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Desempregado, ex-executivo vive em aeroporto

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Laptop no colo, falando ao celular e bem vestido: a imagem lembra a de um empresário sobregarregado de trabalho. A cena, no Aeroporto Santos Dumont, no Centro do Rio, é corriqueira. O protagonista, no entanto, vive uma realidade bem diferente da que aparenta ter. Vilmar Mendonça, de 58 anos, está desempregado e, desde 2016, "bate ponto" no terminal. Durante o dia, ele usa a área de embarque, a internet, o banheiro e a água do local. À noite, quando o aeroporto fecha, não há mais o que fazer, senão pegar suas coisas e ir dormir na rua.

Vilmar conta que foi executivo de grandes empresas, com vasta experiência na área de recursos humanos. Ele diz ser mais uma vítima da crise econômica, agravada pela derrocada financeira do governo do estado. Apesar de apresentar bom currículo e formação, ele lamenta que, desde 2015, tem dificuldades para voltar ao mercado de trabalho. Vilmar é um dos milhares de desempregados do estado. Segundo os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do IBGE, no Rio há, atualmente, 1,214 milhão de desempregados. No Brasil, são 14,176 milhões de pessoas sem carteira assinada. Ao mesmo tempo, as ruas vão se enchendo. De acordo com um levantamento da prefeitura, há 14.279 sem-teto na cidade, que dormem ao relento.

O currículo que Vilmar faz questão de exibir é rico: ele foi gerente de grande grupos privados. Em 1977, ao 16 anos, saiu da cidade de Itajaí, em Santa Catarina, onde morava, e foi estudar em São Paulo. Lá, formou-se pela Faculdade Metropolitana Unidas (FMU) e se tornou especialista em recursos humanos. Em dezembro de 2012, após perder o emprego, saiu de vez de São Paulo e veio tentar a vida no Rio.

Aqui, segundo ele, prestava consultorias e auditorias esporádicas — “um mês aqui, dois ali” —, mas sem emprego fixo:

— Passei por toda aquela escadinha do RH, fui assistente, analista, encarregado, supervisor e até gerente. Vim para o Rio, mas, em 27 de fevereiro de 2013, sofri um assalto. Estava na rua, no meio do bloco, e roubaram meu cartão, não sei como fizeram isso. Até hoje não sei. Fizeram saques e compras no meu cartão, mas aí não deu em nada. Não consegui resolver e acabei me conformando pelo fato de não terem tirado a minha vida, só levaram o meu dinheiro. E tem tantas histórias de que as pessoas matam por pouca coisa.

A partir daí, segundo relatou, não conseguiu mais trabalhar, foi ficando endividado.

— A coisa foi decaindo. Não consegui. Veio a Lava-Jato e o Rio de Janeiro entrando em falência, como é sabido. A gente só ouve que as pessoas não estão nem recebendo. E, por mais que todo dia eu mande currículo, todo dia eu tente alguma coisa, até mesmo fugindo um pouco da minha área e me colocando à disposição para pegar qualquer coisa para sobreviver, não flui — contou ele.

Escolha única e difícil

Diante da crise financeira em que se encontrava, Vilmar afirmou que não teve alternativa. A grana, o pouco que lhe restava, já não dava mais para pagar as contas nem lugar para morar. Em janeiro de 2016, decidiu ir para as ruas.

— O dinheiro foi acabando, e eu precisava escolher um lugar onde fosse um pouco mais seguro, que é o caso aqui do aeroporto, onde - na proximidade tem um local, ali - que oferece um alimento (ONGs), na horário certo, eu vou lá e pego. Procuro não ter contato com ninguém, até para não me contaminar. A gente sabe muito bem, infelizmente os moradores de rua se contaminam com maior rapidez, eles acabam se drogando, acabam entrando em vícios de bebida, acabam perdendo as suas virtudes. E eu não vou deixar chegar a esse ponto. Isso está fora de questão — garantiu.

