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Após dois anos, vítima de estupro coletivo em Castelo diz sentir medo e evita ficar sozinha

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"Ainda sinto muito medo, medo de tudo. Não ando mais sozinha. Meu pai me leva e me busca na faculdade todas as noites", diz a estudante Ana (o nome é fictício), 18, vítima de estupro coletivo e que mora em Teresina (PI). Ela concedeu entrevista a Folha de São Paulo, divulgada neste domingo (20). A matéria integra uma série de reportagens com vítimas de estupro no país. 

Ana falou a Folha de São Paulo sobre o estupro que sofreu há pouco mais de dois anos, a jovem abaixa um pouco a cabeça e desvia os olhos marejados. Nos últimos cinco anos, de 2011 a 2016, o Piauí teve 207 casos de estupro coletivo registrados por hospitais, uma taxa de 1,43 por cem mil habitantes, a segunda mais alta do Nordeste, atrás apenas de Pernambuco (2,4).

A boca e o queixo da estudante tremem ao relembrar que no dia 27 de maio de 2015, ela e outras três amigas foram estupradas por um adulto e quatro adolescentes, apedrejadas e jogadas de um penhasco na cidade de Castelo do Piauí, a 190 km da capital.

Dos cinco suspeitos, três dos quatro adolescentes estão cumprindo medidas socioeducativas. O outro foi morto após confessar o crime e entregar os demais. Preso, o adulto aguarda julgamento.

De acordo com a Folha, esta é a primeira vez que Ana fala à imprensa sobre a violência que sofreu. Sob a condição de anonimato, ela conversou com a equipe de reportagem na sala da delegada Eugênia Villa, responsável pela criação do primeiro núcleo investigativo sobre feminicídio do país.

"O estupro de Castelo do Piauí e o assassinato da Dani foram paradigmáticos. Foi uma luta conseguir enquadrar o crime como feminicídio, queriam deixá-lo como homicídio por motivo fútil, para esconder o estupro. Não tenho dúvida que foi um crime cometido por ódio e desprezo pela condição de mulher”, conta a delegada. 

Recuperação 

Segundo a reportagem, as fotos anexadas ao inquérito policial, feitas logo após o estupro que Ana chama de "acidente", mostram uma jovem desfigurada: rosto inchado, grandes hematomas nos olhos, lesões pelo corpo e uma tala na cabeça parcialmente raspada. A jovem sofreu traumatismo craniano.

Ela recebeu atendimento psicológico, contracepção de emergência e tratamento de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, como HIV e hepatite B. Após a recuperação física, Ana voltou a Castelo para terminar o ensino médio. "Fui recebida com flores e festa na minha escola, foi a coisa mais linda, chorei muito."

A jovem segue em tratamento terapêutico com uma psicóloga. "Não estava conseguindo lidar com as coisas, principalmente com o medo que sinto das pessoas. Às vezes, um olhar diferente me faz tremer. Penso: 'Meu Deus, e se acontecer de novo?'"


Vítima de estupro coletivo em Castelo é enterrada em meio a comoção e protesto (Foto: Thiago Amaral/Arquivo/Cidade Verde)

Danielly 

Uma das vítimas, Danielly, 17, não sobreviveu à barbárie e morreu dez dias depois em razão dos ferimentos.  Sobre a morte da amiga, Ana contou à reportagem que só soube duas semanas depois, quando estava prestes a ter alta do hospital onde ficou internada 18 dias. 

"Não tinha acesso a nada. Tive lapsos de memória, só vinham flashes do 'acidente'. Uma hora parecia que eu entendia o que estava acontecendo, outra hora não."

No jantar de formatura, ela relata ter homenageado a amiga morta e agradecido aos colegas e professores pelo apoio e o silêncio em relação ao crime. "Ninguém nunca, nunca, tocou sobre o assunto comigo. Todos me ajudaram, foram solícitos", diz. 

A reportagem revelou ainda que, na casa de Danielly, o quarto permanece intacto desde o dia do crime. A família prefere manter silêncio.

Privacidade 

Em Teresina, para onde se mudou no ano passado para fazer o cursinho pré-vestibular, o cenário foi diferente. Os novos colegas não sabiam que ela era uma das vítimas do estupro coletivo.

"Quando souberam que eu era de Castelo, todos queriam saber se eu conhecia as meninas [vítimas do estupro coletivo], quem eram. Eu ficava sem reação. Tinha uma amiga muito próxima que sabia de tudo e sempre me tirava daquele momento."

Amigas

Ainda de acordo com a Folha, Ana mantém contato com as duas amigas que também foram violentadas, mas diz que houve um distanciamento entre elas. "A vida acabou afastando a gente. Quando estávamos juntas e falávamos sobre tudo o que tinha acontecido, as coisas ficavam muito mais difíceis”, revelou a estudante. Atualmente, a jovem namora o irmão de uma delas: "Ele é muito especial". 

A Folha relatou que tentou entrevistar as outras duas jovens, mas elas não quiseram se manifestar. Uma delas, hoje com 18 anos, mora com a madrinha, também em Teresina, e sofre de esquecimentos, além de tomar medicações para conter as crises convulsivas decorrentes do afundamento craniano que sofreu após ser jogada do penhasco. Também passou por cirurgia para reconstruir uma orelha.

Já a outra adolescente, de 17 anos, mora com a família em Castelo do Piauí e cursa o último ano do ensino médio.

 

Da Redação
Com informações da Folha de São Paulo

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