia Brasileira de Letras. Foi rejeitada por ser mulher e com a justificativa que o referido Artigo do primeiro parágrafo refere-se aos “brasileiros”. Uma confusão de gênero como desculpa para atenuar a participação feminina e reforçar os padrões misóginos da década de 1930.

A polêmica já permeava por anos. Arquivos da Biblioteca Lúcio de Mendonça indicam que a discussão iniciou no ano de 1911, quando foi cogitado o nome da filóloga Carolina Michaelis para compor o quadro na sucessão de Léon Tolstoi, falecido em 1910 e ocupante da cadeira 173. 

A piauiense Amélia de Freitas foi mais longe. Como já integrava o quadro de intelectuais da Academia Piauiense de Letras –ocupava a cadeira 23-, tentou, por intermédio do marido, ocupar a cadeira 22 da ABL. Houve uma divisão entre os membros, mas prevaleceu a interpretação literal do Estatuto, que para os moldes sociais da época, excluíam as mulheres. Após o pedido da esposa negado, Clóvis, muito ressentido, nunca mais retornou à Academia.

Amélia respondeu à negativa com o que mais sabia fazer. De acordo com um estudo da pesquisadora Doutora Michele Asmar Fanin, publicado na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, intitulado “A (in)elegibilidade feminina na Academia Brasileira de Letras”, a insatisfação de Amélia foi registrado em um volume chamado “A Academia Brasileira de Letras e Amélia Beviláqua: documentos histórico-literários”, escrito por ela em 1930. “Fiquei indecisa. Não sabia mesmo o que devesse responder; senti uma espécie de aniquilamento de vida, talvez paralisação das forças imediatamente suspensas pela hesitação moral [...]. A Academia, afirma o Dr. Constâncio Alves, não quis aceitar [o nome de] Júlia Lopes de Almeida e mais tarde recusou o de Carolina Michaëlis para sócia correspondente. Que prova isso? O ponto de vista errado, o misogenismo da Academia, que não soube fazer justiça à romancista brasileira nem à notável escritora Carolina Michaelis, a quem a Academia de Ciências de Lisboa ofereceu uma cadeira. Porém essas escritoras nada propuseram; eu fui oficialmente repelida, e, assim, é muito mais ofensiva a recusa”.

A polêmica seguiu por muitos anos com uma angústia devido o rompimento do jurista Clóvis Bevilacqua. Mas somente em 1970 o acadêmico Osvaldo Orico apresentou uma proposta para que fosse alterado o artigo 17 do Regimento Interno da Academia. A mudança permitiria que as mulheres pudessem inscrever-se para as vagas da entidade, mas só em 1976 a emenda foi aprovada. Em 1977 Rachel de Queiroz foi eleita, sendo a primeira acadêmica. Quatro anos depois foi a vez da escritora Dinah Silveira de Queiroz.

Entre as suas publicações, estão os livros 'Angústia', 'Impressões', 'Jeannette' entre outros, bem como vários coletivos com o marido. Morreu em 1946 no Rio de Janeiro (RJ).


Diego Iglesias
Redacao@cidadeverde.com

A bravura de Jovita Feitosa

Submissa, incapaz, frágil: estes eram alguns dos termos atribuídos à mulher num passado não tão distante. Porém, estas características não formavam a personalidade de Antônia Alves Feitosa, conhecida como Jovita Feitosa. 

Natural do Ceará, mas foi no Piauí que a jovem gravou seu nome na história. Saiu de Jaicós ao saber que o Estado iria enviar tropas para a Guerra no Paraguai. Com 17 anos, cortou o cabelo, usou vestes grosseiras de homem, chapéu de couro e alistou-se como uma voluntária da Pátria, sem se importar com a condição de mulher. 

No início quis esconder, mas logo foi descoberta pelos traços femininos, então se apresentou ao presidente da Província, em Teresina, pedindo autorização para participar da Guerra, em 1867. 

O livro “Grande dicionário histórico biográfico piauiense” de Wilson Carvalho Gonçalves, descreve o diálogo que Jovita teve com Franklin Dória, presidente do Piauí na época. “É o meu maior desejo bater-se com os monstros, que tantas ofensas tinham feito às suas irmãs tinham feito à suas irmãs de Mato Grosso e vingar-lhes as injúrias ou mortes nas mãos desses tigres sedentos”. O presidente atendeu a súplica e deu-lhe o posto de sargento.
 
O gesto de Jovita teve grande repercussão nacional e alvo de manifestações populares. Na viagem até o Rio de Janeiro com o Corpo de Voluntários, ela foi ovacionada como heroína. Em São Luís e Recife foi recebida por autoridades locais, recebeu homenagem com espetáculos de teatro e jantou com presidentes das Províncias.
 
Mas, ao chegar na então capital do país, o ministro da Guerra não autorizou seu embarque. 

“Mandou desligar Jovita, em virtude de sua condição de mulher ser incompatível com o serviço a que ela se propôs a realizar. Triste e desiludida, encaminhou-se para a perdição. Deprimida e abandonada na sua nova vida, suicidou-se em 09 de outubro de 1867, no Rio de Janeiro”, descreve o Wilson Carvalho Gonçalves, em seu livro.  

 

Caroline Oliveira
carolineoliveira@cidadeverde.com