O ex-executivo disse que se vira como pode para sobreviver:

— Comecei a aceitar ajuda de terceiros. Eu não peço, sei que as ONGs vão lá e fornecem. Então vou lá e, simplesmente, busco. Às vezes dava um desespero e eu ia lá e alugava uma vaguinha (em lugares que alugam quartos). Mas aí não dava mais porque, até para você fazer uma entrevista, você gasta muito. Outro dia fui fazer uma entrevista em Niterói e gastei aquilo que não podia gastar. O transporte custa caro, tem currículo, isso, mais aquilo. E ficando na rua, não gasto nada. É uma questão terrível, mas eu procuro me esquivar de contato com outros moradores de rua. Eu não deixo transparecer que estou na rua — afirmou Vilmar, acrescentando que agora — a situação tomou uma amplitude que não tem mais jeito, todo mundo vai saber quem sou eu.

Apesar de efetivamente estar afastado do mercado, ele garante que tenta se atualizar para estar preparado quando puder voltar ao trabalho. Ou seja, quando conseguir um novo emprego.

— Eu desenvolvo projeto de integração de funcionário e alguns tipos de auditorias que algumas empresas pedem para saber como os funcionários estão agindo, se comportando, por exemplo. Projetos para eles terem uma análise de como é o atendimento deles perante aos consumidores. Então fiz alguns projetos dessa forma. Mas efetivamente não estou trabalhando. Estudo, me atualizo e desenvolvo projetos para não ficar fora do mercado, pelo menos em questão de conhecimento — acrescentou.

Na última semana, no entanto, após conceder uma entrevista para um jornal francês, o especialista de RH começou a receber ligações e mensagens nas redes sociais, enviadas por pessoas do Brasil inteiro e de fora: França, Suíça e Alemanha. Todas elas, de acordo com ele, oferecendo oportunidades de trabalho, dinheiro e até moradia. Algumas mensagens foram mais ousadas, ele recebeu pelo menos dois pedidos de namoro por e-mail.

— Foram muitas mensagens e propostas. Ainda não vi tudo direito. Ainda não sei dizer o número. Estou até meio perplexo com tudo isso. Mas vou ver e responder todas as mensagens. Como você viu, quando chegou, meu telefone não para mais de tocar e minhas redes sociais estão lotadas de mensagens. Já falei com algumas pessoas, e falei com representantes de empresa. Devo fechar com uma delas, mas ainda não quero dar detalhes — disse ele, enquanto se preparava para um outra entrevista de emprego, que aconteceria ali mesmo, minutos depois de conceder entrevista.

Vilmar também explicou como tem sido sua rotina nesse período em que vive em condições de rua.

— Quando o aeroporto está quase fechando, eu troco de roupa. Tenho uma para dormir. Eu me transformo. Tenho uma pessoa de confiança aqui, que guarda o laptop e o celular para mim. As outras coisas deixo num saco preto, e deito a cabeça sobre ele, também tenho meu cobertor. Quando chega às 4h da manhã, me levanto - durmo aqui em frente. Sempre acordo cedo, até para não saberem que sou morador de rua. Como a comida dessas ONGs, que passam de segunda a segunda, algumas dão até café. Fico utilizando a internet que está aqui, mandando e-mail e rezando que alguém me procure — disse ele.

Banho, Vilmar contou que toma na praia, principalmente no verão. Para tirar o sal do corpo, ele diz que leva água potável do aeroporto ou usa os chuveirinhos dos quiosques, onde geralmente paga R$ 1 - dinheiro que ganha de terceiros e guarda para os dias mais necessitados. As roupas, segundo ele, também são lavadas da mesma forma. Quando não dá mais para usar, ele joga fora e pega outra oferecida pelas ONGs - sempre roupas sociais.

O ex-executivo relatou ainda que até hoje ninguém do aeroporto o abordou interessando em saber o que ele faz ali todos os dias:

— Isso que é um negócio interessante. Até hoje nunca ninguém veio para mim dizer: “Você é morador de rua”, ou veio me incomodar. Eles (os seguranças) incomodam até a outras pessoas, a mim não, porque tenho essa aparência dentro do aeroporto. Eles ficam com uma interrogação porque todo dia eu estou aqui, e todos dias eles estão aqui. Eles já me viram no Facebook. E, no Facebook, vão ver quem? A imagem que você está vendo agora: um executivo. Você vai dizer que sou morador de rua? Não. Você vai ver a imagem de um executivo que trabalhou em São Paulo. Então, aqui eles me tratam como um mestre, chefe, um doutor, com aquela educação de como se estivessem falando com um executivo.

Segundo Vilmar, durante este período, nem mesmo sua mãe sabia sobre a situação em que ele se encontrava no Rio.

— Ela mora sozinha. É uma pessoa idosa e, em hipótese alguma, eu queria que ela tivesse conhecimento sobre isso. Lá (Itajaí), eles estavam acostumados a me ver chegando de avião no Aeroporto dos Navegantes. Agora vão saber. Eu já avisei a ela e disse que estava tudo bem e que isso foi inevitável. Disse que estou bem de saúde e que foi uma escolha que tive que fazer. Mas, da mesma forma que eu entrei nesse buraco, eu quero sair, estou saindo. Claro que, em situações muitos esporádicas, ela me ajuda — concluiu ele, dizendo que orgulho não o deixou voltar para Itajaí.

— Ela sabe como eu sou. Um cara que saiu aos 16 anos de idade da cidade pequena, numa época de ditadura, não vai ser agora, nessa globalização e já grandinho, que vai passar dificuldade. Se eu não passei naquela época, a minha mãe é bem inteligente e vai saber que seu filho está extremante preparado, pelas funções que já exerceu e que comandou. Uma pessoa como eu, que foi suplente de vereador, que foi fundador de partido, assessor de prefeito, de deputado, já teve com presidente da República, Tancredo Neves — lembrou.

Como um típico virginiano, Vilmar disse que, inicialmente, não se adaptou aos albergues da cidade porque ele é muito metódico e, além disso, para alugar um quarto, por exemplo, com condições de moradia, era impraticável, por causa dos preços.

— A manutenção de uma pessoa hoje no Rio de Janeiro é cara. Alugar um quarto, almoçar, jantar, tomar um café, comprar roupa, pegar ônibus, por menos de R$ 1.500 você não faz isso, porque qualquer refeição custa R$ 13, R$ 14 e R$ 15. Se for na feira, custa caro. Qualquer vaga, não é nem quarto, custa R$ 400. Além disso, sou aquele cara que gosta de tudo certinho, roupa dobradinha. Se vejo um quadro torto, vou lá e arrumo. Um cara que sabe se comportar, que sabe se condicionar com as pessoas. Então, se estou numa vaga e chega um companheiro que dorme na cama de cima, com a roupa fedendo, cigarro na boca, jogando a toalha suja em qualquer lugar, isso realmente me afeta.

Sobre a experiência e expectativas para o futuro, ele disparou:

— Depois que eu me restabelecer profissionalmente, uma coisa que eu quero fazer é retornar a todos que manifestaram apoio, quero procurar essas ONGs que estão me ajudando e estabelecer uma parceria com elas. Isso me trouxe uma experiência de vida. Pequei em algumas coisas. Por que? Porque eu tive grandes oportunidades na vida e deixei elas escaparem pelo excesso de preciosismo.

Com a repercussão do caso agora, ele diz que tem medo de ser mal visto por isso:

— Mas é algo que não está acontecendo. Pelo que estou vendo, as pessoas estão de prontidão comigo e estão torcendo. Quero me estabelecer, quero voltar ao mercado e quero estar sendo aquilo que eu sempre fui: melhor, comprometido. Aquele comprometimento com as empresas, quando eu entro, não entro como aquele funcionário que está esperando para bater o ponto e receber o pagamento no dia 5. Eu bato na tecla e desenvolvo o trabalho. Quando estou no RH, cobro isso. O profissional tem que ser comprometido como se fosse o dono da empresa.

Priscilla Melo, integrante da ONG Vidas Invisíveis, umas das tantas que ajudaram Vilmar, disse que ele é uma exceção:

— O Vilmar foge totalmente ao perfil das pessoas que estão em situação de rua. Um repórter francês queria um personagem e me pediu ajuda. Indiquei o Vilmar porque ele era o único com essas características. Há dois meses, presto assistência a ele. Via que ele era diferente, fica sempre distante, não se mistura com os outros moradores de rua e pedia apenas roupas sociais. Isso me chamou a atenção e fui atrás da história dele. Desde então acompanho e tenho encaminhá-lo para as vagas de emprego que fico sabendo — contou Priscilla.

Fonte: O Globo

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